30 setembro 2010

Troféu cheio de café.

Meus candidatos estão feios nas pesquisas, meu time acaba de perder para o Palmeiras do Felipão, errei redondamente no jogo do bixo (ops, contravenção!) mas nem tudo por aqui são lástimas e chororôs.
Muito, mas muito pelo contrário!
Acabo de descobrir - com algumas horas de atraso, admito - que a revista Café Espacial levou, pelo segundo ano consecutivo, o Troféu HQMix como Melhor Publicação Independente de Grupo!
O que é justo, muito justo e justíssimo, já que a revista, encabeçada pelos queridos Sergio Chaves e Lídia Basoli, está a cada edição mais quente e deliciosa.
E eu?
Bem.
Eu só posso me sentir eternamente feliz & contente por fazer parte da revista mais espacial do universo.
Também aproveito para parabenizar a todos os ganhadores, bem como a todos os indicados que, sem dúvidas nenhuma, mereceram reconhecimento de tamanha importância.
E agora vamos celebrar, que a vida é bela e etc.
Beijinhos.

27 setembro 2010

A Prepotência dos Novatos.

Lembram?
Pois agora estou aqui novamente para falar em prepotência; porém não dos veteranos.
Não!
Falo de uma prepotência ainda mais cômica, ainda mais trágica, ainda mais revoltante e sem fundamento: a enorme, abissal e espantosa prepotência dos novatos.
Uma prepotência sem pé nem cabeça, sem eira nem beira, mas que existe aos litros, aos quilos, aos balaios, espalhada entre criaturas que acreditaram piamente quando a mamãe disse, certa vez, que eram muito talentosas e por isso mereciam estar ricas.
Já passei por isso mil vezes, e admito que meu saco, que já não é lá essas coisas de espaçoso, está cada vez mais cheio e saturado.
Porém, para que este post não pareça propaganda subliminar das coletâneas que organizo, utilizarei num primeiro momento outro exemplo, que igualmente cai como uma luva para ilustrar esta questão.

A Revista Trip lançou uma espécie de promoção, chamada Trip Colaborativa. Funciona assim: você pode enviar para eles fotos, textos e ilustrações dentro dos temas propostos, e corre um sério risco de ter seu trabalho publicado na edição da revista de outubro. Para saber mais, você pode clicar aqui.
Eu achei a idéia absolutamente sensacional.
Afinal, quando leitores anônimos e produtores de arte de todo o Brasil teriam a enorme oportunidade de terem seu trabalho publicado numa revista do porte, do renome e da significativa tiragem mensal da Trip?
Porém, podem conferir nos comentários que constam no link que deixei logo acima: milhões de novatos insuportáveis resmungando sem parar.
Me dei o trabalho de separar aqui alguns dos descalabros:

Leitor  20/08/2010 21:15:47 resposta / citação

Muito fácil investir em jornalismo colaborativo fazendo o povo trabalhar de graça. Se a Trip quer sempre ser diferente, deveria pagar pelos trabalhos publicados.

Justo 29/08/2010 20:05:10 resposta / citação

É bem triste ver que enquanto uma grande quantidade de profissionais da comunicação, do texto e da imagem, batalham duro para conquistar respeito e os direitos sobre o uso de suas criações, há veículos da mídia usando o disfarce de "vanguarda colaborativa", e se aproveitando de jovens e de amadores inexperientes. Quem trabalha ou já trabalhou para a mídia, sabe muito bem que é o conjunto das nossas criações que faz um veículo vender, e é disso que se trata a revista. A TRIP é uma EMPRESA, não é um coletivo. A TRIP é uma revista feita com o objetivo de gerar lucro, e não para distribuir oportunidades! Vender nas bancas e vender anúncios são suas metas! Acordem aí crianças! E NADA é mais justo e digno do que você receber pelo seu trabalho. Se a TRIP quer abrir espaço para novos colaboradores, está ótimo, vamos todos participar e apresentar nossos trabalhos, e receber por isso, certo? Ou então podemos montar este lindo trabalho coletivo e colaborativo: a gente entra com a criação, artes, fotos, textos e a TRIP com a impressão e a "grife". Só que aí distribuiremos gratuitamente, ou a preço de custo, os exemplares, e fica justo para todos. Que tal? Me deu uma enorme vergonha de ver a TRIP se prestando a isso, é realmente lamentável.

