29 março 2011

A solução do Bullying – EU TENHO!

Em 1996 eu estava na sexta série e tinha um colega chamado Paulo que era o terror. Ele literalmente transformava num inferno a vida de metade da turma, e é claro que eu estava nesta metade da turma que ele amava infernizar. O Paulo detectava e abertamente debochava de todos os nossos defeitos – até mesmo aqueles que a gente nem sabia que tinha. E eu, que era enormemente alta, terrivelmente desengonçada, gordinha e com um corte de cabelo semelhante ao de Rick Martin na época dos Menudos, era um alvo mais do que fácil.
Paulo tinha seus asseclas, é verdade. Meninos que, provavelmente para escapar de suas humilhações, uniam-se a ele e, junto dele, ajudavam a tornar a vida escolar de todos ainda mais difícil. O mais estranho e sinistro era que muitas das vítimas de Paulo, numa atitude claramente defensiva, transformavam outros colegas em suas vítimas também, como numa roda-viva malévola e aterrorizante. Nesta época ninguém falava em bullying. Tudo não passava de ‘brincadeiras de criança’, mesmo que as tais brincadeiras ferissem, machucassem e magoassem profundamente.
A primeira vez que ouvi o tal termo, pensei: gente! era o que me acontecia, era o que acontecia a boa parte de nós. E, dentre outros, muitos outros, me lembrei do Paulo. Por isso, quando apareceu o vídeo do menino Casey que, cansado das agressões diárias sofridas no colégio e possivelmente fora dele também, resolve reagir, foi inevitável dar um sorrisinho brejeiro. Não sabe do que eu estou falando? Então, meu amigo, tire alguns segundos do seu dia e dê o play neste vídeo aqui para entender. E se você foi vítima de bullyng, assista ao vídeo até sua internet cair, que o prazer é inenarrável e chega a beirar o êxtase.
Assistiram?
Pois acreditem: eu sou contra a violência. Porém, sou igualmente contra agüentar todo tipo de desaforo sorrindo e sem gemer. E da mesma maneira de Casey se tornou meu herói para sempre – o cara que, finalmente, reagiu às investidas do seu agressor – ele também se tornou o herói de todo mundo que um dia sofreu as humilhações gratuitas e violentas de algum coleguinha babaca.
No entanto, disso já sabemos. O que queremos mesmo saber é o que fazer para terminar definitivamente com o bullying. Pois bem, caros leitores e leitoras: eu sei esta resposta. Sim, eu sei. Como a vítima de bullying que fui – e como algoz também, pois infelizmente, lá pelas tantas, aderi a sinistra roda-viva de que acima falei e passei a atacar aqueles a quem eu considerava mais fracos do que eu – voz digo com toda a certeza do universo: EU TENHO A SOLUÇÃO.
E a solução está na própria escola.
É claro que educação vem de casa, e que se os pais fossem mais participativos e responsáveis teríamos crianças menos desequilibradas e violentas, mas esta não é uma alternativa viável, pois não há como fiscalizar todos os lares que possuam crianças e adolescentes para ver se estes estão recebendo a devida atenção e boa educação que merecem.
O problema do bullying é que, em praticamente cem por cento dos casos, a escola é a primeira a se omitir, a fingir que nada houve, a varrer a sujeira para debaixo do tapete e sair chupando um picolé.
E eu pergunto: cadê a direção da escola que não viu Casey ser socado e maltratado em pleno corredor, em pleno horário de aula? Onde estavam os professores, diretores, administradores e toda essa gente que fez faculdade de pedagogia e mestrado e doutorado e toda essa porra do caralho? Tomando cafezinho na sala dos professores?
Resposta: possivelmente sim.
