29 julho 2010

O Erro de Mara.

A gari Mara Luciane Macedo, de 37 anos, morreu depois de ser atropelada por um ‘veículo branco que trafegava em alta velocidade’, no centro de Carazinho, dia 25 de fevereiro de 2010.
O automóvel e seu motorista - que, aliás, fugiu sem prestar socorro à vítima - não foram identificados.
Provavelmente nunca serão.
E isso porque Mara cometeu um erro primário e imperdoável aqui, neste país que chamamos de Brasil: Mara não era filha nem esposa de ninguém importante. Mara não tinha dinheiro, não tinha influência, não tinha bons contatos. Mara não era gente que interessa.
Ao contrário do músico Rafael Mascarenhas, de 18 anos, filho da atriz global Cissa Guimarães, que na última terça-feira, dia 20, também foi atropelado e também acabou morrendo sem receber socorro do motorista.
Tal e qual Mara.
Porém, muito diferente do caso carazinhense, o motorista responsável pelo atropelamento de Rafael já foi encontrado e indiciado, e certamente pagará pelo crime que cometeu. Inclusive já descobriram, numa rapidez impressionante, que o pai deste prezado motorista pagou cerca de mil reais de suborno aos policiais que pararam o veículo logo após o sinistro, e também já sabem que este mesmo pai havia levado o carro, todo amassado devido ao acidente, a um mecânico, pedindo urgência no conserto.
Medidas estas também utilizadas, muito possivelmente, pelo atropelador de Mara. Mas agora, quatro meses depois do acontecido, as chances (e a vontade) de identificá-lo são e continuam sendo praticamente nenhuma.
A morte de Mara não será explicada, o responsável não será punido e acidentes como este, onde não há culpados, apenas vítimas, continuarão acontecendo em Carazinho e no resto do país, impunemente, livremente. Injustamente.
Talvez devêssemos, todos nós, darmos um jeito de nos tornarmos, também, pessoas importantes.
Precisamos, urgentemente, inventar uma maneira de virarmos gente influente, poderosa, financeiramente admirável para a sociedade e, naturalmente, para as autoridades.
Para o caso de sermos atropelados, e morrermos por pura e total irresponsabilidade alheia, pelo menos vermos punidos aqueles que, insensatamente, dirigem seus carros acreditando serem os reis selvagens do asfalto, sem respeitar nada, sem respeitar ninguém, acobertados por papais endinheirados que acham mais importante encobrir o filhinho-da-mamãe do que fazê-lo responsabilizar-se pelo crime que praticou.
Não cometamos o mesmo erro de Mara: ser pobre, trabalhadora, gente simples.
Pois, caso contrário, deixaremos nossos filhos, nossos pais e nossos amigos com aquele gosto ruim e amargo de injustiça e revolta, que não passa nem diminui nunca.
Perguntem para dona Landa, mãe de Mara, ou para Ana Paula, sua filha de 15 anos, como elas se sentem hoje, sabendo que ninguém se importa com a morte de Mara como poderiam se importar, caso Mara fosse filha do mesmo papai que encobertou seu filhinho-da-mamãe, que guiava um ‘veículo branco que trafegava em alta velocidade’ em Carazinho no dia 25 de fevereiro de 2010.

Publicado no jornal Diário da Manhã de Carazinho.

24 julho 2010

O Poder do Amor - entrevista com Odele Souza, do blog FLAVIA, VIVENDO EM COMA

- Tchau, mami, tô indo pra piscina.
Esta foi a última frase que Odele Souza ouviu de sua filha, Flavia.
Era dia 6 de janeiro de 1998.
Duas horas depois, os gritos de seu filho mais velho, Fernando, fizeram-na levantar-se da frente do computador aonde trabalhava.
Odele olhou pela janela do apartamento onde vivia, no oitavo andar do condomínio Jardim do Juriti, em São Paulo, a fim de pedir que o filho fizesse menos barulho, pois poderia incomodar os vizinhos.
O que viu foi o corpo de sua caçula, imóvel, estendido ao lado da piscina.
Flavia, na época com dez anos, teve seus cabelos sugados pelo ralo de sucção da piscina do condomínio onde morava.
Entrou em coma vigil irreversível.

Acidentes como o que vitimou Flavia, hoje com 22 anos, são mais comuns do que podem parecer.
E sempre - sempre - são causados por negligência e irresponsabilidade humana.
Muitas vítimas e familiares de vítimas preferem esquecer e tratar o acidente, muitas vezes mortal, como mera fatalidade.
Afinal, a quem responsabilizar?
Como provar que alguém foi, de fato, sugado pelo ralo de uma piscina porque o ralo estava em situação irregular?
Odele Souza, mãe de Flavia, não pensava assim.
E não apenas comprou a briga para ver punidos os responsáveis pelo acidente de sua filha como, em 2007, tornou sua história pública ao criar o blog Flavia, Vivendo em Coma.
É lá que Odele dá voz a cidadania de Flavia, e também a sua própria cidadania.
E foi lá que conheci e me aproximei de sua história.
Abaixo vocês poderão ler, na íntegra, a conversa que eu tive com Odele por e-mail.
Falamos sobre justiça, dor, eutanásia, religião, política, e sobre como ela ainda espera um final feliz para a história de sua menina.

Odele e seus dois filhos, Flavia, com 9 anos e Fernando, com 13.

1. Antes do acidente que vitimou sua filha Flavia, você já tinha ouvido falar sobre os perigos dos ralos de piscina em situação irregular?

