22 maio 2012

Eu não sou apaixonada pelo Internacional.

A principal diferença entre amor e paixão está na maneira como nos relacionamos com quem amamos e com quem estamos apaixonados.
As novelas, a literatura e as pessoas, de um modo geral, tendem a simpatizar muito mais com a paixão do que com o amor, já que a paixão costuma ser mais intensa, mais escancarada, mais visceral e mais avassaladora. A paixão grita, arranca os cabelos e coloca fogo no sofá. Parece, assim, mais interessante. Porque enquanto a paixão explode, jorra, se arrebenta em si mesma, o amor é calmo, estável, suave e pacífico. Maçante, diriam alguns jovens.
No entanto, somente na teoria, nas novelas e na literatura a paixão é mais interessante que o amor. Porque a paixão cega, faz sofrer o apaixonado e, quase sempre, o alvo desta paixão também.
Isso acontece por que a paixão anda lado a lado, de mãos dadas, dando fungadinhas no pescoço do ódio. Em um minuto você ama com a fúria de um vulcão; no outro, odeia com a força de um terremoto. E tanto um vulcão quanto um terremoto causam estragos dolorosos e irreversíveis para todos os lados.
O amor, não. Ele é sereno. Não vem com arroubos de desejo, nem tampouco de raiva. Ele festeja as conquistas do seu amado, e o apoia e se solidariza em suas derrotas. O amor não exige um milhão de coisas para que haja amor. O amor não é possessivo nem passional, e sabe raciocinar – coisa que a paixão praticamente proíbe. O amor apenas existe, sem exigências, sem cobranças, sem querer que aquele que você ama se encaixe dentro dos teus sapatos apertados. O amor não é egoísta. Amamos quem tem defeitos, quem comete erros, quem não é como gostaríamos que fosse. Já a paixão é individualista e egocêntrica. Costuma pedir demais e terminar da mesma maneira que começou: repentinamente.
Por isso afirmo, sem medo de errar, que não sou apaixonada pelo Internacional.
Não sou, nunca fui, jamais serei.
Eu o amo, sim, e muito, como amo meus pais, minha gata e meus cachorros, mas não sou apaixonada por ele como fui pelo meu primeiro namorado – paixão esta que, hoje, me faz rir e morrer de vergonha, tamanha sua competência para ser patética. A paixão é patética, e quando termina, nos constrange fortemente do tudo que fizemos enquanto apaixonados estávamos.
A paixão envergonha depois; o amor, nunca.
E não digo que amo o Internacional somente por que se trata de um grande time; o clube brasileiro mais vencedor dos últimos dez anos e um dos 20 clubes que mais títulos conquistou em todo o mundo - já carregando a alcunha de Campeão de Tudo.
Não amo o Internacional só por que é um time estável, que passa segurança para o torcedor, seja dentro de campo, através do entrosamento de seus jogadores (a maioria, sublinhe-se, igualmente amante do time), seja fora, por meio de sua administração consciente e segura (que, sublinhe-se outra vez, não é adepta dos voluptuosos espetáculos que terminam em nada, nem de jogadores estrelinhas, que chegam em carrões com óculos escuros maiores que um pneu de trator e fones de ouvidos).
Não amo o Inter apenas por que seu time de base é forte e aguerrido, e nem por que dali já saiu jogadores do porte de Falcão e Batista, no passado, e de Pato, Nilmar e Giuliano, no presente.
Não digo tudo o que digo por causa de todas as incontáveis vantagens que se tem ao se torcer por um time do gabarito, da grandeza e do peso do Internacional.
Digo que amo o Inter nesta fase tão boa porque o amei, do mesmo jeito, em sua pior e mais crítica fase.
Sim, meus amigos. Se você, caro leitor, tiver menos de 10 anos de idade, é possível que não saiba, mas nos anos 90 o Internacional não ganhava nem pelada de várzea, nem par ou ímpar, nem rifa de colégio. Era doloroso torcer pelo Inter. Ele entrava em campo e a gente já ia se perguntando: vamos perder de quanto hoje?
Títulos? Uma vaga lembrança de um passado remoto, que eu não vi nem comi, só ouvi falar.
Eu nasci na metade dos anos oitenta, e era desde o final dos anos setenta que o Inter mais se arrastava do que qualquer outra coisa. Cresci vendo meu time enfileirar uma derrota atrás da outra, e cujo máximo título alcançado era um discreto campeonatinho gaúcho aqui ou acolá. Títulos internacionais? Faça-me rir. De internacional o Inter só tinha o nome.
Se o Inter fosse gente, teria sido uma pessoa que só me fez sofrer em minha infância e adolescência. Que somente esmagou, pisoteou, dançou uma lambada e cuspiu em cima do meu coraçãozinho aflito e vermelho. Se fosse uma pessoa, o Inter teria sido alguém que me trouxe muitos problemas e dores de cabeça, já que defendê-lo era tarefa inviável.
Mas eu defendia sim, e como defendia! Estava ainda no colegial, e quase todos os meus colegas torciam pelo vitorioso Grêmio - claro. E mesmo assim eu brigava, e fazia apostas que, invariavelmente, perdia, e lutava com unhas e dentes ao lado do meu time, mesmo sem ter como nem por que fazer isso.
Em nenhum momento pensei em mudar de time, em abandoná-lo à própria sorte, em esquecê-lo. Mas, assim como fazemos quando uma pessoa que amamos nos faz sofrer, recolhi meu amor à sua insignificância, e fiquei ali, de cantinho, sossegada e amando, lendo um livro e vendo meu amor fazer cagadas sobre cagadas. Somente sorria um sorriso complacente e balançava a cabeça, pensando: esse é o meu time. Que sina!
