15 dezembro 2010

Jana vive.

Muita gente me escreveu (mentira, foi só uma meia dúzia) perguntando se eu havia desistido da vida ou, pior, do meu blogue.
Não, gente amiga, não desisti nem da vida nem do blogue. Apenas descobri recentemente uma vida bela e interessante para além das fronteiras da internet, e tenho me dedicado com afinco e ternura a ela.
E enquanto eu me dedicava com afinco e ternura a vida real, muitas coisas aconteceram. Coisas que, sem dúvidas, mereceriam minha atenção e, quiçá, um texto com muitos caracteres neste blogue opinativo, porém sem pretensão, mas que deixei passar, pensando: amanhã eu escrevo, amanhã eu posto, amanhã eu vejo como faço. E acabava não escrevendo, nem postando, nem vendo como fazia porcaria nenhuma.
Acontece que hoje acordei e decidi pedir para a vida real aguardar alguns instantes na sala de espera, porque eu estava com um pouquinho (só um pouquinho assim) de saudade da vida virtual. Por isso, ofereci para ela um cafezinho com bolinhos e disse que já voltava.
E cá estou.
Como falei, muitos assuntos merecedores de atenção aconteceram nestes dias em que fiquei fora daqui e dentro dali, e por isso, claro, terei de ir por tópicos.
Para não virar bagunça, sabe como é.

Prêmios Literários e Whiskas Sachê

Aconteceu que, para variar, o Chico Buarque levou todos os prêmios literários que existiam e, até mesmo, os que não existiam. A Editora Record, que não publica o Chico Buarque e por isso mesmo ficou ofendidinha, largou um comunicado avisando que, a partir do ano que vem, não irá mais inscrever seus livros no Prêmio Jabuti, já que, de antemão, é o Chico quem leva tudo. Ok, o argumento não foi exatamente este, mas enfim. Não pude evitar um sorrisinho brejeiro e discreto no canto da boca quando li esta notícia. E nem é porque eu, enquanto mais uma nova autora no meio de uma multidão de novos autores, nunca ganhou absolutamente nada, mas porque enquanto leitora, vejo sempre os mesmos escritores abocanhando os mesmos prêmios, o que, lá pelas tantas, dá um tédio. Nunca havia me manifestado a este respeito para não parecer ranço de autor coitado que nunca ganhou nem bom dia de prêmios literários, mas depois que a Record resolveu reclamar, pensei que, afinal, eu não era uma autora amargurada cheia de ressentimento. Para variar eu estava certa, e há, sim, alguma coisa fedendo aqui.
Percebam: nada contra o Chico. Gosto de algumas de suas músicas, apesar de achar que, de um modo geral, ele é superestimado. Superestimado como cantor, como letrista, como bonitão. Agora, em nenhuma categoria ele é mais superestimado do que como escritor.
E antes que vocês comecem a gritar e a atirar pedras na Geni, respondam a esta pergunta: você já leu algum livro dele? Isto é, você conseguiu tamanha proeza? E gostou? Se sim, mande um e-mail que eu vou lhe mandar uma lembrancinha de natal, e você será considerado por mim meu mais novo herói.
Eu li quatro páginas de Budapeste, e depois que acordei sentada no sofá com o livro no colo e dor na nuca, atirei o livro na lixeira, horrorizada. Minha mãe, que é uma guerreira, pegou o livro do lixo e leu. Leu até o fim. Depois que acabou, ela mesma atirou o livro na lixeira, em lágrimas, pensando no tempo que perdeu lendo aquele troço. “Poderia estar lavando louça”, foi seu comentário mais sutil.
O fato é que eu conheço pelo menos trezentas pessoas que escrevem melhor que o Chico. Porém, é o Chico quem abocanha todos os prêmios. E por quê? Ora, porque Chico tem uma coisa que falta a estas outras trezentas pessoas: ser o Chico Buarque. Afinal, só o Chico é o Chico. E Chico dá ibope, Chico aparece na TV, Chico traz credibilidade. Chico é celebridade. O resto é o resto.
Se, ao invés de Chico Buarque, fosse o Manoel da Silva quem tivesse escrito Budapeste, ninguém sequer saberia que houve, um dia, um livro chamado Budapeste.
A propósito, tenho uma história sobre o Chico. A Universidade de Passo Fundo, d'A Terra Onde Não Nasce Grama, promove, a cada dois anos, um charlatanismo literário grosseiro chamado Jornada Nacional de Literatura (leia o que eu penso sobre isso aqui). Em 2005, Chico, para variar, levou o Prêmio Zaffari Bourbon de Literatura, que pagou pra ele a bagatela de 100 mil reais. Chico chegou a Passo Fundo em avião próprio, pegou seu cheque, deu tchauzinho pra galerê e foi-se embora. Tudo em cinco minutos. Mas passou no Jornal Nacional, e só isto já valeu o investimento dos cem mil, né Tânia Rösing?
Eu acho meio perda de tempo e dinheiro participar destes prêmios e, assim como a Record porém por outros motivos, já sai de fininho e sem traumas faz tempo. Primeiro porque, à exceção de um ou de outro, a inscrição é caríssima. Você paga para participar da seletiva sabendo de antemão que não levará nada. E depois ainda precisa lidar com a frustração e com o rombo financeiro. E sabe quem fica com o seu suado dinheirinho de novo autor que mal ganha para pagar a garapa?
Ele mesmo: o Chico Buarque.
Não, obrigada.

