19 julho 2011

A Árvore do Infortúnio, O Futebol & A Vida

Já escrevi aqui uma vez, mas me repetirei apenas para ilustrar esta introdução: certa ocasião me perguntaram por que diabos eu gostava tanto de futebol.
- Afinal, Janaína, qual o sentido de ver 22 homens suados correndo atrás de uma bola durante 90 minutos?
E eu respondi que era porque, na minha cabeça, o futebol e a vida tinham muitas coisas em comum. E como eu gosto da vida, natural que eu goste também do futebol. E disse mais: que se o futebol não fazia sentido, o que dizer então da vida? Pelo menos no futebol há um objetivo, que é fazer gol, já a vida.
Pois é.
Ninguém sabe direito qual a razão de ser.
O fato é que, quanto mais o tempo passa, e mais coisas acontecem em nossas vidas, e mais reviravoltas dá o futebol, mais eu percebo o quanto fui sensata quando, certa vez, comparei um com o outro.
Explico-me: há menos de um mês, Renato Gaúcho, ídolo e então técnico gremista, foi demitido (ou se demitiu, pouco importa) porque, segundo deu a entender a direção, era sua culpa, sua máxima culpa, os maus resultados do Grêmio. Achei um absurdo, mas, enquanto colorada, fiquei muito satisfeita, já que considero Renato Gaúcho não somente um baita técnico, mas um verdadeiro santo milagreiro – já que ele fez coisas pelo Grêmio que Deus está tentando entender até agora. E, acreditem: vocês não sabem o quanto eu odeio dizer isso.
Enfim.
Pois ontem foi a vez do Internacional ver o seu ídolo, Falcão, se despedir do comando técnico do Clube. Foi demitido, junto com Roberto Siegmann, nosso vice de futebol, por causa dos últimos resultados do Inter que, depois de ganhar por três vezes consecutivas, perdeu pelas mesmas três vezes consecutivas.
O Grêmio estava mal por causa do Renato e o Inter estava mal por causa do Falcão. The End.
Tudo muito simples. Tudo simples até demais.
Porém, é importante frisar: quem faz uma instituição de futebol? Quem faz o Inter, quem faz o Grêmio? Com certeza não é única e exclusivamente seus técnicos, tendo em vista que compõe um clube de futebol jogadores, auxiliares técnicos, preparadores físicos, direção e mais uma galera. E, tendo tanta gente envolvida neste imbróglio futebolístico, parece razoável mandar uma única pessoa embora e crer piamente que todos os problemas acabaram?
Óbvio que não.
No futebol, tal e qual na vida, as pessoas cometem o erro mais elementar que qualquer ser que respire e ande sobre esta terra é capaz de cometer: aparar os ramos da árvore que produz o mal, ao invés de arrancá-la pela raiz e ainda cavoucar bem com a enxada, que é para garantir. Varrer os problemas para debaixo do tapete ao invés de entrar com rodo e balde e fazer uma faxina geral na casa.
Por isso os problemas (os nossos, os de nossos times e os de todo o universo) nunca terminam: eles são, somente, resolvidos provisoriamente. Até que os ramos novamente cresçam e floresçam, até que não haja mais lugar para tanta poeira embaixo do tapete. Então o mal volta a nos assombrar e lá vamos nós podar os ramos, varrer a poeira e demitir os técnicos, num ciclo eterno e inútil que só cansa nossa beleza e acaba com a jovialidade da nossa pele.
Afinal é, e sempre será, muito mais fácil e simplório arrancar alguns ramos desta árvore pérfida do que ter todo o trabalho de removê-la em sua raiz. É mais cômodo e menos trabalhoso esconder a sujeira do que limpá-la de verdade com água sanitária e Veja Limpeza Pesada.
Parece-me evidente que tanto Inter quanto Grêmio vivem uma crise. Mas uma crise interna. A atuação dos jogadores em campo apenas reflete uma situação que se desenrola nos bastidores do futebol – aquele lugar onde nós, as crianças, não podemos brincar.
O time está ruim? Está. Então, ao invés de trocar o técnico, quem sabe se troca a direção, que geralmente é a mãe e a mantenedora de todos os problemas. Quem sabe se contrata jogadores, já que não existe técnico neste mundo capaz de tornar vencedor um time de pernas de paus e jogadores desmotivados. Quem sabe se inicia todo um novo processo de regeneração do Clube, que passa desde as finanças até sua organização estrutural enquanto instituição. Quem sabe elimina-se a politicagem e a corrupção, que sem dúvidas não assola somente nosso congresso; assola também o nosso futebol (beijo Ricardo Teixeira!).
