12 março 2010

Mataram o Glauco.

Entraram em sua casa, atiraram em seu filho e levaram, junto com seu carro, sua vida.
Sua genialidade.
Seu senso de humor afinado e afiado, que tantas vezes arrancou-nos uma gargalhada quando o dia parecia azedo.
Não mataram apenas Glauco, cidadão, pai, marido, amigo, pagador de contas e impostos.
Mataram também um pedaço expressivo da fina flor do humor brasileiro; mataram aquele sorriso que escapava toda vez que topávamos com algumas de suas grandes sacadas, seu traço característico e curioso que delineava figuras que já nos eram familiares.
Mataram Dona Marta, Zé do Apocalipse, Doy Jorge, o Casal Neuras, Edmar Bregmam, Zé Malária, Ficadinha, Ozetês, Faquinha, Nojinsk, Geraldinho e Geraldão, e tantos outros, que sequer haviam nascido ainda.
Não foi um simples assassinato – se é que existem simples assassinatos.
Foi um verdadeiro genocídio.

Mas o pior, o mais triste e o mais revoltante de tudo é saber que violências como esta, que desta vez vitimaram Glauco e sua família, acontecem todos os dias, todas as horas, quiçá todos os instantes.
Devem, inclusive, estar acontecendo neste exato momento, enquanto você lê este texto.
E, na maioria das vezes, passam despercebidas pela gente.
É que estamos, lamentavelmente, nos acostumando com a selvageria, com a crueldade, com a covardia, com o fato de que a vida de uma pessoa, seja ela famosa ou anônima, não valer porcaria nenhuma.
É difícil falar dessas coisas sem cair em clichês, em obviedades, em lugares-comuns. Mas a verdade é que tem alguma coisa muito errada acontecendo, pois aceitamos, muitas vezes até conformados, este alvo invisível, porém saliente, pintado em nossas testas.
Somos, sim, vítimas em potencial.
Estamos, sim, sujeitos a nos tornarmos números em estatísticas grosseiras, que não param de crescer dia após dia.
Estamos agora conversando, tomando um pileque, comprando maças, olhando o relógio, e daqui a cinco minutos, quem saberá?

Não me perguntem o que fazer para resolver tudo isso.
Eu não sei.
Não faço a mínima idéia.
A problemática da violência, assim como tantas outras problemáticas brasileiras, parte de um ponto claro e específico, mas acaba dando tantas voltas que não chega a lugar nenhum.
Precisávamos, primeiramente, recuperar o sentido de justiça, que banalizou e virou qualquer coisa que não sabemos o que é.
A justiça precisa ser feita, integralmente, sem recursos, sem brechas na constituição, sem absolvições absurdas, sem habeas corpus infundados e afins.
Justiça hoje e agora e ponto final.
Mas para isso careceríamos de mais vagas nos presídios, de policiais menos corruptos, de agilidade nas leis, de punição significativa.
E isso implica investimentos e - o maior dos nossos problemas - boa vontade política e administrativa.
Precisamos é começar a prevenir o mal, parar apenas de remediá-lo.
Bandidos como estes cretinos que invadiram a casa de Glauco ontem de noite precisam saber que serão punidos, duramente punidos, severamente punidos, pois caso contrário continuarão invadindo casas e atirando em pessoas por nada.
Levando-se em conta a justa popularidade de Glauco, é muito provável que logo logo tenhamos nome e sobrenome dos responsáveis por mais essa barbaridade, mas e daí?
Vamos julgá-los, dar-lhe-emos uma pena ridícula de 10 ou 15 anos de prisão, os pulhas ficarão presos um terço desse tempo e sairão lépidos e fagueiros por bom comportamento. Isso se um deles não for menor de idade, e ficar preso alguns meses para, depois de completar 18 anos, sair inclusive com a ficha limpa.
E nós continuaremos órfãos, com este alvo invisível e saliente pintado em nossa testa, rezando para que algum Deus seja capaz de nos proteger da nossa própria estupidez.

Que pena, Glauco.
Você vai fazer uma falta danada.
E a dor que todos nós agora dividimos aqui é por nós, não por ti.
Sim, camarada.
Você e seu filho devem estar bem agora, tenho certeza disso.
Em um lugar bacana e divertido onde pessoas não invadem casas e atiram em outras pessoas.
A vida não termina quando a morte acontece, e nisso eu acredito firmemente.
E por isso, repito: a dor que sentimos é por nós.
Nós, que continuamos aqui, a mercê, caminhando de um lado para outro sem saber direito porque fazemos isso, com esse alvo saliente bem no meio de nossas testas, esperando debilmente quem será a próxima vítima desta violência insana que assola nossas vidas covardemente.
Se choramos, amigo, choramos por nós.
Por ti continuaremos rindo, sorrindo, sempre, apesar deste nó que agora existe bem aqui, na garganta.
Esteja em paz, grande Glauco.
E boa sorte pra nós, que ficamos.

Homenagem do meu amigo Toni D'Agostinho.