Porém, se alguém ousasse ofender o meu amor, eu acordava da minha letargia de torcedora sofrida e rodava a baiana:
- Peraí! Ninguém vai falar mal do Inter! Não na minha frente!
Da mesma maneira que ninguém vai falar mal do meu pai ou da minha mãe na minha frente, mesmo que tenha razão e motivos para tanto. O amor não permite isso. O amor defende sempre.
O tempo passou e eu, uma infante colorada sofredora, cresci e me tornei uma adulta colorada sofredora. Aprendi, desde cedo, a aceitar os defeitos do meu amor sem questioná-lo. Vestia minha camisa vermelha e branca e saía por aí, fingindo que não via os olhares quase piedosos que me lançavam uns e outros:
- Coitada, é colorada.
Sim, sou, e serei até o fim. No céu e no inferno, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na lama e no caos, não importa o que digam.
Enfim.
Como disse, o tempo passou e chegamos em um ano bastante emblemático: 2005.
Inter praticamente com a mão na taça do Campeonato Brasileiro, tudo certo, ninguém acreditando no que estava prestes a acontecer e eu pensando: agora vai!
Vai?
Não foi.
Mas, ao contrário de todos os outros anos, não foi por que o Inter era um time medíocre, formado basicamente por pernas de pau e dirigentes que não sabiam sequer se era dia ou se era noite. Não foi por que fomos roubados. Escandalosamente roubados, diga-se de passagem, por um time cujo nome prefiro não citar para evitar urticárias. E não, meu amigo irmão camarada. Não há nenhuma possibilidade de não termos sido roubados. Tanto que até mesmo o presidente do time ladrão, um sujeito muito decente, afirmou, na ocasião, em um telefonema para um empresário igualmente muito decente, gravado pela Polícia Federal:
.
“Como é que ganhou ano passado? Ganhou, mas olha, se não tivesse aquela anulação de onze jogos, nós estávamos fora. Porque O CAMPEÃO DE FATO E DE DIREITO SERIA O INTERNACIONAL. Porque os últimos 5 jogos, nós tínhamos 14 pontos na frente, e chegamos, entendeu, com um ponto só. ROUBADO.”
.
Se não acredita, coloque no YouTube campeonato + brasileiro + 2005 + Internacional + roubado e ouça com seus próprios ouvidos.
Fim do argumento.
Mas óquei, a gente se acostuma a apanhar. Pelo menos desta vez perdemos por um motivo externo ao fato de que não ganhávamos nada por que éramos um time febril, desorganizado e cheio de mancos.
Veio então 2006.
Que ano foi esse, gente?
Eu continuava lá no meu cantinho, sossegada, amando e lendo meu livro, resignada ao fato de que amava um time que era todo errado. E sempre foi assim, desde o dia em que abri o berreiro pela primeira vez na maternidade e meu pai colou na porta do quarto do hospital o distintivo do Inter.
Não reclamava porque, para mim, o Inter perder era o status quo da vida. E eu o amava do mesmo jeito, porque era o meu time e não havia o que ser feito.
2006.
Inexplicavelmente, Inter levanta a taça Libertadores da América pela primeira vez! Nem comemorei, porque levei umas 32 horas para acreditar:
- Ah mãe, será que é mesmo? Não é pegadinha?
Não, não era. Eu tinha 21 anos e o Inter era o melhor time da América toda. Vinte e um anos eu esperei, e quando nem esperava mais, ele vem e me surpreende; quando eu já estava indo dormir, ele bate na porta com um ramalhete de flores e champanhe nas mãos.
O amor tem destas coisas.
No final daquele ano o Inter disputaria o Mundial de Clubes FIFA contra o Barcelona, o melhor e maior e mais poderoso time do sistema solar.
Minha mãe dizia, antecipadamente conformada:
- Gente, a maior conquista é disputar o Mundial. Claro que não vamos ganhar do Barcelona, mas chegamos até aqui, veja só que vitória, etc, etc!
Acho que era o que pensava metade dos colorados.
Mas eu, assim como a outra metade, pensava diferente.
Refleti: se ganhamos a Libertadores, por que não podemos ganhar o Mundial? O Barcelona é grande, mas não é dois, e dentro de campo são 11 contra 11, etc, etc.
Todavia não assisti o jogo. Meu coraçãozinho sofrido, tão acostumado a ver o Inter perder, habituado a viver sem maiores percalços futebolísticos, não suportaria tamanha pressão.
Por sorte o jogo era domingo de manhã. Sábado de noite ingeri muitos pingos de Rivotril e fui dormir muito tarde, porque queria garantir que não acordaria de jeito nenhum para assistir aquele fatídico jogo. Eu acreditava, e por que acreditava, não podia assistir. Minha mãe não acreditava, e por que não acreditava, podia assistir. Entendem?
Acordei perto das dez horas da manhã de domingo assustada com os gritos. Gritos de quem?, pensei. Poderiam ser da vizinhança gremista, comemorando nossa tragédia grega pessoal. Foi quando identifiquei: os gritos eram dos meus pais. E mais: não eram de desespero. Eram gritos de felicidade.
Saí correndo do quarto com a cara toda amassada, os cabelos espigados e aquele bafo característico, e encontrei meus pais na sala, abraçados e pulando em círculos, igual duas crianças de quarta série.
Eles me olharam, eu olhei para eles. O mundo parou por dois ou três segundos e então eles gritaram:
- Ganhamos!!!
Como assim? Do Barcelona? Com gol de quem? Gabiru? Quem é esse? O que? Entrou no lugar do Fernandão? O que houve? Oi? Ficamos com nove em campo durante 5 minutos? Contra o todo-poderoso Barcelona? Para, é piada. Não? É sério isso?
E eu não vi mais nada.
 
