26 março 2009

Antes e depois das 18h.

Agora vamos falar sério, minha gente.
Sou só eu ou vocês também repararam que está simplesmente impossível sair de casa antes e depois das 18h por causa dos ditos-cujos fumadores de crack?
Eu reparei.
E não só reparei, como estou incomodada (lê-se indignada, sobressaltada, preocupada e neurótica) pra caramba.
Tudo bem que nosso país nunca foi um exemplo em matéria de segurança, mas agora o negócio passou de todos os limites.
A crackolândia, que sempre me pareceu tão distante, quase irreal, veio parar na porta da minha casa, no meio dos meus amigos, na pracinha onde antes as mamães levavam seus filhinhos para passear no domingo.
E sabem o que é o pior?
Ninguém faz na-da.
Quer dizer, até fazem: matérias preocupadas no jornal, reuniões, associações, debates, iniciativas que, substancialmente, não servem para coisa nenhuma.
Sabem o que vai resolver o problema do crack no Brasil?
Dinheiro.
Money.
Cash.
Dindin.
Tutu.
Em outras palavras: verba pública!
O resto é historinha pra boi dormir.
Não precisamos só de palestras, precisamos de clínicas, de médicos, remédios, atendimento.
E como conseguimos clínicas, médicos, remédios e atendimento?
Com dinheiro.
Talvez aqueles 27 e meio por cento que a gente desembolsa o tempo inteiro poderiam servir para isso se estes sanguessugas filhos da mãe que chamamos de governantes fossem mais espertos e menos concentrados em seus malditos e obesos umbigos.

Porque, meu amigo, quer queira, quer não queira, o problema do crack é um problema seu também.
- Meu??? Meu nada!!! Nenhum dos meus filhos, amigos, parentes ou conhecidos consome crack! Não tenho nada a ver com isso, me inclua fora dessa.Isso você pensa porque é um otário.
O crack passa a ser um problema seu quando seus filhos, amigos, parentes e conhecidos tomam um tiro no meio das fuças porque um viciado resolveu roubar um tênis, um relógio, uma mochila ou ‘5 real’.
O crack passa a ser um problema seu quando você não pode mais sair de casa nem antes nem depois das 18h, porque os fumadores estão por todos os lugares, com os olhos arregalados para cima da sua bolsa e dos seus bolsos.
E eu olho para os lados, e não vejo nada acontecer, além das famigeradas reuniões, associações, debates, matérias nos jornais e outras inutilidades.
Os meios de comunicação estão alvoroçados.
Se metem em hospitais e clínicas para comprovar a falta de leitos. Se enfiam em locais de consumo para mostrar a degradação do usuário. Entrevistam viciados e provam por A + B aquilo que já estamos beges de saber: um fumador de pedra mata a mãe por 2 pila e sai assobiando.

Eu nunca acreditei nas desculpas preferidas dos assassinos e ladrões em geral, que culpavam a maconha, o álcool e a cocaína por seus crimes e delitos.
Se o cara matou ou roubou, não o fez porque estava doidão, mas porque faria de qualquer jeito. A maconha, a cocaína e o álcool apenas potencializaram um instinto que já estava ali.
Mas com o crack é diferente: o crack muda sim a personalidade do usuário. Se eu, tão pacífica e do bem, fumasse pedra, muito provavelmente daria um tiro na sua cara ou uma facada na sua jugular sem pensar duas vezes – e olha que tenho pena até de matar um besouro.

Então, o que acontece?
Temos, só aqui no Rio Grande do Sul, muito mais de 50 mil usuários crônicos, andando pelas ruas como verdadeiras bombas relógios, prontas para estourar a qualquer momento.
E eu e você aqui, muito sorridentes, sentados em nossas varandas nos sentindo estupidamente seguros e protegidos pelos muros que nos separam das ruas.

Eu tenho amigos que estão morrendo por causa do crack.
Que estão definhando, acinzentando, se acabando, com uma velocidade impressionante.
Porque o crack saiu das periferias e das mãos dos meninos de rua, e agora está nos condomínios, nos colégios particulares, nas universidades.
E eles me dizem:
- Jana, eu quero largar, eu tenho que largar! Eu preciso de ajuda! Por falar nisso, tem 10 pila aí para me emprestar?
É muito triste.

