01 junho 2010

“Quem tem dó faz alguma coisa” - Entrevista com Diane Tauffer, da Associação Amigo Bicho

"A questão não é a de saber se o animal pode pensar, raciocinar ou falar... a questão é: Eles podem sofrer?

Esta frase foi dita por Jeremy Bentham, um filósofo inglês que viveu entre o final do século 17 e o início do século 18.
De lá pra cá se passaram mais de duzentos anos e, no entanto, ainda somos obrigados a ver, chocados e tristes, animais sendo tratados como seres inanimados, por pessoas que ainda acreditam que, por não pensarem nem falaram, naturalmente não sofrem.
Mas de uma coisa eu tenho certeza: na época em que viveu Jeremy ninguém atirava gatos do oitavo andar nem enforcava cachorros em terrenos baldios.
Então pioramos?
Pode ser que sim.
Porém também tenho certeza de que, na época de Jeremy, não havia tanta gente engajada e envolvida na causa animal.
Hoje temos pessoas, muitas pessoas, que lutam pelos nossos amiguinhos bichos e os defendem com unhas e dentes.
E por mais que seu trabalho e sua dedicação muitas vezes passem despercebidos pelos nossos olhos (afinal, estamos sempre tão ocupados), eles estão lá.
Incansáveis.
Inabaláveis.
E, acreditem, amigos: essas pessoas, que decidiram levantar suas bundas de suas cadeiras estofadas e botar a mão na massa, não são milionários desocupados.
São pessoas como eu e você, que trabalham, moram em apartamentos, ganham mal, tem filhos, compromissos, vida social, contas para pagar, torneiras para consertar.
Só que, diferentes de eu e de você, elas não conseguiram virar para o lado e dormir vendo o grande absurdo que acontece com nossos animais, bem debaixo de nossas fuças.
E foi com uma destas pessoas, Diane Tauffer, que tive o grande prazer de conversar.
Ela é uma das responsáveis pela Associação Amigo Bicho, de Passo Fundo/RS, uma ONG afiliada a WSPA – uma sociedade mundial de proteção animal – que trabalha pelos animais, promovendo ações de conscientização, trabalhando com voluntariado, batalhando pelo bem estar de nossos amigos bichos.
Um trabalho lindo e emocionante, que nos coloca frente a frente com a nossa apatia, com nossos pretextos fajutos para não fazer nada, nunca.
Confesso: lendo as respostas que ela me enviava por e-mail, mais de uma vez me peguei envergonhada, quase constrangida, percebendo que, ao contrário do que convenientemente gostava de pensar, eu também não faço um terço do que poderia e deveria fazer.
Abaixo vocês poderão conferir nossa conversa na íntegra.
E espero que, assim como fez por mim, as palavras sinceras de Diane possam também fazer por você.
O que não podemos mais, caros leitores deste blogue pretensioso, é continuar acreditando nas desculpas esfarrapadas que nós mesmos inventamos para continuarmos virando para o lado e dormindo.
Como disse sabiamente Diane, não fazemos parte da solução.
Fazemos parte do problema.

Diane e Sultão, o amigo que ela resgatou em uma rodovia.

1. Quando surgiu a Associação Amigo Bicho?

Surgiu da preocupação de um grupo de pessoas, já envolvido diretamente na causa, com o aumento dos casos de maus tratos, abandono e falhas no cumprimento das leis Municipais, Estaduais e Federais de proteção aos animais.
A Associação Amigo Bicho é uma instituição sem fins lucrativos, de caráter social, assistencial e cultural, criada na forma da legislação civil, por escritura lavrada no Registro Civil de Passo Fundo.
A reunião do dia 14 de abril de 2007 formalizou a criação da AAB, cuja ata encontra-se registrada em cartório.

Diane, Elisabeth (WSPA), Elo e Rômulo (AMAES)

2. Os animais recolhidos nas ruas pela Amigo Bicho são levados para onde? Pelo que li no blogue da associação, alguns voluntários oferecem suas residências como casas de passagem, onde os animaizinhos podem ficar até serem adotados. Como funciona isto?