Na minha época e na época do Paulo era assim. Ele fazia o que queria e ninguém via, ninguém ouvia, ninguém sabia. A direção só ia se meter se começasse um quebra-pau, mas no caso do bullying, sabemos: dificilmente se inicia um quebra-pau. O bullying acontece silenciosamente, à surdina, justamente porque o agressor não quer ser descoberto, e o agredido tem medo de denunciar e sofrer ainda mais maus tratos.
Tem também um detalhe, que não deve ser regra, mas era o que acontecia na Escola São José Notre Dame, de Não-Me-Toque, onde eu estudava nesta época que tento esquecer: Paulo tinha dinheiro. Seu pai era um empresário bem sucedido que trocava de carro todo ano e pagava as altas mensalidades daquele apavorante colégio de freiras malucas em dia. Ora, como poderemos punir o filho do senhor doutor excelentíssimo Fulano de Tal? E assim Paulo foi acobertado durante toda a sua maldita infância e adolescência, e nós, que não éramos filhos de nenhum senhor doutor excelentíssimo, e que talvez nem pagássemos nossas mensalidades em dia (eu não pagava), que agüentássemos o cretino e suas ‘brincadeiras de criança’.
CANSEI de ver a direção fazer vista grossa para o Paulo. CANSEI de ver a vítima levar castigo enquanto ele saía assobiando e rindo – sim, RINDO! E, vejam bem: Paulo era o algoz da minha turma, mas havia os outros algozes, das outras turmas e, no fim das contas, todo mundo acabava machucado, menos os autores de tanta violência e bestialidade. E a direção? Tomando cafezinho na sala dos professores.
O que eu quero dizer é que enquanto as escolas não punirem severamente os promotores do bullying nos aposentos de suas instituições NADA VAI MUDAR. É preciso colocá-los de castigo, repreendê-los publicamente, dar-lhes punição, suspensão, expulsão. E que se dane se um ou outro é filho daquele ou daquela. O cara é um aprendiz de bandido, minha gente, e fim de papo! Afinal, se com 13 anos o animal está chutando um coleguinha caído no chão com a anuência da direção da escola (eu vi isso acontecer, juro!), o que fará quando tiver 20, 30, 40 anos? Cortará a garganta da namorada e atirará seu corpo num córrego? Abafa.
Vejam novamente o vídeo de Casey: vítima e carrasco, aparentemente, estão na hora do recreio ou algo que o valha, nos corredores do colégio, com vários alunos em volta. O pobre Casey tomou vários socos e cadê a direção? CADÊ A MALDITA DIREÇÃO?
Por isso, apesar de ser contra a violência sempre, deixo aqui uma salva de palmas ao Casey. Porque eu o entendo. Não havia ninguém ali para defendê-lo. Todos estavam fazendo de conta que o seu martírio não existia, e ele precisava se proteger. E por isso – só por isso - praticamente quebrou no meio seu agressor com um golpe que deixaria Steven Segall inspirado.
Eu confesso que me vi ali, fazendo o mesmo com o Paulo e com tantos outros que conheci, e isso fez com que eu me sentisse muito bem, obrigada. Porque não há nada pior do que a injustiça, do que a covardia – e do que o consentimento de quem não poderia, jamais, se omitir numa situação como esta. E já que quem está sendo pago para manter a ordem dentro da escola não faz nada – direção, professores, enfim – então que façamos nós mesmos, do jeito que der.
Se as escolas simplesmente se recusam a tomar qualquer iniciativa, então que não reclamem quando as vítimas de bullying resolverem fazer justiça com as próprias mãos.
E neste caso, a violência só tenderá a aumentar, até que perderemos o controle que sequer sabemos se ainda temos.
De qualquer maneira, te amo Casey.

