30 novembro 2009

TODOS CONTRA O CRACK!

Iniciativa busca a adesão de dez mil blogues.
por Alessandra Carvalho.

TODOS CONTRA O CRACK.
Este é o nome escolhido pela gaúcha Jana Lauxen, escritora de 24 anos, para uma campanha virtual contra o CRACK, lançada sábado, dia 29 de novembro, em sua página pessoal, e que busca a aderência de dez mil blogues.

O Rio Grande do Sul assiste, nos últimos três anos, a uma invasão impiedosa do CRACK, que deixou as periferias para se infiltrar em uma sociedade que, definitivamente, não estava preparada para ele.
Desde então assistimos (ou, em muitos casos, presenciamos), a derrocada moral e social de crianças, jovens, adultos e idosos, que pelo CRACK roubam, prostituem-se, matam e, não raras as ocasiões, abandonam casa e família para viver nas ruas, ao lado de outros ‘nóias’ ou ‘pedreiros’ - como são chamados os viciados na droga.
Ninguém estava preparado para o CRACK.
Nem as autoridades, nem o sistema de saúde, nem as penitenciárias e muito menos nós, a sociedade.
Não existem ainda tratamentos eficazes no combate ao CRACK: 90% dos usuários recaem, e recaem, e recaem, consecutivamente. Não se sabe exatamente como a droga atua no sistema nervoso de seus usuários, apesar de já termos uma idéia do que ela é capaz de produzir: nunca houve tantos assaltos, homicídios e suicídios relacionados ao CRACK.
- Ele subverteu tudo que, até então, todo mundo conhecia a respeito de drogas, drogados e tratamentos. E é preciso que haja a aderência de TODOS os segmentos da sociedade, inclusive aquele onde eu e você estamos confortavelmente instalados – diz a autora, que teve a idéia de lançar a campanha após assistir, pela milionésima vez, a notícia de que mais um jovem acabou assassinado por causa da droga.
- Pensei: rapaz... a coisa tá preta. E não é só na televisão que assistimos notícias devastadoras sobre a droga. Hoje, a crackolândia se instalou na frente de nossas casas, quiçá dentro dela. E não podemos ficar de braços cruzados esperando que outros façam o que cada um de nós deve fazer. Precisamos entrar na luta contra o CRACK, ou perderemos definitivamente esta guerra. Ou nós o vencemos, ou ele nos vencerá.
Jana, como muitos brasileiros, já sofreu na pele a periculosidade do CRACK: em outubro deste ano, dois viciados invadiram sua casa, em Carazinho (cidade de 60 mil habitantes no norte do Rio Grande do Sul), em plena luz do dia, e levaram seus dois notebuques. Detalhe: Jana e sua família estavam em casa quando tudo aconteceu.
- Eles pularam um muro de 4 metros, saltaram uma cerca e subiram pela minha janela, que tem quase 3 metros de altura. Não tiveram medo, nem receio, nada, e isso foi o que mais me assustou: eles não têm nada a perder e por isso se tornam tão perigosos. Na mesma semana, só na minha rua, houve outros 6 assaltos, cada um mais mirabolante e improvável que o outro. Não tem fundamento. Não podemos acreditar de verdade que o CRACK não tem nada a ver com a gente. Eu e minha família tivemos sorte. Poderia ter sido muito pior.
E poderia mesmo.
Os números da violência produzida pelo CRACK alarmam.
O viciado, na ânsia desesperada em arrumar mais dinheiro para sustentar seu vício, é capaz de fazer qualquer coisa – e quando digo qualquer coisa, me refiro a qualquer coisa mesmo.
- Há mais ou menos duas semanas fui assistir a uma palestra sobre CRACK, e o palestrante Mauro Souza, vice-presidente da Associação do Ministério Público, perguntou a uma platéia de quase cem pessoas quem ali tinha alguma coisa a ver com o CRACK. Somente eu levantei a mão. Foi então que percebi que a sociedade precisa se conscientizar que o CRACK é um problema de todos nós.
Assim, enquanto escritora e blogueira, Jana resolveu usar as armas que tem em mãos e lançar uma iniciativa um tanto pretensiosa na rede mundial de computadores: TODOS CONTRA O CRACK, a primeira campanha virtual contra a droga, busca a adesão de dez mil blogues e lança um desafio a todos os blogueiros conscientes deste país: escrever sobre o CRACK, colocar o CRACK em debate, aliar-se a este coro de vozes que, cada qual a sua maneira, luta para levar conscientização e informação àqueles que ainda não foram seduzidas pelos prazeres da pedra:
- Para quem já está viciado, campanhas como esta não deve trazer nenhum resultado significativo. Eu sei disso. O dependente precisa de tratamento, físico, mental e social, para vencer seu vício e, ainda assim, olhe lá. Mas podemos trabalhar pela prevenção. Muitos blogueiros são formadores de opinião, em maior ou em menor grau, e precisam colocar em pauta assuntos como este. Se não for por cidadania, que seja por auto-preservação. Onze milhões de pessoas lêem blogues neste país; se somente uma ler em sua página sobre o CRACK, e sobre porque não deve usá-lo, e isso a convencer, então já valeu a pena.

Por isso, amigo blogueiro, acesse a página da campanha TODOS CONTRA O CRACK, pegue seu selo e faça parte desta luta.
Desta luta que é minha, é sua, e é de todos nós.

