02 dezembro 2012

Imagine a cena:

O mocinho, no porto, vê o navio partir. A mocinha, no navio, vê o mocinho ficar distante. Ambos levantam suas mãos, um em direção ao outro, na vã expectativa de alcançar, através do ar, aquele que fica para trás.
Mesmo assim o navio segue, ficando cada vez menor aos olhos do mocinho; ao mesmo tempo, o porto vai ficando lá longe, e para a mocinha o mocinho não passa de um pequenino ponto no meio da imensidão.
Certamente você está agora mesmo retirando seu lenço do bolso para enxugar as lágrimas de emoção, correto? E isso que eu nem falei do pôr do sol e dos violinos tocando.
Esta cena clichê, que solicitei ao prezado leitor ou leitora deste blog imaginar, sou eu e a literatura – apesar de que, de mocinha e mocinho, nós duas não temos nada.
E ela – a literatura – não é a literatura como um todo.
É a minha literatura.
Estou muito um pouco tensa com o fato de estar enfrentando dificuldades realmente abissais para escrever. Atividade que sempre foi tão rotineira quanto escovar os dentes e dormir de barriga pra baixo, agora virou um problema.
E isso é grave.
Mas eu sabia que ia acontecer.
Quando disse cheeegaaaa! pra minha literatura, e fui atrás de arrumar um emprego, ter um salário e viver com dignidade, sabia que ela estava embarcando num navio que, em breve, zarparia.
No entanto, por favor, leitor, não veja este texto como um texto de lamentações!
Não quero fazer um drama, apesar da cena dramática do navio. Todavia, a verdade é que minha atividade, até dois anos atrás, era escrever – SÓ escrever. Eu não tinha um puto no bolso e fumava um cigarro chamado Kênia, mas me dedicava única e exclusivamente a escrever, e a reclamar que não tinha um puto no bolso e fumava Kênia.
Só que escrevia. E escrevia muito.
Agora não.
E não pensem que é por falta de esforço!
Devo ter aqui, salvo em meu computador, pelo menos uns 10 textos que comecei e simplesmente não consegui terminar. Travei no segundo parágrafo, na segunda linha, na segunda palavra.
Não os deletei; estão aqui ainda.
Mas sei que não serão acabados, pois não sei como acabar.
Este texto mesmo, que agora escrevo.
Se você está o lendo, é por que ele foi publicado em meu blog.
E se ele foi publicado em meu blog, é por que eu consegui chegar ao ponto final.
E isso terá sido sensacional, e por isso eu abrirei um champanhe hoje de noite.
Por que é bem estranho não fazer algo que sempre foi natural para você fazer, e justamente por isso você sempre fez.
Apesar de que – devo admitir! – achei que seria pior.
Na época em que escrevia e fumava Kênia e reclamava, imaginava que morreria, sei lá, sufocada e louca, se parasse de escrever. E nem é assim. Também não tem pôr do sol e violinos tocando. É tudo normal, só que existe um desconforto, uma sensação de abstinência, de vazio, de fome. Não sei explicar.
A vida continua, mas falta um pedaço.
O que devo fazer, então?
Ora, me organizar, é claro. Eu sei disso, e também estou tentando, com o mesmo sucesso com que concluo os textos que escrevi recentemente.
Mas, se eu me organizar;
Se, ao invés de ficar parada no porto igual um poste, abanando para um navio que eu nem enxergo mais;
Se, ao invés disso, eu pular na água e for atrás do navio;
Se eu alugar uma lancha e for atrás do navio;
Ou quem sabe se eu procurar saber para que raios de lugar vai aquela embarcação, e for atrás do bendito navio, existe alguma chance de dar certo.
Caso contrário, não.
Devemos ter cuidado para não deixar pelo caminho tudo aquilo que faz sentido pra gente. Penso que esta deve ser a receita certa e infalível para nos transformarmos em alguém rabugento, amargo e infeliz, e não queremos isso.
Eu, pelo menos, não quero.
Então, Literatura, me aguarde.
Eu estou indo atrás do navio.