08 março 2011

Profissão: Juiz Implacável.

Ninguém gosta de ser julgado.
E sempre que o somos, ficamos com aquela sensação revoltosa que nos faz pensar:
- Mas quem é você para dizer isso ou aquilo sobre mim?
- O que você sabe da minha vida?
- Te conheço?
E estamos com a razão.
Poucas coisas são piores do que sermos avaliados (duramente avaliados, diga-se de passagem) por pessoas sem conhecimento de causa que, invariavelmente e sem remissão, acabam nos condenando - na maioria das vezes, injustamente.
É lamentável, mas ainda não inventaram um jeito de impedir que os outros achem coisas sobre nós que não correspondem a verdade.
No entanto, cento e um por cento das pessoas que costumam reclamar que são julgadas implacavelmente, são as primeiras a vestir a toga e a peruca branca com cachinhos e sair Brasil afora batendo o martelinho e apontando o dedo para os alheios.
Estou falando sobre isso porque eu sou exatamente assim.
Escrevi em um post não muito remoto que 2011 seria um ano para rever velhos conceitos, consertar velhos defeitos, e tentar deixar a velha e sonsa Janaína (com seus ranços e dissabores) definitivamente para trás.
Por isso, cá estou.
E admito, não sem dor no coração: eu sou, sim, uma juíza besta e insensível, que acredita piamente que conhece tudo sobre todos e todas as coisas e, por isso, posso dar meus veredictos nada misericordiosos indiscriminadamente.
Semana passada aconteceu um episódio que me fez ver que, ao contrário do que gostaria de acreditar e até mesmo aparentar, eu não era nem nunca cheguei perto de ser a flor de candura que supunha.
O bom senso me impede de relatar aqui, minuciosamente, o que de fato aconteceu e me fez ter este duro e doloroso choque com a realidade, nem quais pessoas estiveram envolvidas neste imbróglio.
Contudo, posso dizer que havia uma moça a qual eu detestava. Sim, detestava, e nada do que viesse dela era considerado por mim aprazível nem, ao menos, suportável. Ela chegava e eu já estava toda armada, e bastava ela dar um pio que eu já revirava os olhos e pensava: qualquer dia eu mato essa desgraça de mulher.
Esta moça, de fato, é meio xarope. Fala besteiras o tempo inteiro, e ri das próprias besteiras que, a rigor, não têm graça nenhuma. Mas é só. Fora isso, a pobre nunca fez absolutamente nada contra mim. Na verdade, nunca fez nada contra ninguém. Eu é que impliquei, e para ela não dava tréguas.
Acontece que esta moça é da minha família, de modo que eu não tinha como não conviver com ela. E justamente por ser parente, eu me munia de hipocrisia e civilidade para que, pelo menos, pudesse estar ao lado dela sem ter ímpetos de pular em seu pescoço e mastigar sua jugular enquanto a chamava de nomes pérfidos. E pelo jeito sou boa em fingir que gosto de quem não gosto porque ela, aparentemente, nunca percebeu minha ojeriza, e sempre me mandava beijos, me abraçava e me tratava com todo carinho e consideração. E eu ali, remoendo minha fúria assassina pelo que eu considerava sua enorme estupidez.
Foi que foi que esta moça ficou doente.
Não uma doença física, que pode ser tratada com comprimidos tarja preta, mas uma doença emocional. Esta doença emocional a fragilizou de tal forma que eu fui obrigada pela minha humanidade (sim, eu a tenho) a me compadecer dela. Não importa o quanto detestamos alguém; quando vemos este alguém sofrendo, fodido e esculhambado – e se não formos sociopatas malucos – iremos nos sensibilizar.
Bem.
Esta moça adoeceu, e eu fiquei com muita pena dela. E, comovida pela minha própria compaixão alheia, me aproximei dela de um jeito improvável. E sem querer, esta moça deixou transparecer para mim todos os seus problemas e dificuldades, que datam inclusive de sua infância. Problemas estes que eu nunca enfrentei. Dificuldades estas que sequer conheço. Nada é o que parece. Acreditem nisso.
E foi ali, naquele momento, percebendo tudo o que ela havia vivido de ruim, e eu não, que compreendi o quão idiota e intransigente eu estava sendo.
Havia criado mil teorias escrotas sobre ela. Julguei-a implacavelmente, sem querer saber como ou porque ela havia chegado até ali. De súbito, até seu jeito meio descompensado de ser, com suas piadas sem graça e sua risada fina que tanto me aborreciam, pareceu apenas uma maneira de se defender de uma vida que não havia pegado leve com ela.
Esta percepção, que se descortinou bem na minha frente, me fez deitar na cama e, naquela noite, no silêncio sepulcral da madrugada, chorar.
Por ela, mas, principalmente, por mim. Por vergonha de ter falado e pensado tudo que dela falei e pensei. Por ter agido exatamente da mesma maneira que eu tanto repudiava, quando quem agia eram os outros. Logo eu, que sempre me achei tão tolerante e sensacional, tão libertária, liberal e compreensiva, de uma hora para outra me vi como uma déspota sem noção que odiava tudo e todos que não coubessem em meus apertados padrões Janaína Lauxen de qualidade. Justo eu, que sempre abominei gente que julga sem de nada saber, estava ali, o indicador apontado para o outro, discorrendo minha opinião vazia de quem não conhece deste outro senão a superficialidade.
Isto me fez pensar em todas as vezes que, assim como fiz com esta moça, julguei e condenei os outros sem dó. Em quantas vezes fui injusta e babaca - e porque não dizer, maldosa até.
A verdade, meus amigos, é que se não estamos dentro das calças do outro, não podemos falar sobre ele. Podemos, sim, ter uma opinião, mas de maneira alguma temos o direito de transformar nossa simplória opinião em verdade absoluta, e sentenciar que fulano ou beltrano é isso ou aquilo. Porque fulano e beltrano são muito mais do que isso ou aquilo; muito mais do que nossa vã percepção pode apreender. Fulano e beltrano são, como somos todos, um universo imenso, cheio de becos, vielas, ruazinhas sem fim, buracos e ruas íngremes. E somente cada um sabe sobre si tudo o que carrega em seu coração. Mais ninguém.
Eu tenho tatuado em meu braço um trecho de uma música do saudoso Raul Seixas que diz exatamente isso: cada um de nós é um universo. E apesar de tê-la eternizado em meu braço, parece mais difícil do que podemos imaginar entender esta pequena frase em sua magnitude.
Então eu sugiro que pensemos melhor antes de reclamarmos que estamos sendo julgados, que estão apontando o dedo para nós, que estão falando da gente sem saber da missa a metade.
Recomendo que reflitamos com clareza e lucidez se, nós mesmos, não estamos dando uma de juízes, de sócios-proprietários da verdade, e condenando a todos com rigor e severidade, como se fossemos perfeitos, como se estivéssemos em condições morais de apontar o dedo para alguém.
Deveríamos – e esta é a verdade – ter pelo próximo a mesma clemência que temos para com a gente mesmo.
Porque se você se sente julgado pelos outros, não esqueça de que, para os outros, o outro pode ser você.