27 setembro 2010

A Prepotência dos Novatos.

Lembram?
Pois agora estou aqui novamente para falar em prepotência; porém não dos veteranos.
Não!
Falo de uma prepotência ainda mais cômica, ainda mais trágica, ainda mais revoltante e sem fundamento: a enorme, abissal e espantosa prepotência dos novatos.
Uma prepotência sem pé nem cabeça, sem eira nem beira, mas que existe aos litros, aos quilos, aos balaios, espalhada entre criaturas que acreditaram piamente quando a mamãe disse, certa vez, que eram muito talentosas e por isso mereciam estar ricas.
Já passei por isso mil vezes, e admito que meu saco, que já não é lá essas coisas de espaçoso, está cada vez mais cheio e saturado.
Porém, para que este post não pareça propaganda subliminar das coletâneas que organizo, utilizarei num primeiro momento outro exemplo, que igualmente cai como uma luva para ilustrar esta questão.

A Revista Trip lançou uma espécie de promoção, chamada Trip Colaborativa. Funciona assim: você pode enviar para eles fotos, textos e ilustrações dentro dos temas propostos, e corre um sério risco de ter seu trabalho publicado na edição da revista de outubro. Para saber mais, você pode clicar aqui.
Eu achei a idéia absolutamente sensacional.
Afinal, quando leitores anônimos e produtores de arte de todo o Brasil teriam a enorme oportunidade de terem seu trabalho publicado numa revista do porte, do renome e da significativa tiragem mensal da Trip?
Porém, podem conferir nos comentários que constam no link que deixei logo acima: milhões de novatos insuportáveis resmungando sem parar.
Me dei o trabalho de separar aqui alguns dos descalabros:

Leitor  20/08/2010 21:15:47 resposta / citação

Muito fácil investir em jornalismo colaborativo fazendo o povo trabalhar de graça. Se a Trip quer sempre ser diferente, deveria pagar pelos trabalhos publicados.

Justo 29/08/2010 20:05:10 resposta / citação

É bem triste ver que enquanto uma grande quantidade de profissionais da comunicação, do texto e da imagem, batalham duro para conquistar respeito e os direitos sobre o uso de suas criações, há veículos da mídia usando o disfarce de "vanguarda colaborativa", e se aproveitando de jovens e de amadores inexperientes. Quem trabalha ou já trabalhou para a mídia, sabe muito bem que é o conjunto das nossas criações que faz um veículo vender, e é disso que se trata a revista. A TRIP é uma EMPRESA, não é um coletivo. A TRIP é uma revista feita com o objetivo de gerar lucro, e não para distribuir oportunidades! Vender nas bancas e vender anúncios são suas metas! Acordem aí crianças! E NADA é mais justo e digno do que você receber pelo seu trabalho. Se a TRIP quer abrir espaço para novos colaboradores, está ótimo, vamos todos participar e apresentar nossos trabalhos, e receber por isso, certo? Ou então podemos montar este lindo trabalho coletivo e colaborativo: a gente entra com a criação, artes, fotos, textos e a TRIP com a impressão e a "grife". Só que aí distribuiremos gratuitamente, ou a preço de custo, os exemplares, e fica justo para todos. Que tal? Me deu uma enorme vergonha de ver a TRIP se prestando a isso, é realmente lamentável.

Primeiro: repare que ambos os autores destes dois comentários que selecionei não assinaram seu nome.
Esta é a primeira característica dos novatos prepotentes: dar o tapa e esconder a mão. O que lhes confere o direito de falarem e ofenderem a vontade, ao seu bel prazer, sem que nada respingue nas suas caras de pau.
Segundo: a TRIP não está obrigando ninguém a participar, de modo que, se você achou a proposta injusta ou duvidosa, é simples. Não participe.
Terceiro - e isso é muito importante: se você acredita que seu trabalho mereça ser remunerado, maravilha, ótimo, lindo, sensacional! Mas... e ele é? Quero dizer, alguém já se propôs a lhe pagar, ou você está mal e mal dando os primeiros passos e deveria saber que precisa mais de divulgação do que de dinheiro?
Já disse e já cansei de repetir: se você acha que a proposta da Trip é cruel, desonesta e maldosa, sente e espere o dia em que a revista vai te ligar oferecendo um cheque cheio de zeros pelo teu trabalho.
HEY pessoal!
Acordem.
Vocês NÃO SÃO o Paulo Coelho, nem o Angeli, nem o J.R. Duran e nem ninguém que valha, por hora, um cheque cheio de zeros.
Aliás, ninguém, além da sua mãe e da meia dúzia de amiguinhos que acessa seu blog sabe quem você é, portanto, baixe a bola.
No entanto, se já pagam pelo seu trabalho cheques cheios de zeros e se mais pessoas além da sua mãe e dos teus amiguinhos conhecem teu blog, então provavelmente a proposta da Trip não é para você.
Entenderam ou querem que eu desenhe?

