15 janeiro 2011

AQUI JAZ: FUTEBOL

Quando o Internacional, meu time querido, perdeu o Mundial de Clubes para o obscuro Mazembe, em 14 de dezembro do ano passado, eu chorei.
Chorei de enfiar a cabeça entre as pernas e soluçar e ficar com os olhos vermelhos e inchados.
Meu marido, compadecido de minha penosa situação, me abraçou e disse uma coisa que ficou martelando na minha cabeça por vários dias:
- Jana: se os jogadores, que perderam dinheiro, não estão chorando, por favor, não vá você chorar.
Essa frase doeu mais do que os dois a zero que levamos do time africano. E só doeu mais porque é a mais dura, crua e indecorosa realidade.
Eu não sou ingênua e, creio que a esta altura do campeonato, ninguém mais seja.
Não é de hoje que sabemos que aquilo que movimenta todos os clubes de futebol, sejam do Brasil, sejam do resto do mundo, são os cifrões, e não mais o amor pela camiseta. Aparentemente, não há amor de jogador que resista a alguns zeros a mais no contracheque.
Futebol arte?
Vaga lembrança de um passado que eu, do alto dos meus 26 de idade, não vi, não vivi; só ouvi falar.
Isso dá nojo.
Não.
DÁ NOJO, com caps lock e tudo.
Mesmo que por detrás de um time haja uma empresa, é a paixão que mantém os torcedores – e são os torcedores quem mantém os times.
E é justamente por causa desta paixão – que, como toda paixão, é cega, burra, surda e completamente louca – que torcedor nenhum entende quando, por exemplo, um jogador-ídolo, que há pouco tempo atrás jurava paixão incondicional pelo seu clube, troque-o na maior cara dura só por causa de alguns níqueis a mais no final do mês. E o que mata é que este mesmo jogador, que largou o time pelo qual se dizia apaixonado por causa de um salário maior, já está mais cheio de dinheiro do que seu cofre é capaz de suportar. Ou seja: nem precisaria se vender. Se vendeu porque quis; se vendeu porque é, indiscutivelmente, uma PUTA.
Sei bem como é isso.
Vivi na pele o desgosto de ver um ídolo cair quando nosso ex-capitão, Fernandão, O Desgarrado, foi assobiando jogar fora do Brasil porque ‘a proposta salarial era interessante’ e, quando voltou, nem pudor teve de ir em NOSSO ESTÁDIO e na frente da NOSSA TORCIDA fazer um gol contra o NOSSO TIME e ainda por cima SAIR COMEMORANDO EFUSIVAMENTE.
E é por isso que, apesar da imensa rivalidade, inimizade e desprezo, estou, neste exato momento, completamente apiedada do torcedor gremista.
E vou além: não apenas do torcedor gremista, mas de todo torcedor, de todo mundo que gosta de futebol e, gostando, compreende todas as nuances dessa paixão que não se explica – somente se sente.
Nem preciso contextualizá-lo, não é caro leitor?
Estou falando dessa novelinha bagaceira e mal escrita protagonizada pelo Ronaldinho e seu irmão, Assis, que colocaram a última pá de terra sobre o caixão onde jaz tudo aquilo que é (era?) bonito no futebol.
Assim que esta história toda começou a se desenrolar, e que ficou nítido que tudo não passava de uma questão de quem pagava mais, eu me lembrei do que disse meu sábio marido, naquele 14 de dezembro de 2010:
- Jana: se os jogadores, que perderam dinheiro, não estão chorando, por favor, não vá você chorar.
Essa frase ressoará no oco de minha cabeça para todo o sempre.

No meu mundo perfeito, todos os times interessados em Ronaldinho – leia-se Grêmio, Palmeiras, Flamengo e Corinthias – deveriam, assim que perceberam o leilão ignóbil que Assis promovia do passe de seu irmão, se retirar das negociações. Isto sim, seria decente.
E digo mais: estes clubes deveriam se retirar das negociações contando com o apoio irrestrito de suas torcidas.
Mas não.
Quem pagou mais e chorou menos foi o Flamengo, e a torcida – pobre torcida! – estava lá, felizona. Vinte mil flamenguistas foram recepcionar Ronaldinho, O Prostituído, com festas e fogos. Como se ele merecesse!
Isto dói.
Mais do que perder o Mundial de Clubes para um time obscuro cujo goleiro pulula utilizando as nádegas.
Ver que todo o amor e toda a dedicação sincera da torcida – que vai ver os jogos e compra camisetas caríssimas e associa-se e, o mais importante: MANTÉM SEUS CLUBES FUNCIONANDO FINANCEIRAMENTE – é amoralmente utilizada para fazer com que meia dúzia de babacas, que sequer entendem de amor e dedicação, encham seus bolsos já abarrotados de mais & mais dinheiro.
Amor e negócios não costumam casar bem.
E por mais que eu entenda e, acredito, todos nós entendamos, que um time de futebol é, sim, uma empresa, e que precisa ser administrado como tal, seria pedir demais um pouco de decência, de ética, um mínimo de respeito pelo amor que os torcedores têm, não apenas pelo seu time, mas pelo futebol?
Reconheço, com pesar, que algo que já estava trincado em mim se quebrou, definitivamente, depois desta patacoada armada pelos irmãos Assis.
A réstia de esperança que ainda pulsava em meu coraçãozinho aflito de torcedora deu seu derradeiro suspiro.
Afinal como chorar, amar, torcer e gastar seus últimos dinheiros comprando camisetas oficiais ‘para ajudar o clube’ quando tudo que jogadores, técnicos, direção, empresários e Cia. Ltda. querem é transformar o futebol num mercadão livre e vulgar?
Já disse um espertinho, certa vez: “Amigos, amigos, negócios à parte”.
Ao que parece, os negócios estarão sempre à parte.
À parte do respeito, à parte da consideração, à parte da ética.
E em se tratando de negócios – e aqui pouco importa se negociamos carros, azulejos, pastel de feira ou nossa mãe – vale tudo.
E quando eu digo TUDO, quero dizer TUDO MESMO.
Até mesmo destruir e corromper com uma das poucas coisas que ainda despertam alguma paixão sincera e dão alguma alegria para nós, o fadado povinho brasileiro.
Oremos e choremos, prezados amigos torcedores.
É o que nos resta fazer.