Não. Antes do acidente que vitimou minha filha Flavia eu NUNCA tinha ouvido falar que ralos de piscinas pudessem causar acidentes tão devastadores. E foi por nunca ter ouvido falar desse tipo de acidente que precisei de alguns meses para entender porque Flavia ficou presa pelos cabelos ao ralo da piscina do condomínio onde morávamos.
Todas as noites, quando eu voltava do trabalho, em pleno inverno, mergulhava na piscina e ficava observando o ralo. E foi então que deduzi que poderia haver algum problema com o sistema de sucção daquela piscina.
Uma perícia técnica provou que eu tinha razão. O sistema de sucção daquela piscina (conjunto motor/bomba/filtro) estava superdimensionado em 78%. O síndico do prédio - sem orientação técnica - substituiu o motor de 0,50 cavalos por outro de 1,50 cavalos, portanto, a força da sucção passou a ser demasiadamente forte.

2. Você acredita então que, não fosse sua persistência em descobrir o que, de fato, havia provocado o acidente com sua filha, até hoje não se saberia as verdadeiras causas do ocorrido? Ou o condomínio Jardim da Juriti e a própria empresa fabricante do ralo de piscina, Jacuzzi do Brasil, se mostraram preocupados em identificar e solucionar o problema?

Sim, estou certa de que se não fosse o meu empenho, jamais seria descoberta a real causa do acidente que vitimou Flavia - ou seja, o superdimensionamento do ralo, mais tarde provado por perícia técnica feita na piscina.
Flavia, com 7 anos.
Infelizmente, em nenhum momento o condomínio ou a empresa Jacuzzi do Brasil demonstraram preocupação em identificar e solucionar o problema, pelo contrário.
Por ocasião do acidente, o resgate de Flavia foi feito pelo Corpo de Bombeiros e houve grande movimentação na rua onde morávamos, no bairro de Moema, São Paulo. Essa movimentação intensa chamou a atenção da mídia. O síndico na época me orientava a não dar entrevistas e a fugir dos jornalistas. Só mais tarde, com maior clareza de raciocínio, é que fui entender o porquê dele não querer que eu desse entrevistas sobre o acidente. Ele temia que fosse descoberta a real causa do acidente: o ralo da piscina funcionando fora dos padrões de segurança, absurdamente superdimensionado.

3. O acidente de Flavia aconteceu há 12 anos, e há três você mantém o blog Flavia, Vivendo em Coma. Já li em algumas de suas postagens sobre sua revolta com o completo descaso de alguns veículos de comunicação em relação ao acidente de Flavia e, principalmente, aos perigos iminentes de ralos de piscinas - veículos estes que tratam como ‘tragédia’ o fim do casamento da atriz Susana Vieira e simplesmente ignoram casos sérios e graves como o de Flavia, e de tantas outras pessoas que, todos os anos e em todos os lugares do mundo, são vitimadas das mais diferentes formas por ralos de piscina irregulares.
Digo isso porque, antes de conhecer seu blog, nunca havia sequer pensado na possibilidade de haver perigo em um ralo de piscina.
Então minha pergunta é: foi por causa desta falta de espaço nos meios de comunicação que criou o blog?
Quando, como e porque surgiu a idéia de colocá-lo no ar?

Flavia, em sua cadeira de rodas.
Sua análise sobre o que leu no blog de Flavia está correta. Sempre me causou indignação ver o descaso da mídia com relação aos inúmeros acidentes causados por ralos de piscinas no Brasil e no mundo. Sempre me causou indignação ver em destaque na mídia brasileira assuntos fúteis, enquanto notícias sobre acidentes com ralos de piscinas, que seriam de utilidade pública, não recebiam - e continuam a não receber - a devida atenção. Então, em janeiro de 2007, portanto há três anos e meio, resolvi criar o blog FLAVIA, VIVENDO EM COMA, e alertar as pessoas para os devastadores acidentes causados por ralos de piscinas. A falta de atenção da mídia convencional para os acidentes causados por ralos de piscinas foi, sem dúvida, um dos motivos para eu criar o blog de Flavia. Mas existem dois outros motivos igualmente importantes:
O segundo motivo pelo qual criei o blog de Flavia foi para protestar contra a lentidão de nossa justiça. Quando criei o blog, o processo de Flavia já se arrastava por mais de nove anos na justiça paulista. Acreditei e continuo acreditando que protestar através do blog contra essa lentidão é uma forma de exercer não só a minha cidadania, como a cidadania de Flavia, que poderia se perder caso a tragédia que deixou minha filha em coma caísse no esquecimento. Eu não poderia deixar isso acontecer. O acidente ocorrido com Flavia, a lentidão da justiça, a falta de respeito dos réus para com os direitos de Flavia, isso tudo é por demais grave para que eu deixasse cair no esquecimento.
E o terceiro motivo para a criação do blog foi dar voz à Flavia, a oportunidade de, mesmo em coma, ela se comunicar com o mundo. E acredito que essa comunicação vem acontecendo de forma constante. Hoje, o blog de Flavia é lido em muitos países. Muitos blogs do Brasil e do exterior divulgam a causa de Flavia.
E isso é gratificante.

4. “... é uma forma de exercer não só a minha cidadania, como a cidadania de Flavia”. Esta sua frase me lembrou de algo que li no blog Daniella Perez – Arquivos de um Processo, mantido por sua mãe, Glória Perez. No tópico Dany, ela explica que este capítulo tem como objetivo recuperar a humanidade de Daniella, pois “... num processo criminal, a pessoa é destituída de sua identidade: torna-se ‘a vítima’, de tantos anos, tanto de peso, tanto de altura. Sua humanidade se dilui nas páginas dos autos”.
Eu acredito que um dos principais problemas da justiça brasileira é justamente este: desumanizar a vítima e, desumanizando-a, passa-se a tratá-la com menos respeito, com menos consideração.
Você, no processo que moveu contra o condomínio Jardim do Juriti e contra a empresa Jacuzzi do Brasil, já precisou ouvir verdadeiros absurdos por parte da defesa, inclusive que a culpa do acidente de Flavia era sua - e dela própria - e que você estava querendo enriquecer as custas do acidente e da indenização que solicitava.
Depois de 12 anos de processo, Odele, como anda sua fé na justiça?

