23 agosto 2011

O meu vô Rudy.

Na sexta-feira, dia 19 de agosto de 2011, um cartaz apareceu colado nas ruas de Carazinho: era uma nota de falecimento. A nota de falecimento do meu avô. Estava escrito ali, Luiz Rudy Becker. Fiquei olhando para aquele pequeno anúncio, quase imperceptível no meio da correria frenética da cidade, e pensando, incrédula: que absurdo. O vô Rudy não pode ter morrido. Isso não faz sentido nenhum. Mas a nota de falecimento dizia, repetia, gritava: Luiz Rudy Becker.
Meu avô foi e sempre será um grande cara. Trabalhou como prefeito, vereador, professor, foi condecorado pelo exército e muitas outras referências importantes, e as pessoas que o conheceram costumam se referir a ele como um homem, acima de tudo, trabalhador e honesto.
Porém o que todas essas pessoas não sabem é que, além de vereador, prefeito, professor, trabalhador e honesto, Luiz Rudy Becker foi meu avô. E digo mais: um grande avô.
Um tipo que levou ao pé da letra a história de que os pais educam e os avós deseducam. Um homem que mimou a mim e aos meus três primos a um nível que ultrapassou infinitamente o tolerável. Eu lembro bem. Ele nos levava para comprar brinquedos e, depois, quando minha mãe e minha tia olhavam torto para ele (“não deveria dar presentes assim, fora de hora e sem motivo algum!”), ele fazia uma cara de vítima e dizia: eles me obrigaram, sou inocente. E ria.
Além de prefeito e vereador, era Luiz Rudy Becker quem fazia uma pizza de salame abarrotada de cebola, que eu adorava e na qual me jogava sem medo de ser feliz. E comprava pacotes e mais pacotes de salgadinho, os deixando em cima do armário, a nossa disposição. No verão, sempre havia sorvete na geladeira, e ele comprava também as casquinhas porque, segundo ele, na casquinha o sorvete tinha mais sabor. Ir passar um final de semana na casa do vô era ir para o céu. Ninguém precisava de Disneylândia; éramos netos de Luiz Rudy Becker.
E na páscoa, então? Era certeiro! Todo ano ele escondia as cestas de chocolates no mesmo e indefectível lugar: atrás da mesa, na sala de jantar. Eu e meu primo nem procurávamos. Íamos direto e lá estavam elas. “Mas pai, porque você não esconde em outro lugar?”, indagava minha mãe, minha tia, minha vó. “Mas pra que fazê-los sofrer, procurando a cesta?”. Era o que ele respondia. Luiz Rudy Becker era um homem que sabia das coisas.
Um homem que, todos os dias, vinha me visitar logo depois do almoço, trazendo em suas mãos um monte de chocolates. Não havia dia em que faltasse.
Ah, e como eu lembro dele rindo!
Em toda a imagem do vô que surge na minha cabeça, ele aparece rindo. E é por estas, e por muitas outras, que eu gostaria de dizer que, sim, meu avô Luiz Rudy Becker foi um grande político, um grande homem, trabalhador e honesto, prefeito, professor, vereador, mas foi, antes, um avô sensacional. Este, sem dúvida, o título mais importante que ele conquistou, dentre todos.
O meu avô sabia surpreender através dos menores gestos. Um homem justo, lúcido e inteligente, que sempre preferiu dar a receber. De um coração gigante, de uma generosidade que parecia não ter mais fim. Alguém que, apesar de todos os problemas que o assolaram, especialmente em seus últimos anos de vida, jamais – e eu disse jamais – abriu a boca para reclamar. Muito, muito pelo contrário.
Hoje percebo, com clareza, que apesar de eu ter crescido, me tornado adolescente, arrumado namorados, depois um marido, e por fim ter me tornado adulta, o vô Rudy nunca deixou de me trazer chocolates todos os dias.
Até sexta-feira, 19 de agosto de 2011.
Ainda olhando aquela nota de falecimento ali, colada na minha frente, pude compreender algo de que não me esquecerei jamais: não era a toa que, na minha cabeça, era impossível meu avô morrer.
É que eu tive a sorte de ter, muito além do homem público que todos conheciam e respeitavam, um Luiz Rudy Becker que, para mim, não era ninguém mais além do vô Rudy. E na minha vida, eu estarei sempre no banco de trás de seu corcel marrom, indo comprar um brinquedo, esperando ele chegar com os chocolates depois do almoço, procurando a cesta de páscoa, comendo salgadinhos e bombons e tomando sorvete na casquinha, sentada no chão de sua sala. Ele me olhando e sorrindo feliz.
Eu vi meu avô ser tudo aquilo que dizem que ele é, e a lição de integridade e honestidade que ele deixa marcada em mim, não há como agradecer e muito menos apagar. Não há como morrer.
O mundo agora é um lugar mais triste e menos vibrante sem Luiz Rudy Becker.
Mas no meu mundo não existe nenhuma nota de falecimento. Eu o mantenho intacto, do jeito que ele sempre foi e será para mim: o vô Rudy.
Aquele que só eu tive, e que comigo seguirá vivo e sorrindo, para sempre.