24 março 2011

NO AR: Bendita Make.

Oi gente.
Passando para avisar as garotas e os garotos, as vovós e os vovôs, os cachorros e os papagaios que tem blogue novo da Jana na avenida.
Não, não estou aposentando este daqui, até porque SOFRO DE APEGO e provavelmente estarei neste mesmo bat-link postando bat-textos com bat-opiniões que ninguém pediu e respondendo o que ninguém perguntou até meu derradeiro suspiro – o que eu espero que leve, ainda, uns oitenta aninhos.
Mas enfim.
Este blogue novo se chama Bendita Make e, como o próprio nome sugere, vai tratar de maquiagem e Cia. Ltda. Não somente disso, é verdade, mas principalmente.
É que, como contei para vocês não faz muito, estou fazendo um curso de Maquiagem Profissional no Instituto Embelleze de Passo Fundo, e ó: TÔ AMANDO PRA SEMPRE.
As aulas são sensacionais, a profe é uma querida e minhas colegas são todas loucas. Ou seja: tô super em casa. Tão em casa que até me permitiram dar minhas baforadinhas num cigarro amigo no jardim de inverno da instituição – apesar da fadada plaquinha de PROIBIDO FUMAR AQUI.

O fato é que estou aprendendo muito, lendo muito, maquiando muito e acreditando plenamente num futuro mais belo e feliz, e o Bendita Make vem com a finalidade de reunir links, dicas, entrevistas, matérias e tudo o que eu li, vi e gostei, como também tudo o que eu ainda lerei, verei e gostarei.
ÓBVIO ULULANTE que não é um blogue voltado para profissionais da maquiagem – quem sou eu para ensinar os padres a rezarem a missa. Mas justamente para quem está, assim como eu, engatinhando neste mundo encantador da maquiagem, e poderá encontrar por lá algumas coisinhas que descobri.
Até porque eu, por exemplo, me maquio desde que existo e realmente acreditava que sabia TUDO de make. Inclusive admito, não sem vergonha na cara, que entrei para o curso crente de que teria muito pouco a aprender e GENTE: tô bege com a minha ignorância. Milhares de certezas que eu tinha já caíram por terra (ex.: Leite de Colônia), e não há uma aula sequer em que eu não saia pensando sobre como eu não sabia nada de nada a respeito de maquiagem.
De qualquer maneira vamos nos divertir muito por lá, EU SINTO.
Cliquem aqui para conferir o blogue e depois digam-me o que acharam, beleza?
AH! Também criei um twitter do blogue novo. A quem puder interessar, é só dar um FOLLOW bem aqui e correr para o abraço.
Então vou indo, deixando uma beijoca na ponta de seus narizes.

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Nota do dia 17 de agosto de 2011: Bendita Make cresceu, amadureceu, saiu do twitter, se formou, começou a trabalhar e se transformou oficialmente no site www.janamakeup.org. Me dedico, beijo.

23 março 2011

Jana Make Up

Jana Make Up é meu outro blogue, cujo único e benfazejo objetivo é esquecer todas as questões existenciais, sociais, espirituais e antropológicas da humanidade e focar no que realmente interessa: maquiagem, claro.

09 março 2011

Pelo FIM da Feira de Pequenos Animais em Passo Fundo!

Gente. Pára tudo agora que o assunto é sério, é muito sério, é seriíssimo.
Seguinte: em Passo Fundo (RS) acontece, há mais de 20 anos, a Feira Nacional de Pequenos Animais (ou Mostra Nacional de Pequenos Animais). Este ‘evento’ já se tornou tradicional na cidade e na região. Eu mesma me lembro de ir visitar a Mostra com meus coleguinhas de escola quando estava, sei lá, na quarta série. Trata-se de um pavilhão enorme, onde animais de todos os tipos, raças, cores e tamanhos ficam expostos durante dias, para que os visitantes possam escolher qual deles irão querer comprar.
Até aí, nenhuma novidade, tendo em vista que existem zilhões de feiras de pequenos animais espalhadas Brasil afora.
O problema desta feira a qual me refiro aqui são as condições nas quais estes animais ficam expostos: o pavilhão onde eles se encontram é abafado devido ao telhado de zinco e praticamente sem nenhuma iluminação. Os bichinhos ficam presos em gaiolas minúsculas e de higiene duvidosa, vivendo todo o estresse físico e psicológico que a imensa movimentação da feira causa, chegando alguns ao ponto de adoecer e morrer lá mesmo. Sem contar os filhotes que são comercializados e, na maioria das vezes, sequer desmamaram, logo, não puderam tomar nem mesmo as primeiras vacinas, ficando expostos a toda sorte de moléstias como cinomose, parvovirose e rinotraqueite, além da disseminação de diversas outras doenças infecto-contagiosas. Os criadores de fundo de quintal – como são conhecidos os ‘criadores’ que reproduzem seus animais indiscriminadamente, com o único intuito de lucrar, fazendo, por exemplo, a fêmea-mãe dar cria duas, até três vezes por ano, debilitando seriamente sua saúde e muitas vezes a sacrificando – fazem a festa, é claro.
Para se ter uma idéia, semana passada eu estava no curso de maquiagem que faço em Passo Fundo uma vez por semana e, conversando com algumas colegas, uma delas me relatou que três amigas suas tinham adquirido animais na última feira, e os três (OS TRÊS!) morreram poucos dias depois.
Resumindo, meu povo: o que acontece nesta Feira Nacional de Pequenos Animais – e com o aval das autoridades, que se sublinhe este fato – É CRIME.
E quando digo CRIME, quero dizer CRIME MESMO, previsto em lei e etc.
Tal ‘evento’ desrespeita leis como, por exemplo:

• a Estadual de nº. 12.131/04: o seu art. 2º, II, menciona a vedação de manutenção de animais em local que lhes impeçam a movimentação ou os privem de ar e luminosidade;