Pois é, Jana. O processo de Flavia se arrastou por 12 anos e foi encerrado em março de 2009 em última instância, lá em Brasília, onde consegui condenar a seguradora e o condomínio, mas não o fabricante do sistema de sucção da piscina, a empresa Jacuzzi do Brasil, como co-responsável pelo acidente que deixou minha filha em coma.
No Superior Tribunal, dos cinco ministros de justiça que julgaram o processo de Flavia, apenas um, Luis Felipe Salomão, concordou comigo de que o fabricante teria que ser condenado por não ter alertado em seus manuais sobre o tipo de acidente que vitimou Flavia. E foi somente em Brasília que o Superior Tribunal de Justiça corrigiu a sentença dada em São Paulo, onde, acatando os argumentos dos réus, os juízes paulistas me co-responsabilizaram pelo acidente ocorrido com minha filha. Lá em Brasília, por unanimidade, os ministros discordaram dos juízes de São Paulo. E então o condomínio foi 100% responsabilizado.
No entanto, mesmo tendo sido condenado, até agora, o condomínio, beneficiado pela burocracia de nossa justiça, não pagou ainda a indenização de Flavia, nem me reembolsou dos valores gastos com o tratamento de minha filha nesses longos 12 anos.
Como anda minha fé na justiça? Não tenho fé na justiça. Depois de lutar 12 anos para finalmente ver parcialmente condenados os réus do processo de minha filha, não tenho fé na justiça. Vejo-a lenta, burocrática, injusta, e por isso mesmo nossa justiça beneficia os culpados e pune as vítimas.

Flavia, em seu quarto, na companhia da cadelinha e fiel companheira Michele.
Como posso ter fé numa justiça que deixou minha filha de menina se transformar em mulher enquanto aguardava em coma pela condenação dos culpados pelo acidente que lhe destruiu a vida?! Como posso ter fé numa justiça que, após 12 anos em que lutei para ver respeitados os direitos de minha filha, condena o condomínio, mas não lhe ordena o pagamento imediato da indenização a que Flavia tem direito? A justiça deveria acontecer para todos nós, de imediato e sem necessidade de luta. Como diz meu amigo António de Portugal, no vídeo sobre a história de Flavia, já visto no YouTube por mais de 100 mil pessoas, “a justiça nem sempre cumpre o seu dever essencial de proteger os mais frágeis contra prepotências e agressões”. E por essa frase ser verdadeira, eu não tenho fé na nossa justiça.


5. Você acredita que a empresa Jacuzzi do Brasil não foi condenada por se tratar de uma grande corporação, tradicional no mercado e, naturalmente, poderosa financeiramente - logo, com condições de pagar por bons advogados?
E por falar em advogados, você teve dificuldade em encontrar um profissional da área para defender sua causa?

Quanto à primeira pergunta, eu não saberia afirmar com certeza o porque da empresa Jacuzzi não ter sido condenada. Mas acredito que seja porque os juízes e ministros de justiça, infelizmente, não se dão ao trabalho de ler os argumentos de nossos advogados.
É muito frustrante correr atrás de provas, fazer perícias, anexar laudos e atestados médicos e depois perceber que os juízes “passaram por cima”, ou seja, sequer tomaram conhecimento do que estava escrito e documentado. Então, se não lêem, não condenam quem deveriam condenar.
No caso do acidente ocorrido com Flavia, sempre vou defender que a Jacuzzi do Brasil tem 50% da culpa. Infelizmente, o condomínio não percebeu isso e, em vez de juntar-se a mim contra a Jacuzzi, lutou todos esses anos contra mim, a mãe da vítima. Acabaram sendo condenados com 100% da culpa, quando poderiam ter sido condenados com 50% e a Jacuzzi com os outros 50%.
Quanto à segunda pergunta: sim, tive grande dificuldade para encontrar um advogado que aceitasse defender os direitos de Flavia. O tipo de acidente que vitimou Flavia, pelo menos para os advogados, era inédito e me diziam: - Mas senhora, como vou provar que sua filha teve os cabelos sugados pelo ralo de piscina? Eu sabia que bastaria que se fizesse uma perícia na piscina para que tivéssemos essa prova. (*)
Mas estive em pelo menos nove advogados antes de finalmente encontrar o Dr. José Rubens Machado de Campos, que aceitou o caso e nos defendeu com muito empenho.
Se a justiça para Flavia não se fez por completo, não é culpa de nosso advogado, mas dos juízes e ministros de justiça que não se deram ao trabalho de ler o que nosso advogado argumentou e comprovou.

(*) É interessante notar que acidentes com ralos de piscina são mais comuns do que se pensa, mas nem todas as pessoas reclamam. Fiz contato com algumas pessoas que tiveram parentes vitimados pelo mesmo tipo de acidente ocorrido com Flavia, mas elas se esquivaram e me disseram que preferiam esquecer. É tudo o que os responsáveis por esses acidentes querem: que as vítimas esqueçam.

Odele, Flavia e o poder do amor.

