29 abril 2010

8 de março de 2007.

Divido minha vida em antes e depois de.
Até este dia, eu era uma Jana Lauxen.
Tinha 22 anos, havia recém me formado na faculdade de Publicidade & Propaganda - sabendo de antemão que não era nada disso que eu queria - e havia também recém terminado um relacionado que, cem por cento de certeza, foi o mais chato e problemático da minha vida. Um ano e três meses passados presa dentro de uma gaiola imaginária, sendo alimentada com alpistes estragados por um sujeito que, para não dizer coisa pior, era doente.
Um sujeito que me impedia de existir.
Foi difícil escapar dele e de sua jaula, mas, uma semana antes do dia 8 de março de 2007, eu consegui. Com a ajuda dos meus pais, é verdade, e ameaçando chamar a polícia e armar um barraco, também é verdade, mas enfim. Consegui.
Foi numa quinta-feira.
Passei aquela primeira semana livre desconfiada.
Ora, era estranho.
Meu pai sempre me dizia, quando eu era criança, que se soltamos um passarinho que viveu muito tempo dentro de uma gaiola, ele morre.
Por isso estava ressabiada.
Havia me desacostumado com a liberdade.
Porém, lembrava bem dela.
Lembrava o quanto era preciosa e fundamental para que possamos manter um mínimo de dignidade e de sanidade mental.
Todo mundo precisa de liberdade, afinal.
E eu queria-a de volta, e estava disposta a ficar sozinha forever, caso fosse este o preço que ela cobrasse para voltar para mim.
E sete dias depois do dia em que expulsei o sujeito que roubou a liberdade de mim durante um ano e três meses - sete dias depois de haver decidido que da minha liberdade eu não abriria mão nunca mais, e fim de papo - eu conheci um cara.
A vida faz dessas coisas.
Arma arapucas, armadilhas, inverte as placas, muda o roteiro e as regras do jogo e nem sequer avisa.
Então.
Eu conheci um cara, e disse que o amava assim que o beijei pela primeira vez.
Admito que eu havia tomado uma garrafa inteira de vodka, mas eu o amei assim que o beijei.
Acho que o amei até antes disso, mas depois do beijo, tive certeza.
Eu o amava.
Desesperadamente.

Mas, mesmo assim, não iria entregar a ele minha liberdade, não outra vez.
Havia concluído que uma pessoa que lhe impede de ser livre não é merecedora de porcaria nenhuma.
Acontece que ele não pediu minha liberdade em troca do seu amor.
Muito, muitíssimo pelo contrário.
Lembro-me até hoje que, naquela mesma noite, enquanto conversávamos, ele disse: minha filosofia de vida se fundamenta, basicamente, na seguinte teoria: “aquele que colocar as mãos sobre mim para me governar, é um usurpador, um tirano. Declaro-o meu inimigo”.
Era o homem da minha vida.
Definitivamente.

Mesmo assim, faltava a convivência.
Afinal, fazia apenas algumas poucas horas que estávamos ali, juntos, e dizer um monte de coisas agradáveis é fácil, todo mundo que tem boca e cordas vocais é capaz de falar.
E de mentir.
Mas não, ele não mentiu.
E hoje, mais de três anos depois daquela noite feliz, posso afirmar com toda a certeza do mundo: existe, sim, alma gêmea.
Existe, sim, amor perfeito.
Existe, sim, príncipe encantado.
Talvez não tal e qual os contos de fadas e as novelas costumam representar, mas, em sua essência, existe.

Este cara que dividiu minha vida em antes e depois de se chama Alexandre.
Para os íntimos, Cavanhas.
Para os internautas, Afobório.
E, sem medo de exagerar, posso afirmar a todos que, por ventura, aqui passarem, que ele foi o cara que salvou a minha vida.
Salvou-me de mim mesma.
Salvou-me da minha compulsão crônica aliada a uma imaturidade imensa, que provavelmente me jogaria para o fundo do poço, se é que mais fundo no poço eu seria capaz de descer.
Ele me atirou uma cordinha e me puxou para cima.
No entanto, me alertou: se você não ajudar, não vou conseguir te tirar daí.
Então eu me esforcei, e a luz que enxerguei no fim do túnel, desta vez não era o trem vindo em minha direção.
Era ele.
Com uma lanterninha na mão.

E hoje, exatamente hoje, meu garoto faz 32 anos.
É, está de aniversário.
E se eu pudesse, gostaria de lhe comprar o mundo inteiro, embrulhá-lo para presente e lhe entregar com um laço vermelho em cima e um cartão, dizendo que ainda assim é muito pouco perto do que ele fez por mim.
Infelizmente, não posso.
Mas não importa também.
Nenhum presente, por maior, mais caro e mais importante que seja, seria capaz de representar todo o amor, toda a amizade e toda a gratidão que sou capaz de sentir por ele, e sinto.
O Cavanhas me faz querer ser uma pessoa melhor todos os dias, me faz querer ficar viva para poder continuar ao seu lado, rindo dos seus comentários prudentes, e rindo também das suas rabugices, e admirando cada vez mais e mais sua imensa capacidade de se doar, de ser um HOMEM de verdade, com H maiúsculo e caps lock ligado.
Meu amigo, meu amor, meu cúmplice.
A liberdade é, de fato, mais importante que o pão.
É o amor, em sua forma plena e irrestrita.
Foi ele quem me mostrou que isso não precisa ser apenas uma teoria bonitinha.
Pode ser verdade.