18 junho 2010

A prepotência dos veteranos.

Quando passamos no vestibular e entramos para a universidade, somos considerados bixos. E por sermos considerados bixos, precisamos agüentar todo tipo de piadinhas e brincadeirinhas, algumas beirando o mau gosto. Riscam nossa cara, escondem nossos tênis e chinelos, quebram ovos podres em nossas cabecinhas de calouros, nos intimidam a dançar em cima de mesas cambaleantes.
Geralmente, leva-se um ano até deixarmos de ser bixos e nos tornarmos, finalmente, veteranos também. E quando nos tornamos veteranos, é porque uma nova safra de bixos acabou de entrar para a universidade, e agora é a nossa vez de fazer piadinhas e brincadeirinhas, algumas beirando o mau gosto, e riscar a cara dos novatos, e esconder seus tênis e chinelos, e quebrar ovos podres em suas cabecinhas de calouros e os intimidar a dançar em cima de mesas cambaleantes.
A maioria dos universitários agüenta calado, durante um ano inteiro, tudo o que precisa agüentar enquanto bixo, apenas para poder fazer o mesmo, quiçá pior, quando chegar a sua vez.
Este é o ciclo, e não termina aqui.
Sim porque, depois de formado, vem tudo de novo.
Você passa a ser um jovem profissional, um ‘recém-formado’, um novato sem muita experiência e, quase sempre, acaba tendo de engolir tudo outra vez. Só que agora não são ovos na cabeça nem rabiscos na cara, mas pode ser (e geralmente é) muito pior.
Os veteranos da sua profissão, isto é, profissionais que atuam na área há muito mais tempo e comumente ocupam cargos de chefias, vão lhe tratar com desdém, vão duvidar da sua inteligência, vão lhe colocar para lavar as xícaras do cafezinho da empresa e a pagar suas contas pessoais, apenas por trote.
Só para mostrar para você quem é que manda, quem é que sabe, quem é que dá as ordens e inventa as regras do jogo que você mal e mal começou a jogar.
E, é claro: é melhor ser bixo numa universidade do que novato numa profissão.
Isso porque, na universidade, é garantido que depois de um ano você será um veterano. Já numa profissão, você pode ser O Novato durante muito mais tempo do que sua vã filosofia pode imaginar.
E o mais engraçado disso tudo é que as chances de você, que foi espezinhado quando ainda era um novato, se tornar uma grande besta quadrada e prepotente quando deixar de ser um novato (mesmo que isso leve anos), são altíssimas.
É como se houvesse um desejo maior e perverso de realizar uma forma enviesada de vingança pelo que passou, fazendo com que um inocente recém-chegado viva exatamente as mesmas agruras que você viveu, num passado que procura esquecer.

Acho isso errado, além de estúpido.
E o pior é que acontece em todas as profissões, desde as mais simples até as mais complexas. Desde o pintor até o médico, desde o fotógrafo até o engenheiro, desde o jardineiro até o eletricista.
Mesmo que não haja uma estrutura hierárquica na profissão que escolheu seguir, sempre haverá quem está na lida há mais tempo que você, e sempre haverá quem vai pensar que, por estar na lida há mais tempo que você, naturalmente é superior a você, e por isso tem o direito de fazer com que você se sinta um imundície desprezível, feio e inútil.