6. Ano passado, a italiana Eluana Englaro, em coma há mais de 17 anos devido a um acidente de carro, teve os aparelhos que a mantinham viva desligados, após longa batalha judicial movida pelo seu pai pelo direito a eutanásia.
Lendo seu blogue, fica evidente que idéias como esta nunca passaram pela sua cabeça - apesar de ter certeza de que tal ‘solução’ já lhe foi sugerida mais de uma vez.
Eu gostaria de saber, Odele, qual a sua opinião sobre a eutanásia em casos de coma, ou seja, quando o paciente em questão não possui condições de decidir.

Este tema é por demais delicado e em princípio não gosto de ver o termo eutanásia ligado ao nome de Flavia. Mas reconheço que, quando tornamos a nossa história pública, temos que aceitar que as pessoas dêem a sua opinião. Ser favorável ou não à eutanásia é algo muito pessoal, e por isso mesmo ninguém tem o direito de criticar a decisão tomada por um pai ou uma mãe de um filho há longo tempo em coma, seja essa decisão optar pela eutanásia ou não.
No caso de Eluana Englaro, quem pode dizer que a atitude do seu pai não foi considerada por ele um ato de amor? Talvez o meu conceito de amor seja apenas diferente do dele, porque para mim amar é cuidar. Mas quem pode garantir que eu esteja certa e ele errado? No caso de minha filha, vou sempre cuidar dela da melhor forma que eu puder, com atenção, amor e carinho, para que ela sofra menos, para que ela, enquanto estiver comigo, tenha o que lhe for possível de qualidade de vida. E fico extremamente irritada quando me sugerem a eutanásia como “solução” para Flavia. Ninguém tem esse direito. Acho uma invasão, um desrespeito para comigo e minha filha.

7. Li, certa vez, uma matéria publicada na Revista Época sobre o caso de Flavia, onde você falava sobre as ‘soluções milagrosas’ sugeridas por alguns religiosos. Pessoas que garantem que, se você rezar, tiver fé e levar sua filha a determinados templos e igrejas, ela sairá curada, como num passe de mágica. Chegam, inclusive, ao extremo de lhe culpar por omissão por você ainda não ter feito o que lhe sugerem.
Gostaria de saber, Odele, como você lida com isso?

Flavia e Odele, ao fundo, no computador. Por Marcelo Min.
É verdade Jana. O assédio de pessoas religiosas é muito grande, tanto nos comentários do blog de Flavia, como por e-mails que me chegam. No blog de Flavia, se o comentário é muito invasivo ou agressivo, reservo-me o direito de deletar. Mas lidar com o assédio religioso é desagradável. A pessoa que me aborda indicando a sua religião como solução para que Flavia retorne de seu longo estado de coma, age de forma equivocada, esquece de que eu posso ter - eu tenho o direito de ter - a minha própria religião ou crença e a ela cabe respeitar minha opção, qualquer que seja ela. Quando alguém, com suas afirmações, quer nos impor a sua crença, esse alguém não leva em conta o nosso direito de acreditar no que quisermos. E isso é desagradável. Mas tento, na medida do possível, manter-me neutra e não entrar em nenhuma polêmica religiosa, que acredito, não levaria a nada. E tenho sempre em mente que qualquer que seja a religião ou a crença de uma pessoa, o que mais importa é o seu caráter, a sua postura como ser humano, a sua efetiva prática do amor ao próximo.

8. Percebo - e corrija-me, por favor, se eu estiver enganada - que hoje você aceita, até com certa serenidade, o fato de que sua filha está em estado de coma irreversível. No entanto, certamente, não foi assim desde o começo.
Nos primeiros anos de coma da Flavia, você chegou a procurar uma solução fora da medicina tradicional?

Nos primeiros anos após o acidente e tendo em mãos aquele diagnóstico médico que me devastava - coma vigil irreversível - eu procurei, sim, muitas soluções fora da medicina tradicional para ver minha filha recobrando a consciência. Acupuntura, Craniopuntura (acupuntura na cabeça), chás fortíssimos de ervas medicinais, etc. E fui a todas as igrejas, a todas as religiões. Ficava um tempo em uma, rezava, pedia, rezava, pedia... Ia para outra e refazia as orações, os pedidos. E a agonia da espera por um milagre se repetia em mim. Dias e meses. Ano após ano. Como Flavia não melhorava e nem recobrava a consciência, fui ficando desiludida e cansada. E passei a acreditar apenas no poder do amor. Esta crença, felizmente, nunca me abandonou. Acredito que o amor é que faz milagres. E o fato de Flavia estar viva, com uma aparência boa, com o peso adequado à sua altura, com a pela íntegra, com os cabelos bonitos e brilhantes, só é possível porque Flavia é cuidada com amor.
Flavia, com 9 anos.
Mas não sei se eu chamaria de “serenidade” a forma com que lido com o estado de coma de minha filha. Veja você que, no início, o meu desespero e inconformismo eram visíveis pela busca de uma cura para Flavia, procurando tratamentos alternativos, freqüentando diversas religiões. Cheguei até a estudar células tronco com professores da Escola Paulista de Medicina para saber se essa terapia poderia ser útil à Flavia. Infelizmente descobri que as células tronco ainda estavam em fase de pesquisas e que levaria muitos anos para essa terapia ser aplicada em seres humanos. Nem assim eu me aquietei. Quando vi que nada funcionava para fazer minha filha sair de seu estado de coma, passei a trabalhar o meu inconformismo e a minha indignação, escrevendo a sua história no blog que criei para lhe dar voz e não deixar que o que lhe fizeram caia no esquecimento. E também levar informação às pessoas sobre o perigo existente nos ralos de piscinas, para que tragédias como a que aconteceu com Flavia possam ser evitadas.
Talvez você chame de “ serenidade” o fato de me ver falando sobre o estado de coma de Flavia em programas de TV, com desenvoltura e sem cair em prantos. Mas acho que é porque, com o passar dos anos e com a convivência diária com a dor de ver minha filha em coma, eu tenha aprendido a administrar essa dor, de forma a não deixá-la me embargar a voz quando falo em público.
Mas quando estou só, muitas vezes, eu ainda choro essa perda que deixou minha alma para sempre marcada. Quando estou só, muitas vezes eu me entrego à dor, sem nenhum pudor.