Invasão de favelas no Rio de Janeiro

Eu achei de uma beleza rara.
Claro que muitos chatos que vivem enfiados no apartamento da mamãe comendo pão com mortadela falaram muitas bobagens a este respeito, mas ignoremo-los e nos concentremos no que de fato interessa: a polícia brasileira, finalmente, mostrou para todos nós que, não, o poder paralelo e o crime organizado não são nem tão paralelo e nem tão organizado assim. Bastou que alguns fardados altamente aparelhados subissem morro acima para que os grandes e perigosíssimos bandidões fortemente armados fugissem que nem donzelas assustadas para debaixo da cama.
Agora, é claro: não adianta armar o circo, fazer o espetáculo e depois ir embora chupando um pirulito de uva. Mas não creio que farão isso. Que essas unidades de polícia pacificadora (UPPs) possam, de fato, fixar residência não somente na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão, mas em todas as favelas do Brasil, e fazer o trabalho pelo qual são pagos para fazer: pacificar. Sim, porque não adianta passar o poder déspota e violento dos bandidos para as mãos dos policiais, e continuar mantendo a população subjugada e com medo.
Ok, nisso todos concordamos.
Mas o que eu considerei particularmente excepcional nesta história toda foi a total inversão de papéis. Quero dizer, a total reestruturação de papéis, porque inversão havia quando o bandido era herói e o herói era bandido. As crianças e jovens das favelas, que cresceram achando vagabundo violento seu modelo de vida, agora terão pelo menos a chance de perceber que eles não passam de ratos assustados e despreparados segurando bodoques. Com a entrada da polícia, esta meninada terá a oportunidade de se espelhar em um outro personagem, até então desprezado, achincalhado e ridicularizado por quem está dentro e fora da favela: a polícia. Que, teoricamente, está dentro da lei. Que, teoricamente, é do bem.
Talvez, desde que eu nasci (e lá se vão 26 anos) tenha sido esta a primeira vez que olhei para a polícia com olhos ternos.
E eu não devo ser a única.
Beijo, seus lindos!

Inter perde Mundial

Pois é.
Perdemos.
Um jogo sofrível e triste, que quando acabou me fez derramar lágrimas sentidas.
Mas tudo bem, a vida segue.
Porém eu, que não sou tão boba quanto poderão supor os mais incautos, tenho dois truques para defender minha integridade e serenidade em ocasiões como esta.
São eles:

TRUQUE 1: não pisotear seu rival quando seu time está por cima. Este é o ponto fundamental e mais importante. Por quê? Porque quando você e o seu time estiverem por baixo (como, no caso, agora) seu rival não terá o direito nem a legitimidade de vir pisotear você. Claro, não é fácil, e a vontade de tocar uma cornetinha no ouvido do adversário quando estamos numa boa é latente. Mas precisamos nos segurar, justamente porque futebol é uma caixinha de surpresas e nunca se sabe o dia de amanhã. De uma hora para outra tudo muda e aí. Bom, aí você não vai querer alguém jogando álcool e sal em cima das tuas feridas. Ou vai?
Quando ganhamos a Libertadores, Deus sabe o esforço que fiz para comemorar sem desmoralizar ninguém, especialmente meus amigos irritantes e gremistas. Foi difícil, mas mantive-me caladinha, comemorando o lindo título de canto e sossegada. Bem que fiz, porque caso contrário, agora, além da dor incomensurável de ver nosso bi mundial descer ralo abaixo tal qual um xixicocô, ainda precisaria agüentar mil gremistas enchendo meu santo saco, e tornando meu luto ainda pior e mais dolorido.
O raciocínio é simples e óbvio: se você não quer ser corneteado, não corneteie. É ruim quando estamos por cima, mas sensacional quando estamos por baixo.
Ah, sim. É claro que existem os sem-noção, que vem encher teu saco mesmo você não tendo enchido o saco deles quando poderia fazê-lo. Mas com estes a gente acaba na moral:

- Presta atenção, ô (insira aqui o nome do corneteiro): se você quiser vir me azucrinar, venha, mas antes lembre-se de que, há bem pouco tempo atrás, quando teu time estava na zona de rebaixamento e o meu era campeão da Libertadores, eu não te azucrinei, respeitei tua dor e fiquei na minha, como manda as regras de civilidade e boa vizinhança - que eu, diferentemente de você, conheço. No entanto, apesar da consideração que tive contigo, vejo que você não tem a menor consideração comigo, e isso me faz ver que você não passa de um cretino que não merece sequer minha amizade e consideração. Não porque torce para o Grêmio ou para o Corinthians, mas porque está aporrinhando talvez a única pessoa que lhe poupou do ridículo, quando você e o seu time estavam em uma situação, no mínimo, ridícula. Lamento pela sua falta de maturidade e discernimento. Me esqueça e tchau.

Decorem este parágrafo e larguem para quem estiver te flauteando com os olhos marejados e a expressão séria. Funciona. Garanto.

TRUQUE 2: Outra maneira importante de defender sua integridade e serenidade após seu time afundar-se no lodo da derrota é desligar a TV, não ler o jornal e, sob nenhuma hipótese, acessar o twitter. O motivo é simples: na TV, todos os programas estarão falando da sua derrota, mostrando detalhes, lances, fazendo comentários, e isto só servirá para reavivar sua dor. É tortura. Quando nos machucamos, colocamos um curativo sob o machucado, e não saímos por aí permitindo que qualquer desocupado coloque os dedos imundos em nossa ferida e a chafurde, correto? Vale o mesmo para estes dias de pós-derrota.
O jornal, idem. Queime-o. Dê para o seu cachorro despedaçá-lo e o agradeça em seguida dando um biscoitinho sabor carne.
E o twitter, bem. Este é o pior. Ali se concentram todos os flauteadores, e eles não medirão esforços para colocar no TT definições humilhantes e sofríveis a respeito do teu time. O que lhe fará ter desgostos, perder amigos e cogitar da hipótese de dar unfollow até mesmo em parentes próximos. Evite o calvário.
Hoje, por exemplo, estou escrevendo este texto, depois lavarei roupa e louça, e lerei um livro, assistirei o Vale a Pena Ver De Novo e visitarei minha vizinha que odeia futebol e faz o melhor bolo de milho com café preto do condado.
E se você é colorado, sugiro que faça o mesmo.

Agora, ainda sobre o Inter, é imprescindível que eu diga uma coisa: não importa se ele perdeu o Mundial. Nos anos 90 eu tinha 10 anos e meu time não ganhava nem par-ou-ímpar e nunca - eu disse NUNCA - pensei em torcer para outro time ou me envergonhar do colorado. Eu amo o Inter, mesmo que ele caia para a vigésima nona divisão. E isto é o mais importante. Se eu estivesse em Porto Alegre, creia-me: iria ao aeroporto fazer festa para recepcionar os jogadores e agradecer pela tentativa. Sim porque, para perder um Mundial de Clubes, é preciso primeiro disputar um Mundial de Clubes, e para disputar um Mundial de Clubes é preciso antes ganhar uma Libertadores da América, e para ganhar uma Libertadores da América é preciso ser, no mínimo, um grande time. E o Inter é um grande time, gostem vocês ou não. E nem sou eu quem diz. É a FIFA.
Ademais, não se ganha sempre, e qualquer pessoa com dois neurônios sabe disso. E mesmo que nunca mais disputemos nada de importante, nada vai me separar do meu colorado, que eu amo e respeito de corpo, alma e coração.
Não importa o que digam.
Minha camisa vermelha eu levo comigo, até para a vigésima nona divisão.