Sim. Se a própria pessoa não se prontificar a fazer isso, levando para casa, pagando estadia em clinica ou hotel, ou até mesmo conseguindo casa de passagem por conta própria, o animal, independente de seu estado, irá permanecer na rua.
Quem se deparou com o problema é responsável por resolvê-lo
Pelo número de animais recolhidos por voluntários, simpatizantes e colaboradores, pode-se perceber que isso funciona, de um jeito ou de outro.
Não admitimos transferência de responsabilidade e nos baseamos no princípio de que "você não faz parte da solução, faz parte do problema".
Com isso, evitamos que muitos animais necessitados sejam encaminhados para o abrigo local ou permaneçam nas ruas passando por sofrimentos.
É muito fácil se deparar com certas situações e empurrar para os outros, com mil desculpas como “moro em apartamento, tenho filhos, não tenho dinheiro, tenho muito bicho, não sei o que fazer... Mas tenho dó!”.
Tem dó mesmo?
Quem tem dó faz alguma coisa! E como diz uma amiga: pena só serve para aquecer os pintinhos.
Muitos alegam não ter condições financeiras quando lhes fizemos a proposta, principalmente os que não são do grupo e vêem numa entidade sua tábua de salvação. Mas nós também não possuímos condições financeiras. Somos pessoas simples, que trabalham, que estudam, que tem filhos, que moram em apartamentos e casas pequenas, que já tem animais demais.
Costumamos pedir ajuda para os amigos, fazemos rifas, vendemos objetos, trocamos favores, cada um tem seu jeito de conseguir custear tudo que o animal precisa. Muitas vezes, é claro, uma parcela sai sim de nossos bolsos, mas o retorno é satisfatório, sempre somos bem recompensados pela boa atitude.
Minha casa, por exemplo, possui duas vagas para cães e uma para gato, sempre ocupadas. Só recolho um animal que precisa quando a vaga está disponível, senão, infelizmente, o bichinho vai ficar na rua, correndo riscos até que eu possa acolhê-lo.
Também tenho um grupo de pessoas com quem posso contar, que confiam muito em mim e no que faço, e me ajudam com castração, consultas, gasolina, ração. Eu não abuso, não peço, essas pessoas vem até mim naturalmente.
Nos entendemos tanto que às vezes nem é preciso falar nada.

Alvin. Filhote para adoção.

3. Apesar de já imaginar qual será sua resposta, pergunto: o número de voluntários parceiros da Associação Amigo Bicho é satisfatório? Com quantos voluntários fixos vocês contam?

Somos em 12 pessoas, que trabalham como voluntários e fazem parte da diretoria também. Alguns oferecem casa de passagem, outros contribuem com valores, outros fazem as mais diversas tarefas, uns vendem coisas, enfim, todo mundo faz de tudo um pouco.
Mas prezamos pela qualidade e não pela quantidade.
Todos os que estão conosco pensam e agem como mandam nossas regras, nossas vozes, e nossos pensamentos soam em uníssono. Muita gente veio se unir a nós, mas por ter uma visão diferente e métodos de trabalho que não fechavam com a filosofia Amigo Bicho, aos poucos se afastaram, e agora fazem seu trabalho sozinhos.
Parceiros são poucos, muito poucos.
Temos alguns colaboradores fiéis, pessoas que contribuem com valores, apadrinham castrações e isso é o que basicamente mantém nosso trabalho.
Nas horas mais difíceis nossos anjos da guarda aparecem e nos salvam do aperto.

Fê, fêmea. Foi encontrada ferida, e recolhida aos cuidados de uma das voluntárias. Está curada, esterilizada e disponível para adoção.

4. “Você não faz parte da solução, faz parte do problema”. Essa frase, confesso, para mim foi como um soco no estômago. Acredito que deva acontecer de muitas pessoas procurarem a Amigo Bicho levando animais abandonados, maltratados, até mesmo fazendo denúncias, acreditando que, apenas por levar até vocês o problema, já fizeram a sua parte. É claro que é melhor do que nada, mas penso que falta comprometimento também, não acha? Quero dizer, não basta passar a batata quente para as mãos de outros. Concorda?