Flavia bebê.

9. Está disponível no blog Flavia, Vivendo em Coma o link para a assinatura virtual de uma petição, por você promovida, solicitando que seja criada uma lei federal para segurança nas piscinas.
De onde surgiu esta idéia, Odele? Quantas assinaturas são necessárias? Quantas assinaturas você já conseguiu? O que as pessoas devem fazer para participar?

A idéia de uma lei que regulamente a VENDA, a INSTALAÇÃO e a MANUTENÇÃO de piscinas, eu tenho faz tempo. E surgiu porque vejo que os acidentes com ralos de piscinas continuam acontecendo e causando vítimas graves e fatais. A grande maioria dos fabricantes de sistemas de sucção de piscinas e os locais que administram essas piscinas não têm demonstrado preocupação com esses acidentes. De tempos em tempos, mais uma pessoa morre, principalmente crianças, que são mesmo as maiores vítimas. Por isso, por essa falta de preocupação com a segurança nas piscinas - notadamente com os ralos de sucção - acredito que somente com uma lei eficaz, com fiscalização contínua e multas significativas para os infratores, é que os acidentes causados por ralos de piscinas poderão diminuir em nosso país.
No entanto, a petição on line que fiz para obter assinaturas para a criação dessa lei foi uma enorme frustração. Algumas pessoas pensam que a lei é para Flavia. Não é. A lei é para todos, menos para Flavia, que, infelizmente, já está em coma. A lei de Segurança nas Piscinas, desde que bem feita e aplicada com rigor, poderá salvar muitas vidas. Mas as assinaturas são poucas. Há mais de seis meses o link para a petição está disponível no blog de Flavia, mas no momento em que respondo esta pergunta, tem lá pouco mais de 1500 assinaturas. Quando tive a idéia da petição, eu não pensei exatamente em alcançar um determinado número, mas pensei que, com muitas assinaturas, talvez algum político pudesse “comprar” a idéia e apresentar um projeto que venha a se transformar em lei. Até fui contatada por dois políticos, mas, pelo que sei, somente um apresentou o projeto de lei. Mas esse projeto foi redigido sem a opinião de especialistas em segurança de piscinas por mim indicados, e por isso não me parece que seja um projeto que possa se transformar numa lei eficaz. Por isso, eu e esses especialistas estamos nos empenhando para adicionarmos ao projeto apresentado à Câmara o que julgamos indispensável para que a lei seja realmente eficaz para a diminuição dos acidentes causados por ralos de piscinas, que tantas mortes têm causado no Brasil.
Para participar e assinar, basta clicar no link da petição que há na lateral do blog de Flavia. Às vezes eu coloco esse link em primeiro plano na lateral do blog de Flavia. Às vezes, por haver algo mais urgente, como no caso atual em que Amanda, uma criança de Manaus, precisa de ajuda, eu desloco o link da petição um pouco mais para baixo, mas o link está sempre lá no blog de Flavia. Clicando no link a pessoa é direcionada para a petição e aí, basta assinar.

10. O blog de Flavia é parceiro de outros blogs, que também buscam conscientização e justiça - como o de Daniella Perez, mantido por sua mãe, Glória - além de outros links que, freqüentemente, você disponibiliza em seu blog (como o caso de Amanda, citado por você na resposta acima). Tanto você quanto Glória, apesar das tragédias que se abateram sobre suas famílias, não apenas não se entregaram às suas dores individuais como lutaram para que dramas como os que aconteceram com vocês não voltassem a se repetir com os outros.
Depois do assassinato de sua filha, Glória colaborou para transformar o assassinato em crime hediondo através de uma emenda popular, e você, até hoje, batalha para conscientizar as pessoas dos perigos dos ralos de piscinas.
Tanto no seu caso quanto no de Glória, suas filhas não puderam se beneficiar das conquistas por vocês empreendidas e, mesmo sabendo antecipadamente disso, vocês não deixaram de lutar para que outras pessoas não passassem pelo que vocês passaram.
Odele, você acha que tragédias como as que você e Glória viveram, ajudaram a despertar em vocês uma maior consciência cidadã, no sentido de que vocês, como tantas outras famílias, buscaram não apenas justiça isolada para seus casos, mas conscientização num sentido mais amplo?

No caso de Glória Perez, pessoa por quem tenho grande admiração e carinho, acredito que essa consciência cidadã já existisse mesmo antes do assassinato de Daniella, pois Gloria, através de suas novelas, sempre procurou levar não só entretenimento como também conscientização de problemas sociais. Mas no meu caso a resposta é sim.
Detalhe da mão de Flavia, captada pelo seu irmão Fernando.
A tragédia com minha filha despertou em mim essa maior consciência cidadã, até pela vontade de exercer por Flavia a oportunidade que lhe foi roubada de praticar a sua própria cidadania. E muito por causa disso, busco incansavelmente conscientizar as pessoas para o perigo dos ralos de piscina, que tantos acidentes graves e fatais têm causado no Brasil e no mundo. E me traz um certo conforto pensar que, se as pessoas se conscientizarem de que ralos de piscina podem ser muito perigosos, talvez a tragédia ocorrida com Flavia não tenha sido em vão. E pela visibilidade que o blog de Flavia alcançou, chamando a atenção inclusive de grandes mídias, acredito que alguma conscientização ocorreu. Mas ainda falta muito para que possamos dizer que essa conscientização tenha atingido um nível próximo ao ideal.

