28 setembro 2009

O Pó de Carol

Escrevi, para o 3:AM Magazine Brasil, uma resenha sobre o excelente livro Pó de Parede, da escritora Carol Bensimon.
Cliquem aqui para ler.
E depois dêem um jeito de ler também o livro dela, que é bom pra porra.
Com o perdão do palavrão, é claro.

;)

26 setembro 2009

A Batata, o Crack e a Gente.

Hola muchachos!
Já está no ar a segunda colaboração desta que vos escreve na coluna quinzenal Metendo o Bedelho, da Revista Zena.
Cliquem aqui e leiam.
Um beijinho doce.
:)

24 setembro 2009

A Lição.

Este é mais um assunto sobre o qual, num primeiro momento, me neguei a comentar.
Cansa um pouco ficar repetindo o óbvio, mas enfim, vamos lá:
Aconteceu aqui no Rio Grande do Sul, numa escolinha pobre de um bairro igualmente pobre de Viamão: alunos, pais e professores se reuniram em um mutirão, no feriado de sete de setembro, para pintar e ajeitar a escola, que estava mais pra lá do que pra cá.
Passaram o dia inteiro com pincel e latas de tintas à mão, tudo para criar um ambiente mais agradável e higiênico para as aulas, e os alunos, e os professores.
Até aqui, tudo normal.
Porém, um aluninho imbecil que não colaborou com o mutirão, decidiu, poucos dias depois, pichar seu lindo nome nas paredes recém pintadas do colégio, deixando tudo uma bela porcaria outra vez.
Após uma semana de investigação, chegaram ao tal aluninho e, sem pestanejar, a professora lhe deu tinta e pincel e o obrigou a limpar a merda que fez nas paredes da escola.
O menino passou um bom tempo pintando e pintando, mas não perdeu a cara de deboche e, enquanto a professora o acompanhava no trabalho de restauração, o moleque ficou lá, sorriso sarcástico, zombando da profe e, automaticamente, de todo mundo que alguns dias atrás participou do mutirão.
Irritadíssima, a profe, que se chama Denise, o chamou de bobo da corte, dizendo na frente de todos os outros coleguinhas que ele estava fazendo papel de palhaço.
Então outros aluninhos filmaram tudo e feito!
Criou-se uma polêmica.
Acreditem, meus caros amigos: faz uma semana que todos os meios de comunicação e rodas de conversas estão debatendo este assunto que, para mim, pelo menos, não tem absolutamente nada de polêmico.
Polêmica vocês iam ver se fosse eu a professora, mas enfim.
Isso é outra conversa.
O fato é que surgiram mil e um pedagogos, supervisores escolares, representantes dos direitos humanos e do conselho tutelar e todos estes inúteis que não sabem nada, só teorias, para dizer que a professora exagerou, que o aluninho (pobrezinho!) poderia ficar traumatizado, frustrado, deprimido e um monte de outras bobagens.
Até a mãe do mala apareceu na tevê, para dizer que seu filhinho querido do coração estava muito triste e envergonhado, e que ganhou o trágico apelido de bobo da corte e agora não quer mais ir para a escola.
Hã?
Como assim?
Se ele está triste e envergonhado, menos mal; porque sua atitude ao pichar um trabalho que toda a comunidade se mobilizou para realizar é motivo mais do que nobre para ficar triste e envergonhado.
Ganhou o apelido de bobo da corte?
Bem feito.
Fez papel de bobo mesmo, logo, como bobo deve ser reconhecido.
Não quer mais ir para a escola?
Faria um favor se não fosse mais, mas isso também passa, é só um achaque de adolescente.
Mas sabem o que fode com tudo, mesmo?
Os teóricos.
Odeio-os com todas as forças das minhas entranhas, e olha que eles existem aos litros por aí.
Gente que não sabe nada sobre a realidade, e conhece a vida apenas a partir do que dizem os livros, escritos por pessoas que também não sabem nada sobre a realidade.
Gente que escreve sobre a favela sem nunca ter passado na frente de uma, gente que quer dar pitacos sobre professores e alunos e nunca entrou em uma sala de aula, gente que quer palpitar sobre drogas e drogados e não sabem a diferença entre maconha e cocaína.
Teóricos, teorias, teorizações.
Em suma: não servem para nada, porque não sabem de nada.
Falam sobre como as coisas deveriam ser, e não como são – logo, são mais inúteis que uma peneira na hora de tapar o sol.
E depois ninguém entende por que a juventude está descendo desenfreada ladeira abaixo, sem limites e, o pior: sem respeito por ninguém.
Eu não sou uma reacionária maluca que acredita que as coisas se resolvam sempre na base da força e da violência, mas também não sou uma romântica alienada que pensa que, conversando com carinho e educação e passando a mão na cabecinha, resolveremos todos os problemas da humanidade.
Acabo de lembrar de um exemplo que ilustra muitíssimo bem esta questão.
Houve uma vez um sujeito, conhecido meu, que decidiu usar drogas.
Sim, ele decidiu e não pediu a opinião de ninguém.
Passou a fumar, cheirar e injetar tudo que encontrava pela frente.
Junto com isso, passou também a roubar dinheiro dos pais, tentou vender a televisão e até agredir a mãe.
Um dia, o pai, que é granjeiro, de saco cheio daquela palhaçada toda, pegou o piá pelos cabelos, o arrastou até o paiol de sua fazenda, e acorrentou o infeliz num poste.
Deu dois quilos de milho para o vivente debulhar e ali o deixou.
Todo mundo se manifestou: que barbaridade!, que violência!, que absurdo!, alô, é dos direitos humanos?
O pai deu de ombros e manteve o guri lá, acorrentado e debulhando milho.
Ele só ganharia comida se debulhasse todos os milhos para o pai, e papo encerrado.
As pessoas deram mais alguns gritinhos histéricos, mas ninguém conseguiu convencer o velho pai a soltar o guri – nem mesmo a mãe.
Se passaram dois meses.
Sim, dois meses.
60 dias amarrado num paiol, debulhando milho para poder comer.
Então, um dia, o gurizão disse para o pai que gostaria de ajudá-lo na granja, na colheita, no trabalho, enfim: estava querendo fazer alguma coisa útil, não agüentava mais ficar ali acorrentando e debulhando milho.
O pai, que não é um carrasco - apesar do que muitos disseram - soltou o filho, ele subiu num trator, e hoje, alguns anos depois do acontecido, estão todos felizes: o menino trabalhando, sem usar drogas, e os pais contentes, sem precisar se preocupar com as moedinhas que deixaram em cima da tevê, nem com a própria tevê.
E todos aqueles chatos, que queriam chamar a imprensa e os direitos humanos e o conselho tutelar para punir papai tão malvado, hoje aplaudem a atitude do velho, dizendo que “veja só, realmente resolveu”.
Claro que resolveu, manézões!!!!
Tenho certeza que o infeliz vai pensar quinhentas vezes antes de usar drogas novamente, do mesmo jeito que o bobo da corte de Viamão vai pensar quinhentas vezes antes de pegar um spray e esculhambar com o trabalho alheio.
É exagero, falta de respeito, humilhação?
Pois eu acho que exagero, falta de respeito e humilhação é você trabalhar como um condenado para que seu filho entregue tudo para traficantes filhos da puta, e ainda agrida sua mãe.
Exagero, falta de respeito e humilhação é você desprezar o trabalho de toda uma comunidade, pobre, que usou seu dia de descanso para melhorar a escola, e ir lá escrever seu lindo nome nas paredes pintadas e limpas.
Não confundam as coisas, amigos.
A juventude está do jeito que está por causa de pessoas que pensam que tudo irá traumatizar e deprimir os jovens.
Não traumatiza e não deprime.
Ensina.
Alguém já disse que educamos mais a partir do NÃO do que do SIM, mas parece difícil de entender o óbvio.
Em resumo: tô com a professora Denise e não abro.
Tô com o pai do drogado (agora ex-drogado) e não abro.
E está para nascer quem irá me convencer de que eu não estou certa.
Sabem por quê?
Porque contra fatos não existem argumentos.
O piá, que citei de exemplo, hoje é um guri decente, nada traumatizado, super tranqüilo.
E esse aí, da escolinha de Viamão, vai pensar melhor antes de sair por aí fazendo merda nos muros e paredes brancas da comunidade.
Palavras movem, exemplos arrastam.
Mas sentir na própria pele os efeitos de nossas ações erradas, faz a gente não esquecer a lição nunca mais.

