11 julho 2010

“Vagabunda tem que morrer mesmo, mereceu”

Por estes dias, a badalada Copa do Mundo e a própria eliminação brasileira da competição precisaram dividir suas atenções com dois casos graves envolvendo violência contra a mulher.
Um destes episódios vocês já devem estar carecas de saber: o goleiro e capitão do Flamengo, Bruno Fernandes, não apenas matou Eliza Samudio, 25 anos, mãe de seu filho, como a matou com requintes de crueldades beirando o inacreditável.
Eliza foi seqüestrada, espancada, asfixiada, desmembrada e partes de seu corpo foram lançados para a alimentação de cachorros da raça rottweilers.
Tudo isso em meio à música, churrasco e cerveja.
O outro caso, de menor repercussão, não é menos sádico. Uma adolescente de 13 anos foi estuprada e, por pouco, não foi assassinada por dois garotos, ambos de 14 anos, em Florianópolis (SC). Ao que consta no inquérito, a menina foi até o apartamento de um deles, bebeu vodka e não se lembra de mais nada. Investiga-se se havia alguma droga em sua bebida, quem sabe o famoso e poderoso sonífero conhecido popularmente como Boa Noite, Cinderela.
O fato é que, quando a menina acordou, o mal já estava feito, e só não foi pior porque a mãe de um dos meninos chegou ao apartamento na hora em que um deles tentava asfixiar a adolescente, que continuava desacordada.
Um dos estupradores é filho de um delegado de polícia e o outro, de um dos diretores da RBS TV - Santa Catarina, afiliada da Rede Globo.
Naturalmente, o caso, que aconteceu em meados de maio, foi sumariamente ignorado pela RBS TV (que controla 46 emissoras de televisão e rádio e oito jornais diários no sul do país) e, não fosse a internet – santa internet! – e a concorrência – santa concorrência! – talvez morrêssemos sem ficar sabendo de uma vírgula sobre este crime.

No entanto, apesar da sordidez, estes dois casos não me surpreenderam.
Todo mundo parece muito impressionado e aterrorizado com o que Bruno e estes dois adolescentes foram capazes de fazer, e eu juro que não entendo o porquê de tanta surpresa.
Talvez – e provavelmente – porque se tratem de um jogador de futebol famoso e de dois jovens da elite catarinense, mas horrores desta categoria acontecem todos os dias, o tempo inteiro, e mesmo assim todo mundo vira para o lado e dorme com os anjinhos.
Eu já escrevi aqui, mais de uma vez, e agora vou repetir: a violência vai acabar com nossas mulheres, sejam elas ricas ou pobres, famosas ou anônimas, jovens ou velhas.
O que aconteceu com Eliza e com esta adolescente de Santa Catarina, apesar de horrível, é corriqueiro.
A coisa tá ficando feia, e faz tempo, e se a justiça e a lei e todos nós não começarmos a dar um jeito nessa bagunça, eu sinceramente não sei onde vamos parar.

Porém, mais chocante do que o crime em si, é a reação quase doentia das pessoas, inclusive de mulheres que, em pleno século 21, ainda tem a coragem de culpar a própria vítima pela violência sofrida.
Eliza, ao que se sabe, já fez filmes pornôs e parece que tinha uma, digamos assim, simpatia especial por jogadores de futebol, se é que vocês me entendem.
Por isso - e só por isso - muita gente não apenas explica como endossa o crime bárbaro: “Bem feito pra ela” e “Vagabunda tem que morrer mesmo, mereceu” são alguns dos descalabros mais leves que tive a desventura de ler e ouvir durante esta semana.
Já a adolescente, dizem, nem estuprada foi, transou porque quis e agora está aí, fazendo cena. Neste caso, teve até um delegado, chamado Nivaldo Rodrigues, diretor da Polícia Civil de Florianópolis, que foi para a TV dizer que, sim, o ato sexual aconteceu, agora ‘se foi estupro ele não pode dizer, porque não estava lá’.
Isto me assusta mais do que a violência propriamente dita.
Porque depois destes dois crimes, que deixou um bebê de quatro meses órfão e uma menina de 13 anos traumatizada para todo o sempre, ainda somos obrigados a constatar o quanto nossa sociedade está com seus valores completamente distorcidos, e o quanto somos machistas e maldosos, cruéis e equivocados, ultrapassados e patéticos.
Somos tão condescendentes com a violência sofrida pela mulher, que crimes desta natureza já se tornaram estatística e não valem mais nem uma notinha de cinco linhas no rodapé do jornal.

A lei não condena o criminoso e a sociedade não perdoa a vítima.