11. Você acredita que um distanciamento natural e a idéia equivocada de que tragédias só acontecem aos outros, colabora para que as pessoas não se preocupem como deveriam pela assinatura da petição pela segurança nos ralos de piscina, por exemplo?

A resposta é novamente sim. Existe nas pessoas essa idéia equivocada de que tragédias só acontecem com os outros, e por isso não há uma mobilização geral para assinar a petição. O que é lamentável, pois só com muitas assinaturas poderia ficar demonstrado que muitos se importam com o perigo dos ralos de piscinas.

12. Além da sua busca por justiça e do incrível trabalho de conscientização que faz através de seu blog, é emocionante sua história de amor e dedicação para com Flavia. Você já pensou em transformar tudo isso em um livro?

SIM. Na verdade, Jana, o livro com a história de Flavia já está QUASE PRONTO. É que, acredite, eu venho esperando um FINAL FELIZ para a história de minha filha. O final mais feliz, obviamente, seria minha filha sair de seu estado de coma. Mas aprendi, por tudo que leio a respeito, que quanto mais tempo uma pessoa passa em coma, mais difícil é o retorno.
Depois eu pensei que poderia pelo menos ter o conforto de ter visto a justiça se fazer POR COMPLETO para Flavia, o que também não aconteceu, já que, mesmo eu tendo enfrentado uma batalha judicial de mais de 12 anos, a empresa Jacuzzi do Brasil, fabricante do equipamento que sugou os cabelos de Flavia, mesmo não tendo alertado em seus manuais para o TIPO de acidente que vitimou Flavia, não foi co-responsabilizada pelo acidente que deixou minha filha em coma vigil irreversível.
O que ainda posso esperar para dar um final QUASE FELIZ para o livro que venho escrevendo sobre a história de minha filha? A LEI FEDERAL PARA SEGURANÇA NAS PISCINAS, mas que, em sua redação, contenha TUDO o que for necessário para coibir os acidentes causados por ralos de piscinas, de forma que, cada vez mais, menos crianças venham a ter o destino de Flavia: viver à margem da vida.

11 julho 2010

“Vagabunda tem que morrer mesmo, mereceu”

Por estes dias, a badalada Copa do Mundo e a própria eliminação brasileira da competição precisaram dividir suas atenções com dois casos graves envolvendo violência contra a mulher.
Um destes episódios vocês já devem estar carecas de saber: o goleiro e capitão do Flamengo, Bruno Fernandes, não apenas matou Eliza Samudio, 25 anos, mãe de seu filho, como a matou com requintes de crueldades beirando o inacreditável.
Eliza foi seqüestrada, espancada, asfixiada, desmembrada e partes de seu corpo foram lançados para a alimentação de cachorros da raça rottweilers.
Tudo isso em meio à música, churrasco e cerveja.
O outro caso, de menor repercussão, não é menos sádico. Uma adolescente de 13 anos foi estuprada e, por pouco, não foi assassinada por dois garotos, ambos de 14 anos, em Florianópolis (SC). Ao que consta no inquérito, a menina foi até o apartamento de um deles, bebeu vodka e não se lembra de mais nada. Investiga-se se havia alguma droga em sua bebida, quem sabe o famoso e poderoso sonífero conhecido popularmente como Boa Noite, Cinderela.
O fato é que, quando a menina acordou, o mal já estava feito, e só não foi pior porque a mãe de um dos meninos chegou ao apartamento na hora em que um deles tentava asfixiar a adolescente, que continuava desacordada.
Um dos estupradores é filho de um delegado de polícia e o outro, de um dos diretores da RBS TV - Santa Catarina, afiliada da Rede Globo.
Naturalmente, o caso, que aconteceu em meados de maio, foi sumariamente ignorado pela RBS TV (que controla 46 emissoras de televisão e rádio e oito jornais diários no sul do país) e, não fosse a internet – santa internet! – e a concorrência – santa concorrência! – talvez morrêssemos sem ficar sabendo de uma vírgula sobre este crime.

No entanto, apesar da sordidez, estes dois casos não me surpreenderam.
Todo mundo parece muito impressionado e aterrorizado com o que Bruno e estes dois adolescentes foram capazes de fazer, e eu juro que não entendo o porquê de tanta surpresa.
Talvez – e provavelmente – porque se tratem de um jogador de futebol famoso e de dois jovens da elite catarinense, mas horrores desta categoria acontecem todos os dias, o tempo inteiro, e mesmo assim todo mundo vira para o lado e dorme com os anjinhos.
Eu já escrevi aqui, mais de uma vez, e agora vou repetir: a violência vai acabar com nossas mulheres, sejam elas ricas ou pobres, famosas ou anônimas, jovens ou velhas.
O que aconteceu com Eliza e com esta adolescente de Santa Catarina, apesar de horrível, é corriqueiro.
A coisa tá ficando feia, e faz tempo, e se a justiça e a lei e todos nós não começarmos a dar um jeito nessa bagunça, eu sinceramente não sei onde vamos parar.