Vim dividir com vocês um momento asquerosamente bonito.

Muito mais asqueroso que bonito, é verdade.
O fato é que estava eu, feliz e sorridente perdendo meu tempo no Twitter, quando ouço, ao meu lado, barulhinhos suspeitos.
Observo cautelosa, temendo ser uma barata voadora e repugnante, e vejam só com o que me deparo, bem em cima da minha lareira (sim, eu tenho uma lareira, estou no topo da cadeia alimentar):

Uma aranha assassinando impiedosamente uma... lacraia?
O que uma lacraia fazia sendo assassinada bem em cima da minha lareira?
E por quê?
De que maneira?
Com qual objetivo?
E sim, Sociedade Protetora dos Bichos Nojentos: a aranha matou a lacraia e eu matei a aranha.
Quero dizer, não exatamente eu, mas enfim.
Não importa.
O que importa é que estamos no topo da cadeia alimentar, rarara.
Pelo menos serviu para fazer essa bela foto.
Bela?
Sei não.
Só vou pro céu se lá não existirem insetos, aracnídeos e derivados.
E não adianta insistir, Deus.

* crédito da foto, claro: Afobório.

22 setembro 2009

Café Espacial #5

Hoje trago duas novidades super a respeito da Revista mais incrivelmente Espacial de todo o sistema solar: sim, a Café.
A primeira é a capa:
Do caralho, eu sei.
O responsável por essa belezura é o grande Ebbios, que mais uma vez não deixou por menos na hora de colocar todo seu talento no papel.
O número 5 da revista conta ainda com o trabalho de artistas gabaritados, como Laura Gattaz, Laudo Ferreira, Bruno Ondei, Jozz e muitos outros – entre eles, claro, euzinha, ririri, que entro em cena com o conto Os Ratos, Os Gatos e Os Homens e a adaptação do Joaquina Pede Água para os quadrinhos (já disse, mas nunca custa repetir: arte da Sueli Mendes e roteiro do Sergio Chaves).
A edição n°05 estará disponível a partir da primeira semana de outubro.
Seu lançamento oficial será realizado no 6º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (FIQ-BH) e já estamos definindo as datas de lançamento em algumas cidades, como São Paulo (SP), Marília (SP), Passo Fundo (RS) e Curitiba (PR).
Super-mega-ultra-master legal, uhú!

E não é só isso não!
Enquanto você lê este texto, está rolando também uma promoção bacanérrima no Twitter da Café Espacial.
Funciona assim ó: para participar, basta ser um dos nossos followers e completar a frase em seu próprio twitter: Para sair da INÉRCIA, tomou uma xícara de @cafeespacial. Foi então que…
O autor da frase mais criativa levará pra casa um exemplar autografado do livro Inércia (Ed. Multifoco, 2009, 136 págs), do escritor mineiro Marcos Vinicius Almeida (saiba mais aqui).
A promoção vai até o dia 30 de setembro (quarta-feira) e o resultado sai dia 1° de outubro.
O que está esperando?
Siga-nos: http://twitter.com/cafeespacial e participe.

