18 janeiro 2011

O Malucão e a Jana

Creio que todos nós vamos concordar que o mundo está cheio de malucos.
Não que eu ou você sejamos Os Normais, mas convenhamos que a cota para doidos e dementes em geral está esgotada neste nosso planetinha febril.
E as pessoas se perguntam: o que está acontecendo, afinal?
Eu creio que tenho uma resposta. Uma não. Duas.
A primeira é que chegaram os tempos em que ninguém mais esconde quem é. Aquela velha hipocrisia, o fadado bailinho de máscaras na qual dançava ritmadamente toda a sociedade ruiu, acabou, chegou ao seu derradeiro final. Você é tosco? Pois não irá mais conseguir esconder que é tosco. E, claro, esta falta de máscaras e disfarces gera uma ebulição de sandices, uma efervescência de insanidades porque, quem antes se escondia, agora não se esconde mais, porque não pode, porque não consegue.
Esta é a minha teoria de número um, ligada a uma filosofia mais transcendental.
Agora, minha teoria de número dois não tem nada de filosofia e muito menos de transcendental. Ela é bem prática mesmo, e diz mais ou menos assim: os malucos estão aí, fazendo a festa, porque nós, os menos malucos ou ‘quase-normais’ (sim, porque normal, normalzão mesmo, ninguém é) ficamos calados.
E ficamos calados pelos mais diferentes motivos: por medo, por pena, para preservar nossa intimidade e nossa integridade ou até mesmo para poupar nossa família e nossos amigos de encheções que consideramos desnecessárias.
Só que o nosso silêncio serve, tão somente, para alimentar ainda mais os devaneios do maluco, que interpreta nossa discrição como estímulo, e não como “ó, tô cagando e andando pra ti”.
Reparem: todo mundo que sofre alguma espécie de assédio ou violência, seja física ou verbal, se cala durante muito tempo, até que, não suportando mais, fala. No fim, abre o jogo. Quando está a ponto de explodir, coloca as cartas na mesa.
E foi o que fez, muito sabiamente e corajosamente, minha amiga e xará Jana Lisboa. Vocês a conhecem, do blog Sunflower Records, do E-Blogue.com, da coletânea Assassinos S/A e de muitos outros lugares virtuais.
Houve que, ano passado, recebi um e-mail da Jana, enviado para mim e para vários outros amigos blogueiros seus, relatando uma história de arrepiar até os pelos pubianos da Claudia Ohana: um belo dia, Jana passou a receber comentários em seu blogue deste sujeito aqui, que variavam dos elogios mais exagerados até as ofensas eróticas mais mesquinhas. Jana fez o que qualquer um faria em seu lugar: ignorou.
O tempo passou e os comentários de seu blogue, bem como sua caixa de e-mails, continuaram contabilizando mensagens nefastas deste pobre rapaz, que aqui chamaremos de O Malucão. Então. O Malucão continuou a atormentando, até que um dia enviou-lhe um e-mail dizendo que estava indo para sua cidade lançar um livro, e gostaria de convidá-la para o tal evento. Jana mentiu que não estaria na cidade no dia e desejou-lhe boa sorte.
Ok, a vida seguiu.
Aconteceu que numa manhã de um sábado qualquer, Jana recebeu o telefonema de sua irmã, avisando que havia um amigo dela, de São Paulo, sentado no sofá da sua sala, em Fortaleza. Jana levou algum tempo para se dar conta de que o amigo de São Paulo era O Malucão. Quando isso aconteceu, entrou porta adentro de sua casa aos berros, exigindo explicações sobre o que O Malucão fazia ali. E O Malucão, comprovando sua maluquice elevada ao cubo, respondeu que não havia lançamento de livro nenhum: ele havia saído de São Paulo e se deslocado até Fortaleza porque leu um texto da Jana sobre depilação e achou que ela estava pensando em se suicidar. Oi?
Detalhe mórbido: até hoje, Jana não faz a menor idéia de como O Malucão encontrou sua casa, tendo em vista que ela nunca forneceu seu endereço em lugar nenhum e que o número do telefone, que consta na lista telefônica da cidade, está no nome de seu irmão, cujo sobrenome é diferente daquele que Jana usa para assinar seus textos na internet: Lisboa. Neste ponto precisamos admitir: tem coisas que só um Malucão faz por você.