Porém, mais chocante do que o crime em si, é a reação quase doentia das pessoas, inclusive de mulheres que, em pleno século 21, ainda tem a coragem de culpar a própria vítima pela violência sofrida.
Eliza, ao que se sabe, já fez filmes pornôs e parece que tinha uma, digamos assim, simpatia especial por jogadores de futebol, se é que vocês me entendem.
Por isso - e só por isso - muita gente não apenas explica como endossa o crime bárbaro: “Bem feito pra ela” e “Vagabunda tem que morrer mesmo, mereceu” são alguns dos descalabros mais leves que tive a desventura de ler e ouvir durante esta semana.
Já a adolescente, dizem, nem estuprada foi, transou porque quis e agora está aí, fazendo cena. Neste caso, teve até um delegado, chamado Nivaldo Rodrigues, diretor da Polícia Civil de Florianópolis, que foi para a TV dizer que, sim, o ato sexual aconteceu, agora ‘se foi estupro ele não pode dizer, porque não estava lá’.
Isto me assusta mais do que a violência propriamente dita.
Porque depois destes dois crimes, que deixou um bebê de quatro meses órfão e uma menina de 13 anos traumatizada para todo o sempre, ainda somos obrigados a constatar o quanto nossa sociedade está com seus valores completamente distorcidos, e o quanto somos machistas e maldosos, cruéis e equivocados, ultrapassados e patéticos.
Somos tão condescendentes com a violência sofrida pela mulher, que crimes desta natureza já se tornaram estatística e não valem mais nem uma notinha de cinco linhas no rodapé do jornal.

A lei não condena o criminoso e a sociedade não perdoa a vítima.

Antes de tudo, é absolutamente necessário que se entenda que NENHUMA MULHER GOSTA DE APANHAR.
A MULHER QUE SOFRE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NÃO É UMA VAGABUNDA SEM VERGONHA.
É UMA VÍTIMA.
UMA VÍTIMA!
Entenderam ou querem que eu desenhe?
E enquanto vítima, ela precisa de proteção e respeito, e não de pedradas e acusações.
Repetirei isso até meu último suspiro.
E também repetirei, sem medo do que possam dizer ou pensar sobre mim, que eu também já fui vítima de violência doméstica.
Também apanhei, também fui ameaçada de morte, perseguida, aterrorizada, humilhada, o caralho.
E não registrei sequer um boletim de ocorrência.
E não o fiz não porque sou uma vagabunda sem vergonha que gosta de apanhar.
Não o fiz porque estava morrendo de medo.
Por sorte – e só por sorte – as ameaças do criminoso que eu chamava, na época, de namorado, não saíram da teoria.
Mas foi sorte minha.
Sorte que Eliza, por exemplo, não teve.
Poderia, sim, ser eu no lugar dela.
Poderia, sim, ser sua filha, sua mãe, sua melhor amiga no lugar dela.
Poderia, sim, ser você, prezada leitora, no lugar de Eliza Samudio.

Todos os dias, dez mulheres são assassinadas no Brasil - um país que, a propósito, é o que mais sofre com violência doméstica no mundo. Aqui, a cada sete segundos uma mulher é agredida em seu próprio lar. A violência doméstica é a principal causa de morte e deficiência entre mulheres de 16 a 44 anos e mata mais do que câncer e acidentes de trânsito. Cinqüenta e um por cento da população brasileira declaram conhecer ao menos uma mulher que é ou foi agredida por seu companheiro. Trinta por cento das mulheres brasileiras com mais de 15 anos já sofreram violência extrema. Entre 25% e 50% das sobreviventes são infectadas por doenças sexualmente transmissíveis. Setenta por cento dos incidentes acontecem dentro de casa, sendo que o agressor é o próprio marido ou companheiro. Mais de 40% das violências resultam em lesões corporais graves decorrentes de socos, tapas, chutes, amarramentos, queimaduras, espancamentos e estrangulamentos. Um levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que cerca de 70% das vítimas de assassinato do sexo feminino foram mortas por seus maridos. Pelo menos uma em cada três mulheres ao redor do mundo sofre algum tipo de violência durante sua vida. Mais de 41 mil mulheres foram assassinadas no Brasil entre 1997 e 2007. *

Após a leitura destes dados, o que dizer?
Que todas estas mulheres são vagabundas que gostam e merecem apanhar?
Não, meu chapa.
Quer dizer que as mulheres são presas fáceis para homens violentos e covardes - homens estes que deveriam estar envelhecendo atrás das grades, e não espancando mulheres dentro de casa, com a anuência de uma sociedade enferma com valores enfermos e, desculpem a generalização, tremendamente estúpida.
Porque, de um modo geral e salvando-se as exceções que, graças a Deus, sempre existem, nossa sociedade é estúpida.
Mil vezes estúpida.
E burra.
Imoral.
Irracional.
Retrógrada.
Estamos no século 21 e até hoje as mulheres vítimas de violência sentem vergonha de falar sobre o assunto porque, se o fazem, correm um sério risco de serem apontadas não como a vítima que são, mas como a culpada, como a responsável por seu próprio martírio.
Precisamos parar imediatamente de defender e proteger o criminoso, e dedicar nosso carinho, atenção e, principalmente, proteção para a vítima.
Eliza Samudio e a adolescente de Florianópolis representam, neste contexto, todas nós, mulheres, inclusive aquelas que nunca sofreram nenhuma forma de violência – mas que continuam sendo mulheres, logo, vítimas em potencial desta sociedade alienada e machista.
Neste exato momento, enquanto você lê este texto sossegadamente no conforto de seu lar doce lar, uma mulher está sendo espancada, quiçá assassinada, bem debaixo dos seus bigodes e sem que você possa sequer perceber.
A vítima é vítima, e por ser vítima não está em condições de se defender sozinha.
Ela precisa de nós.