REGULAMENTO da promoção
SAIA DA INÉRCIA COM CAFÉ ESPACIAL
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1. Critério de Participação e Prazo da Promoção

1.1. A promoção “Saia na Inércia com Café Espacial”, doravante denominada Promoção, realizada pela Revista Café Espacial, é aberta a todas as pessoas físicas, maiores de 14 anos, residentes no Brasil, que desejarem participar;
1.2. O participante deverá ter uma conta no Twitter e seguir o perfil da Revista Café Espacial (www.twitter.com/cafeespacial).
1.2.1 Para participar da promoção, o usuário deverá completar a frase: Para sair da Inércia, tomou uma xícara de @cafeespacial. Foi então que...
1.2.1. A resposta deve ser iniciada com o trecho Para sair da Inércia, tomou uma xícara de @cafeespacial. Foi então que, restando aos participantes 70 caracteres para o desenvolvimento da idéia.
1.3. O autor da frase mais criativa receberá um exemplar autografado do livro Inércia (Ed. Multifoco, 2009, 136 págs), do escritor mineiro Marcos Vinicius Almeida;
1.4. As frases serão aceitas desde o início da divulgação da promoção até a meia noite do dia 30 de setembro de 2009.
1.5. Cada usuário poderá enviar quantas frases desejar.
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2. Critério de Premiação
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2.1. A escolha competirá a uma comissão julgadora formada pela Equipe da Revista Café Espacial, a seu exclusivo critério, não cabendo qualquer recurso.
2.2. A frase deverá ser um trabalho original. Os participantes não poderão copiar o trabalho de terceiros para redigir a sua frase. Qualquer frase que, a critério da Café Espacial, seja considerada profana ou inapropriada, será automaticamente desclassificada.
2.3. Os participantes e o ganhador desta promoção declaram, desde já, serem os autores das frases enviadas, não tendo cometido plágio ou qualquer outra forma de apropriação autoral vedada pela lei.
2.4. A Café Espacial se reserva o direito de desclassificar as inscrições que não preencham os requisitos previstos neste regulamento, independentemente de qualquer obrigação de comunicar os participantes a respeito desta desclassificação.
2.5. Os dados fornecidos pelo participante, no momento de sua inscrição, deverão ser corretos, claros, precisos, completos e apresentados de uma forma que permita a verificação de sua procedência, veracidade e autenticidade.
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3. Da Entrega dos Prêmios
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3.1. O nome do vencedor da promoção será divulgado pelo site da Revista Café Espacial (http://www.cafeespacial.com/) e na página de seu Twitter (www.twitter.com/cafeespacial), no dia 1° de outubro de 2009, a partir das 14h.
3.2. A entrega da premiação será feita através dos Correios, tendo como base de dados as informações solicitadas posteriormente para o ganhador;
3.3. O prêmio é pessoal e intransferível, não sendo, ainda, permitida a troca do prêmio por dinheiro ou por qualquer outro produto.
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4. Disposições Finais
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4.1. Todos os participantes autorizam desde já o uso gratuito de seus nomes, link de seu twitter e suas frases em qualquer tipo de mídia, Internet e peças promocionais para fins de divulgação da Promoção, sem qualquer ônus adicional para a Revista Café Espacial e/ou o Quarto Mundo.
4.2. Este concurso é de cunho exclusivamente cultural, sem qualquer modalidade de sorte, fins lucrativos ou pagamento pelos concorrentes, respaldado pelo artigo 30 do Decreto Lei 70.951/72.
4.3. A simples participação neste concurso cultural implica total conhecimento e aceitação deste regulamento, bem como de seus termos e condições.
4.4. Quaisquer dúvidas, divergências ou situações não previstas neste regulamento serão julgadas e decididas de forma soberana e irrecorrível pela comissão julgadora.
4.5. Em caso de dúvidas a respeito da presente promoção cultural, os participantes podem mandar um e-mail para cafeespacial@gmail.com ou escrever para Caixa Postal nº.12 – Vera Cruz/SP, Cep:17560-970.

21 setembro 2009

Babem.

Cá estão as fabulosas ilustrações da capa e da contracapa do segundo volume da coletânea de contos policiais Assassinos S/A, feitas pelo grande, querido e talentosíssimo Mario Cau:
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(Capa)
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(Contracapa)
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Geniais, não é?
E isto é apenas uma palhinha do que ainda vem por aí.
Neste momento, 7 ilustradores estão debruçados sobre os textos já selecionados para a coletânea, que está com o lançamento previsto para janeiro do ano que vem.
Todos os contos serão ilustrados, e baseada nos textos já selecionados, só posso dizer que a coisa vai ser muito mais do que muito ótima.
No blogue oficial da antologia vocês podem conferir trechos de alguns contos já selecionados, além de vídeos, informações, regulamento, curiosidades, sites dos autores e outras cositas más.
Imperdível é pouco.
E até o dia 30 de setembro (nenhum dia a mais, nenhum dia a menos) estou recebendo contos para o fechamento da coletânea.
Ainda tem vagas!
E esta não é uma frase que costumamos ver facilmente por aí.
Então participe, divulgue, assassine geral.
Na literatura, é claro, onde tudo é deliciosamente possível.
Boa segunda, gente boa!

18 setembro 2009

Os Direitos dos Maledicentes.