Antes de tudo, é absolutamente necessário que se entenda que NENHUMA MULHER GOSTA DE APANHAR.
A MULHER QUE SOFRE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NÃO É UMA VAGABUNDA SEM VERGONHA.
É UMA VÍTIMA.
UMA VÍTIMA!
Entenderam ou querem que eu desenhe?
E enquanto vítima, ela precisa de proteção e respeito, e não de pedradas e acusações.
Repetirei isso até meu último suspiro.
E também repetirei, sem medo do que possam dizer ou pensar sobre mim, que eu também já fui vítima de violência doméstica.
Também apanhei, também fui ameaçada de morte, perseguida, aterrorizada, humilhada, o caralho.
E não registrei sequer um boletim de ocorrência.
E não o fiz não porque sou uma vagabunda sem vergonha que gosta de apanhar.
Não o fiz porque estava morrendo de medo.
Por sorte – e só por sorte – as ameaças do criminoso que eu chamava, na época, de namorado, não saíram da teoria.
Mas foi sorte minha.
Sorte que Eliza, por exemplo, não teve.
Poderia, sim, ser eu no lugar dela.
Poderia, sim, ser sua filha, sua mãe, sua melhor amiga no lugar dela.
Poderia, sim, ser você, prezada leitora, no lugar de Eliza Samudio.

Todos os dias, dez mulheres são assassinadas no Brasil - um país que, a propósito, é o que mais sofre com violência doméstica no mundo. Aqui, a cada sete segundos uma mulher é agredida em seu próprio lar. A violência doméstica é a principal causa de morte e deficiência entre mulheres de 16 a 44 anos e mata mais do que câncer e acidentes de trânsito. Cinqüenta e um por cento da população brasileira declaram conhecer ao menos uma mulher que é ou foi agredida por seu companheiro. Trinta por cento das mulheres brasileiras com mais de 15 anos já sofreram violência extrema. Entre 25% e 50% das sobreviventes são infectadas por doenças sexualmente transmissíveis. Setenta por cento dos incidentes acontecem dentro de casa, sendo que o agressor é o próprio marido ou companheiro. Mais de 40% das violências resultam em lesões corporais graves decorrentes de socos, tapas, chutes, amarramentos, queimaduras, espancamentos e estrangulamentos. Um levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que cerca de 70% das vítimas de assassinato do sexo feminino foram mortas por seus maridos. Pelo menos uma em cada três mulheres ao redor do mundo sofre algum tipo de violência durante sua vida. Mais de 41 mil mulheres foram assassinadas no Brasil entre 1997 e 2007. *

Após a leitura destes dados, o que dizer?
Que todas estas mulheres são vagabundas que gostam e merecem apanhar?
Não, meu chapa.
Quer dizer que as mulheres são presas fáceis para homens violentos e covardes - homens estes que deveriam estar envelhecendo atrás das grades, e não espancando mulheres dentro de casa, com a anuência de uma sociedade enferma com valores enfermos e, desculpem a generalização, tremendamente estúpida.
Porque, de um modo geral e salvando-se as exceções que, graças a Deus, sempre existem, nossa sociedade é estúpida.
Mil vezes estúpida.
E burra.
Imoral.
Irracional.
Retrógrada.
Estamos no século 21 e até hoje as mulheres vítimas de violência sentem vergonha de falar sobre o assunto porque, se o fazem, correm um sério risco de serem apontadas não como a vítima que são, mas como a culpada, como a responsável por seu próprio martírio.
Precisamos parar imediatamente de defender e proteger o criminoso, e dedicar nosso carinho, atenção e, principalmente, proteção para a vítima.
Eliza Samudio e a adolescente de Florianópolis representam, neste contexto, todas nós, mulheres, inclusive aquelas que nunca sofreram nenhuma forma de violência – mas que continuam sendo mulheres, logo, vítimas em potencial desta sociedade alienada e machista.
Neste exato momento, enquanto você lê este texto sossegadamente no conforto de seu lar doce lar, uma mulher está sendo espancada, quiçá assassinada, bem debaixo dos seus bigodes e sem que você possa sequer perceber.
A vítima é vítima, e por ser vítima não está em condições de se defender sozinha.
Ela precisa de nós.

Eu sei, eu sei.
Nossa justiça é um lixo.
A Lei Maria da Penha, nossa máxima conquista nos últimos mil anos, tem até boas intenções, mas na prática não serve para nada – e a prova é que, há oito meses, Eliza fez um Boletim de Ocorrência por causa das ameaças de Bruno, e todo mundo, mais uma vez, virou para o lado e dormiu com os anjinhos.
O que fazer, então?
Enquanto cidadão, denunciar, denunciar e denunciar, incansavelmente.
E rezar para todos os santos para que nossa magnânima Justiça tome vergonha na cara e faça jus ao nome que têm.
Que prendam esses canalhas antes que eles concretizem suas ameaças.
Porque, na minha opinião, o sujeito que ameaça está a um passo de fazer o que diz que fará.
Não podemos mais pagar para ver.
E, garanto, com cem por cento de certeza: basta que se prenda e condene com maestria meia dúzia de machões covardes para que os crimes contra a mulher caiam pela metade.
A lei não serve para nada se não houver punição.
E a punição nunca será suficiente e justa enquanto nós não aprendermos a diferenciar a vítima de seu agressor.

* Segundo dados da Sociedade Mundial de Vitimologia (www.ipas.org.br); Fundação Perseu Abramo; Site www.violenciamulher.org.br; IBOPE 2006; UNIFEM 2007; Organização Mundial da Saúde (OMS); Anistia Internacional e Instituto Zangari.