Eu sei, eu sei.
Nossa justiça é um lixo.
A Lei Maria da Penha, nossa máxima conquista nos últimos mil anos, tem até boas intenções, mas na prática não serve para nada – e a prova é que, há oito meses, Eliza fez um Boletim de Ocorrência por causa das ameaças de Bruno, e todo mundo, mais uma vez, virou para o lado e dormiu com os anjinhos.
O que fazer, então?
Enquanto cidadão, denunciar, denunciar e denunciar, incansavelmente.
E rezar para todos os santos para que nossa magnânima Justiça tome vergonha na cara e faça jus ao nome que têm.
Que prendam esses canalhas antes que eles concretizem suas ameaças.
Porque, na minha opinião, o sujeito que ameaça está a um passo de fazer o que diz que fará.
Não podemos mais pagar para ver.
E, garanto, com cem por cento de certeza: basta que se prenda e condene com maestria meia dúzia de machões covardes para que os crimes contra a mulher caiam pela metade.
A lei não serve para nada se não houver punição.
E a punição nunca será suficiente e justa enquanto nós não aprendermos a diferenciar a vítima de seu agressor.

* Segundo dados da Sociedade Mundial de Vitimologia (www.ipas.org.br); Fundação Perseu Abramo; Site www.violenciamulher.org.br; IBOPE 2006; UNIFEM 2007; Organização Mundial da Saúde (OMS); Anistia Internacional e Instituto Zangari.

07 julho 2010

Uma Carta por Benjamin, resenha.

Pois bem, recebi um exemplar intitulado “Uma Carta por Benjamin" (Editora Multifoco, 138 páginas), livro de estréia da escritora gaúcha Jana Lauxen, e somente numa tarde terminei a leitura. De inicio pensei que a obra se tratava só de um ótimo entretenimento, mas a lê-la, percebi que além da habilidade da Jana de conduzir sua história, ela expõe questões sociais, psicológicas e até filosóficas de forma simples, porém sem deixar de ser relevante. A escritora conseguiu unir diversão e reflexão, de maneira interessante. Dessa forma, faz o leitor possuir uma sensação de que a leitura foi produtiva e divertida, que não foi uma leitura em vão. São esses tipos de escritores que precisamos para fazer jus a nossa geração literária.


E olha que não sou eu nem minha mãe que estamos fazendo tal afirmação.
E sim o Marcelo Vinicius, autor da obra Desafios de uma Mente.
Um rapaz que, além de muito gentil, é exagerado – ah, minha modéstia me impede.
Encheções de lingüiça à parte, o fato é que Marcelo comprou um exemplar do meu livro, Uma Carta por Benjamin, para chamar de seu, leu e escreveu uma resenha bacaníssima, que neste momento está publicada no site do Jornal Feira Hoje.
Recomendo e agradeço.
:)

03 julho 2010

Coletâneas Literarte

O Brasil saiu a copa, mas, acreditem caros amigos da Rede Globo: a vida continua.
Sobreviveremos.
E por isso, desfaçam estes beiços emburrados que eu trago notícias gostosas e quentinhas para novos autores e amantes em geral da literatura.
O Selo Literarte está com as inscrições abertas para três coletâneas com temas pra lá de bacanas.
Entenda:
Uma é só de HQs.
Por isso atenção quadrinistas, roteiristas e Cia. Ltda.: agora vocês poderão ter suas histórias em quadrinhos publicadas em uma coletânea incrível, organizada por ninguém mais ninguém menos que o grande Sergio Chaves, editor da premiada revista Café Espacial e indicado como Roteirista Revelação pelo Troféu HQMix 2010 (premiação considerada o Oscar brasileiro dos quadrinhos).
A coletânea Quadrinhos em História é a primeira antologia de HQs da Editora Multifoco, e vai reunir em um livro 25 histórias em quadrinhos versando sobre os mais variados temas.
Aqui está o linque do blogue oficial da coletânea, e lá você vai encontrar todas as informações que precisa.
Ademais, qualquer dúvida que restar é só escrever para quadrinhosemhistoria@gmail.com (com Sergio) ou para literarte@editoramultifoco.com.br (comigo).

A outra coletânea, Crônico!, será de crônicas ilustradas e está sendo organizada pelo escritor e editor Beto Canales.
O tema é livre e todos os textos serão ilustrados.
Restando dúvidas, escreva para coletaneacronico@gmail.com (com Beto) ou para literarte@editoramultifoco.com.br (comigo).

E como se não bastasse isso tudo de boas novas, eu e o escritor Jovino Machado estamos organizando a coletânea Literatura Futebol Clube que, como o nome já diz, reunirá crônicas, contos e poesias sobre futebol.
E, naturalmente, será ilustrada também.
Este é o blogue e este é o e-mail para contato: literaturafutebolclube@gmail.com.

Nem preciso dizer que, desde já, todos vocês estão super convidados para enviar seus textos e HQs, preciso?
O esquema é o de sempre: nenhum autor selecionado paga nada para participar das coletâneas.
Cada um receberá em casa, por consignação, 15 exemplares do livro, tendo, a partir da data de entrega, 30 dias para sua comercialização e ainda ficando, sob o preço de capa, com um lucro de 30%.
Para quem não sabe, consignação é um procedimento de venda no qual o risco é do fornecedor (no caso, a Editora Multifoco), que disponibiliza para o empresário-vendedor (no caso, os autores selecionados) uma determinada quantidade de produtos (no caso, livros), com margem previamente definida, e cujo acerto é realizado em data acordada.
Isto significa, resumidamente, que: se por acaso você não conseguir comercializar seus exemplares no prazo estipulado, basta que reenvie os livros que não conseguiu vender para a editora ou renegocie um novo prazo.
Assim mesmo, fácil, prático, sem multas e sem problemas.
Só não participa quem não quer.
Qualquer dúvida, sugestão, convite ou palpite furado, não deixe de entrar em contato: literarte@editoramultifoco.com.br  
Fico no aguardo, e aquele abraço!