27 maio 2009

Nós, os bodes.

Dia 27 de abril, Márcia Nascimento Gomes, dentista, 32 anos, vinha tranquilamente com seu carro pela Rota do Sol, indo de Torres para Gramado, na Serra Gaúcha, quando avistou um camioneiro, Fabiano Lima, na beira da estrada, fazendo sinal de que seu carro estava com problemas.
Sem pensar, estacionou e foi, nesta ordem, estuprada e assassinada com golpes de facão.
Horrível.
Mas bastante comum. Lamentavelmente comum, diga-se de passagem, e ainda temo o dia em que coisas deste tipo não me repugnarão mais.
O fato é que esta história, além do algoz e da vítima, possui outros personagens, tão importantes quanto, e é em torno deles que está girando toda a discussão.
No momento em que Márcia era agredida, vinha passando outro carro, trazendo a bordo um casal de namorados. Vendo a covardia, o rapaz parou e tentou intervir, mas foi ameaçado por Fabiano e seu facão.
Assustado e temendo pela namorada, a testemunha deu no pé e, alguns metros adiante, avisou a polícia sobre o que estava acontecendo.
Então, seguiu em frente, sensação de dever cumprido.
Era meio dia e meio.
Às 6 horas da tarde, a polícia apareceu.
Sim, caro leitor e amigo, somente às 6 horas da tarde os homens da lei resolveram dar o ar de suas graças.
Claro que só encontraram o que restou de Márcia.
Achou um absurdo?
Pois você não viu nada.
Agora, para dar uma pitada de pimenta em cima desta bela pizza, decidiram levantar debates e acusações contra as testemunhas, culpando o fadado casalzinho de namorados de terem negligenciado a pobre moça.
Peraí???
Eles negligenciaram a pobre moça?
O casal de namorados que voltava sossegado da praia depois de um final de semana feliz deveria ter lutado bravamente contra um maluco armado e insano?
Podia apostar que esse era o papel da polícia.
Porque é muito fácil sentar em nosso confortável sofá, acender um charuto e dizer que os dois namorados deveriam ter feito isso e aquilo, mas queria ver quantos destes, que hoje estão com seus dedinhos em riste, elaborando incriminações e teorias, teriam feito diferente se estivessem lá.
Desculpem, mas pescoço não brota, e por mais que isso pareça terrivelmente egoísta, só coloco minha cabeça em jogo por um seletíssimo número de pessoas, e olhe lá.
O sujeito e sua namorada se cagaram, é verdade, porém não serei eu a atirar pedras neles.
Até porque, possivelmente, faria a mesma coisa.
Pensaria, ingenuamente, que, tendo avisado a destemida polícia, tudo estaria bem.
Eles iriam até lá, salvariam a mocinha e colocariam o bandido na cadeia.
Santo romantismo!
E agora, como não existe absolutamente nenhuma desculpa plausível para o atraso de cinco horas e meia dos homens da lei, optou-se por questionar a atitude do casal, que se bobear, ainda vai acabar se incomodando seriamente e fazendo o péssimo papel de bode expiatório.
Isso me irrita, sabem?
Muito, para falar a verdade.
Porque acontece em série, o tempo todo, a cada instante, todo dia.
Na falta de explicações decentes das autoridades, aponta-se o dedo para a população, para o cidadão, como a perguntar-lhe: porque você não está fazendo o trabalho que nós nos comprometemos a fazer?

O PCC organizou um auê em São Paulo, e incendiou ônibus, e explodiu bombas, e metralhou geral?
Culpa dos maconheiros, que sustentam o tráfico.
Os políticos resolveram esculhambar com o dinheiro público?
Culpa do eleitor, que não sabe votar.