Uma das coisas mais importantes que minha mãe me ensinou foi: se não tiver nada de bom para dizer, não diga.
Um ensinamento simples, que tornaria a vida de todos mais feliz e bela, mas que parece difícil de ser colocado em prática.
Por exemplo: você foi a uma exposição de quadros, e não gostou do que encontrou por lá.
Achou o trabalho do artista fraco, superficial, quase inconveniente.
Legal, você tem esse direito.
Vivemos em uma sociedade livre, a democracia está em voga, todo mundo pode e deve e precisa ter sua opinião, livre de qualquer interferência e manipulação.
Até aqui, tudo bem.
Mas então, você, com suas opiniões, resolve ir até o artista e lhe dizer pessoalmente que achou seus quadros fracos, superficiais, quase inconvenientes.
E eu pergunto, por quê?
O artista vai ficar chateado, talvez até um pouco desmotivado.
Quem sabe, quando estiver pintando seu próximo quadro, lembre de seu julgamento ferino e até se sinta um pouco censurado.
Pode ser que ele passe uns dois dias tristes, só porque causa de você.
Mesmo que ele tenha recebido vinte elogios e uma só farpa – a sua – , é da sua apreciação negativa que ele vai lembrar.
Então por que criar esta situação desagradável?
Para que?
Com qual finalidade?
Nenhuma, além de ferir.
Poucas, muito poucas críticas são verdadeiramente construtivas.
A maioria das pessoas não sabe criticar sem ofender.

Com o E-Blogue.com (in memorian), o 3:AM Magazine e a coletânea de contos policiais Assassinos S/A que organizo, recebo uma porrada de textos: alguns ruins, outros muito ruins, e uns bons, muito bons, quase geniais.
É normal.
São oportunidades de publicação que eu abri, por livre e espontânea vontade, para quem quiser participar, e é óbvio que não somente grandes e primorosos escritores entrarão em contato.
Quando recebo um texto ruim, ou que não gosto (essa coisa de bom e ruim, aliás, é muito relativa, e o que eu posso achar uma bela merda pode ser, para você, uma grande obra, e vice versa), o que eu faço?
Eu descarto.
Pronto, simples assim.
Eu nunca mandei um e-mail dizendo: “Fulano, seu texto está cheio de defeitos e falhas, em suma, é ruim. Aprenda a escrever primeiro antes de querer se meter com literatura”.
E porque eu nunca fiz isso?
Resposta óbvia: porque não tenho esse direito.
Porque, como disse acima, talvez eu não tenha gostado, mas essa é somente a minha opinião.
Como o E-Blogue, o 3:AM e a Assassinos S/A são editorados e organizados por mim, tenho o direito de excluir um material que não gostei, mas nunca, jamais, sob nenhuma hipótese, tenho o direito de pisotear o autor e sua obra.
Se eu fizer isso, talvez o pobre se sinta desmotivado, censurado, entristecido, e até pare de escrever.
Tudo por causa da minha preciosa e absolutamente dispensável opinião.
E não quero ser eu a responsável pela morte nem o esculacho de nenhum artista, por mais que não goste do seu trabalho.
É preciso ter, acima de tudo, respeito - que conserva a amizade e os dentes, como muito sabidamente já foi dito.

Agora vocês me perguntam: mas Jana, porque você está escrevendo tudo isso?
Explico.
Antes de encontrar a Multifoco, estava mega desanimada com esse negócio de publicar.
Andava com os originais do Benjamin embaixo do braço, e tudo o que encontrava eram recusas ou propostas orçamentárias delirantes.
No desespero, pensei: vou escrever um livro-diário sobre as aventuras e desventuras de uma personagem contraditória e egoísta que faz merdas em série.
Sim, isso é um filão de mercado - fato.
Já vi adolescentes rebeldes, que passam o dia inteiro fazendo discursos revoltados e de noite vão pra casa comer a macarronada da mamãe, se alçarem como novas estrelas da literatura mundial graças as suas protagonistas contraditórias e egoístas que fazem merdas em série.
Não gosto de clichês, mas no amor e na guerra vale tudo.
Escrevi a história, apelidei a protagonista de Salomé e, relativamente feliz com o resultado (escrever lugares-comuns não chega a ser a maior dificuldade do mundo) fui atrás de tentar publicá-la.
Porém, havia recém enviado o original para uma editora quando veio a oportunidade da Multifoco, e sem pensar lhes encaminhei Benjamin – meu carro-chefe literário, digamos assim.
A Salomé ficou aqui, engavetada, quietinha.
E como continuei escrevendo e etc, pensei em mantê-la mesmo no anonimato – ora, ela era um clichê e, se agora tenho oportunidade, tentarei fugir dos chavões, na medida do possível.
Um belo dia, encontrei na rede mundial uma editora que lança livros pela internet.
E-books, sacam?
E, além disso, disponibilizam literatura no celular, e em outros formatos também.
Uma idéia bem interessante.
Como não tinha nada a perder, resolvi mandar os originais da Salomé.
E foi o que fiz.
Hoje recebi uma resposta amistosa na minha caixa de entrada, a qual reproduzo abaixo, na íntegra, apenas retirando o nome da editora e do editor – até porque isso aqui não é o programa da Marcia Goldschmidt.

“Jana, bom dia.

Estava lendo seu livro, que você enviou para nós dia 07 de setembro, e gostaria de fazer algumas observações.

Seu texto está muito bem escrito, o que é um grande mérito. A história, porém, me pareceu inacabada em muitos sentidos.

A protagonista é antipática, egocêntrica e não me conquistou. Uma coisa, por exemplo, é Henry Chinaski (Bukowski) descrevendo uma bebedeira ou narrando sua vida auto-centrada: o personagem é bem construído, conta histórias de si mesmo com verossimilhança, e mesmo sendo nojento desperta a empatia do leitor. Salomé é simplesmente uma burguesinha metida a besta, sem nenhuma reflexão e com uma visão estreita da vida - ou seja, ela cai no estereótipo.