29 novembro 2009

TODOS CONTRA O CRACK!

Estes dias, fui a uma palestra sensacional sobre CRACK ministrada por Mauro Souza, vice-presidente da Associação do Ministério Público de Porto Alegre.
Logo de cara, Mauro perguntou para uma platéia de cerca de 100 pessoas:
- Quem aqui tem alguma coisa a ver com o CRACK?
Eu levantei a mão.
E só eu levantei a mão.
Ninguém mais.
.
Antes ainda de moleques roubarem meu notebuque, dentro do meu quarto, em plena luz do dia e com gente em casa, trocando-o pela bagatela de 30 pilas de pedra no traficante da rua de baixo, já tinha me apercebido que eu, apesar de não fumar, tinha muito a ver com o CRACK.
Começou quando eu não podia mais voltar sozinha para casa quando saía de noite – coisa que sempre fiz desde que me conheço por gente.
Logo passei a reparar que ir na padaria, ao entardecer do dia, começava a ficar perigoso também.
De repente 80% das pessoas que eu conhecia já haviam sido assaltadas ou tinham sofrido alguma forma de violência na rua.
Em seguida as casas começaram a proteger-se com cercas elétricas e cachorros ferozes, e o número de moradores de rua de cor acinzentada quadruplicou-se.
Pessoas começaram a ser amarradas em camas e pés de mesas; os pais passaram a trancafiar seus filhos em jaulas.
- Peraê, tem alguma coisa muito errada acontecendo.
Foi o que pensei.
E era o danado do CRACK, minha gente.
Uma droga que apareceu como quem não queria nada, e parecia só mais uma droga, entre tantas, e de repente virou nossas vidas de cabeça pra baixo e levou nosso sossego pra muito longe daqui.
Nem vou ficar aqui falando sobre as mazelas do CRACK, porque é impossível que você ainda não tenha visto na tevê, nas ruas, quiçá dentro da sua própria casa.
E nós não podemos ficar de braços cruzados vendo a canoa - na qual estamos dentro - afundar.
Porém, o que eu e você podemos fazer?
- Ora, um grande problema merece uma grande solução, e nós somos apenas cidadãos impotentes refugiados dentro de nossas próprias vidas.
Correto?
Errado.
Sabemos que o crack requer soluções drásticas, que envolvem investimento pesado em educação - para prevenir - e em saúde - para remediar.
No entanto, não é por isso que não podemos fazer absolutamente nada.
Lembrem-se que, se as formigas soubessem o tamanho de sua força, já teriam dominado o mundo.
Sozinhos, polícia e governo nada podem fazer.
O CRACK subverteu tudo que, até então, todo mundo conhecia a respeito de drogas, drogados e tratamentos.
E é preciso que haja a aderência de TODOS os segmentos da comunidade, inclusive aquele onde eu e você estamos confortavelmente instalados.
Nós podemos e devemos e precisamos desesperadamente falar sobre o crack.
Conversar sobre o crack.
Escrever sobre o crack.
Promover, participar e divulgar campanhas contra o crack.
Incentivar ações em prol de movimentos contra o crack.
Podemos nos juntar a um coro de vozes cada vez maior de pessoas, que lutam para levar informação e conscientização, senão àqueles que já estão viciados, pelo menos aos que ainda não estão.
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Se você pensa que coisas deste tipo não adiantam, saiba que se engana, meu amigo.
Participando, você simplesmente estará fazendo tudo o que está ao seu alcance.
Já parou para pensar nisso?
Se todos fizessem sua pequenina parte, mudaríamos o mundo, e isso não é conversa de sonhador.
É fato.
Só os acomodados que não vêem.
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E por acreditar piamente no poder que cada um de nós possui enquanto indivíduo e enquanto grupo, comunidade e nação, lanço humildemente, aqui e agora, uma campanha virtual contra o CRACK, onde buscarei a adesão de 10 mil blogues e sites e afins - um número pequeno, quando comparado ao incalculável número de blogues, sites e afins que existem por aí.
Por isso criei está página: http://www.todoscontraocrack.blogspot.com/
e este selo:
E por isso também convido você a copiá-lo, colocá-lo em seu blogue, em seu site, em seu Orkut, Twitter, MSN e onde mais sua imaginação permitir.
E façam mais do que isso: escrevam sobre CRACK em seus blogues e sites, coloquem o assunto em pauta, em debate, na frente do holofote.
Tudo está ao nosso favor: o Brasil ocupa a terceira posição entre os países com o maior número de blogueiros, com mais de 5 milhões de usuários*.
O número de brasileiros que lêem blogs cresce a uma taxa superior a da expansão da internet, de acordo com dados de 2008 do Ibope/Netratings.
Ano passado, mais de 11 milhões de pessoas acessaram e leram blogs.
Se 1% aderisse à campanha, tem noção do tamanho da avalanche?
E nós podemos fazer isso.
Yes, we can!
Se tivermos um blogue, temos também voz e vez, e isso é lindo e merece ser usado com inteligência, ao nosso favor, a favor da sociedade onde vivemos.
Se uma única pessoa pensar, através do teu blogue, sobre o CRACK e sobre porque não deve usá-lo, então já valeu a pena.
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Levante a mão quando perguntarem se você tem alguma coisa a ver com o CRACK.
Não exagero quando digo que podemos ajudar a salvar vidas – até mesmo as nossas.
Só precisamos aprender a lutar com as armas que temos em mãos.
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Escolha seu selo no singular ou no plural, coloque-o em seu site ou blogue e envie para o e-mail todoscontraocrack@gmail.com seu link, pra ser divulgado na página da campanha.
Maiores informações?
Entre em contato.
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* Fonte Agência McCann, divulgada pela Intel. Site http://www.sembrasil.com.br

25 novembro 2009

Jana versus Psicóloga.