Já eu penso que, se o PCC manda e desmanda, é porque está tudo uma bosta: a polícia é corrupta, os políticos são corruptos, até a tia que faz cafezinho é corrupta.
E a bandidagem só está fazendo a festa porque o estado não tem o mínimo controle sobre o estado, e aqui o sistema é bruto.
Óquei, admito que comprar um baseado é, de um jeito ou de outro, sustentar traficante, mas daí a acusar o maconheiro por não resolver o que nem o exército resolveu, tenha paciência irmão.
O eleitor não sabe votar?
Pior que não.
Eu mesma já esqueci completamente para quem votei para deputado, por exemplo.
Votamos em tantas pessoas, para tantos cargos, e elegemos tantas outras que nem escolhemos, por causa de um estranho voto de legenda, que nem sei mais.
Como vou acompanhar cada peido dos meus eleitos se preciso trabalhar, limpar a casa, trabalhar, limpar a casa e trabalhar para, em seguida, limpar a casa?
Tenho mais o que fazer.
Se fosse um ou dois, até me daria ao trabalho, mas 198 não dá!
E, se não me engano, existe um negócio chamado Ministério Público, que serve justamente para supervisionar o trabalho dos políticos.
Ah, eles também são corruptos?
Bem, então a culpa não é do eleitor, certo?

Também acho que o casal de namorados deveria ter feito mais pela pobre Márcia.
Do mesmo jeito que acho que deveríamos, todos, ir para a África dar uma força pra aquela gente sofrida e adoentada, mas nem por isso critico outros que, assim como eu, admiram quem faz mas nem pensam na possibilidade de fazer igual.
Evidentemente que a população, enquanto indivíduo e enquanto nação, tem mil deveres e responsabilidades, e nem levanto esta questão, que é óbvia.
Mas cada macaco no seu galho e com suas devidas bananas.
Não espero um estado paternalista e sufocante, espero apenas que cada um faça aquilo que se comprometeu a fazer.
Ganham mal?
Eu também.
Correm perigo?
Eu também.
E se a coisa está tão ruim assim, largue a porra dessa farda e vá vender picolé em Florianópolis na alta temporada, bicho!

Com licença, mas não vou assumir responsabilidades nem vou carregar fardos que não são meus.
Não só meus.
Enquanto cidadã, terei o maior prazer em colaborar com nossos órgãos e autoridades para manter esse país num mínimo de ordem, mesmo que caótica.
Mas me declaro inocente, excelentíssimo juiz.
Cuidem de suas bananas, prezados macacos, que eu cuidarei muito bem das minhas.

23 maio 2009

Jambalaya Ocean Drive passofundense.

Ninguém aqui é santo.
Eu, muito menos.
E um dos meus maiores e mais perigosos defeitos é que não costumo abrir o jogo enquanto ainda dá tempo de salvar a partida.
Vou guardando, agüentando, suportando, tolerando, relevando, até que o balde enche e eu transbordo, provocando toda a lambança que um balde transbordando pode provocar.
Eu deveria ter abandonado o cortiço que habitei durante dois longos anos a muito mais tempo.
Mas não.
Continuei, acreditando que talvez um milagre natalino pudesse transformar seus moradores em gente, um dia.
Quem sabe?
Doce ilusão.
Como quase tudo nessa vida, o que já estava ruim, ficou ainda pior.

Começou lá por meados do ano passado, quando um dos meus amigos, depois de jantar na minha casa, como meu convidado, saiu preso do prédio pelo policial que comia a moradora do bloco D.
Acreditem se quiser.
O pobre foi acusado de ser um tarado, de ter quebrado a janela da biscate e ter chamado a gordinha de gostosa.
Seria cômico se não fosse trágico.
Levaram o guri pra delegacia, fizeram um fuzuê e na hora de comparecer na frente do juiz, nada: a 'vítima' não apareceu, ao contrário do ‘tarado’.

Depois foi a moradora do bloco E, que decidiu que havia um demônio no seu apartamento.
A infeliz ia para a janela dia sim, outro também, gritar que o diabo estava no meio da sua cozinha. Todo dia!!!
Vocês não podem imaginar o que é estar tomando um banho sossegada e de repente, não mais que de repente, escutar:
- É o demôôôônio. Eu sei que é o demôôôônio.
Se você ficou com pena, leva pra ti, mané.

Tinha também a moradora do 114, que só não é mais enfiada que cueca em bunda de gordo. Por qualquer coisa, lá estava a danadinha, exercitando sua curiosidade. Procurava o síndico 19 vezes por dia, para reclamar da chuva, do sol, da música, do Lula, do aumento das taxas de juros.

