02 março 2010

Carazinho e Os Pardais

Durante quase 7 anos, morei em uma cidade chamada Carazinho, no interior do Rio Grande do Sul, 50 e poucos mil habitantes, distante alguns quilômetros de Passo Fundo.
Uma cidade como qualquer outra, porém com um detalhe que sublinho aqui: não existem pardais em Carazinho.
E não estou falando do passarinho. Refiro-me ao equipamento que monitora carros, controla velocidades e expele multas em série.
Óquei, talvez muitas cidades também não tenham pardais.
No entanto, acredito que a única que faz propaganda como se isso fosse algo bom-fantástico-e-sensacional é Carazinho.
Sim!
A gente morre e não vê tudo.
Disse o prefeito:
- Quero que Carazinho seja uma cidade livre de pardais, onde as pessoas possam tranquilizar-se ao dirigir, sem deixar de lado a responsabilidade com o trânsito, claro. Quem quiser multar vai ter que fazer isto em outro lugar.
Que bonito, Sr. Prefeito, e eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar.

Para quem está, neste exato momento, me achando uma sanguessuga capitalista, pró-multa, saibam que, quem dirige como se deve dirigir (sóbrio, dentro de um limite de velocidade razoável e sem pensar que o carro é uma extensão do próprio pau), não precisa queimar as pestanas, pois não será multado.
Raciocínio óbvio, não?
Se os pardais abusam, acreditem: os motoristas abusam muito mais – e vocês sabem disso melhor que eu. E já que é tão difícil para uns e outros entender que, no trânsito, você não é apenas responsável por sua vida, mas pela de dezenas de outros motoristas também, o jeito é radicalizar.
Infelizmente, e por uma característica estúpida tipicamente humana, as pessoas só andam na linha quando sabem que, caso contrário, serão penalizadas.
E convenhamos, poucas penalidades são tão eficazes quanto mexer no bolso do cidadão.
Mas liberar os motoristas para fazer-e-acontecer sem fiscalização e punição, acreditado que, mesmo assim, terão 'tranqüilidade ao dirigir' e ‘responsabilidade’, ou é ingenuidade crônica ou politicagem barata.
Aposto na opção B.

A propósito: quinta-feira, dia 25, às 5 horas da manhã, a gari Mara Luciane Macedo, de 37 anos, varria o centro da cidade quando foi atingida por “um veículo branco que trafegava em alta velocidade, arremessando-a a uma distância de dois metros do local do impacto” (segundo o jornal Diário da Manhã).
Mara, mãe de uma menina de 9 anos, é claro, morreu.
O motorista fugiu sem prestar socorro e ainda não foi identificado.
Provavelmente nunca será.
Nada como uma cidade livre de pardais.