Recebi quatro vezes em um mesmo dia um e-mail intitulado “Psicóloga versus Cazuza”, que trazia as reflexões sobre pais, filhos & limites de uma psicóloga (hã?) chamada Karla Christine (leia o texto aqui).
Segundo ela, a juventude continua transviada porque ninguém lhes diz NÃO.
E para ilustrar seu discurso, utilizou-se da figura do cantor e compositor Cazuza, morto em julho de 1990 vitimado pela Aids, questionando a idolatria dos jovens por um “marginal... traficante”, cuja única diferença com Fernandinho Beira-Mar era o fato de que um “morava na zona sul e o outro não”.
Segundos palavras da própria.

Sobre a parte dos pais, filhos & limites, concordo em gênero, número & grau.
E nem precisa fazer faculdade para saber que a galera anda pirada, sem noção e sem eira nem beira porque os pais não representam mais nenhuma autoridade, não impõe nenhum limite, só sabem passar a mão na cabecinha de seus filhotes e fazer cute-cute.
Cazuza foi, sim, um exemplo de garoto mimado, endinheirado, que se achava o rei da cocada preta e por isso fazia e acontecia, julgando-se imortal, acima das leis, do bem e do mal.
No entanto, estas características não são exclusivas do Cazuza.
Antes, durante e depois dele, sempre existiram e sempre existirão centenas iguais, ou ainda piores, espalhados por aí.
Só eu conheço uns doze.
E isso, claro, é um problema.
Também não é recente a característica milenar de que jovens fazem e acontecem e estão, por natureza, crentes de que são os reis da cocada preta, imortais e acima das leis, do bem e do mal.
O que muda é que alguns têm mais dinheiro e mimo, e outros têm menos, o que ajuda ou piora dependendo da situação.

Juro que não estou defendendo a rebeldia sem causa, que até fora de moda está, só estou dizendo que algumas coisas são realmente características típicas da idade.
São normais e passam, cedo ou tarde.
Quando não passam, o cara geralmente morre, é verdade, mas enfim: na maioria generosa das vezes, chega ao fim sem maiores danos.
E por mais que pais, professores & psicólogos fiquem de cabelos em pé, todos sabem que jovens, drogas & sexo são a combinação mais explosiva e natural que pode existir.
Atire a primeira pedra quem nunca teve 18 anos.

Tem adolescente que não faz nada disso?
Tem.
Tem jovem normal, com uma vida normal, rotina normal, tudo normal?
Tem também.
Mas ninguém pode negar que ser transviada é uma especialidade da idade-adolescência, e é saudável inclusive, quando não extrapola.
Sim, muitas vezes extrapola.
Mas, bem, pessoas extrapolam, e isto possivelmente nunca irá mudar, seja na infância seja na velhice, independente do alvo ou do motivo da extrapolação.

Por isso, penso que Karla, sendo psicóloga, foi muito infeliz em suas colocações.
Não soube externar exatamente o que estava querendo dizer, e deixou uma mensagem bem bacana (sobre pais, filhos & limites) perdida no meio de um monte de abobrinhas baseadas em lugares-comuns - predicado peculiar de pessoas que gostam de teorizar em cima utopias, ignorando sumariamente a realidade.

Meu pai, um dos que me encaminharam o dito e-mail, disse:
- Eu também acho que vocês cultuam ídolos errados.
Tudo bem, papai, não vou contar para ninguém que você é fã do Freddie Mercury.
Ademais, quem foi que disse que ídolos TÊM QUE ser politicamente corretos?
Na maioria das vezes, só são ídolos justamente porque são politicamente incorretos.
E por que os jovens idolatram o incorreto?
Porque a juventude, que cria e destrói ídolos com a mesma facilidade com que toma um copo d’água, quer subverter.
Romper.
Ser calorosamente contra o que seus pais, professores & psicólogos consideram certo.
Entre muitas outras coisas, culpa dos hormônios, vocês entendem.
Mesmo assim, gostaria de perguntar à Karla quem são seus ídolos.

A propósito, o conceito de ídolo da molecada está tão equivocado quanto às apreciações da psicóloga.
O pessoal anda cada vez mais ligado em estilo do que em idéias, e isso têm gerado uma juventude oca e alienada, perigosa para os dias vindouros.
Não basta mais ter um ídolo.
É preciso ser o ídolo.
Vestir-se igual, falar igual, fazer porralouquices igual.
Se ele pular embaixo de um trem? Pule também.
Isso sim é absurdo!
Eu, por exemplo, que sou fã assumida e orgulhosa de Raul Seixas, tento copiar suas idéias, e não seu modo de viver.
Até porque, o artista é uma pessoa igual a qualquer outra, e erra, possui problemas, vícios, envolve-se em confusão, faz sexo, fuma maconha, bate o carro, fica triste, roda a baiana, chora, se descabela, contrai doenças sexualmente transmissíveis.
Igualzinho qualquer um.
Cobrar uma postura irretocável de um ídolo apenas porque ele é um ídolo é covardia.
Antes de ser ídolo, ele é gente como a gente, pô!