Mas a cereja do bolo foi quando uma mala de nome esquisito e voz estridente se mudou para o andar acima do meu. Já falei dela aqui. A cretina conseguia reunir todos os defeitos que uma vizinha cretina podia ter: ouvia Sandy e Júnior no último volume, brigava com o namorado de manhã, de tarde, de noite e de madrugada, tinha um cachorro tão insuportável quanto a própria, batia a toalha suja na janela e enchia minha sala de migalhas.
E etecetara, etecetara, etecetara.
Não dava cinco minutos de trégua.
Sem contar que ela não sabia fechar a porta do guarda roupa nem lavar um copo sem fazer um estardalhaço.
Gente grossa é dureza.
E como se não bastasse tudo isso, o marido da mala de nome esquisito e voz estridente ainda tinha o adorável costume de jogar bola no meio da sala.
Sim, bater uma bolinha, porque não?
E o meu balde ali, ping, ping, ping.

Sábado passado, dia 16, acordei às 8 da manhã com a querida andando pelo apartamento com seu salto alto. Porque alguém anda às 8 da manhã de um sábado de salto alto eu nem imagino, mas ela faz coisas inimagináveis, e em série.
Em seguida, bateu boca com seu maridão jogador de futebol e comedor de ovomaltino e então, meu filho, o balde encheu.
A lavadeira que vive em mim despertou e eu levantei maluca, aos berros, chamando todo mundo de filho da puta e seguida pelo meu fiel escudeiro, Afobório, que era a própria cólera.
Resultado?
Escândalo, barraco, gritos no corredor, palavrão, baixaria.
E como a desgraça vem a galope, em meio ao escarcéu, quem salta janela afora, cheia de rugas e gorduras localizadas?
Sim, ela mesma, a gordinha do bloco D que acusou meu amigo de ser um tarado.
E saiu aos gritos, me chamando de ‘baixa’.
Óquei, eu mereço, Pai: me chicoteie.
O pior é que a pilantra estava acompanhada do dito policial.
O mesmo picareta que levou meu bróder preso!!!
Logo, estava o marido da mala esquisita e estridente e o policial da biscate gordinha conversando no portão, provavelmente armando uma parada contra eu e meu querido Afobório.
Imediatamente, avisei:
- Vamos dar o fora, porque se tem puliça na jogada, a gente vai se foder.
Fizemos nossas malinhas e saímos correndo pegar um ônibus.
Dá para acreditar?
Dá.
Afinal, estamos no Jambalaya Ocean Drive passofundense.

Desde então, sou feliz.

É claro que me arrependi do salseiro que eu mesma organizei sábado de manhã.
Porque consegui descer lááááá embaixo, onde se encontram pessoas (pessoas?) que fazem o que meus amáveis ex-vizinhos mais gostam de fazer.
Entrei no jogo, dei a eles o que eles mais gostam e precisam: escândalo.
E me arrependi.
Ô, se me arrependi.
Primeiro porque, se grito resolvesse, porco não morria.
Segundo porque, quem estava errada ali era eu.
Sim, euzinha.
Fui eu quem insistiu em morar num lugar como o Jambalaya, onde os moradores usam ferraduras e relincham e comem pasto, e quis respeito de gente que sequer sabe soletrar essa palavra.
O que eu poderia esperar?
Requinte, discrição, conversa civilizada?
Rarara, não me faça rir.
Quem é ogro, meu filho, é ogro.
Quem é grosso, mal educado e gentalha, é grosso, mal educado e gentalha, e não vai mudar nem que a vaca cante Ó Sole Mio.

Os incomodados que se retirem, este é o meu mantra.
E quem estava incomodada lá era eu, definitivamente.
Eles estavam em seu habitat natural, aos berros, aos gritos, fazendo putarias, andando com puliças picaretas que se sujam por causa de alguns vinténs e se acham muito espertos.
Mas agora acabou.
Hoje vivo feliz e saltitante em um lugar onde as paredes são azuis, as pessoas são educadas e bonitas (sim, eles também são feios), onde existe silêncio e boa educação.
Pelo meu baixeiro, peço desculpas.
Saí da linha, mas já estou de volta.
E agora que me livrei dessa gente e desse papo furado, esta que vos fala só quer saber de paz.
Que assim seja, amém.