Concordo plenamente.
As pessoas acreditam que somos nós que iremos solucionar tudo, sozinhos.
Pelo contrário, precisamos delas para auxiliar nas mudanças.
Desde a educação dos filhos até a hora de eleger um representante político.
Tirar o problema da frente dos olhos, para certas pessoas, é a solução.
Se eles não estão vendo o sofrimento do animal, está ótimo.
Por isso tem gente que chega ao ponto de ensacar um animal e atirá-lo em meio a uma rodovia, amarrar numa árvore para morrer de fome e sede... eles não estão vendo, então o animal não sofre, não sente.
Nos procuram, e muito. A demanda de casos é exorbitante. Temos três endereços de e-mails e dois números de telefone; todos os dias são, no mínimo, 10 e-mails com pedido de ajuda, esclarecimento e denúncias, sem contar as ligações. Nos fins de semana é preciso desligar o celular, pois não dá para ter paz.
E não adianta insistir, a frase que você citou está tão arraigada em mim que meu coração se tornou pedra (até parece...).
Não adianta drama, chantagem, nada.
Teve uma vez que a pessoa chegou ao ponto de colocar o fone ao lado do cão que berrava de dor, recém atropelado. Eu me mantive firme, ele ficou meia hora tentando me convencer e eu explicando que não havia voluntário, nem dinheiro, e que se ele estava gastando tudo aquilo de celular para tentar me convencer, que recolhesse de uma vez o animal e o levasse até uma clinica, pois quem gasta tanto assim com telefone é porque pode pagar para salvar um cão. E disse: irei desligar para o senhor poder fazer algo de efetivo, depois pode me retornar com algo concreto, aí conversamos.
Dias depois ele me liga de novo. Havia levado o cão ao Hospital Veterinário, se responsabilizado pela conta - que parcelaram em várias vezes - e, feliz, me contou que iria adotar o amigo que salvou. Por fim me agradeceu por eu ter sido tão firme com ele, pois se eu não tivesse agido assim ele realmente ia empurrar o bicho para alguém ou até virar as costas e ir embora.
Protetor mesmo não é aquele que sai juntando bicho. Ter em casa dezenas de cães recolhidos e salvos não te faz um protetor.
O que torna alguém um verdadeiro protetor de animais é o número de pessoas que ele convenceu a fazer o mesmo.

Perseu. Ele é cego de um olhinho, mas muito brincalhão e manso. Está disponível para adoção.

4. E esta é, na minha visão, o principal papel da Associação Amigo Bicho: convencer as pessoas de sua responsabilidade em relação aos animais. Afinal, e infelizmente, sempre haverá mais animais abandonados e maltratados do que pessoas dispostas a acolhê-los, então é preciso que se mude esta visão, conveniente, de que o problema é sempre dos outros.
Mas por falar em animais maltratados, imagino a quantidade de acontecimentos medonhos que vocês são obrigados a presenciar. Dos casos que conheceu, alguém já foi punido judicialmente por maltratar um animal? Ou este tipo de crime ainda é visto como ‘delito leve’?

O principal objetivo da AAB não é o de trabalhar com animais, mas sim pelos animais.
Este objetivo foi desvirtuado desde o início, pois é tanta falta de responsabilidade, de envolvimento, tanto jogo de empurra-empurra que se torna impossível pra gente não se envolver.
Por fim, acabamos sempre às voltas com situações de animais necessitados, e assim os projetos permanecem na gaveta.