Vejam bem, caros leitores: sou super contra trabalhar de graça. Até porque, até onde me lembro, a escravidão terminou em 1888 depois que uma tal de Isabel assinou alguns documentos.
Porém, não sou burra o suficiente para acreditar que, logo de cara, estarei, enquanto a escritora novata que sou, recebendo propostas altamente rentáveis de editoras e revistas consagradas, sendo que ninguém, além da minha mãe e da meia dúzia de amiguinhos que passa no meu blogue, sabe quem eu sou.
Eu tenho essa noção e, graças a Deus, isso já me salvou do ridículo mais de uma vez.
No entanto, algumas pessoas caem no conto do vigário e acreditam que, porque tem 200 seguidores no blogue e 400 no twitter, são fenômenos da arte moderna no Brasil.
Preciso rir para não chorar.

Mas, verdade seja dita: nem todos os novatos são prepotentes.
E digo mais: acho que uma minoria o é.
Porém é justamente esta minoria que torna impraticável que veículos, pessoas e editoras tenham vontade de oportunizar quem está começando.
Esta minoria é tão chata que vale por mil.
E agora sim falarei do meu caso específico com as coletâneas que organizo e com o selo Literarte.
Estou super a fim de largar tudo.
Verdade.
E possivelmente farei isso em breve.
Sem dúvidas agradecerei eternamente a confiança que a Multifoco depositou em mim, e também o carinho e o profissionalismo de muitos escritores e ilustradores e fotógrafos, que mostraram que existe esperança para o amanhã, mas.
Por exemplo: recentemente fui obrigada a ler um verdadeiro tratado de imbecilidade no blog de um dos autores da coletânea Assassinos S/A que, além de não comercializar os 15 exemplares que recebeu por consignação, também não os devolveu à editora, e ainda assim se sentiu no direito e na razão de falar mal da coletânea, da Multifoco e, de quebra, de mim. Tudo porque, segundo sua primorosa opinião, nós cobramos para publicar, e pagar para ver seu trabalho publicado é ‘indigno’.
Enfim, nem vou repetir pela milionésima vez que a Multifoco nunca, jamais, em nenhum momento, cobrou para publicar nenhum de seus autores, e que os livros são entregues em consignação e que se você não sabe o que é consignação trate de comprar um Aurélio e descobrir.
Aí eu me prestei (eu sempre me presto) a ir até este dito post e escrever ao dito autor, explicando o que ele já deveria estar careca de saber quando assinou o contrato.
E ele respondeu que, sim, a Multifoco cobrava, pois afinal ele teve que pagar 20 reais de frete.
20 reais de frete!
De fato, o frete do envio fica por conta do autor, mas se nêgo não está disposto a pagar o frete para ter seu livro em mãos, então ele merece nunca ser lido por ninguém.
E mais: quando este autor assinou o contrato, sabia que deveria arcar com os custos do porte, então quer dizer.
Vai empilhar coco em descida.