Vejo o Brasil como uma panela de pressão cheia de merda, mas coberta por chantili.
Você olha e parece tudo lindo e alvo, mas basta chegarmos um pouco mais perto para começarmos a sentir o cheiro podre.
Vamos afundar se não fizermos nada.
Esquivar-se, olhar para o lado, criar uma associação não é o que eu chamo de encontrar uma saída.
E lá vamos nós outra vez, cercar nossas casas com grades que dão choques, encher nosso pátio com cães furiosos, nos trancar dentro de nossas vidas antes e depois das 18h, comprar armas para nos defender daquilo que é indefensável.
Quando a panela de pressão explodir, vai sobrar muita merda e pouco chantili para você e os seus, eu e os meus, e nossas vidas tão bonitas e seguras.
E pensar no tempo em que nosso maior problema era a saudosa maconha.
Ai, ai.

23 março 2009

Boas maneiras.

Este é um post de ódio.
Sim, eu sei: ódio é uma palavra terrível e pesada, mas é o que é, o que se vai fazer?
E este texto é sobre ele – o mal falado e pouco quisto ódio.

Odiar faz mal? Arrebenta com a saúde? Entope as veias? Faz nascer pés de galinhas no canto dos olhos?
Faz.
E mesmo assim, em alguns momentos, é inevitável.
Imprescindível.
Independente.
Eu, por exemplo, odeio (o-d-e-i-o) falta de educação e grosseria.
Odeio e não entendo!
Porque uma pessoa, que pode optar por ser gentil, escolhe ser estúpida?
É a mesma coisa que preferir carne de pescoço a filé mignon e vai saber: tem gosto pra tudo nesse mundo.

Pior que vejo mais gente grossa por aí do que vejo andorinhas no verão.
Na tevê, no condomínio, na internet. Todo mundo vomitando seu azedume e sua falta de jeito e educação em todo mundo, que respondem com mais azedume e falta de jeito e educação, e assim por diante.
Gentileza gera gentileza, e pontapés geram pontapés.

E eu pergunto: qual é, afinal, a dificuldade?
Dizer - olá, - bom dia, - com licença, - por favor, - muito obrigado?
Dar sua opinião sem humilhar ou constranger ninguém?
Sorrir, meu deus, como pode ser tão difícil???

Dá menos trabalho ser amável do que o contrário.

Neste momento (logo passa) mordo os beiços de nojo de gente assim, mal feita.
Desprezo, mil vezes desprezo, trinta milhões de vezes desprezo!
E faço um apelo para estas figurinhas repetidas: se não sabem como fazer direito, pelo amor de deus pai, não façam!
Não emitam opiniões, não escrevam e-mails, não saiam na rua, não convivam em sociedade.
E o mais importante: não procriem!
Vocês são nocivos demais e só servem para colocar fogo em um circo onde o respeitável público somos nós mesmos.
Ou vocês ainda não perceberam que estamos na mesma arquibancada, manés?

Tá, já passou.
Foi apenas um momento de fúria, comum quando sua vizinha de cima fica 45 horas arrastando os móveis para cá e para lá e dando gritinhos nas janelas, e você passa tempo respondendo educadamente para cretinos que deveriam estar pregando uns botões ao invés de mandando e-mails com suas bem articuladas opiniões.
Aceito o que vocês pensam, e acho interessante que discordem, mas sem perder a classe e a postura, por favor!
Não custa treinar, até porque não dói e não resseca a pele como um sabonete comum: tenham educação, minha gente!
A boa, velha e indispensável educação.
Aquela que faz do mundo um lugar mais suportável.
Se esforcem, logo vocês se acostumam e serão gentis sem reparar.
E aposto dez pila e um pote de Nutella que irão gostar de conhecer o lado doce de uma vida que, sem sombras de dúvidas, foi azeda até agora.


Havendo dificuldade, consulte aqui.
É ilustrado.

21 março 2009

A Hora do Planeta.

Enquanto organizava a nona edição do E-Blogue.com, recebi um e-mail convidando para participar d’A Hora do Planeta. Para quem não sabe, trata-se de uma ação global, promovida no Brasil pela primeira vez através do WWF, que busca atingir um bilhão de adesões em mais de mil cidades, no mundo inteiro.
A proposta é: todos deverão apagar as luzes dia 28 de março, entre oito e meia e nove e meia da noite, em protesto às barbaridades que andam fazendo com nosso planetinha por aí.