Há algum tempo atrás era muito difícil identificar um criminoso desses, mas graças ao trabalho de conscientização e a expansão da causa animal na mídia, temos conseguido fazer com que as pessoas percam o medo de denunciar, até porque dificilmente o denunciante precisa depor, aparecer, e também não terá gastos com isso.
Quem processa é o estado através do MP.
Por isso a denúncia é muito importante, e cabe aos grupos de proteção acompanhar e cobrar providências.
Tivemos em Passo Fundo, por exemplo, o caso do gato Mimi, que um rapaz de 22 anos, há três anos atrás, roubou, espancou até a morte, eviscerou, empanou sua carne, fritou, comeu e ofereceu para as crianças que brincavam na rua. Uma delas, que não comeu e ama animais, foi até a minha casa e contou tudo. Fui até lá e puder ver, tocar no que sobrou do gatinho.
Houve também o caso de uma cadela, a Laika, que foi enforcada. Descobri quem eram seus donos, e que estes pagaram cinco reais a dois meninos para que a enforcassem e matassem seus filhotes.
O último caso, de grande repercussão, foi o da gata Penélope, que foi jogada do oitavo andar de um prédio por uma professora aposentada, que alegou não ter sido bem atendida por um dos grupos de proteção daqui e pelos bombeiros. Para ela, jogar pela janela a gata que entrou em seu apartamento foi a solução.
Estes dois casos também foram denunciados ao MP.
No caso do Mimi, o processo está em andamento, e teve o julgamento adiado a pedido do advogado do réu, depois de três anos de espera. Sobre a Laika, eu nunca soube ao certo o que houve, que tipo de andamento deram ao caso. Uns dizem que houve punição, outros dizem que não, mas como saí do grupo de onde partiu a denúncia, eu nunca soube ao certo.
No caso da Penélope a denúncia partiu de ambos os grupos de proteção, para dar mais força. A senhora já apresentou sua defesa, mas aguardamos o andamento do processo, que sempre é demorado devido aos trâmites legais.
Algo que eu sempre exponho em reuniões e debates a respeito é o fato de Passo Fundo não possuir uma vara especializada em crimes ambientais. Acredito que, se houvesse, estes crimes seriam tratados com maior severidade e até seriedade.
Pois, além de ser tratado como delito leve, quando do ato do registro de BO, ainda é registrado como "atípico".

Penélope, hoje recuperada.

5. Destes casos que citou, lembro-me bem deste último, da gatinha Penélope. Primeiro porque acabou amplamente divulgado pelos meios de comunicação, e depois porque uma das moradoras do prédio - aliás, a moradora que encontrou a gatinha e fez a denúncia - é grande amiga minha. Ela contou que, no dia do ocorrido, quando encontrou a gatinha, telefonou para a síndica para comunicar que havia um animalzinho, que parecia ferido, sob o telhado do prédio ao lado (que dava exatamente em sua varanda) e que seu marido iria subir ali para resgatar o animal. E não é que a síndica era exatamente a criminosa que atirou a gata do oitavo andar? Pois era. Essa minha amiga conta, então, que a mulher foi até a janela e começou a berrar impropérios sobre o animal, dizendo que odiava gatos e etc - tanto que minha amiga até se assustou com a fúria da mulher. Depois, quando o caso já havia tomado a repercussão que tomou, a síndica passou um abaixo assinado entre os moradores do prédio, perguntando se ‘eles a viram atirar a gata pela janela. Sim ou não’. Praticamente todos os moradores assinaram, respondendo que não - moradores estes que, em sua maioria, devem ter ouvido a mulher gritando na janela - o que deixou esta minha amiga muito indignada, é claro.
Em sua opinião, Diane, porque as pessoas se calam?
Por medo, por conveniência, por cumplicidade?
Por quê?

Se calam por estes três motivos e também porque se trata "apenas" de um animal.
Se a síndica houvesse atirado uma criança pela janela, iam se calar?
Não se compara criança com bicho, mas os crimes cometidos contra ambos são sempre parecidos, só muda a espécie agredida.
Sua amiga é testemunha fundamental, ela se calaria?

6. Não, não mesmo. Ela vai depor, e vai contar tudo o que aconteceu. A única coisa que ela não fez, e que eu lhe disse que, na minha opinião, deveria ter feito, era ter falado abertamente sobre o caso, seja com os vizinhos, seja com a imprensa. Pois a criminosa falou, inventou versões, posou de coitada. Quer dizer, ela se defendeu, deu sua versão, mesmo que mentirosa. Enquanto minha amiga e seu marido ficaram quietos. Não acho que devemos ficar quietos, pois enquanto os bons se calam, os ruins gritam. É no que acredito. Tanto que me dispus a falar sobre o caso no meu blogue, dando a versão desta minha amiga, testemunha ocular de tudo que aconteceu. Espero que ela aceite.
E sobre teu questionamento: se a síndica houvesse atirado uma criança pela janela, iam se calar?, chego a pensar que iam também, sabe? Alguém que dá dois pesos e duas medidas para crimes contra a vida, deve ser capaz de se calar até se tratando de uma criança. Eu acho.
Mas prosseguindo, Diane, gostaria de saber sobre o retorno que o blogue da associação (http://amigobicho-pf.blogspot.com/) dá em relação a animais desaparecidos e para adoção. A maioria é encontrado? A maioria é adotado?

