24 maio 2010

Razão & Emoção & Fernandão

Parece-me evidente que a vida de todo mundo seria mais simples, prática e saudável se escutássemos mais a voz suave e tranqüila da razão e menos os gritos histéricos e nervosos da emoção.
Nada contra a emoção - fundamental para que se mantenha o sangue correndo quente pelas veias - mas é certo que ela nos aproxima de nossos instintos mais primitivos, cegando nossa visão coerente da situação, e por isso nos colocando em apuros na maioria das vezes.
A emoção é irracional.
Por isso é emoção.
Porque jorra, supura, salta para fora, faz barulho.
Por que bloqueia qualquer linha de pensamento lógico e permite que o sentimento (nem sempre e quase nunca coeso) guie nossas ações.
Durante toda nossa vida vivemos, internamente, a batalha entre razão e emoção.
Entre o que devemos e o que queremos fazer.
Entre o que pensamos e entre o que sentimos.
Uma luta complicada e desigual na qual, na grande maioria das vezes e para a grande maioria das pessoas, quem vence é a emoção, ardilosa e inesperada - aparentemente ela é mais forte, e usa de táticas pouco ortodoxas para tomar o poder.
Os mais românticos costumam engrandecer a emoção, pintando como aborrecível e monótono o sujeito que usa, predominantemente, a razão. Ser racional, dizem, é chato. O racional planeja-se, controla-se, avalia-se, não faz nada inesperado, nunca. Parece frio, calculista e premeditado.
Já o emocional jorra, grita, rasga, atira-se num abismo, e pessoas assim costumam parecer mais interessantes. E até são. Porque estão sempre surpreendendo, porque estão sempre fora do lugar comum.
Mas para o indivíduo - e não para quem assiste aos seus espetáculos - é muito mais inteligente e vantajoso guiar-se pelos conselhos da razão.

Porque escrevo este tratado pobre, porém honesto e limpinho, sobre os rumos que nos levam a tomar razão ou emoção?
Para falar de futebol, é claro.
Um esporte onde a razão não tem vez e onde podemos ver, muitas vezes chocados, pessoas racionais e contidas se transformarem em animais feridos guiados única e exclusivamente pelos impulsos mais bestiais.
Exemplo? Eu.
Óquei, óquei, não posso dizer que sou a pessoa mais centrada, controlada e sossegada que anda sobre a face da terra, mas, como disse acima, primo pela racionalidade em detrimento da emoção. Sempre que esta última vem para me dar uma rasteira, tento - pelo menos tento - parar, respirar, analisar e seguir o que diz minha razão - nela eu confio. E, acreditem: este jeito de encarar os problemas e situações adversas já salvou a minha pele rosada mais de uma vez.
Agora, se quiserem me ver descontrolada, estúpida e louca, me procurem num dia de jogo do Internacional.
Especialmente se estivermos perdendo.
Irão me ver falando tantos impropérios e descalabros que questionarão, com toda a certeza, minha sanidade mental.

Ontem, como alguns de vocês devem saber, teve jogo do Inter lá em casa, no Beira Rio.
Mas não era um jogo comum, não!
Enfrentávamos o São Paulo pelo Campeonato Brasileiro - o mesmo time que enfrentaremos, por duas vezes seguidas, nas quartas de final da Libertadores da América, num mata-mata que, afinal, acaba matando mesmo é torcedores como eu.
Este jogo foi uma prévia do que, provavelmente, virá por aí, mas não é só isso.
Era também o primeiro jogo em que o Internacional enfrentaria seu ex-capitão, Fernandão, vestindo a camiseta tricolor. Nem tudo era novidade, pois, depois que saiu do Inter, Fernandão já vestiu a camiseta verde do Goiás e enfrentou nosso Inter em nosso Beira-Rio, ano passado. O que aconteceu naquela tarde de domingo de 2009 acabou até virando post aqui no Blogue da Jana (leia clicando aqui).
Então.
Daquela outra vez, Fernandão foi ovacionado pela massa vermelha assim que pisou em campo, e tão logo tocou na bola, passou a ser vaiado pelos mesmos que, até poucos minutos atrás, o saudavam. Ora - repito - torcemos para o Inter, não para o Fernandão. E todo esse entrevero de sentimentos provavelmente deu um nó na cabeça de nosso querido ex-capitão, que acabou expulso nos primeiros instantes do primeiro tempo, depois de fazer uma falta esquisita e sem nexo em outro jogador colorado, o Magrão.
Tava na cara que, naquela ocasião, Fernandão não tinha agüentado o tranco de jogar contra o time que levava no coração.
Sim, Fernandão era colorado de verdade!
Comovida, quase às lágrimas, escrevi o tal texto, que acima deixei o link.