Primeiro: repare que ambos os autores destes dois comentários que selecionei não assinaram seu nome.
Esta é a primeira característica dos novatos prepotentes: dar o tapa e esconder a mão. O que lhes confere o direito de falarem e ofenderem a vontade, ao seu bel prazer, sem que nada respingue nas suas caras de pau.
Segundo: a TRIP não está obrigando ninguém a participar, de modo que, se você achou a proposta injusta ou duvidosa, é simples. Não participe.
Terceiro - e isso é muito importante: se você acredita que seu trabalho mereça ser remunerado, maravilha, ótimo, lindo, sensacional! Mas... e ele é? Quero dizer, alguém já se propôs a lhe pagar, ou você está mal e mal dando os primeiros passos e deveria saber que precisa mais de divulgação do que de dinheiro?
Já disse e já cansei de repetir: se você acha que a proposta da Trip é cruel, desonesta e maldosa, sente e espere o dia em que a revista vai te ligar oferecendo um cheque cheio de zeros pelo teu trabalho.
HEY pessoal!
Acordem.
Vocês NÃO SÃO o Paulo Coelho, nem o Angeli, nem o J.R. Duran e nem ninguém que valha, por hora, um cheque cheio de zeros.
Aliás, ninguém, além da sua mãe e da meia dúzia de amiguinhos que acessa seu blog sabe quem você é, portanto, baixe a bola.
No entanto, se já pagam pelo seu trabalho cheques cheios de zeros e se mais pessoas além da sua mãe e dos teus amiguinhos conhecem teu blog, então provavelmente a proposta da Trip não é para você.
Entenderam ou querem que eu desenhe?

Vejam bem, caros leitores: sou super contra trabalhar de graça. Até porque, até onde me lembro, a escravidão terminou em 1888 depois que uma tal de Isabel assinou alguns documentos.
Porém, não sou burra o suficiente para acreditar que, logo de cara, estarei, enquanto a escritora novata que sou, recebendo propostas altamente rentáveis de editoras e revistas consagradas, sendo que ninguém, além da minha mãe e da meia dúzia de amiguinhos que passa no meu blogue, sabe quem eu sou.
Eu tenho essa noção e, graças a Deus, isso já me salvou do ridículo mais de uma vez.
No entanto, algumas pessoas caem no conto do vigário e acreditam que, porque tem 200 seguidores no blogue e 400 no twitter, são fenômenos da arte moderna no Brasil.
Preciso rir para não chorar.

Mas, verdade seja dita: nem todos os novatos são prepotentes.
E digo mais: acho que uma minoria o é.
Porém é justamente esta minoria que torna impraticável que veículos, pessoas e editoras tenham vontade de oportunizar quem está começando.
Esta minoria é tão chata que vale por mil.
E agora sim falarei do meu caso específico com as coletâneas que organizo e com o selo Literarte.
Estou super a fim de largar tudo.
Verdade.
E possivelmente farei isso em breve.
Sem dúvidas agradecerei eternamente a confiança que a Multifoco depositou em mim, e também o carinho e o profissionalismo de muitos escritores e ilustradores e fotógrafos, que mostraram que existe esperança para o amanhã, mas.
Por exemplo: recentemente fui obrigada a ler um verdadeiro tratado de imbecilidade no blog de um dos autores da coletânea Assassinos S/A que, além de não comercializar os 15 exemplares que recebeu por consignação, também não os devolveu à editora, e ainda assim se sentiu no direito e na razão de falar mal da coletânea, da Multifoco e, de quebra, de mim. Tudo porque, segundo sua primorosa opinião, nós cobramos para publicar, e pagar para ver seu trabalho publicado é ‘indigno’.
Enfim, nem vou repetir pela milionésima vez que a Multifoco nunca, jamais, em nenhum momento, cobrou para publicar nenhum de seus autores, e que os livros são entregues em consignação e que se você não sabe o que é consignação trate de comprar um Aurélio e descobrir.
Aí eu me prestei (eu sempre me presto) a ir até este dito post e escrever ao dito autor, explicando o que ele já deveria estar careca de saber quando assinou o contrato.
E ele respondeu que, sim, a Multifoco cobrava, pois afinal ele teve que pagar 20 reais de frete.
20 reais de frete!
De fato, o frete do envio fica por conta do autor, mas se nêgo não está disposto a pagar o frete para ter seu livro em mãos, então ele merece nunca ser lido por ninguém.
E mais: quando este autor assinou o contrato, sabia que deveria arcar com os custos do porte, então quer dizer.
Vai empilhar coco em descida.