Num primeiro momento, pensei: mas que grande merda. De que vai adiantar isso tudo? Vamos passar uma hora no escuro e não vai mudar porra nenhuma. Isso está me cheirando coisa de puta-virgem.
Porém, como sou do tipo que acredita que, se as formigas soubessem o tamanho da força que possuem já teriam dominado o mundo, decidi aderir a causa. E com o texto sobre A Hora do Planeta no ar, recebemos o primeiro comentário, que reproduzo logo abaixo, na íntegra:

“quando li achei que tinha achado vida inteligente mas participar de “hora do planeta”. me desbundou - eu achava que voces poderiam representar vida inteligente mas vi que era enganaçao - ou voces sao muito jovens e imaturos ou safados para se ligar em picaretagens deste tipo. ninguem precisa participar de hora de porra nenhuma…fazer macaquices sem personalidade…que coisa.sucesso mas menos propaganda enganosa gurizada. voces propoem uma coisa no post e me apresentam isso. fui.”

Óquei crianças, sem alvoroço.
Não vamos entrar no mérito da boa educação nem das críticas construtivas, porque isso é chover no molhado.
Como já disse, minha primeira reação quando recebi o e-mail com a proposta d’A Hora do Planeta foi muito parecida com a de nosso gentil internauta.
- É besteira, não serve para nada, de que adianta?
No entanto, isso não é verdade.
Nenhuma atitude tomada, seja por um homem, seja por uma nação inteira, é em vão quando os objetivos são nobres – e não: nem só de boas intenções está cheio o inferno.
Alguém aqui lembra daquele garoto que, no meio da praça da Paz Celestial, em Pequim, durante uma manifestação contra o governo, se meteu na frente de uma fila de tanques de guerra?
O combate terminou? Não.
A guerra terminou? Não.
A violência terminou? Não.
Nem o nome deste corajoso rapaz ficamos sabendo, menos ainda que fim levou sua vida.
Mas de uma coisa eu tenho certeza: a imagem dele impedindo que uma linha de tanques seguisse em frente ficará para sempre na minha memória, e possivelmente meus tataranetos a assistirão, e saberão o que um único homem é capaz de fazer, se quiser.

Desligar a luz dia 28 de março não vai resolver o problema do aquecimento global.
Porém partindo deste pressuposto, nada do que fizermos enquanto indivíduo resolverá problema nenhum.
Porque não somos presidentes, nem reis, nem bambambans; somos apenas anônimos no meio de uma multidão – e olha que nem estão pedindo para nos metermos na frente de uma fila de tanques de guerra e colocar nosso pescoço em jogo.
Outra: apagar as luzes durante uma hora não é apenas apagar as luzes durante uma hora, do mesmo jeito que impedir a marcha de uma guerra na cara e na coragem não é apenas impedir a marcha de uma guerra na cara e na coragem.
Não se trata somente de um ato, mas de um símbolo.
A maioria das pessoas continua acreditando na mudança coletiva, enquanto não move uma unha para realizar a mais importante entre todas as mudanças: a pessoal, a íntima, a nossa, a do lado de dentro.
Apagar a luz, fechar a torneira, apressar o banho também são atitudes minúsculas, que na contabilidade geral não interferem em absolutamente nada.
Contudo, quando 6 bilhões de pessoas apagam as luzes, fecham as torneiras, apressam o banho ou se metem na frente de uma fila de tanques de guerra, a coisa começa a ficar diferente.
Aderir A Hora do Planeta é a mesma coisa que dizer:
- Hey, estamos ligados – com o perdão do trocadilho.

Sim, eu acredito na mudança individual antes de acreditar na mudança coletiva.
E por isso economizo papel, desligo a luz, escovo os dentes com a torneira fechada, vou a pé antes de ir de carro.
Sou jovem, prematura ou safada demais por acreditar nisso?
Pode ser.
Mas estou do lado do rebelde anônimo.
E não abro.

17 março 2009

Eu, no Acqua!

Lembram que ontem eu falei que hoje estaria lá no Acqua, respondendo as perguntas da querida Lunna?
Pois então: lá estou.
Cliquem aqui e leiam.
Ou não.
Mas se eu fosse você, sim.
Enfim.

Beijo meu.

16 março 2009

Um crime e duas entrevistas.

Te cuida Papa!
Estou ficando pop também.

A Luciana, do Entrevista Blogs, escreveu querendo saber se eu topava uma entrevista.
Metida que sou, aceitei, é claro.
Respondi e hoje mesmo está no ar.
Não é uma beleza?