Agora, preciso confessar que também saí do cinema um pouco frustrada, pois achei, assim como Karla, que o filme Cazuza - O Tempo Não Pára retratou um lado completamente dispensável da vida do cantor e compositor, deixando de lado passagens importantes, significativas e, porque não dizer, positivas de sua vida.
Cazuza foi um puta de um letrista, poeta-popular-maldito-rock-MPB dos mais notáveis, e isso ninguém pode negar.
Foi também o primeiro artista com culhão para assumir que estava com HIV em uma época que ninguém sequer sabia o que era HIV.
Cazuza escreveu versos sensacionais (“o teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer”), produziu alucinadamente, tinha postura, carisma, talento.
Muito talento.
E boa parte deste talento vinha (veja só!) justamente do fato dele jorrar permanentemente.
E quem jorra, jorra coisas boas e ruins, tudo ao mesmo tempo.
Todo lado negativo tem um lado positivo, e a recíproca é também verdadeira, camaradas.

No e-mail, Karla ainda escreveu: “Cazuza só começou a gravar porque o pai era diretor de uma grande gravadora”.
Discordo.
Se ele era filho de um produtor musical, que sorte a dele.
Se eu fosse filha do dono da Editora Record, que sorte a minha.
Ou eu não poderia ser uma boa escritora só por causa da minha genética?
Não concordo com essa história de transformar sorte em azar.
Não é regra que seja preciso passar fome, apanhar e trabalhar 14 horas por dia para ter talento.
Ou é?
Mesquinho isso.

De qualquer maneira, é fato que os pais do Cazuza e os pais de muita gente erram ao não delimitar regras.
Compreendamos, por fim, pois eles - os pais - viveram na pele e na censura a ditadura em seus tempos áureos, e regimes totalitários costumam deixar seus cidadãos horrorizados com qualquer forma de limitação.
A geração de nossos pais saltou do oito para o oitenta – da repressão incondicional à liberdade irrestrita.
Aliam-se a isto os hormônios, a idade & aquelas coisas todas da juventude, e pronto: temos, mais uma vez, uma geração transviada.
É histórico: coibição ou pleno livre-arbítrio levam a juventude ao rompimento.
Juventude é rompimento, independente do que se faça.
Ou em outras palavras, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Eu, antes de apontar o dedo para os pais do Cazuza, ou de qualquer outro, questiono sim a produção de filmes como O Tempo Não Pára.
Quero dizer, os pais erraram, Cazuza errou, e o filme eternizou estes erros, deixando-os abertos a divagações sobre se são, de fato, erros.
Com isto, não concordo.
É claro, ninguém quer retratar um Cazuza irreal, mas também não precisava esculhambar, e protelar sua arte para exaltar sua rebeldia desorientada, que nada acrescenta de útil a ninguém.
A tevê aberta faz isso há muitos anos, e muitos grandes artistas, cantores, atores, escritores, vêem seu trabalho renegado para segundo plano simplesmente porque possuem alguns vícios e manias detestáveis.
Amy Winehouse está aí, e não me deixa mentir.

Então como resolver isso tudo, enquanto pais, professores & psicólogos?
Como lutar contra a tevê, os filmes, o elogio generalizado à loucura, a pornografia, os exageros, as drogas?
Conversando.
Simples assim.
Tão simples que até assusta: pais deveriam conversar com seus filhos.
Dizer coisas do tipo: olha, meu filhote, Cazuza foi um grande artista, mas muitas coisas que ele fazia eram erradas, e só fizeram mal, principalmente para ele mesmo. Fim.
Tratar ídolos como Cazuza sem o devido respeito pela sua arte, que também seduz muitos jovens, e de maneira muito positiva, é a mesma coisa que dizer aos seus filhos que drogas, por exemplos, são ruins, quando na verdade não são.
Drogas são gostosas, dão prazer, produzem sensações arrebatadoras, mas-porém-todavia-contudo matam, mutilam, aleijam, debilitam.
É preciso mostrar pra criançada e pra juventude os dois lados da moeda, de maneira branca e franca, sem mentir nem omitir nada.
Esta é a melhor maneira de criar jovens livres, porém responsáveis: com inteligência e argumentos críveis.
Fora disso, só existe conjeturas bobas que separam com um oceano a rebeldia exagerada da juventude da caretice exagerada de seus pais.
Incompatibilidade total.
E conversar, ser amigo, ser companheiro, não significa dizer amém e bater palminhas para tudo que o filho faz.

Acho que foi isso que Karla quis dizer, mas não conseguiu.
Quero acreditar que ela se expressou mal quando afirmou, toda convicta e cheia de razão, que entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar a única diferença era a zona sul.
Não, Karla, muitas coisas separam Fernandinho Beira-Mar de Cazuza.
E se você soubesse quais são essas coisas, com certeza se aproximaria muito mais de sua filha adolescente, e entenderia muito mais de pessoas, e certamente ganharia mais dinheiro em seu consultório.