Muitos escritores que hoje estão ganhando dinheiro com o que escrevem começaram pagando por sua primeira publicação. A Multifoco nem isso cobra. Custeia toda a produção do livro, que passa por revisão, diagramação, impressão e um monte de trabalho que custa um monte de dinheiro, e tudo o que o maldito novo autor precisa fazer é tentar – eu disse TENTAR– vender seus exemplares.
E não são mil exemplares.
São 15, 30, 50.
Mas não!
Os bonitos acham injusto, pois, aonde já se viu eu, LOGO EU, o Grande Autor, me humilhar vendendo exemplares do meu próprio livro?
Pois vou te contar uma novidade, ô Grande Autor: ninguém sabe quem você é e, honestamente, ninguém se importa.
A Cia. das Letras nunca vai publicá-lo nem investir dinheiro em você, porque o seu nome ainda não vende, porque o seu nome ainda é somente mais um nome na multidão.
NO ENTANTO, calma, não se desespere: com o passar do tempo e muita divulgação, paciência, determinação e mais divulgação, isso muda, mas por hora ninguém vai lhe pagar para lhe divulgar, entendido?
Só que aí você diz isso para o cretino do novo autor e ele se ofende!
Sim, porque ele ainda acredita, ingenuamente, estupidamente, que as editoras vivem de amor e beijinho.
Não entendem que livros são um produto, e a Cia. das Letras publica o Julio Verne apenas e tão somente porque meio mundo sabe quem é o Julio Verne e por isso o Julio Verne VENDE e cobre as despesas de publicá-lo e divulgá-lo!
Ok.
Vamos em frente.
Então eu tive a idéia de organizar, ao lado do Sergio Chaves, a primeira coletânea de HQs da Editora Multifoco, a Quadrinhos em História, oportunizando, de maneira inédita, que novos quadrinistas, roteiristas e ilustradores tivessem seu trabalho publicado profissionalmente.
Confesso: na ingenuidade, achei a idéia super boa. Pensei que todos iam gostar, até porque, ainda não soube de outra editora que oportunizasse, além de escritores, quadrinistas a publicarem seu trabalho numa coletânea, junto de outros artistas do mesmo ramo.
Seria super bacana, certo?
Errado.
Serginho enviou para um site um release de divulgação da seletiva e o resultado foi desastroso.
Apareceram milhões de comentários furiosos porque, além de não pagarmos um rio de dinheiro para que tivessem suas magníficas histórias em quadrinho publicadas, ainda pedíamos que os autores tentassem vender sua consignação de 15 exemplares, ORA, ONDE JÁ SE VIU, NÃO SOMOS PALHAÇOS BLABLABLA.
Mais uma vez, eu e minha santa paciência fomos até os comentários e deixamos lá uma enorme explicação, que dizia basicamente para todos se acalmarem e pararem de gritar, que ninguém era obrigado a participar, e que se todos achassem que seus trabalhos mereciam remuneração mais do que divulgação, então que não participassem, BEIJO!
Foram linhas e linhas para explicar o óbvio.
E não adiantou porcaria nenhuma.
Um dos brilhantes comentaristas chegou a dizer, com tremenda má educação, que Fábio Moom e Gabriel Bá, talvez os maiores quadrinistas brasileiros da atualidade, iriam se estapear para publicar na nossa humilde coletânea.
GENTE!
É claro que Gabriel e Fábio sequer tomarão conhecimento da nossa coletânea, porque milhares de editoras e revistas dariam a bunda para tê-los em suas páginas.
Mas e você?
Além da sua mãe e dos teus amiguinhos virtuais, quem mais daria a bunda pelo teu trabalho?
Foi o que pensei.