17 maio 2009

Senhoritas e senhoritos!

Tenho notícias ótimas: estou me mudando!
Iés!
E isso é muito melhor do que parece, mas depois eu explico detalhadamente essa parte.
O que importa é que estou deixando o cortiço feio e barulhento onde vivi nos últimos dois anos e indo morar em um lugar lindo, sossegado, azul e com pessoas bonitas.
Mas eu também explico detalhadamente essa parte depois.
O que quero dizer é que esta semana não estarei por aqui, mas logo voltarei com força total.
Amo vocês e amo bolo de chocolate.
Até.

14 maio 2009

A Classe dos Artistas – rarara.

O bom mesmo é encontrar um culpado.
Ora, claro que sim!
Porque você - logo você - vai dizer que fez, se pode dizer que não fez?
Porque vai assumir uma responsabilidade, se pode não assumir nenhuma?
Muito fácil, seu danadinho, ouiés.
Mas com suas conseqüências, é claro.

Durante muito tempo reparei e, apesar de ainda não haver concluído minhas averiguações, posso garantir que a maioria das pessoas querem mais é que os outros façam.
Só querem ser chamadas quando o jantar estiver servido – e para reclamar do tempero e do prato principal.
Exemplos?
Não faltam!
Os caras querem ser chamados de escritores, querem publicar, querem ter uma oportunidade, mas: a) não querem vender seus livros; b) não querem divulgar seus livros; c) não publicam na internet por que tem medo que plagiem seus textos (rarara, esta é ótima); d) não participam de nenhum projeto porque são incompreendidos; e e) costumam acreditar que são o Fernando Pessoa.
Os caras querem ser chamados de desenhistas, querem encontrar seu espaço, querem ter uma oportunidade, mas: a) nunca tem tempo para desenhar porque precisam trabalhar para se sustentar; b) nas horas que sobram não desenham porque estão cansados de tanto trabalhar; e c) quando desenham, fazem uma mascote para o mercadinho do seu Dionísio, da rua de trás.
Os caras querem ser chamados de músicos, querem tocar, querem ter uma oportunidade, mas: a) não conseguem formar uma banda porque ‘são muito temperamentais’; b) quando conseguem, não arrumam tempo para ensaiar porque precisam trabalhar para se sustentar e no final de semana tem que visitar a vó no interior; c) quando conseguem ir, enchem a cara e arrumam problema; e d) não conseguem manter a banda porque ‘são muito temperamentais’.

E no sábado de noite, todos sentam em um bar, pedem uma porção de polenta frita e duas cervejas, e discorrem sobre o quanto o Brasil não apóia seus artistas, e como é difícil, e como dá vontade de desistir de tudo, e óh Deus, como sofremos!
Dormi.

Juro que não sei, não faço a mínima idéia e não tenho a mais remota noção do que essas criaturas querem com suas preciosas vidas.
O que tanto esperam que os outros façam por elas, que elas mesmas não possam fazer?
Não é fácil? Claro que não.
O Brasil poderia apoiar mais seus artistas? Claro que sim.
Mas nem com o patrocínio do Vaticano essa corja iria para frente, porque não são capazes de fazer o mínimo.

Então temos escritores sem textos, músicos sem música, desenhistas sem desenhos, atores sem papéis, todos reunidos no maldito bar, com suas malditas porções de polentas fritas e duas cervejas, choramingando sem parar até a cinco da manhã.
A culpa não é do governo, manés, que não libera verba, nem do povo, analfabeto e pobre, nem da Globo, tão má e manipuladora, nem de um sistema capitalista falido ou blábláblá.
Os culpados são eles – a classe dita intelectualizada, que fez faculdade e leu Bukowsky e deveria estar aqui, na peleja com a gente, mas prefere assistir o Bob Esponja na tevê enquanto lixa as unhas.