Mas, enfim, isso tudo é só a minha opinião.
É assim que pretendo criar meus filhos, se um dia os tiver.
Com verdade, transparência e honestidade, sem cair na caretice que cega, nem na maluquice, que cega também.
E que o senhor tenha piedade.

10 novembro 2009

A Vida que Não Vivi - entrevista e resenha.

Já está no ar a entrevista que fiz com o escritor Beto Canales para o 3:AM Magazine Brasil. Falamos sobre vários assuntos bacanas, como publicidade e literatura, personagens personalistas, passado, presente e futuro e outras coisas divertidas.
Clique aqui para ler.

e

Também está no ar a resenha que escrevi sobre o livro A Vida Que Não Vivi, do mesmo e querido Beto Canales de que falei ali em cima.
Esta está publicada na Esquina do Escritor.
Clique aqui e agora.

e

Leiam o livro do Beto, né?
Tá bem massa.

Alegria, alegria.

Depois de levar o Troféu Bigorna, em 2008, e o HQMix, em 2009, ambos como melhor publicação independente, a revista Café Espacial acaba de ser escolhida uma das melhores edições independentes do ano através do Prêmio DB Artes (Divisão Brasileira de Artes), realizado durante as edições do evento HQ Festival (Festival de Quadrinhos de Sergipe).
Com o objetivo de homenagear os autores independentes de histórias em quadrinhos, a premiação é realizada desde 2003, e sua quinta edição aconteceu entre os dias 31 de outubro e 1º de novembro.
Nas demais categorias, nosso querido colaborador Daniel Esteves apareceu como melhor roteirista, merecendo destaque também o coletivo Quarto Mundo.
Para conferir todos os premiados, clique aqui.

#Parabéns, cambada!

08 novembro 2009

Os Alunos da Uni(tali)ban.

Quem aqui já foi universitário?
E jovem, quem já foi?
Bem.
Então vocês sabem, tanto quanto eu, como as coisas funcionam.
Faculdade, por exemplo, é uma zona.
E não façam estas caras constrangidas.
É normal.
Se você não participou, pelo menos ficou sabendo, quiçá até viu, histórias de deixar a Anaïs Nin de face ruborizada, é ou não é?
Uma vez, na minha faculdade, uma turma inteira flagrou uma aluna e um aluno em situação, digamos assim, um tanto quanto íntima, dentro do estúdio de fotografia.
Tinha gente que fumava maconha há 3 metros do prédio onde estudava, e também quem cheirava cocaína na pia do banheiro.
Conheço um bebê que foi, inclusive, concebido em um WC universitário.
E as festas?
Vixe!
O mais interessante era no dia seguinte, as informações (fofocas?) mordazes e detalhadas percorrendo linhas telefônicas e sinais de internet afora, frenéticas, impiedosas.
Rarara, era engraçado.
E isso é, repito, absolutamente normal.
Começou com nossos pais pedindo paz e amor enquanto rolavam pelados na grama, e tá aí: a liberdade abriu as asas sobre nós.
Concordo: tem gente que perde a linha.
Mas peço que levante o dedo quem nunca perdeu a linha e fez o que não devia.
Ser jovem é legal porque é a única época em que podemos fazer uma série de besteiras sob a justificativa de que somos... jovens!
Daí a subversão, o rompimento; ninguém com 18 anos quer seguir o modelo ‘ultrapassado, careta e repressor’ dos mais velhos.
Não querem que eu faça uma tatuagem? Pois vou fazer.
O certo é ter uma namorada? Pois terei cinco.
É proibido fumar maconha? Pois fumarei todo dia.
Depois passa e vira lembrança engraçada.
Quer dizer, era assim, pelo menos no meu tempo.
Porque parece que agora existe uma parcela mais ultrapassada, careta e repressora que nossos trisavôs jamais conseguiram ser.
Falo, meu amigos, de Geisy Arruda, a estudante da Uniban que foi praticamente linchada por causa de um... vestido?
Lembro que, quando li a notícia sobre o acontecido, levei uns quatro dias tentando decodificar o que, exatamente, havia acontecido.
Ora, não podia ser só por causa daquele vestido rosa, que considerei até discreto perto de coisas que já vi dentro de igrejas.
Haveria de ter mais alguma coisa.
Mas que coisa?
Que espécie de coisa justificaria a reação selvagem e enfurecida daquele bando de jovens, que deveriam estar fumando maconha há três metros do prédio onde estudam ao invés de estarem querendo linchar uma colega por causa de um vestido?
Pensei: as festas desta faculdade devem ser um saco.
Enfim.
O tempo passou e hoje, acessando a internet displicentemente, me deparo com a notícia que eu podia ter morrido sem ler:

Uniban anuncia expulsão de aluna hostilizada por usar mini-vestido
Aluna do curso de turismo Geisy Villa Nova Arruda foi desligada “do quadro discente da instituição, em razão do flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”.

Hã?
Como assim?
Foi uma piada, é isso?
Esfreguei os olhos.
Li outra vez.
Tentei lembrar se havia tomado algum chá de cogumelo na noite anterior, e lembrei que não tomo chás de cogumelos.
Ou seja: a Uniban realmente expulsou a vítima do episódio acontecido dentro da instituição, "em razão do flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade".
Em primeiro lugar, meus caros, flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade foi a maneira como trataram a menina, gritando ‘mata, mata, estupra, estupra’.
Não fazemos isso nem com animais.
Nem com vermes.
Nem com lactobacilos.
Nem com assassinos em série.
O que pode ser mais antiético, indigno e imoral do que isso?
Mata, mata?
Estupra, estupra?
Trata-se da nova juventude hitlerista em ação?
Outra: que mini-vestido, afinal?
Mini-vestido, para mim, é o que usam as bailarinas do Faustão, às 3 horas da tarde de domingo e ninguém fala nada.