Além disso, sua família age na história como um deus ex-machina, mudando o curso da trama de forma abrupta, quando deixa a grana e quando retorna da viagem. A personagem, em si, não demonstra a complexidade necessária para segurar a narrativa.

Enfim, acredito que o livro ainda precisa de muito trabalho, para atacar essas fraquezas.

Um abraço.”

Óquei.
É um direito do editor e também da editora não gostarem da Salomé, nem da sua história, nem de nada, e se recusar a publicá-la.
Eles podem achá-la antipática e estereotipada (ela é mesmo), e podem dizer: "Pô, essa tal de Janaína Lauxen mandou uma merda de um livro, não escreve porcaria nenhuma, tá fora."
Podem, evidentemente que podem.
Não só podem como devem.
Como já escrevi ali em cima, eles têm esse direito.
Repito: vivemos em uma sociedade livre, a democracia está em voga, todo mundo pode e deve e precisa ter sua opinião, livre de qualquer interferência e manipulação.
Agora, pra que me mandar esse e-mail, Sr. Editor?
Pra que ir até o pintor lhe dizer que achou seu trabalho fraco e superficial?
Simplesmente diga: “Oi, seus originais não foram aprovados pelo nosso conselho editorial. Tchau e PT saudações”.
Pronto!
Ou ainda: não responda nada.
Delete o arquivo do livro e fim.
Tá resolvido o problema sem que ninguém saia sorumbático.
Mas não.
O editor achou que, além de dizer que o original não estava aprovado, ele deveria também dar sua primorosa opinião (que, lembrando, é só e nada mais, uma opinião).
Por sorte, sou pretensiosa e ainda mais metida a besta que Salomé, para não me deixar abalar.
Posso até não escrever magistralmente, mas é a única coisa que sei fazer mais ou menos bem, e por isso continuarei fazendo, sem cair do cavalo.
Já recebi quilos de críticas e opiniões negativas, de um N números de leitores, críticos, editores e Cia. Ltda., e tiro de letra.
Sei que toda unanimidade é burra, além de não existir.
Se nem Jesus Cristo agradou todo mundo, não seria eu que agradaria.
Mas isso sou eu.
E se por acaso eu fosse uma menina de 18 anos, ainda insegura, tentando pela primeira vez publicar seus escritos, e um sujeito me escreve dizendo tudo o que o Sr. Editor disse no e-mail?
Esse cara poderia estar matando uma futura escritora, entendem?
E, de boa, na minha opinião, nem ele nem ninguém têm esse direito.
Ele tem, sim, o direito e até mesmo o dever de não gostar, não aprovar, achar uma porcaria, mas não tem o direito de desmoralizar o trabalho alheio.
É por isso que eu, consciente que sou uma pessoa comum, com opiniões comuns, não respondo aos autores cujos textos não gostei pisoteando na literatura deles.
Pelo contrário.
Quando algum deles me escreve querendo saber por que seu texto não entrou, eu digo que foi porque havia muitos textos bons, e porque foi muito difícil de escolher o melhor, mas que numa próxima, quem sabe?
E deu.
O autor fica feliz, eu fico feliz, todo mundo fica feliz.

E isso vale pra todas as pessoas que andam sobre a terra, não só para editores.
Se você entrou num blogue e leu um texto e não gostou, porque vai escrever para o blogueiro espezinhando seu texto?
Apenas clique naquele X, no canto direito superior da tela do seu computador, e feche a página.
Pronto, problema resolvido.

Lembrem-se, crianças: se não tiver nada de bom para dizer, não diga.
Ficadica.
Tchau e PT saudações.

17 setembro 2009

Lançamentos.

Boa tarde pessoas bonitas!
Venho aqui prestar um serviço de utilidade pública.
Tem dois lançamentos geniais rolando por esses dias, e se você gosta de boa literatura e quadrinhos e todas essas coisas divertidas da vida, não pode perder nem a pau.
Vamos ao que interessa, então.

A Vida que Não Vivi
O primeiro é A Vida que Não Vivi, livro de estréia pela Editora Multifoco do meu amigo, cúmplice e grande escritor Beto Canales.
A publicação reúne 18 contos que versam sobre nosso curioso e, muitas vezes, insustentável universo de relações superficiais, onde se impõem o não-sentir e o não-pensar, a estupidez de cada dia, o espaço reservado para o nada.

É óbvio ululante que já reservei meu exemplar e, se eu fosse você, faria o mesmo.
E para quem está no Rio de Janeiro – que, aliás, continua lindo - não perca o lançamento desta belíssima obra, que acontece dia 19 de setembro, às 17h, na Bienal, Pavilhão Laranja, rua E, n° 27 – ao lado da sala de imprensa.
Quem puder ir e não for, é claro que é a mulher do padre.
Também estou preparando, junto com o Beto, uma entrevista supimpa que, em breve, estará no 3:AM Magazine.
E tão logo eu termine de conhecer as vidas que Beto não viveu, resenharei a obra com o maior dos prazeres.
Aguardem.

Pieces #2
Mario Cau, ilustrador FODA que, inclusive, é o responsável pela arte da capa e da contracapa do volume II do livro de contos policiais brasileiros Assassinos S/A, acaba de lançar o segundo número da revista Pieces, e que está genial, como sempre.
Dá uma olhada na capa e na contracapa e veja se não dá vontade de devorar?


O lançamento vai rolar 6º FIQ, em Belo Horizonte, dia 7 de outubro!
Não percam, meu!!!

16 setembro 2009

2 tópicos.