• a Estadual nº. 13.252/00, que dispõe sobre a obrigatoriedade de implantação de um microchip de identificação eletrônica em todos os cães comercializados no Estado do RS;

• a lei nº.9.605/98, no seu art.32, pois praticam abusos em busca de lucro fácil. Desmamam precocemente filhotes que, por não possuírem as vacinas e entrarem em contato com tantos outros animais, acabam vítimas de doenças como a cinomose, parvovirose e rinotraqueite. Usam de má-fé e dolo ao vender esses animais como se vacinados fossem. Ora, é de conhecimento do homem comum que a primeira vacina só pode ser dada após os 40 dias de vida, e os animais ali vendidos não possuem, muitas vezes, sequer um mês.

Porém – e graças a Deus – existem pessoas e entidades comprometidas com a causa animal, e que estão cansadas, deveras cansadas, de tanto ABUSO.
A Associação Amigo Bicho é uma delas, e não há feira de pequenos animais em que eles não estejam lá, panfletando, tentando colocar dentro da cabeça das pessoas que elas não podem, não devem e não precisam participar de uma feira de pequenos animais descomprometida com o bem estar dos pequenos animais.
Infelizmente, ações como a panfletagem organizada pelos voluntários da AAB é ínfima perto do poder econômico de seus organizadores.
Por isso, a Amigo Bicho está promovendo entre os internautas uma campanha para meter uma pressão no promotor de justiça de Passo Fundo, Paulo Cirne, bem como no Ministério Público Estadual, pedindo que acabem, e já, com este entrevero sem noção que, duas vezes por ano, é promovido CONTRA os pobres animaizinhos.
Até mesmo a WSPA (Sociedade Mundial de Proteção aos Animais) entrou na briga, e já contatou tanto o promotor de Passo Fundo quanto o Ministério Público Estadual, pedindo o fim imediato da Amostra. Ou seja: a briga está começando a se tornar honesta; está começando a ficar de igual para igual.
E você pode nos ajudar, caro amigo leitor-internauta-cidadão-consciente.
E é bem fácil.
Basta que você copie o texto que se encontra logo abaixo e envie para os seguintes e-mails:

pscirne@mp.rs.gov.br - Paulo Cirne, promotor de justiça de Passo Fundo
e
mppassofundo@mp.rs.gov.br - Ministério Público Estadual

Você não vai perder cinco minutos do seu dia, e, além de fazer a sua parte nesta luta que é de todos nós, ainda vai estar super-colaborando com esta campanha que busca tão somente a justiça, a manutenção do que está previsto em nossa legislação.
E que fique muito claro: nada contra feira de animais. Desde que elas aconteçam DENTRO DA LEI.
Consciente de que posso contar com vocês, que além de meus leitores queridos são também pessoas do bem, conscientes de sua função enquanto cidadãos, enquanto parte de uma sociedade, vou desde já agradecendo, em meu nome, em nome da Associação Amigo Bicho de Passo Fundo e, principalmente, em nome de todos os animaizinhos que deixarão de passar por tantos maus tratos – e, repito: com o aval das autoridades.
Eis o texto (substitua no final do texto a parte em vermelho por seu nome e cidade):

Exmo. Sr. Paulo Cirne, Promotor de Justiça.

Nos termos do art. 225, VII da Constituição Federal e em caráter de urgência, solicito providências do MP para determinar o cancelamento da Feira de Pequenos Animais prevista para o mês de abril.
O grupo responsável pela barbárie pretende a manutenção da mesma pelo prazo de um mês, o que é uma afronta a nossa sociedade que repudia maus-tratos e se vê impotente em face do poderio econômico dos organizadores.

O “evento” incorre na infração de leis como:

• a Estadual de nº. 12.131/04: o seu art. 2º, II, menciona a vedação de manutenção de animais em local que lhes impeçam a movimentação ou os privem de ar e luminosidade;

• a Estadual nº. 13.252/00, que dispõe sobre a obrigatoriedade de implantação de um microchip de identificação eletrônica em todos os cães comercializados no Estado do RS;

• a Lei nº.9.605/98, no seu art.32, pois praticam abusos em busca de lucro fácil. Desmamam precocemente filhotes que, por não possuírem as vacinas e entrarem em contato com tantos outros animais, acabam vítimas de doenças como a cinomose, parvovirose e rinotraqueite. Usam de má-fé e dolo ao vender esses animais como se vacinados fossem. Ora, é de conhecimento do homem comum que a primeira vacina só pode ser dada após os 40 dias de vida, e os animais ali vendidos não possuem, muitas vezes, sequer um mês.