A contragosto, li até o fim a matéria sobre a surreal expulsão.
Tem coisas que eu preferiria nem saber, mas.
Li.
E entre muitas incoerências, alega o assessor jurídico da Uniban, Décio Lecioni Machado, “que o vestido curto que Geisy usava no dia da confusão não motivou a expulsão. Foram gestos e atitudes que a aluna já manifestava há tempos que provocaram o tumulto e, consequentemente, o desligamento da universidade”.
Piorou!
Bem que minha mãe sempre disse que algumas coisas na vida são como merda: quanto mais se mexe, mais fede.
E quais seriam, senhor-doutor-excelentíssimo Décio Lecioni Machado, os gestos e atitudes que a aluna manifestava há tempos, e que seriam graves o bastante para explicar um linchamento e uma expulsão?
Ele não respondeu.
E quer saber?
Não importa quais os gestos e atitudes que a aluna manifestava há tempos.
Nada importa quando uma menina é atacada coletiva e violentamente como ela foi, dentro de uma instituição de ensino, e ainda acaba expulsa, sob justificativas absurdas, mais absurdas ainda que o tratamento insano que recebeu de seus colegas.
Isto é, a Uniban não só aprova, como apóia e incentiva este tipo de atitude por parte de seus alunos?
Ah, lembrei de uma coisa!
A Uniban é uma universidade particular.
Sendo particular, é claro, cada um daqueles aluninhos defensores da moral e dos bons costumes pagam uma quantia, no mínimo, razoável para estudar lá; logo, como poderiam ser punidos se estão paga?
Melhor expulsar uma aluna do que 350.
Nojo deste tipo de coisa.

Minha sugestão é: sabotagem.
Descarada.
Se estudam por lá, tranquem as matrículas.
Não se inscrevam para o vestibular, não dêem aula, não passem sequer na frente!
Enquanto cidadãos normais, pacatos e sexualmente esclarecidos, não podemos nos calar e consentir com atitudes boçais e desumanas como essa.
E, Geisy: processe.
Geral.
Descubra o nome de cada imbecil-alienado que aparece nos vídeos e arraste pra lei.
Porque se Geisy perder em última instância – coisa que não duvido, dado o bundalelê que virou nosso país, nossa justiça, etc – eu juro que jogo a toalha e peço água.
Saio do jogo porque simplesmente desconheço as novas regras.
E se querem saber: não tenho nenhuma intenção de aprendê-las.

Resenha Espacial.

Saiu uma resenha arretada no blogue A. Moraes – Escritor Oculto sobre a Café Espacial.
Aqui.
Vale um click.

04 novembro 2009

Epopéia Libidinosa.

Carlos transou com Luciana;
que dormia com Marcão;
que comia Mariazinha;
que namorava Roberto;
que saía com Sônia;
que trepava com Tiago;
que flertava com Tatiana;
que perdeu a virgindade com Manuel;
que fez sexo com Osvaldo;
que casou com Flávia;
que tinha um caso com Fernando;
que era amante de Larissa;
que dava para Paulino;
que transava com Amélia.

Que tinha aids.

02 novembro 2009

Jornada Nacional de Patifaria.

É certo que, por estes dias, você ouviu falar na Jornada Nacional de Literatura.
A não ser que more em outro planeta, é certeza que leu nos jornais, ouviu nas rádios e viu na tevê as notícias exaltando o evento literário mais importante de Passo Fundo, aquele que reúne grandes autores na cidade que mais lê do país.
Como vocês talvez saibam, a Jornada é uma promoção da UPF.
Bem.
Eu morei um ano e meio em Passo Fundo, estudei cinco na UPF e trabalhei dois na agência experimental da instituição.
Ou seja: fui aluna e estagiária da universidade, e também habitante desta cidade que, como todas as outras, tem coisas boas e ruins praticamente na mesma proporção.
E por mais que você pense o contrário - dadas às manchetes que vê nas tevês, rádios e jornais - eu afirmo com convicção: a Jornada Nacional de Literatura não está entre as coisas boas da cidade.
Por quê?
Explicarei meu humilde ponto de vista aqui, e agora.
Relutei um pouco a escrever sobre este assunto, pensando que em alguns vespeiros não vale a pena pôr a mão, e que com cachorro grande não se briga, e que poderiam encher o meu saco e a minha caixa de e-mails com desaforos e despautérios.
No entanto, ponderei que muita gente precisou morrer para que hoje tivéssemos um negócio chamado liberdade de expressão, e já que, ao contrário das tevês, jornais e rádios, a UPF não patrocina este blogue, eu posso sim falar o que penso, sem lenço, sem documento, amém.
Ademais, trata-se somente e tão somente da minha opinião.

Nada além disso.