O antropocentrismo é fato, então acredito que, se fosse uma criança, talvez fosse diferente, como se viu no caso da menina Isabella, que gerou tamanha comoção.
Se ela, sua amiga, foi capaz de prestar socorro e não se calar diante de tamanha covardia, é muito provável que não tenha medo e que enfrente essa pessoa insana e dissimulada diante de um juiz. Atitudes assim eu aplaudo e apoio. Fiz o questionamento apenas para instigar, impelir ela a seguir adiante, não desistir. É preciso apenas fazer com que ela seja ouvida. O que tenho acompanhado nestes processos é que, muitas vezes, as testemunhas arroladas não são aquelas que verdadeiramente presenciaram o fato. Por exemplo, no caso do gato comido, quem esteve no local, quem viu, quem ouviu e presenciou tudo fui eu, e as testemunhas chamadas para depor foram a Dona Maria de Lourdes, nossa Diretora Executiva, e a Rosa Schleder, voluntária do CAPA (Clube dos Amigos e Protetores dos Animais), pessoas que apenas ouviram de mim por telefone o que eu estava presenciando!!!!
Por sorte, como o julgamento foi adiado, pedimos ao promotor que troque o testemunho da Dona Lourdes pelo meu, e seria interessante se a Rosa solicitasse, quem sabe, o testemunho do soldado que esteve no local e ouviu o moço dizer: "Comi porque gosto", quando questionado. Sabemos quem ele é, e acreditamos que isso ajudaria muito para comprovar o que houve naquela noite, auxiliando assim a acusação.

Quanto ao blogue, o retorno é maravilhoso para adoção.
Às vezes faltam animais para doar, fazemos até listas de espera de filhotes, por exemplo.
A grande maioria é adotado. Demora às vezes para os adultos, mas felizmente eles também conseguem uma segunda chance.
A respeito dos desaparecidos, ajuda um pouco, pois fica uma vitrine permanente do bichinho sumido. Só que as pessoas precisam entender que o bicho muda muito na rua, desde a personalidade até suas características físicas, e isso acontece em poucos dias, não são necessários meses de rua para essa transformação acontecer.

Percebeu-se muito isso no caso da mestiça de pequinês Phoenix, que sumiu alguns dias após a galgo Naiume, ambas da mesma família. Ela ficou 12 dias na rua e sua dona nos relatou o quanto estava diferente, magra, os pelos emaranhados de carrapicho, amedrontada e furtiva.
A maioria não é encontrada, porque os donos desistem deles, não investem na busca. Poucos gastam com panfletos, com carros de som, com anúncios em rádio e jornal, alguns nem ao menos se dão ao trabalho de avisar as entidades de proteção. Quando eu fico sabendo de casos assim, insisto, vou atrás, incentivo, peço fotos, publico, repasso nos e-mails, coloco no orkut.
Tem gente que chega ao cúmulo de perdê-los uma segunda vez.
Se soubessem o que sabemos, se vissem o que vimos, se trocassem de lugar com aquele animalzinho que tanto amou, talvez investissem mais, procurassem mais e, principalmente, não desistissem deles nunca.
Eu vi animais morrerem de tristeza pela falta de seus donos, se negarem a comer e a viver porque seus donos não os quiseram mais.
Talvez este sentimento se passe também com o cãozinho perdido ou roubado, que não teve a sorte de ser recolhido e cuidado por outra pessoa que também o ame.
Eles não esquecem seus donos.
Presenciei casos de animais que ficaram seis, oito meses longe de seus donos. Estavam muito diferentes do que eram. Seus donos não os reconheceram, mas eles sim - pude ver isso, e é algo realmente emocionante.
Teve uma senhora que me dizia: "... não é ela!!!" e a cachorra pulava no colo da mulher. Suja, sarnenta, sem pelos. Só foi possível comprovar que era ela mesmo depois de uma boa tosa, onde expôs um cicatriz que ela tinha num bracinho.
E aí? Cachorro não fala né?!!
O roubo de animais também é muito freqüente.