E não pára por aí.
Também estou, junto de Gioconda, cometendo atrocidades no Beco do Crime, e amanhã estarei no Acqua, respondendo as perguntas da Lunna.
Não é luxo?
E eu que nunca ganhei um só voto para representante de turma.

Boa noite, crianças.

Literarte

O Literarte é um selo da Editora Multifoco especializado em lançar livros-arte, isto é: literatura combinada com quadrinhos, tirinhas, ilustrações, fotografias, novos formatos, misturando o trabalho de diferentes escritores ao de diferentes artistas em diferentes formatos e com diferentes propostas.
Se você tem uma idéia na cabeça e um projeto no papel, acesse nosso site http://grupomultifoco.com.br/literarte ou entre em contato pelo

13 março 2009

Patrícia

Se existiu nessa vida uma coisa que eu odiei, sem dúvidas, foi a escola.
Lembro com calafrios nervosos daquelas manhãs repetitivas: eu lá, infante, tendo aula de geometria e pensando quando, afinaldecontas, aquela merda toda iria me ser útil.
Na verdade, não gostava de nada: de matemática (até hoje tendo compreender a sinistra fórmula de báskara) à geografia (relevos, hã?), passando por educação física (prefiro a fogueira), química (tudo, menos a tabela periódica), ciências (?), física (errr...) e biologia (DNAaaaaaah!).
Ah, e religião.
Esqueci alguma?
Bem, todo o currículo, basicamente: execrava.
E, claro, isso fazia de mim uma péssima aluna. Ia de mal a pior, não aprendia nem o básico do básico, conversava, faltava aula.
Mas eu tinha uma carta na manga, rá!
Era gentil.
Muito gentil.
Exageradamente gentil.
Não puxava o saco, nã, nã, nã.
Até porque eu era uma pré-adolescente tipicamente amotinada, e puxar o saco de uma professora, na época, representaria queimar o filme, manchar minha longa e valorosa reputação de 12 anos de vida.
Apenas exercitava o que havia aprendido em casa, e tratava os professores bem.
Com um mínimo de respeito, afinal.
Tinha pena da maioria deles, que precisavam agüentar alunos engomadinhos e mal educados na sombra de seus babais, e freiras malucas. Sim, meus amigos. Além de tudo, tratava-se de um colégio de freiras, par-ti-cu-lar.
Por vezes eu até compreendi os aluninhos americanos que entravam escola adentro metralhando todo mundo, mas enfim.
Já passou.

O fato é que, das lembranças boas que eu tenho de lá (um colégio imenso, antigo e gelado, cujo cheiro jamais esquecerei), fazem parte um grupo seleto de pessoas, que vem e vão.
Mais vão do que vem, é verdade, mas vem também, e isso é fantástico.

E quem me escreveu um e-mail esses tempos foi a Patrícia (profe Patrícia para os íntimos), que me deu aula de espanhol no ensino fundamental.
É claro que eu não tinha (e não tenho) nenhum interesse por espanhol.
E ela sabia disso.
Essa era a diferença entre ela e a maioria das outras profes.
Ela respeitava meu desprezo pela sua matéria. Não queria me obrigar violentamente a aprender um negócio ao qual eu simplesmente me recusava a aprender, só porque havia um maldito plano de aula.
Assim passávamos o ano, e uns dias antes da prova final eu estudava, tirava a nota e deu pra bola.
Entendem? Ela não ficava descontando pontos e empatando a minha vida só porque eu não adorava espanhol.
E agora, uns 12 anos depois, ela me escreve, vejam só.
Eu amo a internet por causa dessas coisas.
Respondi na hora, nos encontramos e nem vi o tempo passar.
O mais engraçado é que hoje parece que temos a mesma idade.
Na época ela me parecia muitíssimo mais velha.
Acho que era.
O tempo muda tudo.

O que quero dizer é que a Patrícia é uma boa recordação dos tempos narcotizantes de colégio.
Quase um alívio.
E agora ainda mais, porque voltou, e com força total.
Me encontrou pelo blogue (já disse que amo isso aqui?) e vivemos felizes para sempre.
E como se não bastasse tudo isso, a mulher ainda tá morando na mesma cidade dos meus pais e trabalhando numa biblioteca!
Pô.
Melhor que isso só dois disso.