O fato é que tudo isso me cansou sobremaneira.
Porque, enquanto eu estou explicando o óbvio ululante para gente que não enxerga um palmo na frente do nariz, e enquanto estou me matando e perdendo meu tempo organizando coletâneas e viabilizando oportunidades para quem não as têm (como eu, um dia, não as tive), eu poderia era estar escrevendo meu segundo livro, que está parado, ou publicando em meu blogue, que está desatualizado, ou conversando com o meu marido enquanto tomo uma cerveja e sou feliz.
Não tolero a prepotência de caras como o Paulo Coelho – que já comprou um castelo na França, de tantos livros que já vendeu – vou agora tolerar a prepotência do fulaninho de tal, que eu nem sei de qual buraco saiu?
Não, não vou.
E se você se acha um grande gênio incompreendido, vá abrindo o olho, meu amigo, porque de grandes gênios incompreendidos o inferno, o céu e a terra estão cheios.
E agora vai atender ao telefone, que deve ser a Editora Globo implorando para que você assine com ela sua próxima publicação.
Beijo, seliga.

18 setembro 2010

UTILIDADE PÚBLICA – Importantíssimo.

Então.
Agora estou aqui para pedir alguns segundinhos do seu dia por uma boa causa.
Não, uma boa causa não!
Uma excelente causa!!!
Mas primeiro deixe-me contextualizá-los.
Este é o Mestre Yoda:


 
Como vocês podem observar, Mestre é um cãozinho lindo, velhusco, gordinho e rebaixado.
Porém, não foi sempre assim.
Quando foi encontrado por uma das voluntárias da AAB, estava cheio de pulgas e feridas pelo corpo, além de magérrimo.
Infelizmente, ele ainda não encontrou um lar.
Dizem até que já faz parte dos móveis e utensílios da AAB, quase um patrimônio histórico tombado.
O fato é que Mestre Yoda, representando muito bem a Associação Amigo Bicho de Passo Fundo, está participando de um concurso promovido pela Total Alimentos.
Funciona assim: você clica AQUI e, rapidamente, vota no Mestre.
Como o Mestre participa na categoria ONG Cães, se ele for o mais votado a Amigo Bicho receberá, durante um ano, ração grátis.
O que é sensacional, já que a AAB vive de doações e, na raça e na coragem, atende a muitos animais carentes, e ração é o tipo da coisa que está sempre faltando – entre outras coisas.
Quer dizer, com um simples clique e um breve minuto do seu dia você ajuda um monte de animaizinhos que, por pura e completa irresponsabilidade humana – ou seja: nossa – estão por aí, jogados às traças, abandonados, passando fome, frio e um monte de coisas horríveis que não gosto nem de imaginar.

É claro que podemos fazer bem mais do que apenas votar no Mestre.
Podemos, por exemplo, ajudar a AAB com doação de alimentos, vacinas, cobertores, vermífugos, divulgação, apadrinhamentos, e se você for responsável, pode até mesmo adotar um dos cãezinhos e gatinhos que, ansiosamente, esperam um novo dono para chamar de seu.
No entanto, se você vive longe de Passo Fundo, pode dar uma força para a ONG que cuida de animais aí, na sua cidade.
E MUITO IMPORTANTE: devemos, TODOS, ter muita atenção em quem vamos votar nestas eleições, para não cairmos na cilada de colocar no poder um sujeito que não apenas não se importe com os animais, como ainda defenda e prometa legalizar práticas condenáveis contra nossos amigos bichos.
Como rinhas de galos, por exemplo.
Mas isso já é outra história.
Por hora, clique AQUI e vote no Mestre.
Ele precisa de dois mil votos, e já passou dos 700.
E se não for pedir demais, divulguem o link do jeito que puderem.
Porque ONGs como a Amigo Bicho fazem a parte deles e, de quebra, fazem a nossa parte também.
Logo, retribuir com um clique é o mínimo que podemos fazer.

"Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?" (Guimarães Rosa)

11 setembro 2010

O Mal Menor

Falar sobre política é complicado.
Escrever sobre política então.
Complicadíssimo.
Afinal, trata-se de um terreno bastante delicado, onde qualquer palavra mal colocada pode significar uma interpretação completamente errônea da pretendida pelo autor.
E, a bem da verdade, a política é apenas um, dos muitos assuntos onde é melhor se calar e mascar um chiclete de hortelã, visto que o debate torna-se impraticável perante uns e outros militantes extremistas - mais comuns do que parecem e deveriam ser.

Falar sobre política é igual falar sobre futebol.
Não importa o argumento, você jamais convencerá o seu rival de que seu time é melhor ou maior do que o dele.
Religião, idem. Pegue um fanático religioso, conteste-o e prepare-se para horas de argumentação passional, que não te convencerá do mesmo jeito que você não o convencerá, independente dos argumentos lógicos e cientificamente comprovados que por ventura se utilize.
O fanático, seja qual for o alvo de seu fanatismo, além de cego é persistente.

Mas, relevemos, já que todo mundo tem o direito de torcer e ter fé naquilo e por aquele que bem entender, moderada ou imoderadamente.
Não admito nenhuma forma de fanatismo, mas nestes dois específicos casos ainda o justifico, já que futebol e religião estão muito mais ligados a emoção, a paixão, e menos, muito menos ligados a razão.

Agora, política é outra história.
Não pode ter fanatismo, idolatria que ilude, que emburrece, que aliena.
Poucas coisas mereceriam mais lucidez e sobriedade de nós, cidadãos, do que quem serão, afinal de contas, os caras que comandarão o nosso país (e tudo que vem dentro dele, incluindo nós) pelos próximos quatro anos.
Mas, calma, querido leitor, não farei aqui um discurso pedagógico sobre a importância da democracia e etc. Muito menos farei propaganda dos candidatos nos quais pretendo votar; até porque, nem os defini ainda.
O que pretendo com este texto é dar minha opinião honesta sobre um assunto que é sempre delicado e passível de interpretações equivocadas, e por isto esta introdução extensamente explicativa.
Talvez, e provavelmente, vocês me digam que travesti meu posicionamento político de palavras engomadas e na verdade acabei deixando bem claro de qual lado estou.
E é preciso que, antecipadamente, compreendam que não estou, mesmo, de nenhum lado.
Sou apenas mais uma na multidão que deixou de enxergar a política com olhos otimistas e crédulos, e por motivos óbvios.
Acho que todos – TODOS – os candidatos são sujos.
Uns mais, uns menos, todos são.
Exagerada?
Pode ser, mas não dá para acreditar que uma maça se mantenha íntegra numa cesta de maças podres.
Votarei, sim, naqueles a quem considerar ‘menos piores’.
E para tomar esta decisão, enumerei aquilo que penso sobre a política e minha função enquanto eleitora, requisitos nos quais me basearei na hora de fazer minhas escolhas.
Aqueles que chegarem o mais perto das minhas convicções, levarão meu voto, mesmo que o mais perto seja ainda muito longe.

Um.

Não há bem maior e mais precioso para uma nação do que a liberdade de expressão.
Este é o primeiro e sem dúvidas o mais importante xis da questão.
A falta deste direito tão básico é o estopim para a deflagração de um sério e talvez duradouro sistema de tirania, opressão, pobreza e muito mais corrupção do que nosso congresso jamais foi capaz de imaginar em seus muitos anos de história.
Censura não é uma palavra longínqua que se perdeu em meados dos anos 80.
Ela está sempre à espreita, e a menor brecha, chega chegando.
Assim sendo, fique atento aqueles detalhes que os candidatos não costumam mencionar em suas propagandas.
O que não é dito, geralmente, é o que mais diz.
E por falar em propaganda.

