11 setembro 2010

O Mal Menor

Falar sobre política é complicado.
Escrever sobre política então.
Complicadíssimo.
Afinal, trata-se de um terreno bastante delicado, onde qualquer palavra mal colocada pode significar uma interpretação completamente errônea da pretendida pelo autor.
E, a bem da verdade, a política é apenas um, dos muitos assuntos onde é melhor se calar e mascar um chiclete de hortelã, visto que o debate torna-se impraticável perante uns e outros militantes extremistas - mais comuns do que parecem e deveriam ser.

Falar sobre política é igual falar sobre futebol.
Não importa o argumento, você jamais convencerá o seu rival de que seu time é melhor ou maior do que o dele.
Religião, idem. Pegue um fanático religioso, conteste-o e prepare-se para horas de argumentação passional, que não te convencerá do mesmo jeito que você não o convencerá, independente dos argumentos lógicos e cientificamente comprovados que por ventura se utilize.
O fanático, seja qual for o alvo de seu fanatismo, além de cego é persistente.

Mas, relevemos, já que todo mundo tem o direito de torcer e ter fé naquilo e por aquele que bem entender, moderada ou imoderadamente.
Não admito nenhuma forma de fanatismo, mas nestes dois específicos casos ainda o justifico, já que futebol e religião estão muito mais ligados a emoção, a paixão, e menos, muito menos ligados a razão.

Agora, política é outra história.
Não pode ter fanatismo, idolatria que ilude, que emburrece, que aliena.
Poucas coisas mereceriam mais lucidez e sobriedade de nós, cidadãos, do que quem serão, afinal de contas, os caras que comandarão o nosso país (e tudo que vem dentro dele, incluindo nós) pelos próximos quatro anos.
Mas, calma, querido leitor, não farei aqui um discurso pedagógico sobre a importância da democracia e etc. Muito menos farei propaganda dos candidatos nos quais pretendo votar; até porque, nem os defini ainda.
O que pretendo com este texto é dar minha opinião honesta sobre um assunto que é sempre delicado e passível de interpretações equivocadas, e por isto esta introdução extensamente explicativa.
Talvez, e provavelmente, vocês me digam que travesti meu posicionamento político de palavras engomadas e na verdade acabei deixando bem claro de qual lado estou.
E é preciso que, antecipadamente, compreendam que não estou, mesmo, de nenhum lado.
Sou apenas mais uma na multidão que deixou de enxergar a política com olhos otimistas e crédulos, e por motivos óbvios.
Acho que todos – TODOS – os candidatos são sujos.
Uns mais, uns menos, todos são.
Exagerada?
Pode ser, mas não dá para acreditar que uma maça se mantenha íntegra numa cesta de maças podres.
Votarei, sim, naqueles a quem considerar ‘menos piores’.
E para tomar esta decisão, enumerei aquilo que penso sobre a política e minha função enquanto eleitora, requisitos nos quais me basearei na hora de fazer minhas escolhas.
Aqueles que chegarem o mais perto das minhas convicções, levarão meu voto, mesmo que o mais perto seja ainda muito longe.

Um.

Não há bem maior e mais precioso para uma nação do que a liberdade de expressão.
Este é o primeiro e sem dúvidas o mais importante xis da questão.
A falta deste direito tão básico é o estopim para a deflagração de um sério e talvez duradouro sistema de tirania, opressão, pobreza e muito mais corrupção do que nosso congresso jamais foi capaz de imaginar em seus muitos anos de história.
Censura não é uma palavra longínqua que se perdeu em meados dos anos 80.
Ela está sempre à espreita, e a menor brecha, chega chegando.
Assim sendo, fique atento aqueles detalhes que os candidatos não costumam mencionar em suas propagandas.
O que não é dito, geralmente, é o que mais diz.
E por falar em propaganda.

Dois.

Propaganda política não deveria sequer se chamar propaganda.
Propaganda sempre terá um quê de falso, pois é sabido que sempre engrandecerá as qualidades – quando não as inventará – e sumirá, como num passe de mágica, com os defeitos.
Vale para detergente, sapato, xampu ou pessoas.
Porém, no caso de detergentes, sapatos, xampus e demais produtos inanimados existem órgãos fiscalizadores, e geralmente quando um destes produtos não cumpre com o que prometeu, pode facilmente ser denunciado, ressarcido, trocado.
O mesmo não acontece com um candidato a cargo político.
Pelo menos o procon e o conar não costumam se posicionar perante este tipo de propaganda enganosa.

A verdade é que candidato não tem que fazer propaganda.
Tem que apresentar idéias, soluções, alternativas, tudo muito sóbrio e viável, sem jingle e sem frescura.
O eleitor precisa, urgentemente, entender que músicas bonitinhas, sorrisos fartos e grávidas caminhando rumo ao horizonte é truque ordinário para encher lingüiça - e esconder aquilo que realmente importa: propostas. Não promessas.
Por isso, desconfio declaradamente de políticos que ou prometem, ou - pior ainda - cumprem as suas delirantes promessas e tiram do papel suas estrambóticas e quase obscenas idéias - tudo ao custo do nosso suado dinheirinho.
Por exemplo.
Houve um candidato, na cidade onde nasci, Carazinho - RS, que prometeu certa vez reativar a linha de trem que liga Carazinho à Passo Fundo, alguns poucos quilômetros de distancia.
Assim, a população poderia viajar a preços módicos, apreciando a linda paisagem gaúcha destas plagas verdejantes.
Sensacional, não?
Não.
Porque isso é estrambótico e obsceno, além de desnecessário.
Naturalmente - e graças a Deus - o projeto ficou na promessa extravagante de eleição.
Porém, há aqueles políticos que fazem o pior e cumprem os descalabros que prometeram enquanto ainda arrecadavam votos.
O que significa jogar pelo ralo (e dentro das cuecas e meias de alguns) quatro meses por ano de nosso trabalho & ordenado.
Tudo para apreciar a linda paisagem gaúcha destas plagas verdejantes.
E, entendam: apreciar a linda paisagem gaúcha destas plagas verdejantes é realmente bacana, desde que, antes disso, possamos ter, quem sabe, saneamento básico.
Mas que político vai querer fazer saneamento básico?
Ninguém vê o saneamento básico, mas o trem inútil todo mundo vê, e fala, e elogia, e anda e acha incrível.
O que nos leva ao item seguinte.