Benjamin.
Acaba de chegar aqui a mais nova e prepotente remessa do meu livro, Uma Carta por Benjamin.
E desta vez tem prefácio do grande Sylvio Passos, que escreveu:

“Conheci Jana nos caminhos do tão imprevisível mundo virtual. Nunca nos olhamos olhos-nos-olhos, nem sentamos para tomar umas doses e papear numa mesa de boteco. Nossa amizade se deu por conta de um ídolo em comum: Raul Seixas.

Nas oportunidades em que nos falamos, Jana me pediu pra escrever o texto de apresentação de seu primeiro livro, e prontamente aceitei. Sem me dar conta de que o tempo que eu teria para ler o livro e escrever tal texto era curto demais, afinal, estava - e estou - envolvido em inúmeros projetos e eventos por conta dos 20 anos do falecimento de Raul Seixas.
Em meio a gravações, produções, eventos, viagens e palestras, li Uma Carta Por Benjamin.
Tal leitura me proporcionou algo inédito, pois nunca fui adepto de obras ficcionais, salvo raríssimas exceções. Sou daqueles literatos chatos que se dedicam apenas a leitura de livros que abordam estudos sobre temas favoritos, no meu caso, o pensamento e o comportamento humano.
E foram essas referências que encontrei em Uma Carta Por Benjamin, analisando cada personagem.

Jana agrada e se destaca pela linguagem e pelo enredo, cheios de circunstâncias comuns a todos nós. Daí que concluo esta apresentação afirmando, sem medo de errar: existe um pouco de Benjamin dentro de cada um de nós.”

Eu sei que já tinha publicado aqui, mas não resisto, hohoho.
Importante dizer que o livro passou por um remanejamento de preços e agora custa R$28.
Se quiser seu exemplar, me manda um e-mail 3am.jana@gmail.com, a gente faz uma negociata e eu te envio um Benjamin autografado.
Uêba!

Tira Gosto.
Acabo de atualizar o blogue da Assassinos S/A com trechos de alguns contos já selecionados para nosso segundo volume, e aproveitei e dei uma repaginada geral.
Ficou massa.
Passem lá e enviem seus contos.
É até trinta de setembro.
Quando vê, taí.


Em breve, novidades.

13 setembro 2009

Ceguinho.

Ele apareceu aqui em casa ainda pequenino.
Foi abandonado displicentemente na minha rua, provavelmente por alguém desprovido de coração.
Um gatinho charmoso, felpudo, dengoso até demais e... cego.
Não, não podíamos ficar com ele.
Já tínhamos uma gata, e também um cachorro.
Mas o que fazer, então?
Abandoná-lo a própria sorte, outra vez?
Acabamos, é claro, o adotando, e dando-lhe o singelo nome de Hey Charles – nome este que não pegou, e o bichinho acabou nomeado Ceguinho mesmo.
Um jeito doce de tratá-lo.
Por ser cego, Ceguinho ficava preso a uma coleira, grande o suficiente para que pudesse passear e brincar, mas curta o bastante para que não conseguisse fugir e se perder.
Nosso cachorro, o estimado Zé, o adotou como amiguinho, e com ele brincava, e dele cuidava como se fossem irmãos.
Era bonito de ver.
Um dia, levamos Ceguinho ao veterinário, e descobrimos que sua cegueira não foi um ato covarde e cruel de algum filho-da-mãe: era uma inflamação congênita, provavelmente vinda de berço.
E por causa desta inflamação, virava e mexia Ceguinho passava mal.
Hora melhorava, hora piorava, e seu estômago era tão sensível quanto seus olhinhos vãos.
Mas nada disso o impediu de ser um grande gato, o maior, o melhor, o mais querido, o mais brincalhão, o mais amado.
No entanto, há cerca de dez dias, Ceguinho amuou-se.
Parou de comer e começou a urinar sangue.
Levamos ele de volta ao veterinário, que receitou alguns remédios que ele simplesmente se recusou a tomar.
Ficava o dia inteiro deitadinho, dormindo, quietinho.
Não dava um miado sequer.
Quando sua urina voltou a se normalizar, nos enchemos de esperança.
Ele vai sobreviver, ele é guerreiro, ele é forte, ele vai conseguir mais uma vez!
Mas, que nada!
Hoje de tarde, meu Ceguinho morreu.
Dormindo, sem emitir um grunhidozinho.
E minha casa, meu pátio, meus pais, meu marido e meu cachorro ficaram mais tristes.
Eu também fiquei mais triste.
Vai fazer uma falta danada sua coleira arrastando pelo quintal, e suas brincadeiras com o Zé, e sua extrema carência, que o fazia correr para o nosso colo toda vez que nos via.
Vai fazer falta o jeito como ele tentava enamorar-se de minha gata, que nunca dava-lhe bola, e vai fazer falta a maneira como se arremessava contra as folhagens, a brincar.
Vai fazer falta vê-lo cobiçar os passarinhos em cima dos fios de luz, e seus miadinhos pedindo atenção.
Vai fazer uma puta falta recolhê-lo todas as noites para dentro de sua casa, para sua cama, para o seu lar.
Ah Ceguinho, como você vai fazer falta pra mim.
Meu gatinho querido, que era melhor que a maioria das pessoas que encontro por aí, e me ensinou um tanto de coisas sobre a vida.
Sim, um animalzinho, como tantos que andam por aí, é capaz de mostrar aos mais atentos tudo aquilo que gostaríamos de entender e nunca conseguimos.
Meu grande e pequenino amigo, sei que agora estás bem.
Em um lugar cheio de amiguinhos e de elementais, com um pátio bem grande para correr e brincar, sem nenhuma coleira a impedir sua liberdade, sem nenhuma cegueira a impedir seu olhar.
O céu dos gatinhos está em festa para recebê-lo, e disso eu tenho certeza.
Daqui, de dentro do meu coração (que agora aperta, igual a um sapato dois números menor que o pé), você não sairá jamais.
À-deus, meu bom e velho amigo.