O que me consola é que a vida nem sempre é certa, mas é justa.
Ah meu amigo, ela é.
E pessoas assim eu sei bem onde vão parar: trata-se de uma terra distante, distante mesmo, distante pra caralho, a mil léguas para o lado de lá, chamada LUGAR NENHUM.
É lá que vivem os membros da Classe dos Artistas - rarara, sentados em uma mesa de bar, comendo uma porção de polentas fritas e tomando duas cervejas, enquanto esperam alguém os chamarem para jantar.
O jantar onde vão reclamar do tempero e do prato principal.

12 maio 2009

JanasLauxens Pictures apresenta...

Quase esqueci!
Gravei um vídeo e coloquei no YouTube, rarara.
Sou um gênio da tecnologia.
Tudo bem que durante a gravação eu estava descabelada, levemente embriagada e sem nenhuma noção de enquadramento, mas ficou engraçado.
Por isso ficou engraçado.
As cenas que você verá a seguir foram gravadas no condomínio Jambalaya Ocean Drive após o lançamento do livro Uma Carta por Benjamin e antes de atacarmos ferozmente uma pizzaria aqui perto.
Façam sua pipoquinha e divirtam-se crianças!



E como sou virtualmente evoluída - e metida - estou no MySpace e no Twitter.
Sigam-me por lá.
Mas já vou avisando que também estou perdida.

Beco do Crime.

E logo eu, tão boazinha, virei uma matadora sanguinolenta e impiedosa no Beco do Crime.
Claro que estou morrendo de orgulho - valeu Andre!
Clique aqui e leia.
Mas use luvas.
Impressões digitais são sempre um problema.

08 maio 2009

Uma Carta por Benjamin: lançamento em Passo Fundo.

Amanhã estarei na linda e tentadora Loja Valentine, ao lado da linda e ruiva Vê e sua linda e chiquérrima gata Chloe, autografando Uma Carta por Benjamin entre um gole ou outro de vinho.
Seco, é claro, porque senão morreremos de dor de cabeça.

Por isso convido: apareçam lá.
Vai ser divertido.
E vocês sabem como poucas coisas são divertidas nessa vida.

Então anota aí na agenda e coloca para apitar o ceular: dia 9 de maio, sábado, entre 15hs e 18hs, na Loja Valentine (Fagundes dos Reis, 342, entre a Moron e a Independência).
Cliquem e vejam só que graça e ambientalmente correto meu Convite-Mail:

Nos vemos lá.

07 maio 2009

Tá em Sampa? Então tenho uma dica quente para te dar!

A HQMIX LIVRARIA TEM A HONRA DE CONVIDAR
DIA 09 de MAIO
SÁBADO
19:30

LANÇAMENTO DA REVISTA:
CAFÉ ESPACIAL #4

POR:

. ALLAN LEDO
. BIU
. DANIEL ESTEVES
. ELIAS LASCOSKI
. FÁBIO LYRA
. JANA LAUXEN
. LAUDO FERREIRA
. LAURA GATTAZLÍDIA BASOLI
. MARCELO KUBOTSU
. MARIO CAU
. SERGIO CHAVES
. SHIKO LEITE
. SUELI MENDES
. TALITA PRADO
. VINÍCIUS MITCHELL
. VIVIAN PIZZINGA

HQMIX LIVRARIA
PRAÇA ROOSEVELT
Nº 142
Centro - São Paulo - SP
TEL (11) 3258 7740

Não deixe de prestigiar!

O quarto número da Café Espacial traz as HQs: Vida enquanto sonho (de Allan Ledo), K for knife (de Biu e Shiko Leite), Intercâmbio insólito de ideias absurdas (de Daniel Esteves e Mario Cau), Ping pong: platonismo orkutiano (de Sueli Mendes) e Um quadrinho (de Vinícius Mitchell e Fábio Lyra).
A seção Café Literário traz os contos Contramão (de Sergio Chaves), Maldita Sandra (de Jana Lauxen) e Superfície (de Vivian Pizzinga).
A edição traz também: a estréia da seção Além do Cinema, retratando a obra do cineasta Tim Burton (por Talita Prado); ilustrações de Laudo Ferreira; fotografias de Laura Gattaz; a seção Mais uma dose (por Elias Lascoski); a seção Arte revelada, com fotografias de Marcelo Kubotsu; e na seção Cafeína pura! entrevista com a banda The Cleaners (por Lídia Basoli) e resenhas do álbum Expurgo da banda Monaural. Capa: Shiko.