Três.

- Ok, mas como você pretende fazer isso?
Esta é a pergunta que não quer calar.
Sim porque, acho maravilhosas as propostas, e honestamente adoraria que pudessem ser colocadas em prática.
Mas... como?
Falam em mais saúde, mais educação, mais estradas, mais escolas, mais casas, mais cultura, mais incentivo, mais empregos, mais, mais, mais. Muito mais.
Genial.
Falam em salário mínimo de 2500 reais, e redução da carga horária, reforma agrária, trabalho e terra para todos.
Ótimo.
Porém, preciso saber de que jeito o candidato pretende colocar tantas promessas em prática.
Interpreto esta conversinha de mais isso mais aquilo, sem explicar de que jeito, como o casal de namorados nos primeiros encontros.
Todo mundo é perfeito, e honesto, e abnegado, e trabalhador, e muito mais do que jamais se ousou sonhar.
- Vou te dar o céu, meu bem.
O resto da história vocês já sabem.

Quatro.

Não faz mais nenhum sentido essa bobagem de esquerda versus direita, pobre versus rico, trabalhador versus patrão, favela versus zona sul.
Gente!
Não sei se já perceberam, mas estamos no mesmo barco.
Na mesmíssima canoa – e suspeito eu que ela esteja furada.
Não existe lado direito nem esquerdo; existe lado certo.
E é deste lado que devemos estar.
Diga-me o nome de um único partido político onde não haja candidatos envolvidos até as tripas com as mais diferentes fraudes e corrupções.
Unzinho só.
Pois é.

Cinco.

Outro grande (e bem mais complexo, intrincado e embaraçoso) problema é o populismo.
O assistencialismo pode se tornar extremamente perigoso, se ultrapassar a linha tênue que o separa do comodismo.
Entendo que existam pessoas abaixo da linha da pobreza, passando toda sorte de infortúnios, inclusive e principalmente fome, e quem tem fome tem pressa e isso é indiscutível.
Na minha visão, precisamos sanear imediatamente as necessidades mais primárias de todos os cidadãos, mas não podemos deixá-los lá, um pouquinho acima da linha da miséria, apenas não passando fome.
Não queremos só comida.
Não precisamos de papai e mamãe passando a mão em nossas cabecinhas e nos dando papinha na boquinha.
Filhos mantidos embaixo da saia dos pais geralmente se tornam adultos limitados, dependentes, submissos, condicionados, que não fazem nada sozinhos.
O populismo gera este comodismo alienante e perigoso, e em massa.
Mas o pior é que, depois de implantado, torna-se difícil, senão impossível, removê-lo.
Pois, para quem passava fome, ter deixado de passar já é uma grande coisa, e está bom assim.
E como vivemos em um país de terceiro mundo, altamente subdesenvolvido e afundado em pobreza e miséria, com dez por cento da população analfabeta e outros nem sei quantos por centos sabendo assinar o nome, mas sem capacidade de compreender o que estão assinando, algumas migalhas mantém cativo o voto de milhões, que apenas e tão somente deixaram de passar fome.
O populismo gera e alimenta a pobreza.
E como uma peste, é muito, muito difícil de ser definitivamente erradicado.

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Não votarei em branco e nem no Tiririca achando que, assim, estarei protestando. Aliás, nem sei como tem gente que ainda pode acreditar em tamanha estupidez.
E como em política não há melhores, mas sim ‘menos piores’, que possamos optar dos males os menores.
Precisamos, antes de tudo, ouvir a maneira como os candidatos estão se apresentando para nós, e definir claramente quais são os nossos critérios de avaliação.

Não tenho intenção, com este texto, de impor qualquer ideal político pessoal, nem convencê-los de nada.
Penso apenas que, enquanto cidadãos racionais, precisamos saber o que queremos de um candidato, o que é que, afinal, estamos procurando.
Caso contrário, nunca saberemos quando encontrarmos.
Também seria ideal se conseguíssemos enxergar os candidatos sem pré-julgamentos, de ouvidos e coração aberto para escutá-los, sem, no entanto, cobrir-lhes com o manto antecipado da tragédia e tampouco da salvação.
É pedir demais?
Talvez, neste momento, seja sim.
Como disse anteriormente, no decorrer do tempo perdi - e perdemos - o elemento fundamental para que uma sociedade tenha ânimo para se interessar verdadeiramente pela política com a seriedade que ela merece: falta-nos fé.
E, tal e qual num casamento, quando acaba a confiança acaba-se tudo.
E já que não podemos pedir divórcio de nosso país e de seus políticos, repito: que possamos optar pelo mal menor.
O poder é do povo. Sempre foi. Somos nós quem elege quem estará de terno e gravata assinando papéis que definirão nosso futuro, e por isso não podemos ser passionais, partidários, individualistas e, principalmente, bocós.

Portanto vamos agarrar o pouco que resta de nossa fé política (raspa o fundo que sempre sai um pouquinho) e seguir em frente.
Mas sabendo, antes de qualquer outra coisa, para onde queremos ir.