09 setembro 2009

Joaquina Pede Água.

Confirmadíssimo: a próxima edição da Revista Café Espacial, que deverá chegar as bancas em outubro, trará a HQ Joaquina Pede Água - primeiro conto desta que vos escreve adaptado para o fantástico mundo dos quadrinhos.
A arte é toda da Sueli Mendes, o roteiro é do Sergio Chaves e o orgulho, claro: é todo meu.
E como não me agüento - e também para comprovar por A + B que não exagero nada quando digo que a HQ ficou linda de morrer - apresento para vocês a primeira, das oito páginas que compõem a história:

(clique em cima e amplie)
Então?
Ficou foda né?
Também achei.
Aguardem.

04 setembro 2009

Mulheres-Macho.

Acaba de entrar no ar minha primeira colaboração no site da Revista Zena – que você pode conferir em primeiríssima mão clicando aqui.
A partir de agora estarei por lá, postando minhas crônicas, metendo minha colher em briga de marido e mulher e dando minha opinião - que ninguém perguntou - sobre assuntos que não me dizem respeito.
Inclusive o nome da minha coluna é, providencialmente, Metendo o Bedelho.
Ah, eu adoro.
E olha só que interessante: Zena significa mulher em tcheco.
Você sabia?
Ah sim, eu também.
Passem por lá e deixem seus palpites sobre os meus palpites.
Assim vamos nos divertindo enquanto a canoa afunda.

Beijo.

03 setembro 2009

Assassinos S/A - O Vídeo

Eis o único, fabuloso, sinistro e genial vídeo de divulgação da coletânea de contos policiais brasileiros Assassinos S/A!



Horripilantemente massa, né?
Importante dizer: produzido por Israel Teles.

A Letter For Benjamin.

Galerinha!
O primeiro capítulo do meu amado, idolatrado, salve, salve Benjamin foi publicado na Inglaterra.
E lá ele virou A Letter For Benjamin.
Coisa boa quando os filhos nos orgulham, né?
Pretendo parir outros, em breve.
Sim, eu me empolguei.

Beijo na bunda.

01 setembro 2009

Sobre o que somos, sobre o que devemos ser.

Por aqui, não é nenhuma novidade que sou colorada.
Desde pequenininha.
Quando nasci, lá no início de 85, o Internacional já havia passado por sua fase de ouro e, então, amargava um momento pouco auspicioso.
Não importava.
Eu era colorada, sou colorada, serei colorada até morrer e, muito provavelmente, depois da morte continuarei sendo também.
Acompanhei, minha infância inteira, meu time querido perder consecutivamente, enquanto seu arquiinimigo Grêmio desfrutava de anos gloriosos.
Era terrível.
Mas time, assim como pai e mãe, a gente não escolhe.
A gente simplesmente tem, e ama.
Sem mais.

Porém, aos poucos, meu colorado querido foi se recuperando, se estabilizando, se reerguendo e, um belo dia, aconteceu: era 17 de dezembro de 2006.
Final do Mundial de Clubes, Inter versus Barcelona.
Eu era só sorrisos.
Nem pensava no título.
Para mim, o simples fato de estarmos ali, campeão da Libertadores, disputando a final do mundial com um time do porte do Barcelona, já era sair vitorioso.
Graças a Deus, não era o que pensavam os jogadores, que queriam muito mais.
E por isso nós ganhamos dos caras, rapaz!
Com um único gol, que saiu lá pelos meados do segundo tempo.
Naquele dia, eu entendi exatamente o que era torcer por um time e carregá-lo dentro de si.
Já havia passado, ao lado do Inter, os piores momentos, mas agora, olha o que ele me dava de presente: o título do mundial.
Na passeata e nas comemorações, que taparam o Rio Grande do Sul de vermelho, dava para ver no rosto de cada colorado o júbilo de saber que, para chegarmos ali, foi preciso suar a camisa, e passar por fases ruins, fases péssimas, fases medianas.
Fases que, por pior que fossem, não tiraram o colorado de nosso coração.
Muito pelo contrário.
Sofremos, perdemos, quase fomos rebaixados duas vezes, enfrentamos dificuldades financeiras, vimos nosso rival vencer e vencer e vencer.
Mas chegamos lá.
Éramos os campeões.
Do mundo!
O Inter, ao final, não nos decepcionou.

E, deste dia tão fabuloso e especial, do qual jamais irei esquecer, uma imagem sintetizou todos nós, colorados.
Uma imagem que dizia: nada, nada vai nos separar.
Era Fernandão, nosso capitão, erguendo a taça lá no Japão, em seu rosto desenhado todos os sentimentos que passavam aqui, dentro de mim e, tenho certeza absoluta, dentro de todos os outros torcedores vermelho e branco que enchiam a cara, choravam e se descabelavam de felicidade no meio da avenida: éramos os campeões.
Fernandão, para mim, sou eu no dia do triunfo.
Não que eu não valorize os outros jogadores – em especial Gabiru, o cara que fez o gol da vitória na grande final.
Mas Fernandão era o colorado de verdade.
Não estava ali só por causa de um salário cheio de zeros, nem só por conveniência, nem só por profissionalismo.
Ele era o capitão do time que, assim como eu, carregava no coração.
Dava para ver em seus olhos, dava quase para sentir suas pulsações.
Fernandão ergueu a taça por mim, pelo meu pai, minha mãe, meu futuro namorado.
Por todos nós, colorados.
A glória.
Foi a glória.