Porém, agora os tempos são outros.
Muita água passou por debaixo desta ponte chamada futebol, e Fernandão, após uma temporada discreta no Goiás, foi contratado pelo São Paulo.
E ontem, Inter enfrentou o São Paulo de Fernandão.
Estava ansiosa para ver o que aconteceria desta vez.
Fernandão chegou a dizer, antes do jogo, que respeitava o Inter e etc, mas jogaria duzentos por cento pelo São Paulo. Fiz uma careta quando o ouvi dizer isso. Confesso: senti uma dorzinha ressentida no fundo do coração.
O jogo começou e, ao contrário daquela partida longínqua contra o Goiás, Fernandão não parecia nem um pouco desmotivado, nem um pouco abalado, nem um pouco sofrido. Muito pelo contrário. Jogou de corpo & alma, e como se não bastasse, ainda fez um gol no segundo tempo, e comemorou efusivamente, dentro da nossa casa, na frente de uma massa de torcedores colorados que, como eu, o amavam!!!
Fernandão, O Desgarrado.
Aqui minha razão vai pro espaço e nasce a Janaína doida demais.
Descontrolada. Sentenciei que Fernandão era um traidor, um Judas. Um cretino, um vendido. Descontrolada. Saí da comunidade cujo nome era Obrigado Fernandão e entrei para a Morra Fernandão. Descontrolada. O odiei com toda a força que fui capaz de sentir, desejei-lhe o mal, a morte, a fome, a dor, o fogo eterno no mármore do inferno.
Minha mãe até tentou, em vão, me acalmar:
- Jana, ele é um jogador profissional.
Profissional é a p%*&@#rra! - respondi exasperada.
Como falar em profissionalismo quando estamos falando de paixão?
E sua relação com o Inter?
E todo amor que ele dizia sentir por nós, colorados?
E as lágrimas de crocodilo que deixou escapar quando foi embora, fazendo com que todos nós, colorados, deixássemos nossas lágrimas honestas escaparem também?
FALSO!
CÍNICO!
AMIGO DA ONÇA!
Fernandão não era colorado coisíssima nenhuma!
Ele me enganou, ele NOS ENGANOU!
Como todo jogador destes novos tempos, onde o futebol arte se tornou apenas uma lembrança remota, quase uma lenda, onde o amor pela camisa foi substituído pelo amor as cifras e chora menos quem paga mais; num tempo onde até paradinhas ordinárias apareceram para tirar todo o tesão e beleza de um pênalti, Fernandão é, no final das contas, como todos os outros.
E se há uma coisa que dói nessa vida de cidadão emocional é ver nossos heróis definharem e morrerem, bem na nossa frente, sem que possamos fazer nada além de lamentar nossa imensa frustração.
Fernandão, O Infiel.
Foi duro, sabe?
Para quem não gosta nem entende de futebol isso tudo pode parecer uma bobagem, um exagero, um disparate.
Mas não, caros leitores.
É a emoção dando uma surra na razão e tomando o poder.
Sempre e mais uma vez.

Agora, passadas algumas horas daquele momento difícil, restou um filete de emoção perniciosa envolta numa razão forçada, constrangida. Nos jornais estão as fotos do crime: Fernandão, com aquela camiseta branca, vermelha e preta com o emblema são paulino, rindo feliz depois do gol que nos enfiou goela abaixo, despudoradamente.
Eu sei, eu sei!
Ele é um jogador profissional e mimimi.
Ele precisa defender o time que lhe paga o salário todo mês e mimimi.
Amigos, amigos, negócios à parte.
Mimimi.
É o que diz, exaustivamente, quase aos gritos, minha razão.
Mas minha emoção quer mais é que essa conversa de profissional vá para o quinto dos infernos, e continua aqui, a lamentar-se, a contradizer-se, a consumir-se.

O que eu ganho com isso?
Nada, além de uma dor de estômago e um embrulhinho na garganta.
É certo que se - e eu disse SE - eu conseguisse sobrepor minha razão à emoção, não estaria sofrendo agora. Muito pelo contrário. Estaria calma e pura, com a coluna ereta e as pernas cruzadas, as mãos sobre as pernas cruzadas e um olhar plácido e calmo, falando com a voz inabalável:
- Jogador pofissional, mimimi.
Mas não consigo.

Ah... a razão.
Deveríamos ouvi-la mais.
Só que agora estou surda.
Irracional.
Dane-se.
Estou sofrendo por causa de futebol, e nem o sofrimento nem o futebol aceitam qualquer argumento da razão – que, apesar da fidelidade, não costuma entender muito bem nossos motivos.