Ou seja, magrão: apareça para dar uns goles deste Café pra lá de Espacial.

06 maio 2009

EGO.

Lembrei de um comercial, sobre um congresso de publicidade e propaganda, que passou há uns quatro anos atrás mais ou menos, onde dois publicitários conversavam enquanto esperavam o elevador. E, como é comum no meio, um babava o ovo do outro:
- O último trabalho da sua agência é muito bom, meus parabéns.
Enquanto o outro respondia:
- Ora, que nada, bom mesmo é o da sua agência.
E atrás deles, dois caras gordos, obesos mesmo, trocavam socos, empurrões, rasteiras e bofetadas.

Sabe quem eram os caras gordos e obesos provocando pancadaria?
Adivinha?
Eles mesmos, meu amigo: o fadado EGO.
Que, aliás, deveria ser perseguido, exterminado, caçado de maneira impiedosa e implacável, queimado vivo em praça pública!
Mas, ao invés disso, não.
Todo mundo trata bem o seu precioso EGO.
Fazem carinho, massagem, colocam para dormir, alimentam, dão Toddynho. Cuidam dele com todo amor e dedicação.

Pois sabe o que eu acho?
Que você precisa botar pra correr esse EGO espaçoso e folgado, que faz da sua vida moradia e ocupa, sozinho, um sofá de três lugares.
Acorda, manézão!
Ele mente para você, te engana, te faz acreditar em mentiras deslavadas!
Teu ego não vale um pila!
Ele é infiel, companheiro, e disso eu tenho certeza.
Ele venda teus olhos e coloca sonífero na sua bebida, e você dorme angelicalmente enquanto o patife faz suruba na tua sala de estar!
Como você não vê?
Como nós não vemos?
Por isso continuamos nos achando grande coisa, enquanto somos levados para passear - pela coleira, é bom salientar - por um EGO gordinho e flácido e mau caráter.

Quer saber do pior?
Eles, os Doutores EGOS, não estão somente nas agências de publicidade e propaganda.
Ó não, antes fosse.
Lá eles se reproduzem com bastante facilidade, é verdade, até porque o habitat é propício, cheio de egos fêmeas e machos, no cio em tempo integral.
Mas a verdade é que os malditos estão por todos os lugares.
Saia pelas ruas (sozinho ou com o seu) e observe: ELES não escolhem sexo, nem profissão, nem classe social, idade ou estado civil. São inescrupulosos, amorais, dissimulados, mal educados e, em alguns casos crônicos, insanos e sociopatas.

Porém, não entre em desespero.
Você ainda pode se libertar!
Sim, meu amigo, nem tudo está perdido!
Por maior e mais forte que seja seu querido EGO, querendo você pode acabar com ele.
Faça assim: envenene seu chá.
Sufoque-o com o travesseiro, enquanto dorme.
Coloque vidro moído na sua comida.
Sabote os freios do seu carro.
Não se sinta mal por atacar pelas costas, porque o EGO - lembre-se - é um filho da puta e safado e já te apunhalou as costelas um número infinito de vezes.

Ele merece morrer.
Ele precisa morrer.
Você tem o direito, quase o dever moral e cívico, de arrancar esta coleira que o teu EGO colocou no teu pescoço.
Coleira esta que impede o oxigênio de circular livremente por teu cérebro, e te deixar pensar.

