27 março 2010

Isabella Nardoni era minha filha.

Sua irmã.
Sobrinha do meu pai.
Prima da minha mãe.
Amiguinha do meu afilhado.
Enteada do teu vizinho.

Todos adotaram Isabella, de uma maneira ou de outra.
Ela transformou-se num símbolo, a representar todas as crianças - e, porque não dizer, todos os adultos também - que sofrem ou já sofreram violência extrema, estúpida, covarde.
Por isso nosso clamor por justiça, quase doentio.
Ouvi de algumas pessoas que toda a cobertura midiática deste caso aconteceu apenas porque “Isabella era rica. Se fosse pobre, nenhuma pessoa ligava”.
Que “coisas deste tipo acontecem todo dia e ninguém se importa”.
Que “a mídia sanguessuga é aproveitadora e não respeita a dor da família”.
Bem, Isabella não era rica. Se ela era, então eu também sou.
Coisas deste tipo, de fato, acontecem todos os dias, e eu juro que não sei por que algumas tomam proporções astronômicas enquanto outras caem no completo esquecimento – creio que nem Freud explicaria.
E a mídia é, sim, sanguessuga e aproveitadora, tal e qual somos todos nós – a dor sempre despertou e sempre despertará no ser humano uma curiosidade quase mórbida, que nada mais é que uma tentativa vã de tentar compreender o que não tem compreensão.
Não é esta a questão.
O caso Isabella cresceu e insuflou-se porque nós a adotamos.
E porque, enquanto povo brasileiro, estamos esgotados, fatigados, cansados de ver perpetuar-se injustiças grotescas, absurdos que embargam nossa voz, embaçam nossos olhos e travam nossa garganta.
Que nos fazem relembrar o tamanho de nossa impotência cidadã.
Um dos criminosos que estavam dentro do carro que arrastou o menino João Hélio não só está livre, como ganhou proteção da justiça e, quiçá, um dinheirinho mensal para poder tocar sua vida.
Champinha, o moleque psicótico que passou quatro dias estuprando Liana Friedenbach e, por fim, desferiu-lhe 14 facadas, ainda não está solto, mas logo estará, e com sua ficha policial mais limpa que a minha e a sua.
Daniela Perez, se não tivesse sido assassinada brutalmente com 18 tesouradas, estaria viva para ver seus assassinos comprando bananas na fruteira como se nada tivesse acontecido.
Para não citar apenas casos nacionalmente conhecidos, dou-lhes outro triste exemplo: há mais ou menos 5 anos atrás, um querido amigo meu chamado Cristiano foi espancado, queimado, torturado, baleado, e não gosto nem de imaginar o que mais lhe fizeram, apenas porque era gay. O assassino confesso, preso à época, já está solto e feliz andando pela cidade afora.
E nem vou começar a falar aqui da impunidade que reina entre nossos políticos, caso contrário esta crônica se transformará em um tratado sobre iniqüidades e incoerências.
Esta é nossa realidade, nossa justiça, nossa constituição.
Este é o nosso país.
Um país sem presídios, sem punição e com muitas leis que nunca se cumprem.
Um país que protege o criminoso e condena o cidadão a prisão domiciliar perpétua.
E, dia após dia, sentamos na frente da tevê e abrimos os jornais e engolimos, a seco, o mais variado fardo de sortilégios e aberrações, que nos fazem questionar o que, de fato, é certo e errado, bem e mal, justo e injusto.
Às vezes acho que nem sabemos mais.
Quando Isabella despencou do sexto andar do edifício London, há quase dois anos, nós estávamos ali, olhos vidrados na televisão.
Tentando entender por que.
Quando levaram seu pai e sua madrasta presos, nós também estávamos ali, assistindo, tentando acreditar, decodificar, engolir.
Conhecemos, então, sua mãezinha, destruída, arrasada.
Vimos fotos e vídeos da menina, desde quando era um bebezinho, e descobrimos que no dia do seu assassinato ela havia aprendido a mergulhar.
Nos envolvemos, claro.
A adotamos, naturalmente.
E foi por isso – e não porque a vítima tinha dinheiro, ou porque a mídia é selvagem, e nem por nenhum outro motivo – que compramos essa briga como se fosse nossa.
E por isso paramos durante esta semana estranha, em que os responsáveis por tamanha crueldade estavam em júri, sendo julgados pelo crime que, tudo indica, cometeram.
Grudamos na frente da tevê, comentamos no Twitter, lemos notícias na Internet, nos jornais, nas revistas.
Tudo porque precisávamos saber de tudo, mesmo daquilo que já estávamos cansados de saber.
Quem estava em São Paulo se prostrou em frente ao Fórum, cartazes na mão.
Quem não estava, ou pegou um ônibus, viajou muitas horas e foi até lá, ou parou tudo para acompanhar notícia a notícia cada passo deste que foi um dos maiores julgamentos da história deste país.
Queríamos saber, acompanhar.
Queríamos só entender.
E quando a sentença finalmente saiu, depois de cinco dias de muita especulação, debates, palpites e manifestações de todos os tipos, comemoramos.
Sim, comemoramos.
Soltamos foguetes, nos abraçamos, sorrimos felizes com a justiça que, afinal e milagrosamente, estava sendo feita.
Celebramos como se nosso time do coração tivesse se consagrado campeão do mundo.
Isso sim, me doeu.
Ver aquele povo (é, nós) gritando, se abraçando, soltando fogos, vibrando com uma condenação que nada mais é que o mínimo.
A prova cabal do quanto estamos, todos nós, cansados.
Tão cansados a ponto de que o óbvio, o básico, nos exalta a mais sincera satisfação.
Sim, caros leitores, vivemos em um país de injustiças.
Conformados, calados, resignados.
E mesmo sabendo que daqui a pouco Alexandre Nardoni e Anna Jatobá sairão livres da prisão, ‘com seu crime devidamente pago’, e retomarão suas vidas - vida esta que a mãe da Isabella jamais retomará - mesmo assim nos sentimos aliviados e contentes.
Mesmo sabendo que a condenação de Ana Carolina Oliveira e sua família é eterna – prisão perpétua em sua própria dor – ainda assim soltamos os foguetes e batemos palmas.
É, eu chorei.
Chorei pela vida de Isabella, que acabou; chorei pela dor colossal de sua mãe, que nunca acabará; e chorei principalmente por nós.
Todos nós, vítimas de mais um crime sem resposta, vítimas de uma legislação contraditória, vítimas do perigo crônico que ronda nossas vidas covardemente e nos mantém em cárcere privado, comemorando o que deveria ser praxe.