13 abril 2010

A diferença entre o novato e o amador.

Novatos todos somos, já fomos ou um dia seremos.
Quem está iniciando, seja em uma profissão, em um emprego, em uma faculdade, é um novato.
E o novato, é claro, ainda é inexperiente – por isso a alcunha, novato.
Está começando, não conhece ainda as manhas e artimanhas do terreno desconhecido no qual dá seus primeiros passos.
Porém – e isso é muito importante – ser novato não significa ser amador.
Porque o amador não é profissional, enquanto o novato pode ser.
Existem muitos, que há muito tempo estão ali (na profissão, no emprego, na faculdade), e continuam sendo amadores.
Veteranos muito mais amadores que muitos novatos profissionais que andam por aí.
Não podemos, de maneira nenhuma, confundir um com o outro.
Porque o amador é irresponsável, não cumpre prazos, datas, não se interessa e nem respeita o trabalho das outras pessoas que também estão envolvidas.
O amador acredita piamente que apenas seu talento o salvará do anonimato.
Acha, ingenuamente, que o mundo se adaptará a ele, e não o contrário, apenas porque faz bem feito aquilo que se comprometeu a fazer.
Ilusão.
Não posso ainda dizer que sou uma veterana naquilo que faço, mas lá se vão quase 7 anos que trabalho envolvida com mercado editorial e livros e ilustrações e trabalhos em equipe e projetos e prazos e orçamentos e planilhas e etc.
E se existe uma coisa que aprendi foi que talento, só talento, não serve para absolutamente nada quando faltam outras características tão ou mais importantes quanto.
Ficou chocado com essa afirmação?
Pois vá se acostumando, camarada, se quiser, um dia, ser considerado um profissional naquilo que faz.

É evidente que alguém desprovido de qualquer tipo de talento vai ter mais dificuldade de encontrar seu lugar ao sol.
Porém, vivemos uma época em que todo mundo escreve, e todo mundo ilustra, e todo mundo fotografa, e todo mundo é artista – uma boa parte, inclusive, são também muito melhores no que fazem do que eu e você – de modo que, para se destacar no meio de tanta gente, é preciso, além de talento, ter responsabilidade, boa vontade, profissionalismo e, o mais importante de tudo: humildade e dedicação.
Parece clichê, mas é a mais cristalina das verdades: o talento, sem estas outras qualidades imprescindíveis, é fogo de palha – vira cinza depois de alguns poucos minutos.

Eu, por exemplo, já tive contato com escritores verdadeiramente promissores. Gente que simplesmente reinava escrevendo, que dava gosto de degustar linha por linha.
Talento puro.
Autores que, sem dúvida nenhuma, mais cedo ou mais tarde acabariam chegando aonde gostariam de chegar.
Mas – e sempre existe um MAS – eram completamente descompromissados e megalomaníacos. Acreditavam que bastava escrever seus maravilhosos textos e pronto: as portas do paraíso e do prestígio se abririam sem nenhuma dificuldade para eles.
E por isso, simplesmente ignoravam toda a parte profissional de seu trabalho, julgando que a inspiração substituiria a transpiração, necessária para que as coisas aconteçam dentro de um mínimo de organização e seriedade – principais bases do profissionalismo.
Ora, não é porque trabalhamos com arte e etc que vivemos em um oba-oba.
O que acontecia, então?
Estes talentosos autores acabavam simplesmente descartados.
Sumariamente substituídos por medianos autores – que de fato não escreviam tão bem quanto eles, porém estavam comprometidos profissionalmente com seu trabalho.
E estes, acreditem, apesar de não serem exemplos irrefutáveis de aptidão e criatividade, pegaram os lugares daqueles que escreviam com bem mais propriedade; mas eram amadores.
Tudo porque algumas virtudes substituem, sim, o talento.
E é por isso, amigos, que encontramos por aí escritores, fotógrafos e ilustradores que nem são tão bons assim, mas são reconhecidos, prestigiados, bem-conceituados.
Porque cumpriram os compromissos que assumiram e, devagar e sempre, ganharam terreno e conquistaram o espaço que os amadores nunca conquistarão.

Está achando esta conversa toda muito careta?
Pois trate de repensar seus conceitos, amigão.
Precisa-se e prefere-se mais, e muito mais, novatos profissionais do que grandes talentos amadores.
Reflitam.