23 abril 2010

Legalize.

Eu acredito muito no poder dos pratos-limpos.
Do preto-no-branco.
E entendo que não existe maneira melhor e mais confiável de resolver qualquer problema do que colocando-o sobre as luzes dos holofotes, tratando-o com a devida e merecida seriedade.
Proibir, criar tabus, blefar, varrer para debaixo do tapete e assobiar para disfarçar nunca resolveu problemática nenhuma, muito pelo contrário: apenas acresceu àquelas que sempre existiram.
E é por isso que afirmo, com convicção: está na hora de começarmos a falar sério sobre legalizações.
Sem histeria, fanatismo ou crendice.
Inicialmente, sugiro debatermos a regularização da maconha e do aborto.
Sim, maconha e aborto.
E desfaçam essas expressões de chocados, que isso não colaborará para tirar nossos pés da areia movediça na qual nos enfiamos.

Primeiro: esqueçam, definitivamente esqueçam, essa conversinha mole-pra-boi-dormir de que legalizar irá promover uma enxurrada de gente atrás de baseados e clínicas de abortos.
Isso não vai acontecer.
Sabem por quê?
Porque isso já acontece.
É, acontece.
Basta ligar a TV e abrir o jornal.
Os dados – estarrecedores – estão ali: só no Brasil, 3 milhões* de pessoas fumam maconha, e todo ano são feitos mais de 1 milhão e meio** de abortos clandestinos.
Ou seja: do jeito que estamos tentamos resolver até agora não está funcionando.
E não sou eu quem diz, são as pesquisas, os números, os fatos.
Seria inteligente, talvez, mudar de tática, porque esta que estamos usando, há tanto tempo, categoricamente não está dando certo.

Segundo: não confundam, peloamordedeus, legalizar com incentivar.
Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Quando falo em legalizar a maconha e o aborto, não quero dizer que vá passar propaganda no intervalo da novela das 8 dizendo ‘fume’ ou ‘aborte’.
Não, não mesmo.
A legalização irá permitir, inclusive, um debate mais seguro e saudável sobre porque não se deve fumar ou abortar.
Veja, por exemplo, o cigarro.
Mesmo legalizadíssimo e de fácil acesso, graças a campanhas de conscientização o número de fumantes cai ano após ano.
Porque não utilizar deste mesmo artifício para combater o aumento descontrolado de abortos e maconheiros Brasil afora?

Terceiro: não, eu não sou a favor do aborto.
Para mim é assassinato, não interessa se feito na primeira ou na última semana de gestação.
Acredito que, no momento da concepção, já existe vida e fim.
E ninguém, ninguém mesmo, vai demover esta idéia da minha cabeça.
Não faria, jamais, e não posso negar que tenho um certo desprezinho por quem já fez.
Sou contra, mil vezes contra, cem milhões de vezes contra.
No entanto, ninguém deixa de abortar por causa disso.
Muita gente não pensa como eu, e da mesma maneira que ninguém vai demover da minha cabeça a idéia de que aborto é, sim, um assassinato, ninguém vai demover da cabeça dessas mulheres que aborto não é, não, um assassinato, e que elas têm direito sobre seu corpo e blábláblá.
Aí vocês me dirão: então você é a favor de que legalizem o que chama de assassinato?
Sim, sou.
Porque vão fazer de qualquer jeito, então que façam dentro da lei, para que o assunto possa ser discutido abertamente, sem dogmas e preconceito.
E depois, que cada mãe se entenda com sua consciência.

Quarto: também acho melhor não fumar maconha do que fumar maconha.
Para algumas pessoas a dita cuja faz muito mal, é fato.
Não deveríamos fumar maconha.
Nem consumir gordura trans, açúcar, álcool, sal, chás alucinógenos.
Mas ninguém se importa.
Todo mundo fuma maconha, e consome gordura trans, açúcar, álcool, sal e chás alucinógenos.
Não é porque está proibido, ou porque especialistas não recomendam, que alguém deixa de fazer qualquer coisa.
Com a maconha é a mesma conversa.
Ninguém se importa se a maconha está proibida; muita gente fuma e acabou.
Até a velha e estereotipada imagem do maconheiro fedido e chapado atirado na valeta já ficou para trás há muito tempo.
Hoje em dia sabe-se que, quem fuma maconha pode, além de fumar, trabalhar, sustentar uma casa, ter filhos, emprego, sucesso profissional e uma vida perfeitamente normal. Podem até serem atletas olímpicos, não é Giba?
Ou não, pois a maconha também faz muito mal e etc, mas isso é problema do sujeito que resolveu fumar.
Legalizando, descentralizaríamos o comércio das mãos de traficantes armados e aliciadores de menores, e teríamos, o estado e os cidadãos, mais controle sobre o estado e os cidadãos.
Capitão Nascimento até poderia deixar de lado seu discurso sobre ‘a maconha que financia o tráfico de drogas e mimimi’.
Não financiaria mais, iés.
Na minha opinião, é mais simples e eficaz legalizá-la do que esperar que os 190 milhões*** de maconheiros que existem no mundo parem de fumar apenas porque um publicitário espertão inventou um slogam espertão que diz ‘quem fuma maconha financia a violência’.
Ponto final.

Quinto: precisamos, urgentemente, deixar a hipocrisia de lado e encararmos nossos problemas de frente, com coragem e boa vontade para resolvê-los.
Varrê-los para debaixo do tapete ou torná-los ilegais não está funcionando, e precisamos aceitar isso com maturidade e lucidez.
Legalizando-os, poderíamos mais facilmente falar sobre eles, discuti-los, criar meios e maneiras de preveni-los, combatê-los, reduzir seus danos.
Já passou da hora do estado deixar de ser nosso papai & mamãe e nos emancipar, cortar o cordão umbilical, nos deixar responsáveis pelas nossas escolhas.

Por mais que você não concorde com uma só palavra do que escrevi aqui, é preciso que reconheça que pessoas abortam e pessoas fumam maconha, quer queira, quer não queira, e proibir não tem ajudado a diminuir estes números.
Bem pelo contrário.
E se legalizar não for a melhor saída, que levante a mão e se manifeste quem tiver uma idéia melhor.

* segundo Relatório Mundial sobre Drogas 2008, ONU.
** segundo dados da Universidade de Brasília
*** segundo dados da ONU.

Publicado na Revista Zena.

Leia também a crônica que Jorge Dimas Carlet escreveu depois de ler Legalize.
Recomendo.
Um ótimo complemento para as idéias contidas aqui.