Não posso falar aqui das outras profissões, por falta de conhecimento de causa, mas posso falar da minha: o belo e ingrato ofício de escrever.
Escrevo desde sempre, mas passei a levar o negócio a sério apenas há uns três ou quatro anos atrás. E três ou quatro anos nem de longe é tempo suficiente para que escritores de renome, que escrevem há, sei lá, 10, 20, 38 anos, olhem para mim de igual para igual.
Tudo bem, nada contra.
O que acontece é que, ao longo destes brevíssimos três ou quatro anos, entrei em contato com muitos deles, seja para convidá-los a escrever para o 3:AM Magazine Brasil ou para a Assassinos S/A, seja para trocar uma idéia ou pedir uma opinião ou dizer ‘oi, te admiro’.
Poucos, muito poucos, responderam.
E destes muito poucos que responderam, nem metade foi educado e humilde, como o manual da boa convivência sugere que sejamos.
Eles simplesmente te ignoram e, quando não te ignoram, são monossilábicos ou até grosseiros.
Teve uma autora, na qual me reservo o direito de não citar o nome, que me cobrou 500 dólares (sim, dólares) para me autorizar a publicar um texto seu no 3:AM Magazine Brasil e não, não era a Stephenie Meyer.
Em 2009 entrei em contato com um escritor de razoável prestígio no Brasil, pedindo humildemente se ele poderia prefaciar meu próximo livro – cujo plano era lançá-lo metade deste ano. Ele aceitou. Eu quase morri de emoção. Enviei, ingênua e saltitante, os originais pelo Correio para ele, que confirmou o recebimento e desde então desapareceu do sistema solar.
Isso me deixou mega chateada.
Primeiro porque era um escritor que eu gostava muito.
Segundo porque ele poderia perfeitamente ter me dito que não podia escrever, pois estava sem tempo, sem computador, sem paciência, sem vontade.
Meia dúzia de caracteres e eu entenderia.
Mas não.
Ele aceitou.
Depois, pressupondo que ele não tenha gostado do que leu – direito dele – e não quisesse prefaciar o livro, bastava dizer: não gostei e não me sinto apto a prefaciar o livro.
Certo?
Errado.
Ele aceitou e me deixou aqui plantada, esperando que nem uma bocó por um prefácio que nunca veio nem nunca virá.
Eu ainda tentei contato muitas vezes, argumentando que o livro tinha prazos e planejamentos para sair, e que eu precisava de um retorno. Pelo menos uma resposta, qualquer resposta, nem que fosse me mandando tomar naquele lugar onde o sol não bate.
Mas nada, completamente nada.
Isso sem falar nos tantos outros escritores que, com indelicadeza, sumariamente te ignoram, tratando com desprezo e grosseria teu trabalho e, naturalmente, teu respeito por eles.
A pergunta é: E SE ao invés de ter sido a desconhecida e pouco reconhecida Jana Lauxen, houvesse sido o Luis Fernando Veríssimo que tivesse feito contato com estes autores, o descaso e o desrespeito teriam sido os mesmos? Provavelmente não. E longe, muito longe de mim comparar minha discreta literatura com a do mestre Veríssimo, mas uma coisa não podemos negar: ambos somos escritores, independente da qualidade de nossos trabalhos e, mais importante que isso, ambos somos pessoas - logo, ambos somos dignos de consideração.
De um mínimo de educação, pelo menos.
Tenho certeza que esses caras não respondem ao bom dia do porteiro também.

Eu acho o seguinte: ninguém tem o direito de tratar outras pessoas com pouco-caso, com leviandade, com descortesia.
E, apesar de saber que coisas deste gênero acontecem em todas as profissões, em todos os tempos e todos os dias, quando tratamos de arte o problema eclode.
Porque os artistas, de modo geral, são de uma soberba, de um egocentrismo, de uma arrogância incompreensível e irracional.
Quase cômica.

Escrevo isso tudo para fazer um apelo ao pessoal que passa por aqui, independente de suas profissões: menos, minha gente. BEM MENOS!
Não é porque você é um cirurgião dentista que pode maltratar a faxineira da sua casa. Não é porque você é um advogado que pode cuspir na cara da sua secretária. Não é porque a Cia. das Letras publica seus livros que você pode tratar mal quem publica de forma independente ou quem ainda está buscando sua primeira publicação.
Parece óbvio, né?
Só que não é.

Porém, como sei que escritores veteranos não lêem blogues de escritores novatos, e que nem o sujeito que me deu o bolo no prefácio nem a bonita que quis me cobrar 500 dólares (haha) para publicar seu texto passarão por aqui, este recado fica mesmo para você que, assim como eu, é um calouro no mundo da literatura.
De todos nós, é certo que pelo menos um vai chegar lá.
Pelo menos um vai ser publicado por uma grande editora, vai ganhar prêmios literários importantes, vai participar da FLIP e vai ter seu livro resenhado por grandes veículos de comunicação.
Eu acredito: pelo menos um.
Talvez demorem anos (não é fácil tirar a tinta da cara, o ovo do cabelo e descer da mesa cambaleante), mas tenho certeza que pelo menos um de nós chegará lá.
E se, por acaso, for você quem chegar lá, por favor amigão: não pense que é o último pedaço de pizza, o gás da coca-cola, o oásis no meio do deserto, o grande e insubstituível gênio da literatura moderna.
Porque, sem querer ofender, você não é nada disso, meu chapa, e nem nunca será, porque ninguém é, ninguém nunca será.
Não repita este ciclo de prepotência e falta de elegância com quem, à época, estará começando.
Quando chegar lá, não esqueça do que você passou (e eu sei, você passa!) quando estava começando, e não queira vomitar na cabeça dos novatos de então sua ira ressentida pelos veteranos de agora.
E não importa se você será um grande escritor, um grande quadrinista, um grande ilustrador, um grande fotógrafo.
Não esqueça nunca de onde você veio, de como você começou, e trate de baixar esse nariz empinado e manter seu ego dentro de uma rígida dieta.
Independente do que conseguir, do que conquistar, dos amigos importantes que cativar, dos prêmios que receber, do dinheiro que acumular, do prestígio que desfrutar, de quantos seguidores tiver no twitter: você continuará sendo uma pessoa.
Só uma pessoa.
Como eu.
Como o porteiro do prédio.
Como a tia do cafezinho.
Como a Stephenie Meyer.