29 julho 2010

O Erro de Mara.

A gari Mara Luciane Macedo, de 37 anos, morreu depois de ser atropelada por um ‘veículo branco que trafegava em alta velocidade’, no centro de Carazinho, dia 25 de fevereiro de 2010.
O automóvel e seu motorista - que, aliás, fugiu sem prestar socorro à vítima - não foram identificados.
Provavelmente nunca serão.
E isso porque Mara cometeu um erro primário e imperdoável aqui, neste país que chamamos de Brasil: Mara não era filha nem esposa de ninguém importante. Mara não tinha dinheiro, não tinha influência, não tinha bons contatos. Mara não era gente que interessa.
Ao contrário do músico Rafael Mascarenhas, de 18 anos, filho da atriz global Cissa Guimarães, que na última terça-feira, dia 20, também foi atropelado e também acabou morrendo sem receber socorro do motorista.
Tal e qual Mara.
Porém, muito diferente do caso carazinhense, o motorista responsável pelo atropelamento de Rafael já foi encontrado e indiciado, e certamente pagará pelo crime que cometeu. Inclusive já descobriram, numa rapidez impressionante, que o pai deste prezado motorista pagou cerca de mil reais de suborno aos policiais que pararam o veículo logo após o sinistro, e também já sabem que este mesmo pai havia levado o carro, todo amassado devido ao acidente, a um mecânico, pedindo urgência no conserto.
Medidas estas também utilizadas, muito possivelmente, pelo atropelador de Mara. Mas agora, quatro meses depois do acontecido, as chances (e a vontade) de identificá-lo são e continuam sendo praticamente nenhuma.
A morte de Mara não será explicada, o responsável não será punido e acidentes como este, onde não há culpados, apenas vítimas, continuarão acontecendo em Carazinho e no resto do país, impunemente, livremente. Injustamente.
Talvez devêssemos, todos nós, darmos um jeito de nos tornarmos, também, pessoas importantes.
Precisamos, urgentemente, inventar uma maneira de virarmos gente influente, poderosa, financeiramente admirável para a sociedade e, naturalmente, para as autoridades.
Para o caso de sermos atropelados, e morrermos por pura e total irresponsabilidade alheia, pelo menos vermos punidos aqueles que, insensatamente, dirigem seus carros acreditando serem os reis selvagens do asfalto, sem respeitar nada, sem respeitar ninguém, acobertados por papais endinheirados que acham mais importante encobrir o filhinho-da-mamãe do que fazê-lo responsabilizar-se pelo crime que praticou.
Não cometamos o mesmo erro de Mara: ser pobre, trabalhadora, gente simples.
Pois, caso contrário, deixaremos nossos filhos, nossos pais e nossos amigos com aquele gosto ruim e amargo de injustiça e revolta, que não passa nem diminui nunca.
Perguntem para dona Landa, mãe de Mara, ou para Ana Paula, sua filha de 15 anos, como elas se sentem hoje, sabendo que ninguém se importa com a morte de Mara como poderiam se importar, caso Mara fosse filha do mesmo papai que encobertou seu filhinho-da-mamãe, que guiava um ‘veículo branco que trafegava em alta velocidade’ em Carazinho no dia 25 de fevereiro de 2010.

Publicado no jornal Diário da Manhã de Carazinho.