04 maio 2009

Jornal Vaia

Se aplaudir é invocar os deuses para que testemunhem um feito de valor, para que julguem a beleza e abençoem as obras dos homens, vaiar deve ser o contrário. Felizmente, podemos dar outro significado ao verbo, ora substantivo VAIA. E talvez estabelecer que VAIA, mesmo, é só para o que não presta.
Há oito anos um grupo de amigos com gosto comum por cerveja, literatura e cultura (não necessariamente nessa ordem), inquietos e movidos por sede de mudança, reuniu-se, no histórico bar Escaler, no bairro Bom Fim, e ali fundou-se o Jornal Vaia. Circulando ininterruptamente desde então, o veículo, que é lido nos principais nichos de cultura de Porto Alegre e RS e em várias capitais e cidades do Brasil afora, ainda viaja trimestralmente para muitos países da América e Europa.
O VAIA foi evoluindo gráfica e editorialmente de forma gradual, publicando em suas páginas uma miscelânea literária de valor, enviada regularmente de todos os cantos do país por dezenas de colaboradores.
Preocupado com o bom gosto artístico e a divulgação de obras e de autores empenhados com a qualidade da arte que produzem, o VAIA tem a pretensão de exercer um papel crítico: formar opinião sem influenciar por via direta, pelo famoso goela abaixo, e discutir idéias dos mais variados matizes. Assim, as tendências sócio-culturais expressas aqui no site (e na versão impressa do jornal) pelos articulistas, escritores, poetas, artistas plásticos, músicos e jornalistas, corroboram a tentativa do jornal em levar aos leitores, de modo democrático, cultura e informação.
Se aplaudir significa chamar os deuses para abençoarem as obras dos homens, uma das funções do VAIA é acordá-los para estarem atentos e não privilegiarem, por distração, o que não merece consideração e aplauso fácil, e torná-los vigilantes e aguçadamente críticos.
Louvando o que bem merece e vaiando para se deixar o ruim de lado.
Marco Marques e Fernando Ramos - editores.



Interessante, não?
E adivinhem só?
Sim, exatamente.
Com muita honra, orgulho e satisfação, aviso aos navegantes que sou a mais nova e metida a besta colunista do Jornal Vaia, e uma vez por mês disponibilizarei um dos meus escritos (inéditos!) para a publicação.
Adoro, adoro, adoro.
Por falar nisso, passa lá e confere minha primeira colaboração.
Trata-se de um conto (que você ainda não leu) chamado Um Neto para Alcântara Machado e, se eu fosse você, não perdia.
Beijo, e segue o baile, myboy!

02 maio 2009

A Batalha.

Andei, durante muito tempo, com um alvo desenhado no meio do peito.
E como se não bastasse ser uma mira ambulante, ainda gostava de abrir bem os braços, para abraçar o mundo e tudo que estivesse dentro dele.
Tentando fazer isso, fui atingida algumas centenas de vezes.
E quando decidi apagar a mira estampada perto do meu coração, vi que não saía.
Nem com alvejante, nem com álcool, nem com receitas caseiras utilizando limões.
Nem fazendo uma tatuagem por cima, nem colocando um broche para distrair a atenção do atirador.

Assustada diante do perigo iminente, que me acompanharia pela vida inteira - com aquele alvo ali cravejado - tratei logo de me disfarçar.
Não poderia continuar pelo mundo; não tão indefesa, não tão vulnerável.
Porque o mundo, meu amigo, era uma trincheira.
Todos estavam armados e todos eram bons de pontaria.
Todos, menos eu.
Eu era o alvo.

Foi o que pensei na ocasião.

Por isso, vesti uma fantasia e coloquei uma máscara e pintei o cabelo e aprendi umas gírias e passei a falar grosso e fingi ser outra pessoa.
Disfarçada, eles não haveriam de me encontrar.

Não adiantou.
Pelo contrário, muitíssimo pelo contrário.
Parecia ainda pior.
Eu assoviava, e fazia de conta que não era comigo, mas simplesmente não conseguia escapulir da artilharia pesada que o mundo todo possuía.
Travava-se uma guerra, era um genocídio geral.
E o pior: eles estavam em maior número e tinham armas infinitamente mais poderosas que as minhas.
Armas de autodestruição em massa.

Cansada, parei de lutar.
Ora, era impossível vencer.
Não existia nenhuma chance de ganhar aquela batalha.
- Água!
Foi o que eu pedi, enquanto levantava a bandeirola branca, derrotada como nunca estive antes.

E então percebi, com o queixo caído no chão: não havia guerra nenhuma.
Nunca houve, possivelmente nunca haverá.
Eu lutava era sozinha, contra inimigos irreais.
E o alvo, em meu peito, foi desenhado pelos punhos que chamo de meus.

Durante todo esse tempo, toda essa luta e toda essa troca de tiros, aconteceu entre um combatente só.
Um único soldado batalhando contra si mesmo.
Seu único, maior e mais fiel inimigo.