O TÚMULO DO LADRÃO
Bem vindo a Amorinha.
1.
- Comunicamos aos nossos prezados concidadãos que estamos trabalhando com todo nosso empenho e efetivo policial a fim de encontrar o delinqüente responsável pelos crimes de seqüestro que, repentinamente, assolaram nossa querida cidade nestes últimos dias. Prometemos que não apenas o encontraremos e o puniremos severamente, como também garantimos que as vítimas, nobres membros de nossa respeitável comunidade, serão devolvidas ao conforto de seus lares, sãs e salvas.
O delegado Amorim se esforçava para convencer, mas não apaziguava os ânimos exaltados de ninguém.
Também pudera.
Em uma semana, seis pessoas desapareceram sem deixar vestígios na cidade de Amorinha, e todo mundo precisava desesperadamente de uma explicação. Incluindo a polícia que, por mais que realmente estivesse trabalhando com todo seu efetivo para elucidar estes estranhos casos, não tinha uma pista, uma testemunha, sequer um ponto de partida por onde começar.
E o pior era que estas seis vítimas não eram seis vítimas qualquer.
Tratava-se, sim, de seis nobres membros da respeitável sociedade Amorinense.
A população precisava de respostas.
E precisava imediatamente.
Eu bem me lembro desta semana de desaparecimentos. Inicialmente, pensou-se até que se tratava apenas de um mal entendido. Depois do sumiço do Sr. Ataíde, na segunda, e da professora Coralina, no dia seguinte, chegou-se a cogitar que, possivelmente, eles não houvessem sumido coisíssima nenhuma – pelo menos não contra as suas vontades. Talvez tivessem saído de férias, ou ido passar uns dias na casa de algum parente numa cidade vizinha, por exemplo. Mas as famílias bateram o pé: não, eles não haviam saído de férias, e muito menos tinham ido passar uns dias na casa de algum parente numa cidade vizinha.
Manoela, amiga íntima de Coralina, contou para a polícia que ela e a amiga estavam em uma lanchonete quando Coralina avisou que iria ao banheiro. Perguntou se Manoela gostaria de acompanhá-la, mas esta preferiu primeiro terminar seu sanduiche. Passou-se cinco minutos, dez minutos, meia hora, e Coralina não retornou. Quando Manoela decidiu ir ao toalete ver se encontrava a amiga, não encontrou mais nada.
- Ela sumiu sem levar a bolsa. E nenhuma mulher some sem levar a bolsa, a não ser que tenha sumido contra a sua vontade.
Foi o que argumentou, sob os olhares circunspectos do delegado Amorim e seu escrivão.
Já Maria Cândida, secretária do Sr. Ataíde, chegou ao consultório às oito horas da manhã, como fazia todos os dias. O psicólogo apareceu meia hora depois, deu-lhe bom dia, fechou-se em sua sala e de lá não saiu mais. Quando o primeiro paciente apareceu e Maria tentou contatar o doutor pelo telefone, ninguém atendeu. Ele já não estava mais lá.
No terceiro dia, quando a terceira vítima sumiu, a polícia percebeu que, de fato, alguma coisa muito errada estava acontecendo. E como coisas muito erradas não costumavam acontecer em Amorinha - cidade pacata e pequenina, com pouco mais de 30 mil habitantes localizada nas margens do lago Itu – deu-se início a investigação.
Porém, no quarto dia, lá se foi a quarta vítima.
E a quinta, e a sexta.
No domingo, quando todo mundo já estava histérico, os sumiços simplesmente cessaram.
*
Como diz o título desta postagem, eis o primeiro capítulo do meu próximo livro, O Túmulo do Ladrão.
Lançamento este ano.
Ou não.
A gente nunca sabe.