7. Nem me fale em roubo de animais. Em dezembro do ano passado, meu cachorro Freddie, que na época tinha apenas 3 meses, foi roubado do quintal de nossa casa – que, detalhe: é cercada com grades e cerca elétrica. Passaram o pobrezinho pelo meio das grades. Eu quase enlouqueci. Colamos cartazes, colocamos anúncios nas rádios locais, nos jornais, peregrinei não sei quantos quilômetros entregando panfletos, meu pai conseguiu até mesmo atropelar um motoqueiro enquanto o procurava – graças a Deus, não aconteceu nada com ele. E graças a Deus também reencontramos Freddie 11 dias depois do roubo. Que alívio.
Agora, é um absurdo imenso roubarem animais que já possuem um lar, e são extremamente amados, sendo que existem tantos precisando de um lar e de amor. Não dá para entender algumas pessoas. Quero dizer, até dá. Freddie é um cãozinho da raça collie, que ganhei de presente de natal do meu avô. Evidente que meu outro cachorro, Zé, que é um lindo e desengonçado vira latas que recolhemos das ruas há 3 anos – estava praticamente morto – nunca foi roubado.
As pessoas fazem muita distinção entre cães de raça, por exemplo, e cães sem raça, sendo que, muitas vezes, o vira latas é até mais especial e amoroso. Não há diferença e é uma pena que ainda se rotulem animais como mais ou menos valiosos baseando-se em seu pedigree, e não em sua amizade e fidelidade.
Quem nunca adotou um, não sabe o que está perdendo.
Aliás, este assunto abre caminho para minha próxima pergunta.
Vi no blogue da Amigo Bicho que vocês promovem uma campanha contra feiras que exploram animais – incluindo aí a Mostra de Pequenos Animais, muito tradicional em Passo Fundo.
Na última edição desta feira, vocês estavam lá.
Como as pessoas que participavam deste ‘evento’ receberam vocês?

Estávamos sim, por poucas horas em um único dia, ou melhor, pelo tempo que durou nossos panfletos.
Como nossos recursos são escassos, não tivemos condições de investir mais.
Com o pensamento e a certeza de que o povo inculto não lê, investimos no impacto visual, exatamente naqueles banners que estão na nossa página na internet, e foi uma decepção!!!

Fomos até bem recebidos pelas pessoas que freqüentam o evento, não houve incidentes. Mas o que nos chocou mesmo foi comprovar que estávamos certos. O povo não lê, e o pior: não vê.
Vinham até nós porque queriam adotar ou comprar os animais usados para ilustrar os folders. Isso foi até motivo de riso. O cão basset, por exemplo, teve uns oito candidatos a dono, o pequinês, então, nem se fala. Alguns não entendiam o porquê da nossa repulsa contra a feira, então a gente explicava amavelmente, mas ainda assim a maioria “saía com um ponto de interrogação pulsando acima da cabeça".
Eu já estive do outro lado daqueles portões, como criadora de animais e como organizadora do evento. Passaram-se os anos e as coisas continuam iguais, talvez piores. Recebemos inúmeras denúncias, todos os anos, após a realização do evento.
Eu poderia descrever muita, muita coisa a respeito.
Inclusive pedimos a interdição judicial da feira, o que não ocorreu porque, quem deveria fiscalizar e estar ao lado dos animais - que são submetidos ao stress em meio a multidão de visitantes, ao calor, à exploração - informou a promotoria que tudo estava em ordem (Smam) e também a Promotoria nos informou que não havia tempo hábil para que se adequassem.
Levamos em conta as leis Municipais, Estaduais e Federais para solicitar a interdição. Cito apenas uma estadual, em vigor desde 2009, que diz: ‘TODOS os animais vendidos no Rio Grande do Sul devem estar chipados’, e uma Municipal, que diz: ‘Todo estabelecimento que comercializa animais deve ter seu alvará em dia’ (o que evita criador de fundo de quintal).
Bem, nós iremos, é claro, solicitar a resposta oficial aos nossos questionamentos. Se tudo estiver em ordem, tudo bem, senão para a próxima feira solicitaremos adequação em tempo hábil para que se cumpram todas as leis.
A boa desculpa de sempre é que a feira traz divisas ao Município.
Sempre o lucro acima do bem-estar animal.
Eu pergunto: que divisas?
Se a prefeitura patrocina o evento e eu nunca soube de reembolso algum ao poder público?
Onde está o lucro então?!
Sempre deixamos claro: se querem fazer a feira, que façam, mas que não façam uso de animais inocentes para atrair pessoas e lucrar em cima disso. Se tiverem de usar animais, que ao menos o façam dentro do que as nossas leis exigem, oferecendo um mínimo de conforto e bem estar para aquele que é o "show" da festa e enche o bolso de muita gente.