Minha história começa dia 17 de julho deste ano, quando acessei o caderno Blitz, do jornal Diário da Manhã de Passo Fundo, e me deparei com um texto do escritor Gustavo Melo (pernambucano radicado em Passo Fundo), onde ele falava sobre como a Jornada era importante para a formação ‘não simplesmente de leitores, mas de leitores de verdade!’. Você pode ler o texto na íntegra clicando aqui. Enfim. Não costumo comentar textos internet afora, especialmente se os textos ou comentários em questão puderem levantar debates pouco saudáveis, que invariavelmente terminam descambando para a grosseria e a falta de educação.
Mas não resisti, e deixei lá minha idéia:

Desculpe Gustavo, mas preciso discordar de ti: se a Jornada estivesse mais preocupada com pessoas do que com mídia e faturamento, não cobraria 100 reais as inscrições.
Não se trata de inclusão, mas exclusão.
Um circo, nada mais.
Pergunto: e durante os dois anos que separam uma jornada da outra, o que faz Passo Fundo pela literatura?
Nada.
Temos aquela pracinha mequetrefe perto da rodoviária e nada mais.
E a biblioteca municipal? Jogada as traças!
Se, por sorte, os passofundenses são os que mais lêem no Brasil, isso nada tem a ver com a Jornada nem com os incentivos da cidade à literatura.
Capital Nacional da Literatura é só um título, literalmente.
E infelizmente.


Alguns dias depois, um dos jornalistas do caderno Blitz me mandou um e-mail convidando para participar de um debate sobre literatura e afins na rádio Diário da Manhã, ao lado de Gustavo.
Evidentemente que topei, afinal sou totalmente a favor de conversar e se entender, trocar idéias, controverter, desde que seja com pessoas inteligentes, que possuam argumentos e, claro, boa educação.
O jornalista ficou de me escrever novamente, para marcarmos dia e hora para o debate, e então desapareceu da face da terra.
Por quê?
Porque, certamente na melhor das intenções, o rapaz teve a idéia de promover um debate entre dois escritores passofundenses e suas idéias sobre a Jornada e literatura, MAS, sem dúvidas, foi proibido de levar adiante a discussão porque a UPF é uma das maiores patrocinadoras do jornal, da rádio, e de todo o resto.
Então, onde já se viu chamar alguém que pensa diferente para esculachar nosso maior anunciante?
Jamé!
Este é um problema bem grave, e que mereceria um texto à parte: NUNCA, eu disse NUNCA, teremos liberdade de expressão e imparcialidade enquanto meios de comunicação estiverem nas mãos de anunciantes e políticos.
Mas não é o que estamos tratando aqui.
Não pude ir até a rádio dizer o que eu penso, mas posso e devo escrever aqui: a Jornada Nacional de Literatura trata-se de um enorme engodo.
Uma farsa.
Um lobo em pele de cordeiro.
Pão e circo e fim.
Começa pelo preço: a inscrição custa 100 reais. Isso se você se cadastrasse até 17 maio. Depois, o valor podia chegar a R$130. Eu disse CENTO E TRINTA (duvidou? confira aqui a tabela de preços)! Se eu tivesse 130 reais estaria rica. Alunos da UPF tinham (não sei se ainda têm) desconto de vinte reais, ou seja: o preço continua 80, o que, convenhamos, não é o que podemos chamar de ‘em conta’.
E ainda por cima, o evento recebia, até pouco tempo, cerca de 1,1 milhões de reais do LIC (Lei de Incentivo à Cultura).
Sim, meus amigos, 1,1 milhões + 100 reais pagos por cada participante.
Aplausos para a filantropia.

Passo Fundo e a UPF se vangloriam de promover literatura na cidade que mais lê no país.
No entanto, convido-os a conhecer a Biblioteca Municipal da cidade.
Está, como escrevi no comentário ao Gustavo, jogada as traças.
Na frente, a grama chega a estar alta.
E na Biblioteca da UPF (uma grande e vasta biblioteca, com a grama da frente bem cortada e as paredes bem pintadas), a comunidade não pode retirar livros – apenas alunos e professores.
Pergunte a qualquer passofundense quais eventos, além da Jornada, são promovidos por aqui.
NENHUM, será a resposta.
E tente conseguir apoio de algum destes órgãos por mim citados para a realização de um sarau, ou qualquer projeto do gênero: você não vai conseguir, meu amigo, nem que a vaca voe, e isso é certo.
A única manifestação cultural em prol da literatura que existe em Passo Fundo durante os dois anos que separam uma jornada da outra é uma pracinha burlesca, para não dizer coisa pior, próxima à rodoviária da cidade, que serve muito bem como ponto de prostituição e local para consumo de drogas.
E, mais importante que tudo isso: cadê, afinal de contas, os autores gaúchos na Jornada?
Este ano, após poucas discussões referentes à carta aberta que Cintia Moscovich escreveu em 2005 a Tânia Rösing, coordenadora da Jornada - carta esta que, graças à simpatia e reconhecida educação de Tânia, foi singelamente ignorada - trouxeram meia dúzia de autores gaúchos e criaram, dentro da programação, o Encontro Estadual de Escritores Gaúchos (sic!).
Bonito.
Meia dúzia é melhor do que nada.
Neste momento, abro um adendo neste texto para postar o trecho de uma matéria que acabei de encontrar aqui, escrita pelo jornalista Guilherme Mergen, na ocasião da última jornada, em 2007, publicada no site Overmundo:

Manifesto solitário
Praticamente escondido na enorme dimensão da manifestação cultural, o escritor e funcionário público Júlio Pérez ensaiava um protesto silencioso na penúltima noite da Jornada. Apontado como corajoso por alguns participantes, bateu de frente com a comissão organizadora. O motivo: a ausência de autores locais. O valente escritor montou uma mesa justamente na entrada do portal das linguagens, onde estão gravuras de escritores presentes em outras edições da Jornada. Sobre a mesa, colocou cerca de 10 exemplares de sua obra, intitulada “Expresso instante”, e arriscou uma última ousadia antes de sentar: fixou sobre a estrutura das gravuras um cartaz com as seguintes palavras: autor local. Não precisava de mais nada. A presença de Pérez já incomodava a organização.