Desde então o Inter veio vindo, como quem não quer nada, até se fixar como um dos maiores e mais vitoriosos times brasileiros da atualidade.
Não passou um aninho sequer sem levar para casa pelo menos um título. Cresceu e se tornou grandioso, fazendo valer seu nome, Internacional. De 2006 pra cá já levou outra taça Libertadores para casa, e, não fosse um fadado goleiro que saltita utilizando as nádegas (que diabo!), possivelmente teríamos levado nosso segundo Mundial de Clubes. Mas isso já é outra história.
O que eu quero dizer com todos estes caracteres é que, seja nos derrotistas anos 90, ou no vitorioso século 21, meu amor, sereno e tranquilo, pelo Internacional, continua intacto e imaculado.
E – bate na madeira três vezes – se por acaso um dia o Inter despencar do topo onde agora se encontra, meu amor ainda assim será o mesmo.
Porque meu amor não é exigente, nem briguento; não pode ser contestado.
Meu amor não destrói estádios nem quebra arquibancadas. Não coloca fogo em banheiros químicos, não ameaça a família do técnico, não espanca jogadores. Meu amor não picha muros ofendendo a direção, meu amor não apedreja ônibus.
Meu amor apenas ama, e aceita o que vem.
Meu amor não é paixão, nem fogo de palha, nem exige que, aquele a quem amo tanto, seja exatamente conforme eu quero que seja: eu amo meu amor do jeito que ele é, na primeira ou na quarta divisão, campeão de tudo ou campeão de nada.
Dá-lhe colorado!
E agora me deem licença, que o Gigante, mais uma vez, me espera para começar a festa.


Biografia da autora:
Jana Lauxen é escritora e colorada. Autora do livro Uma Carta por Benjamin e campeã de tudo.

* Texto publicado originalmente no livro Literatura Futebol Clube (Ed. Multifoco, 2012, R$32).