Panfletagem durante a Mostra de Pequenos Animais em Passo Fundo.

7. O Hospital Veterinário da UPF, em parceria com a Associação Amigo Bicho, mantém desde 2006 o projeto SOS Cavalo de Carroça – e, desde então, mais de 300 animais já receberam vacinas, vermífugo, atendimento clínico e cirúrgico gratuitos. Trata-se de uma idéia fantástica, pois muitas vezes acabamos nos focando nos cães e nos gatos e esquecemos dos outros animais, que são igualmente maltratados, abandonados, olvidados.
Além dos cavalos, gatos e cachorros, que outros animais a Amigo Bicho já amparou?

Os méritos do projeto são mesmo da UPF - no caso do Professor Leonardo Alves. A Amigo Bicho entra apenas com o que sei fazer.
Sou uma espécie de ponte: sou eu quem busca lugares, descobre nichos de carroceiros, os convence a participar, às vezes "pego pela mão" mesmo e levo onde o atendimento está.
Acompanho, fico por perto. Também é preciso, muitas vezes, traduzir o que os profissionais passam para essas pessoas tão simples, como por exemplo, tumor. Pôr em palavras simples o significado disso, fazer com que o veterinário seja entendido e não tido como um ser insensível que não quer ajudar.
Fico por ali auxiliando, incentivando, falando de leis, de direitos e de deveres. Não com palavras difíceis e incompreensíveis, mas em uma linguagem que eles entendem bem: a simplicidade e a caridade.
Não posso me omitir, por mais que todos - inclusive os carroceiros - saibam que não gosto da profissão deles.
Mas como vou ajudar a varrer a miséria para debaixo do tapete, logo eu?
Sabem de todos os cavalos que já retirei de seus donos por maus-tratos, mas também sabem que, se cuidarem direitinho, eu cumpro a minha palavra de não lhes tomar o bicho.
Não lembro direito quem descobriu quem, se eu descobri o SOS ou se o SOS me descobriu, pois estive presente desde o início, salvo apenas um tempo em que meu trabalho não era tão necessário e eu também estava em dificuldades e precisei aumentar os horários de meu emprego na época.
Sempre fiz algo parecido nas comunidades que freqüento, muito carentes em tudo, principalmente quando a questão envolve animais. Sempre havia um cavalo quebrado, cortado, machucado, e eu de veterinário em veterinário, pedindo por favor, implorando. Alguns sempre ajudaram, outros cansaram.
Um deles, um dia, me disse que essa gente não vale a pena, então pedi que fizesse pelo bicho apenas. Ele não quis.
Aí conheci o Leonardo, o coordenador do projeto. Ele sempre me ajudou nos casos mais escabrosos, nunca colocou empecilhos, nunca se negou, de dia ou de noite, finais de semana, sempre auxiliando em tudo o que eu precisasse.
Aliás, eu não, pois nunca pedi nada para mim ou por mim, mas sim pelos meus irmãos, os bichos.
Enquanto não se resolve a questão polêmica dos cavalos de carroça, não posso ficar de braços cruzados esperando.