Enquanto entrava no pavilhão onde estava montada a sala de imprensa, percebo o protesto solitário do passo-fundense e me aproximo. Quando me apresento ao senhor como repórter, ele abre um sorriso e inicia uma seqüência interminável – eu sequer consegui ficar até o final de seu discurso – de críticas à Jornada. Durante a conversa, Pérez foi convidado a se retirar mais de uma vez daquele local pela organização, mas permaneceu fiel ao seu manifesto. “Há uma falta de consideração com os autores locais e regionais. Batalhamos pela literatura, porém, em um evento dessa grandeza, não somos chamados e nem é reservado um espaço para o autor local”, comenta. Apesar das críticas, o poeta, que finalizou recentemente um romance, reconhece o mérito do evento em formar leitores. “A Jornada pode ter formado leitores, mas nunca gerou um escritor. Isso porque jamais incentiva o autor local”.

O passo-fundense insatisfeito vai além dos comentários sobre a ausência de escritores regionais. Durante nossa conversa – nesse momento, vários outros jornalistas também pararam para ouvir a manifestação -, Pérez reforçou uma antiga crítica à manifestação cultural. Para ele, a Jornada transformou-se em um evento de professores e alunos. “Está ficando um negócio masturbatório, sabe. Vamos trazer outras pessoas, além daquele grupo fechado”. Nessas alturas da entrevista, mais de 10 pessoas rodeavam aquela pequena mesa, montada em local estratégico. E o poeta continuava firme em sua cadeira discursando: “E esse prêmio de literatura? Na última edição, deram R$ 100 mil ao Chico Buarque. O que ele tem a ver com Passo Fundo? O cara pega o prêmio, vai embora, não deixa nada pra cidade, enquanto aqui tem muitos que estão batalhando pela cultura local”. Se o objetivo de Júlio Pérez era chamar a atenção, conseguiu. Mas, com exceção do Overmundo e de um blog local, mantido por um jornalista, nenhum outro veículo de comunicação levou a sério os argumentos do autor. “Se colocarmos isso, vamos nos incomodar. É melhor deixar em branco”, me disse um repórter de um jornal. Em contato com a organização, fui informado de que a Jornada reserva espaços tanto para sessões de autógrafos como para lançamentos de obras de autores locais. Segundo a coordenação da Jornada, inúmeros escritores regionais participavam das atividades da programação.

Só tenho quatro coisas para dizer.
Primeiro: inúmeros escritores regionais participavam das atividades? Só se pagassem a inscrição, obviamente.
Segundo: quanto custa mesmo o espaço para a sessão de autógrafos?
Terceiro: o mundo ainda tem salvação.
Quarto: na próxima jornada, meu amigo Júlio, conte comigo.
.
Porque a UPF tem essa marca registrada: qualquer um que não lhe atirar confetes ou for, de um jeito ou de outro, conveniente, pode considerar-se carta fora do baralho.
É uma pena que a instituição patrocine TODOS os meios de comunicação, não possibilitando que pessoas de fora – e às vezes até daqui, de dentro – possam enxergar o que, de fato, acontece ali, e com quais intenções.
A UPF não incentiva nada – não sem ter por trás um plano, que inclui promoção pessoal, dinheiro e interesses, no mínimo, escusos.
E não somente quando se trata de literatura.
Ano passado, por exemplo, o grupo de teatro Viramundos, pertencente à universidade, chegou um belo dia para ensaiar e encontrou um bilhetinho colado na porta da sala de ensaios, que avisava que, depois de 16 anos de estrada e um belíssimo trabalho realizado, o projeto estava cancelado.
Simplesmente, sem maiores explicações, sem respeito, sem nenhuma consideração.
Chutados para fora por um bilhetinho ordinário.
E o pior: a UPF confiscou o nome e a marca do grupo, obrigando todos os artistas a recomeçarem, simplesmente, do zero (o grupo criou o Timbre de Galo, e atualmente excursionam com a peça Auto da Paixão e da Alegria).

Eu, sinceramente, acredito que todos os castelos de areia, com o tempo, ruirão.
Não é possível que embusteiros como estes, que fazem a Jornada e a UPF e tantas outras merdas semelhantes Brasil afora, fiquem para sempre por cima da carne seca, pisoteando em todo mundo, utilizando pessoas e instituições como escada para promover-se e encher o próprio bolso de dinheiro e o próprio ego de massagens.
Um dia, a verdade vem à tona, doa a quem doer, demore o tempo que demorar.
E isto nem chega a ser um desejo.
Trata-se apenas de uma constatação.