É uma barbárie que em nada contribui para nossa cidade. Os feirantes vêm ao nosso município, trazem animais doentes e maltratados e levam consigo as divisas do Município, deixando para trás focos de sofrimento.

A cada feira temos mais problemas. Animais comprados por impulso, que são abandonados à sua própria sorte. Doenças que são trazidas para cá com vírus cada vez mais fortes e de difícil tratamento. Fêmeas que reproduzem indiscriminadamente e têm seus filhotes abandonados por proprietários descomprometidos com a ética e o bem-estar animal. E, principalmente, a forma como são expostos os animais: um galpão escuro e com telhado de zinco (quente, abafado), onde os animais são encarcerados em gaiolas minúsculas por dias, estressados pelo movimento e a convivência com outros animais, sem direito ao descanso previsto em lei.
Rogo ao MP que ponha fim ao foco de tanta crueldade.

Atenciosamente.
(seu nome – sua cidade)


Ah! Aqui você pode ler a carta que a WSPA enviou às autoridades (in)competentes, e também saber maiores detalhes sobre o desenrolar desta história.
No próximo dia 15 de março, às 14hs está marcada uma audiência com o promotor Paulo da Silva Cirne e Diretoria da Associação Amigo Bicho, para tratar do assunto "Mostra Nacional de Pequenos Animais".
Vamos torcer.
Eu mantenho vocês informados, beijo.
"A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo como seus animais são tratados."
(Mahatma Gandhi)

08 março 2011

Profissão: Juiz Implacável.