Sinto como uma obrigação minha fazer algo.
Fugi muito da resposta que deveria te dar, mas é um trabalho tão maravilhoso e gratificante que eu não poderia deixar de citar.
Pois bem.
Além de cavalos, cães e gatos, nestes anos de trabalho foram dois tatus (o Tarcísio, um tatu peludo e não rabo mole como se supunha, que hoje vive em Pomerode no Zoo) e a Gloria (uma mulita que veio a óbito posteriormente, pois foi atacada por cães), uma imensidão de aves de várias espécies (que eu mesma solto no quintal quando sobrevivem, mas que ficam morando por ali), duas ninhadas de gambás (uma padeceu quando estavam praticamente salvos e se estava fazendo sua reeducação alimentar, e outra foi reintroduzida na floresta com auxilio de uma de minhas professoras de zoologia).
São animais silvestres em sua maioria.
As pessoas ligam durante a noite, me procuram, ou eu mesma encontro. Como os órgãos de assistência a estes animais não funcionam durante os feriados e fins de semana, eu os acolho, cuido e depois os encaminho. Este é o procedimento padrão. Aprendi isso após o Tarcísio.
Nosso estatuto como instituição de proteção aos animais prevê este tipo de socorro. Temos um veterinário responsável e também uma bióloga já formada na equipe.

O simpático tatu Tarcísio hoje vive num zoo.
8. Existem muitas pessoas ruins no mundo que maltratam animais, disso estamos cansados de saber. No entanto, existem outras, disfarçadas, que aparentemente bem intencionadas adotam ou adquirem um animalzinho e, depois, por motivos diversos - porém sempre fúteis - simplesmente os abandonam. Porque casaram, porque foram viajar, porque se mudaram para um apartamento, porque o bichinho deu mais trabalho do que imaginavam, porque enjoaram, etc.
Como você mesma citou em uma de suas respostas, são casos de extrema crueldade, pois os animaizinhos, muitas vezes, morrem de saudade e solidão. A Associação Amigo Bicho, naturalmente, trabalha (e batalha) pela posse responsável. Gostaria, Diane, que você nos dissesse, resumidamente, o que um possível dono deve levar em conta antes de decidir adotar um bichinho de estimação pois, como está escrito no blogue da AAB “É tão importante adotar um animal quanto evitar que outro seja abandonado no futuro!”.

As pessoas são imprevisíveis!!!
Acredito que devem usar somente a razão e deixar de lado a emoção na hora de adquirir um animal, seja adotado ou comprado.
Só.
(Saiba mais sobre a guarda responsável clicando aqui).


9. E quem quiser colaborar de alguma maneira com a Associação Amigo Bicho, como deve proceder?

O primeiro passo é jamais abandonar um bicho e não permitir que seus animais procriem.
Incentivar parentes, amigos, vizinhos a mudarem sua postura em relação aos animais.
Assim todos serão Amigo Bicho.
Para colaborar com a AAB em si, é simples: temos uma conta bancária da Associação Amigo Bicho na Caixa Econômica Federal (Agência 3063 - conta poupança: 022-50-0 CNPJ: 10866/0001-99). Os valores financiam nossos projetos, principalmente a esterilização de animais.
Lembrando que a Amigo Bicho não recebe nenhum tipo de verba pública proveniente de nenhum órgão.
Somos verdadeiramente uma ONG.
Também enviando ração de cães e gatos (adultos e filhotes), medicações de uso veterinário (vermífugos, antibióticos, etc), material de limpeza (água sanitária, sabão em pó), jornais, cobertas.
Estes serão divididos entre os voluntários e também pessoas carentes atendidas pela Associação.
Arrecadamos também roupas usadas em bom estado, que são entregues a algumas famílias.
É possível ajudar virtualmente, repassando e enviando nossos informativos.
Basta se cadastrar em nossa página.
(Saiba mais sobre como ajudar a Associação Amigo Bicho clicando aqui).

Camisetas Amigo Bicho. R$25. Sem propagandas ou patrocínio.

Uma das roupinhas da pet Amigo Bicho.

*

Clique aqui e conheça os cães disponíveis no momento para adoção.
Clique aqui e conheça os gatos disponíveis no momento para adoção.
Clique aqui e conheça o trabalho da protetora Dóris.
Clique aqui e conheça a Lojinha Amigo Bicho.
Clique aqui e conheça os animais desaparecidos. Quem sabe você não os viu por aí?