Citei aqui Inter e Grêmio, mas qual time brasileiro não tem a mania de, ao menor problema, bastando engrenar duas ou três derrotas, ao invés de fazer uma auto-avaliação e encontrar a raiz do problema (ou da árvore), não acha mais fácil simplesmente trocar o técnico e pronto, fim, oba, tudo certo? Veja o caso do São Paulo: na estréia do Campeonato Brasileiro, se tornou o primeiro clube a vencer cinco partidas seguidas na história dos pontos corridos. Todo mundo feliz e alegre abrindo um champagne. Paulo César Carpegiani era o técnico mais sábio e extraordinário do sistema solar. Perdeu, em seguida, dois ou três jogos e Carpegiani foi rebaixado de super-técnico a culpado-maior por todos os problemas da vida do São Paulo. Terminou mandado embora abaixo de vaias e ovos podres. OI?
No Brasil é mais fácil o Sarney ir para a cadeia do que um técnico de futebol permanecer no mesmo clube por mais de um ano. Se ficar dois, é recorde digno de Guinness Book. Já na Europa, onde, além dos países, o futebol também é de primeiro mundo, técnicos chegam a passar mais de duas décadas atuando no mesmo time. Eu disse duas décadas! E estou falando de times do porte do Manchester United. Digam-me, caros leitores: vai dizer que, em 25 anos, o Manchester United nunca, nunquinha, nem uma única vez passou por crises, dificuldades, nunca perdeu um jogo ou um título? Evidente que sim. Mas lá, ao invés de todo mundo ficar histérico, dar gritinhos, bater o pé no chão e partir para a politicagem vulgar e barata de ‘dar uma satisfação aos torcedores’, eles param, pensam, identificam o erro (que, na maioria das vezes, não está no treinador) e resolvem. Cortam a raiz do mal. Batem o tapete na calçada e passam cera no chão. E aí sim os torcedores ficam felizes e satisfeitos: porque sabem que seu time está sendo comandado visando o bem geral, com soluções não somente a curto prazo, mas a médio e longo prazo também. Talvez por isso, Manchester United tenha doze títulos da Premier League, e seja, desde 1889, o maior campeão do Campeonato Inglês.
Falcão sequer teve tempo hábil para organizar o time – afinal, o que se faz em termos de organização em 99 dias? Eu não consigo organizar meu guarda-roupa em 99 dias! Mas nosso excelentíssimo presidente Giovani achou por bem mandá-lo embora, fazer um barulho danado e dar a impressão de que está trabalhando arduamente. E agora deve estar todo contente em sua sala, com aquela sua cara de quem comeu e não gostou, sentindo-se muito orgulhoso da sua decisão e afirmando para si mesmo que 'os torcedores não sabem nada do seu clube, agem somente pela emoção'. Lá está ele acreditando que acabou com todo o mal enquanto a árvore do infortúnio já se prepara para fazer nascerem novos ramos.
Pergunto-me se alguém o avisou que o Internacional, em poucos dias, estará na Alemanha, disputando a Copa Audi ao lado de ninguém mais ninguém menos que Barcelona, Milan e Bayern de Munique. E vai de que jeito, Senhor Doutor Presidente? Inseguro, atrapalhado, pisando em ovos. OREMOS, em Caps Lock.
Demitir Falcão e Renato Gaúcho foi, sim, uma estupidez imensa. Uma precipitação. Um descalabro. O Ó. Porque se Falcão e Renato deixaram o comando de seus times, a direção continua lá, os jogadores ruins e desmotivados continuam lá, a corrupção e as dívidas continuam lá, até o Ricardo Teixeira continua lá. Resumindo: a raiz do mal continua lá. E irá continuar se refletindo nos frutos desta árvore, que continuarão a germinar sem sabor, azedos, feios e estragados. Resultado este que aparecerá dentro dos campos e que acabará em uma dor de barriga abissal em nossos corações (e estômagos) de torcedores apaixonados.
Porque somos nós, os torcedores apaixonados, que teremos de comer desta fruta perniciosa, que teremos de engoli-la e digeri-la, custe o que custar.
Mas é como disse Falcão: “O Inter é maior do que qualquer pessoa. E certamente, no momento certo, terão pessoas com a grandeza do Internacional para dirigi-lo”.
E nós, torcedores, continuaremos bem aqui, comprando camisetas e DVDs, pagando nossa mensalidade de sócio em dia e acendendo velas para Santo Expedito, aquele das causas impossíveis, apenas aguardando o dia em que isso irá, finalmente, acontecer.


Obrigada, e até a próxima, Falcão.
E que a próxima esteja mais próxima do que possamos imaginar em nossos sonhos mais queridos.