Dois.

Propaganda política não deveria sequer se chamar propaganda.
Propaganda sempre terá um quê de falso, pois é sabido que sempre engrandecerá as qualidades – quando não as inventará – e sumirá, como num passe de mágica, com os defeitos.
Vale para detergente, sapato, xampu ou pessoas.
Porém, no caso de detergentes, sapatos, xampus e demais produtos inanimados existem órgãos fiscalizadores, e geralmente quando um destes produtos não cumpre com o que prometeu, pode facilmente ser denunciado, ressarcido, trocado.
O mesmo não acontece com um candidato a cargo político.
Pelo menos o procon e o conar não costumam se posicionar perante este tipo de propaganda enganosa.

A verdade é que candidato não tem que fazer propaganda.
Tem que apresentar idéias, soluções, alternativas, tudo muito sóbrio e viável, sem jingle e sem frescura.
O eleitor precisa, urgentemente, entender que músicas bonitinhas, sorrisos fartos e grávidas caminhando rumo ao horizonte é truque ordinário para encher lingüiça - e esconder aquilo que realmente importa: propostas. Não promessas.
Por isso, desconfio declaradamente de políticos que ou prometem, ou - pior ainda - cumprem as suas delirantes promessas e tiram do papel suas estrambóticas e quase obscenas idéias - tudo ao custo do nosso suado dinheirinho.
Por exemplo.
Houve um candidato, na cidade onde nasci, Carazinho - RS, que prometeu certa vez reativar a linha de trem que liga Carazinho à Passo Fundo, alguns poucos quilômetros de distancia.
Assim, a população poderia viajar a preços módicos, apreciando a linda paisagem gaúcha destas plagas verdejantes.
Sensacional, não?
Não.
Porque isso é estrambótico e obsceno, além de desnecessário.
Naturalmente - e graças a Deus - o projeto ficou na promessa extravagante de eleição.
Porém, há aqueles políticos que fazem o pior e cumprem os descalabros que prometeram enquanto ainda arrecadavam votos.
O que significa jogar pelo ralo (e dentro das cuecas e meias de alguns) quatro meses por ano de nosso trabalho & ordenado.
Tudo para apreciar a linda paisagem gaúcha destas plagas verdejantes.
E, entendam: apreciar a linda paisagem gaúcha destas plagas verdejantes é realmente bacana, desde que, antes disso, possamos ter, quem sabe, saneamento básico.
Mas que político vai querer fazer saneamento básico?
Ninguém vê o saneamento básico, mas o trem inútil todo mundo vê, e fala, e elogia, e anda e acha incrível.
O que nos leva ao item seguinte.

Três.

- Ok, mas como você pretende fazer isso?
Esta é a pergunta que não quer calar.
Sim porque, acho maravilhosas as propostas, e honestamente adoraria que pudessem ser colocadas em prática.
Mas... como?
Falam em mais saúde, mais educação, mais estradas, mais escolas, mais casas, mais cultura, mais incentivo, mais empregos, mais, mais, mais. Muito mais.
Genial.
Falam em salário mínimo de 2500 reais, e redução da carga horária, reforma agrária, trabalho e terra para todos.
Ótimo.
Porém, preciso saber de que jeito o candidato pretende colocar tantas promessas em prática.
Interpreto esta conversinha de mais isso mais aquilo, sem explicar de que jeito, como o casal de namorados nos primeiros encontros.
Todo mundo é perfeito, e honesto, e abnegado, e trabalhador, e muito mais do que jamais se ousou sonhar.
- Vou te dar o céu, meu bem.
O resto da história vocês já sabem.

Quatro.