Porém, um dia, Fernandão teve que ir embora.
Recebeu uma proposta irrecusável de um time gringo, fez suas malinhas, entrou num avião e se foi.
Mas antes, ele chorou.
Chorou porque era colorado, e deixar seu time para trás era-lhe por demais doloroso.
E eu, e toda a massa vermelha e branca, choramos junto com ele.
Fica Fernandão, alguns ainda tentaram, com cartazes e súplicas na internet.
Mas ele já tinha ido.

O tempo passou, como sempre passa, e num belo dia ele voltou.
Queria voltar a jogar no Brasil, e aguardava uma proposta do Inter, é claro que sim.
Mas o Inter estava outra vez no Japão, disputando agora a Copa Suruga e, por motivos que desconheço, quando nossa delegação chegou de volta ao Brasil, Fernandão já havia fechado com o Goiás - time que, aliás, o revelou.
Consternação.
Ninguém queria acreditar que ele, justamente ele, nosso capitão, o cara que representou todos nós, colorados, naquele dia lindo e ensolarado de dezembro de 2006, estava agora vestindo um uniforme verde e defendendo outra bandeira, outro distintivo.
Outro time.
Não sei o que os outros torcedores sentiram, mas para mim foi como pegar meu marido com outra, na minha cama, no dia do nosso aniversário de casamento.
Aquilo não estava certo, não era justo, não podia ser.
Mas era.
Fazer o que?

Neste último domingo e por causa das artimanhas da vida e do futebol, Internacional e Goiás acabaram se enfrentando no Beira Rio.
E Fernandão, com sua camiseta verde, precisou voltar ao Rio Grande do Sul, voltar ao Beira Rio – sua casa, durante tanto tempo – e, pior: voltar a encarar a nação vermelha que sempre o festejou.
Só que, desta vez, jogando contra.
Imagino o quanto isso deve lhe ter sido difícil.
Se foi para mim, que dirá para ele.
Para piorar, tão logo nosso capitão, isto é, nosso ex-capitão, colocou os pés em cima do gramado e a torcida, sua velha companheira, o ovacionou.
Sim!
Apesar da camiseta verde, apesar do Goiás estar 4 pontos à nossa frente na tabela do Brasileirão, um Beira Rio com mais de 30 mil torcedores o ovacionou, o aplaudiu e, por alguns momentos, imaginou reviver a glória de tê-lo entre os nossos.
Mas não, ele agora vestia verde.
Agora jogava contra nós.
E bastou o juiz apitar o início da partida e Fernandão encostar o pé na bola que a mesma torcida, que o celebrava segundos antes, precisou vaiá-lo.
Ora, somos colorados, torcemos pelo Inter, não pelo Fernandão.
E então, sua cabeça, que já deveria estar afogada em emoções e lembranças, entrou em colapso.
Tanto que, aos 13 minutos de jogo do primeiro tempo, com o Goiás já perdendo por um a zero, Fernandão, sempre pacífico e reconhecido pelo seu equilíbrio dentro de campo, sucumbiu.
Numa jogada esquisita, empurrou Magrão e acabou expulso do jogo.
Saiu mudo, se trancou no vestiário e ninguém mais viu Fernandão naquele domingo estranho.

Surgiram mil especulações.
O que aconteceu?
Fernandão forçou a própria saída?
O que sentiu o ex-grande líder do Internacional, o sujeito que fez todos os colorados chorarem e todos os gremistas sorrirem quando foi embora?
Eu sei a resposta.
Fernandão é colorado.
Ele não está colorado, apenas enquanto um contrato mantém-se em vigor.
O que ele sente pelo Inter, pelo Beira Rio e, principalmente, por toda aquela multidão vermelha, não muda por causa da cor de uma camiseta.
É claro, Fernandão é um jogador profissional.
Foi para o Goiás, e o defenderá com unhas e dentes, tenho certeza absoluta disso.
Mas não contra o Inter.
Não contra o time que está dentro do seu coração.
Não contra aquela torcida linda e apaixonada, que gritava em exaltações Uh, terror, Fernandão é matador!

Porque escrevi tudo isso?
Primeiro, para homenagear Fernandão.
Gosto dele pacas.
Segundo, porque este é um exemplo clássico e seguro de uma pessoa que é.
Simplesmente é.
Ela não está, apenas, ela não finge, ela não interpreta.
Ela é.
Ela é em cada minúscula parte de seu corpo, ela é em seus poros, em suas células, em seu coração, em seu cérebro, em sua racionalidade e irracionalidade, consciência e inconsciência, dentro e fora e dos lados.
E, em se tratando de Inter, eu também sou, tal e qual o Fernandão.
E por isso o entendo: nem sempre a vida está em compatibilidade com aquilo que somos.
Muitas vezes precisamos esconder o que vai aqui dentro, disfarçar, assobiar, até fazer o que não queremos ou não gostamos, porque é preciso, porque é coerente, porque é o correto.
Mas lá dentro, lá dentro nada muda.
O que somos em nossa essência continua intocado, puro, preservado, resguardado como uma jóia rara.
E não importa o que a gente faça, o quanto dissimulemos, o quanto tentemos nos libertar: somos e pronto.
E por esta sinceridade quanto àquilo que se é e se sente, é que não somente compreendo como respeito o que aconteceu com Fernandão no último domingo, lá no Beira Rio.
Pois, por mais que disfarcemos, tem horas que aquilo que vai em nosso coração transborda.
Entra em erupção.
E só nos resta sair em silêncio, como ele fez, e tentar entender o que não dá para entender.

Obrigada Fernandão.
De camiseta verde ou vermelha e branca, você sempre será um dos nossos.