03 janeiro 2011

Complicadas resoluções.

Virada de ano é a velha história: todo mundo de branco comendo uvas e lentilhas e fazendo listas de resoluções. Eu sempre achei as festas de final de ano meio xaropes porque tudo me parecia demasiado artificial, beirando a afetação. E nem falo das relações entre parentes que se odeiam e precisam dividir um chester no natal, mas do interminável protocolo das festas. É cheio de TEM QUE. Tem que ter peru à meia-noite e tem que ter árvore e tem que ter guirlanda e tem que comprar presentes e tem que ter Simone cantando ‘então é natal’ e ufa.
Reveillon então, requer uma verdadeira operação cerimonial. Tem que passar de branco e tem que comer porco e lentilha e pular ondas e estourar champagne e fogos de artifício e. Bem. Vocês já entenderam. Vocês conhecem bem todos os TEM QUE de festa de final de ano, tenho absoluta certeza disso. E era exatamente esta burocracia toda que me dava um tédio.
Mas o tempo passa e a gente cresce e descobre que existem problemas bem mais sérios do que se entediar com o natal e deixa isso para lá.
E é justamente porque vivi num passado nada distante esta rixa com as festas de final de ano que eu sempre procurei me abster das formalidades. A última lista de resoluções que eu fiz tinha 11 anos e entre elas estava ‘jogar menos videogame’.
Porém, 15 anos depois, cá estou eu, decidida a fazer novamente a tal da lista.
Como não sou maluca, coloquei nela apenas coisas que dependem de mim realizar - e somente de mim. Caso contrário precisaria contar também com a sorte, e sorte é o tipo da coisa com a qual temos de ter cautela.
O fato é que desta lista exclui coisas como emagrecer cinco quilos ou ganhar mais e comprar um carro. Isto, por mais que pensemos o contrário, é fácil de obter. Um pequeno esforço e as chances de conseguirmos, ou chegarmos muito perto de, aumentam vertiginosamente. O que não entendemos é que, na maioria das vezes, nossos problemas não se resolvem emagrecendo, ganhando mais ou andando de carro novo. Isto pode, sem dúvidas, nos satisfazer momentaneamente, mas honestamente não é o que vai tornar nossas vidas melhores.
É claro que preferimos pensar que, sim, é claro que vai tornar nossa vida melhor. Afinal, o ser humano é adepto ferrenho da lei do menor esforço, e no fundo todo mundo sabe que é mais fácil comprar uma Ferrari amarela do que deixar definitivamente para trás velhos e desprezíveis hábitos.
Nunca vi em lista de resolução de ano novo ‘ser menos egoísta’. ‘Tratar com mais afabilidade os outros’. ‘Ser mais tolerante e menos ferino’. ‘Exercitar a paciência’. Não. Ninguém pensa em mudar a vida que acontece dentro de cada um de nós; estamos interessados apenas na vida aqui fora – aquela que não faz sentido nenhum. E então temos um carro, estamos magros e ganhando bem e somos estressados. Agressivos. Impacientes. Preconceituosos. Estúpidos. Mal educados.
Infelizes e insatisfeitos, outra vez.
Do que adianta, eu pergunto?
Esta lista que busca resolver os problemas que de fato interessam é muito, mas muito mais difícil de cumprir.
Porque estamos de tal forma enraizados em antigos e odiosos hábitos, que abandoná-los é quase uma mutilação. Sabemos quais são os nossos erros,  e mesmo assim continuamos errando, batendo com a cabeça na parede, teclando a mesma tecla quebrada com compulsão. Aliás, é impressionante nossa incapacidade de aprender com  os nossos erros, mas isso já é outra história.

Creio que precisamos, todos nós, sem exceção, parar, sentar, pensar e escrever num papel quais os defeitos vamos nos comprometer a trabalhar para abandonar neste ano que se inicia. Naturalmente não podemos ser exagerados e querer virar Jesus Cristo em três centenas de dias, mas dá para começar aquilo que será uma verdadeira mudança em nossas vidas. E para melhor.
O meu mal, por exemplo, chama-se cólera e preguiça.
Sou daquele tipo de pessoa que é adorável e querida, desde que tudo caminhe conforme eu quiser. Desde que não me contrariem. Caso contrário, deus do céu.
E a preguiça, essa vilã. Me esforço diariamente para vencê-la, mas quando vejo lá estou eu me entregando para ela, despudoradamente.
Não dá mais para viver assim, e carro nenhum, salário nenhum nem cinco quilos a menos me tornarão alguém mais feliz, se eu continuar dando vez e voz para estes males que, apesar de parecerem inofensivos, podem ser fulminantes e fazer um tremendo estrago.
E acredito que assim como eu, o que todos almejam, essencialmente, é a felicidade. Seja através de que resolução for, o que as pessoas querem mesmo é sentirem-se felizes e satisfeitas. Todavia, penso que seguimos o caminho proporcionalmente inverso e por isso estamos cada vez mais malucos e isolados dentro de nós mesmos.
Então este ano vamos tentar ser pessoas melhores. E eu disse apenas TENTAR. Vamos pensar em pelo menos um defeito que nos faz sofrer e batalhar para derrotá-lo. E quando digo batalhar, não uso nenhuma força de expressão. Abandonar um velho jeito de ser é mais complicado do que parece, e exige um policiamento diário e contínuo para que não nos entreguemos aos nossos desastrosos instintos. Mas quando conseguimos vencê-lo, ah. Que delícia. Isto sim é felicidade. Saber que evitamos sofrer e fazer sofrer apenas por nossa máxima vontade. Sentimo-nos fortes, seguros e contentes porque vencemos a nós mesmos – nosso único, maior e mais destemido inimigo.
Parece pequeno e pedante falando assim, em um blogue, em um início de ano. Mas se você parar para pensar, verá que é a mais pura verdade.
Evidente que não precisamos esperar nenhum reveillon para parar de repetir as mesmas idiotices de sempre, e que só nos colocam em enrascadas. Mas já que é tempo de resoluções, que optemos por começar já.
Vamos tentar mudar para melhor neste 2011, meus amigos.
Sinceramente, é só o que eu posso desejar para todos nós.