Não faz mais nenhum sentido essa bobagem de esquerda versus direita, pobre versus rico, trabalhador versus patrão, favela versus zona sul.
Gente!
Não sei se já perceberam, mas estamos no mesmo barco.
Na mesmíssima canoa – e suspeito eu que ela esteja furada.
Não existe lado direito nem esquerdo; existe lado certo.
E é deste lado que devemos estar.
Diga-me o nome de um único partido político onde não haja candidatos envolvidos até as tripas com as mais diferentes fraudes e corrupções.
Unzinho só.
Pois é.

Cinco.

Outro grande (e bem mais complexo, intrincado e embaraçoso) problema é o populismo.
O assistencialismo pode se tornar extremamente perigoso, se ultrapassar a linha tênue que o separa do comodismo.
Entendo que existam pessoas abaixo da linha da pobreza, passando toda sorte de infortúnios, inclusive e principalmente fome, e quem tem fome tem pressa e isso é indiscutível.
Na minha visão, precisamos sanear imediatamente as necessidades mais primárias de todos os cidadãos, mas não podemos deixá-los lá, um pouquinho acima da linha da miséria, apenas não passando fome.
Não queremos só comida.
Não precisamos de papai e mamãe passando a mão em nossas cabecinhas e nos dando papinha na boquinha.
Filhos mantidos embaixo da saia dos pais geralmente se tornam adultos limitados, dependentes, submissos, condicionados, que não fazem nada sozinhos.
O populismo gera este comodismo alienante e perigoso, e em massa.
Mas o pior é que, depois de implantado, torna-se difícil, senão impossível, removê-lo.
Pois, para quem passava fome, ter deixado de passar já é uma grande coisa, e está bom assim.
E como vivemos em um país de terceiro mundo, altamente subdesenvolvido e afundado em pobreza e miséria, com dez por cento da população analfabeta e outros nem sei quantos por centos sabendo assinar o nome, mas sem capacidade de compreender o que estão assinando, algumas migalhas mantém cativo o voto de milhões, que apenas e tão somente deixaram de passar fome.
O populismo gera e alimenta a pobreza.
E como uma peste, é muito, muito difícil de ser definitivamente erradicado.

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Não votarei em branco e nem no Tiririca achando que, assim, estarei protestando. Aliás, nem sei como tem gente que ainda pode acreditar em tamanha estupidez.
E como em política não há melhores, mas sim ‘menos piores’, que possamos optar dos males os menores.
Precisamos, antes de tudo, ouvir a maneira como os candidatos estão se apresentando para nós, e definir claramente quais são os nossos critérios de avaliação.

Não tenho intenção, com este texto, de impor qualquer ideal político pessoal, nem convencê-los de nada.
Penso apenas que, enquanto cidadãos racionais, precisamos saber o que queremos de um candidato, o que é que, afinal, estamos procurando.
Caso contrário, nunca saberemos quando encontrarmos.
Também seria ideal se conseguíssemos enxergar os candidatos sem pré-julgamentos, de ouvidos e coração aberto para escutá-los, sem, no entanto, cobrir-lhes com o manto antecipado da tragédia e tampouco da salvação.
É pedir demais?
Talvez, neste momento, seja sim.
Como disse anteriormente, no decorrer do tempo perdi - e perdemos - o elemento fundamental para que uma sociedade tenha ânimo para se interessar verdadeiramente pela política com a seriedade que ela merece: falta-nos fé.
E, tal e qual num casamento, quando acaba a confiança acaba-se tudo.
E já que não podemos pedir divórcio de nosso país e de seus políticos, repito: que possamos optar pelo mal menor.
O poder é do povo. Sempre foi. Somos nós quem elege quem estará de terno e gravata assinando papéis que definirão nosso futuro, e por isso não podemos ser passionais, partidários, individualistas e, principalmente, bocós.

Portanto vamos agarrar o pouco que resta de nossa fé política (raspa o fundo que sempre sai um pouquinho) e seguir em frente.
Mas sabendo, antes de qualquer outra coisa, para onde queremos ir.