Muitos escritores que hoje estão ganhando dinheiro com o que escrevem começaram pagando por sua primeira publicação. A Multifoco nem isso cobra. Custeia toda a produção do livro, que passa por revisão, diagramação, impressão e um monte de trabalho que custa um monte de dinheiro, e tudo o que o maldito novo autor precisa fazer é tentar – eu disse TENTAR– vender seus exemplares.
E não são mil exemplares.
São 15, 30, 50.
Mas não!
Os bonitos acham injusto, pois, aonde já se viu eu, LOGO EU, o Grande Autor, me humilhar vendendo exemplares do meu próprio livro?
Pois vou te contar uma novidade, ô Grande Autor: ninguém sabe quem você é e, honestamente, ninguém se importa.
A Cia. das Letras nunca vai publicá-lo nem investir dinheiro em você, porque o seu nome ainda não vende, porque o seu nome ainda é somente mais um nome na multidão.
NO ENTANTO, calma, não se desespere: com o passar do tempo e muita divulgação, paciência, determinação e mais divulgação, isso muda, mas por hora ninguém vai lhe pagar para lhe divulgar, entendido?
Só que aí você diz isso para o cretino do novo autor e ele se ofende!
Sim, porque ele ainda acredita, ingenuamente, estupidamente, que as editoras vivem de amor e beijinho.
Não entendem que livros são um produto, e a Cia. das Letras publica o Julio Verne apenas e tão somente porque meio mundo sabe quem é o Julio Verne e por isso o Julio Verne VENDE e cobre as despesas de publicá-lo e divulgá-lo!
Ok.
Vamos em frente.
Então eu tive a idéia de organizar, ao lado do Sergio Chaves, a primeira coletânea de HQs da Editora Multifoco, a Quadrinhos em História, oportunizando, de maneira inédita, que novos quadrinistas, roteiristas e ilustradores tivessem seu trabalho publicado profissionalmente.
Confesso: na ingenuidade, achei a idéia super boa. Pensei que todos iam gostar, até porque, ainda não soube de outra editora que oportunizasse, além de escritores, quadrinistas a publicarem seu trabalho numa coletânea, junto de outros artistas do mesmo ramo.
Seria super bacana, certo?
Errado.
Serginho enviou para um site um release de divulgação da seletiva e o resultado foi desastroso.
Apareceram milhões de comentários furiosos porque, além de não pagarmos um rio de dinheiro para que tivessem suas magníficas histórias em quadrinho publicadas, ainda pedíamos que os autores tentassem vender sua consignação de 15 exemplares, ORA, ONDE JÁ SE VIU, NÃO SOMOS PALHAÇOS BLABLABLA.
Mais uma vez, eu e minha santa paciência fomos até os comentários e deixamos lá uma enorme explicação, que dizia basicamente para todos se acalmarem e pararem de gritar, que ninguém era obrigado a participar, e que se todos achassem que seus trabalhos mereciam remuneração mais do que divulgação, então que não participassem, BEIJO!
Foram linhas e linhas para explicar o óbvio.
E não adiantou porcaria nenhuma.
Um dos brilhantes comentaristas chegou a dizer, com tremenda má educação, que Fábio Moom e Gabriel Bá, talvez os maiores quadrinistas brasileiros da atualidade, iriam se estapear para publicar na nossa humilde coletânea.
GENTE!
É claro que Gabriel e Fábio sequer tomarão conhecimento da nossa coletânea, porque milhares de editoras e revistas dariam a bunda para tê-los em suas páginas.
Mas e você?
Além da sua mãe e dos teus amiguinhos virtuais, quem mais daria a bunda pelo teu trabalho?
Foi o que pensei.

O fato é que tudo isso me cansou sobremaneira.
Porque, enquanto eu estou explicando o óbvio ululante para gente que não enxerga um palmo na frente do nariz, e enquanto estou me matando e perdendo meu tempo organizando coletâneas e viabilizando oportunidades para quem não as têm (como eu, um dia, não as tive), eu poderia era estar escrevendo meu segundo livro, que está parado, ou publicando em meu blogue, que está desatualizado, ou conversando com o meu marido enquanto tomo uma cerveja e sou feliz.
Não tolero a prepotência de caras como o Paulo Coelho – que já comprou um castelo na França, de tantos livros que já vendeu – vou agora tolerar a prepotência do fulaninho de tal, que eu nem sei de qual buraco saiu?
Não, não vou.
E se você se acha um grande gênio incompreendido, vá abrindo o olho, meu amigo, porque de grandes gênios incompreendidos o inferno, o céu e a terra estão cheios.
E agora vai atender ao telefone, que deve ser a Editora Globo implorando para que você assine com ela sua próxima publicação.
Beijo, seliga.