Então Jana e sua família falaram com a mãe d’O Malucão, que garantiu que o filho era malucão mesmo, porém inofensivo, e o resumo da ópera é este: O Malucão parou de atormentá-la por um tempo e agora voltou com força total, repetindo os comentários grosseiros e os e-mails inconvenientes.
No seu limite, Jana fez o que todos fazem quando chegam ao seu limite: estourou. E seu estouro resultou nesta postagem em seu blogue, que eu sugiro a todos ler e comentar.
Porque estou contando tudo isso?
Para dizer que, não, não podemos nos calar quando sofrermos qualquer espécie de intimidação, ameaça, agressão. Não podemos ficar em silêncio, contando com o bom-senso de gente que sequer sabe soletrar bom-senso.
Estes malucões, que existem as pás e que, por motivos que desconhecemos, OBECECAM em uns e outros, são, sim, pessoas ameaçadoras. Eu, particularmente, nunca duvido da capacidade de ser uma besta que todo mundo possui. Vejo que muitos, que duvidaram da capacidade de ser uma besta de um malucão, acabaram mal. Porque, contando com a discrição e com o medo que acreditam fomentar em suas vítimas, a malucagem de um malucão pode tomar proporções catastróficas, e terminar pessimamente.
Eu, assim como todo mundo que anda sobre esta terra, já tive malucos na minha vida. Sim, tive. Um, em especial, eu até namorei. E como todo mundo, mantive-me calada, por medo, por pena, etc. E fiquei assim, em silêncio sepulcral, até que meu balde encheu e eu saí Brasil afora, falando, falando, falando sobre tudo.
E fiz isso por dois motivos principais: o primeiro era para o maluco saber que, se alguma coisa acontecesse comigo, haveria mil testemunhas que poderiam dizer: sim, foi ele, ela me contou.
E segundo para mostrar que, se eu não tinha a força física e a psicopatia latente que ele tinha, eu possuía, pelo menos, voz. E uma voz saliente, diga-se de passagem. Por isso dei voz a todos os meus fantasmas. Se ele queria me tocar o terror, que tocasse, mas eu tocaria de volta.
Ele precisava saber, definitivamente, que não era tão forte nem tão assustador quanto imaginava.
Resultado: o malucão sumiu.
Porque, de uma coisa vocês podem ter certeza: esses malucões nem são tão malucões assim. Eles se aproveitam da nossa intimidação e do nosso medo para supervalorizar uma maluquice que, a bem da verdade, nem é tão maluca assim.
Eu só faço um questionamento para avaliar o grau de maluquice de um malucão: ele rasga dinheiro? Se não rasga, não é tão maluco quanto pode querer parecer.
E, como disse acima, de médicos e loucos todos temos um pouco, e se tem um maluco te incomodando, mostre para ele que você pode ser tão ou mais maluca que ele.
E você pode, acredite.
Então, minha brava gente, este post é sobre isso: enfrente seus malucos. Não se calem perante eles, não lhes dêem mais forças do que eles têm, não lhes mostrem que vocês estão cagados de medo.
Todo mundo já precisou enfrentar um, e se você ainda não, prepare-se, pois vai precisar, mais cedo ou mais tarde.
E a melhor maneira de enfrentar um maluco é colocá-lo em evidência, é desmoralizá-lo, é dar nome e sobrenome e mostrar que você não tem medo dele – mesmo que tenha.
Escondê-lo, calar-se, dissimular e fingir que nada houve só servirá para deixá-lo ainda mais se sentindo o rei da cocada preta, e tudo que um maluco não deve se sentir é o rei de qualquer coisa. Porque, aí sim, ele passa a ser perigoso de verdade.
Por isso, parabéns Jana, minha doce xará.
Conte com a gente para o que der e vier.
E, Maluco da Jana: arrume o que fazer, bróder. Existe um mundo bonito lá fora, além das fronteiras virtuais. Fica minha dica. Beijo na família e se liga.