Ninguém gosta de ser julgado.
E sempre que o somos, ficamos com aquela sensação revoltosa que nos faz pensar:
- Mas quem é você para dizer isso ou aquilo sobre mim?
- O que você sabe da minha vida?
- Te conheço?
E estamos com a razão.
Poucas coisas são piores do que sermos avaliados (duramente avaliados, diga-se de passagem) por pessoas sem conhecimento de causa que, invariavelmente e sem remissão, acabam nos condenando - na maioria das vezes, injustamente.
É lamentável, mas ainda não inventaram um jeito de impedir que os outros achem coisas sobre nós que não correspondem a verdade.
No entanto, cento e um por cento das pessoas que costumam reclamar que são julgadas implacavelmente, são as primeiras a vestir a toga e a peruca branca com cachinhos e sair Brasil afora batendo o martelinho e apontando o dedo para os alheios.
Estou falando sobre isso porque eu sou exatamente assim.
Escrevi em um post não muito remoto que 2011 seria um ano para rever velhos conceitos, consertar velhos defeitos, e tentar deixar a velha e sonsa Janaína (com seus ranços e dissabores) definitivamente para trás.
Por isso, cá estou.
E admito, não sem dor no coração: eu sou, sim, uma juíza besta e insensível, que acredita piamente que conhece tudo sobre todos e todas as coisas e, por isso, posso dar meus veredictos nada misericordiosos indiscriminadamente.
Semana passada aconteceu um episódio que me fez ver que, ao contrário do que gostaria de acreditar e até mesmo aparentar, eu não era nem nunca cheguei perto de ser a flor de candura que supunha.
O bom senso me impede de relatar aqui, minuciosamente, o que de fato aconteceu e me fez ter este duro e doloroso choque com a realidade, nem quais pessoas estiveram envolvidas neste imbróglio.
Contudo, posso dizer que havia uma moça a qual eu detestava. Sim, detestava, e nada do que viesse dela era considerado por mim aprazível nem, ao menos, suportável. Ela chegava e eu já estava toda armada, e bastava ela dar um pio que eu já revirava os olhos e pensava: qualquer dia eu mato essa desgraça de mulher.
Esta moça, de fato, é meio xarope. Fala besteiras o tempo inteiro, e ri das próprias besteiras que, a rigor, não têm graça nenhuma. Mas é só. Fora isso, a pobre nunca fez absolutamente nada contra mim. Na verdade, nunca fez nada contra ninguém. Eu é que impliquei, e para ela não dava tréguas.
Acontece que esta moça é da minha família, de modo que eu não tinha como não conviver com ela. E justamente por ser parente, eu me munia de hipocrisia e civilidade para que, pelo menos, pudesse estar ao lado dela sem ter ímpetos de pular em seu pescoço e mastigar sua jugular enquanto a chamava de nomes pérfidos. E pelo jeito sou boa em fingir que gosto de quem não gosto porque ela, aparentemente, nunca percebeu minha ojeriza, e sempre me mandava beijos, me abraçava e me tratava com todo carinho e consideração. E eu ali, remoendo minha fúria assassina pelo que eu considerava sua enorme estupidez.
Foi que foi que esta moça ficou doente.
Não uma doença física, que pode ser tratada com comprimidos tarja preta, mas uma doença emocional. Esta doença emocional a fragilizou de tal forma que eu fui obrigada pela minha humanidade (sim, eu a tenho) a me compadecer dela. Não importa o quanto detestamos alguém; quando vemos este alguém sofrendo, fodido e esculhambado – e se não formos sociopatas malucos – iremos nos sensibilizar.
Bem.
Esta moça adoeceu, e eu fiquei com muita pena dela. E, comovida pela minha própria compaixão alheia, me aproximei dela de um jeito improvável. E sem querer, esta moça deixou transparecer para mim todos os seus problemas e dificuldades, que datam inclusive de sua infância. Problemas estes que eu nunca enfrentei. Dificuldades estas que sequer conheço. Nada é o que parece. Acreditem nisso.
E foi ali, naquele momento, percebendo tudo o que ela havia vivido de ruim, e eu não, que compreendi o quão idiota e intransigente eu estava sendo.
Havia criado mil teorias escrotas sobre ela. Julguei-a implacavelmente, sem querer saber como ou porque ela havia chegado até ali. De súbito, até seu jeito meio descompensado de ser, com suas piadas sem graça e sua risada fina que tanto me aborreciam, pareceu apenas uma maneira de se defender de uma vida que não havia pegado leve com ela.
Esta percepção, que se descortinou bem na minha frente, me fez deitar na cama e, naquela noite, no silêncio sepulcral da madrugada, chorar.
Por ela, mas, principalmente, por mim. Por vergonha de ter falado e pensado tudo que dela falei e pensei. Por ter agido exatamente da mesma maneira que eu tanto repudiava, quando quem agia eram os outros. Logo eu, que sempre me achei tão tolerante e sensacional, tão libertária, liberal e compreensiva, de uma hora para outra me vi como uma déspota sem noção que odiava tudo e todos que não coubessem em meus apertados padrões Janaína Lauxen de qualidade. Justo eu, que sempre abominei gente que julga sem de nada saber, estava ali, o indicador apontado para o outro, discorrendo minha opinião vazia de quem não conhece deste outro senão a superficialidade.
Isto me fez pensar em todas as vezes que, assim como fiz com esta moça, julguei e condenei os outros sem dó. Em quantas vezes fui injusta e babaca - e porque não dizer, maldosa até.
A verdade, meus amigos, é que se não estamos dentro das calças do outro, não podemos falar sobre ele. Podemos, sim, ter uma opinião, mas de maneira alguma temos o direito de transformar nossa simplória opinião em verdade absoluta, e sentenciar que fulano ou beltrano é isso ou aquilo. Porque fulano e beltrano são muito mais do que isso ou aquilo; muito mais do que nossa vã percepção pode apreender. Fulano e beltrano são, como somos todos, um universo imenso, cheio de becos, vielas, ruazinhas sem fim, buracos e ruas íngremes. E somente cada um sabe sobre si tudo o que carrega em seu coração. Mais ninguém.
Eu tenho tatuado em meu braço um trecho de uma música do saudoso Raul Seixas que diz exatamente isso: cada um de nós é um universo. E apesar de tê-la eternizado em meu braço, parece mais difícil do que podemos imaginar entender esta pequena frase em sua magnitude.
Então eu sugiro que pensemos melhor antes de reclamarmos que estamos sendo julgados, que estão apontando o dedo para nós, que estão falando da gente sem saber da missa a metade.
Recomendo que reflitamos com clareza e lucidez se, nós mesmos, não estamos dando uma de juízes, de sócios-proprietários da verdade, e condenando a todos com rigor e severidade, como se fossemos perfeitos, como se estivéssemos em condições morais de apontar o dedo para alguém.
Deveríamos – e esta é a verdade – ter pelo próximo a mesma clemência que temos para com a gente mesmo.
Porque se você se sente julgado pelos outros, não esqueça de que, para os outros, o outro pode ser você.