Então.
Ela me mandou um e-mail perguntando se podia falar de mim em uma crônica. Eu respondi que poder até podia, mas que eu iria ficar me achando por um tempão por causa disso.
Mesmo assim ela insistiu, escreveu, e agora que me agüente!

De qualquer maneira, Patrícia merece um post.
Muitos posts.
Por tudo que me ensina e já me ensinou; e não.
Eu não sei na-da de espanhol.

11 março 2009

Violência.

Maria da Penha levou um tiro do marido, ficou paraplégica (sim, o machón atirou pelas costas) e fez do seu destino uma bandeira, chamando - na marra - a atenção do país inteiro para sua luta por justiça e amparo às vítimas de violência doméstica.
Seu nome virou lei, rigorosa, e desde sua implantação, o número de denúncias só vem aumentando.
Também graças a Maria, a tortura física e psicológica pela qual tantas e tantas mulheres se submetem, todos os dias, em todos os lugares e em todas as classes sociais, saiu das quatro paredes do ‘lar, doce lar’ e foi parar na tevê.

O que é ótimo, dado que a maioria das pessoas gosta muito é de disfarçar, fingir que não viu, olhar para o outro lado, cantarolar uma musiquinha.
Mesmo assim a violência continua, muitas vezes embaixo de nossas fuças, e é bom que todo mundo fique sabendo pois, mais do que um problema da vítima, este é um problema de toda a sociedade.
- Por quê?
Porque calar é consentir, amiguinho.

Que uma coisa fique bem clara: é preciso SIM meter a colher em briga de marido e mulher, se esta briga incluir socos, humilhações, tentativas de assassinato, ameaças.
- Eu não tenho nada a ver com isso.
Claro que não.
Ninguém nunca tem nada a ver com nada, não é mesmo?
Agora, aposto dez pila que para fazer fofoca dos sopapos que a vizinha leva você está na roda.
- Não que eu queira me meter, mas eu acho...
Não ache!
Faça alguma coisa.
Interfira.
Denuncie, anonimamente se preferir.
Mas peloamordedeus, não fique aí parado!

E apesar disso tudo me parecer tão óbvio, não!
Todo mundo se constrange, se retrai, sai de fininho, aumenta o volume da televisão quando começa a pancadaria no andar de cima.
Acontece, meu filho, que o casal em questão não vai se resolver sozinho. Não pense que um dia isso vai simplesmente terminar, que num passe de mágica eles colocarão a mão na consciência e perceberão o inferno que criaram para viver.
Não vai acontecer.
Porque o sujeito que bate não vale nada, e não importa o que você diga ao malandro, ele não vai se comover.
Estes discursos quem ama não bate não colam, gente! Soam bonitinhos, mas ninguém dá bola, ninguém deixa de ser violento e covarde por causa disso.
As campanhas deveriam ser voltadas para promover a denúncia anônima, e não pedir pra vítima (a pobre infeliz e atormentada vítima) denunciar.
A vítima está borrada de medo, oras bolas!
Ela está sendo ameaçada, humilhada, espancada, ela não vai denunciar coisíssima nenhuma.
E, se fizer, muito possivelmente vai se arrepender meia hora depois e retirar a queixa.
Não teve uma infeliz que denunciou o marido, ele foi preso e dois dias depois ela vendeu a geladeira para pagar sua fiança?
Sim, aconteceu.
E antes de dizer que ela é uma ‘idiota’, ‘cretina que tem mais é que apanhar’, saiba que estás redondamente enganado.
Ela é uma coitada, que está tão envolvida e massacrada pela situação que é incapaz de enxergar um palmo na frente do seu nariz.
Se outras pessoas não meterem o bedelho, tem chance de a coisa ir muito além de alguns chutes e palavrões.
E você aí, mascando um chiclete.
Francamente!

- Mas e o que eu posso fazer para ajudar?

Vejam este exemplo genial: no Córrego do Euclides, zona norte do Recife, um grupo de mulheres criou a ONG Cidadania Feminina, que busca chamar a atenção para a violência contra a mulher fazendo barulho - literalmente.
Para quem não sabe, Pernambuco é um dos estados com maior taxa de assassinatos de mulheres no Brasil. De primeiro de janeiro até o dia 9 de março de 2009, 285 mulheres foram assassinadas no estado. Setenta por cento pelo marido ou companheiro.
O que fizeram estas mulheres?
Se reuniram para contar suas histórias e munir-se com apitos.
- Munir-se com apitos?
Exato.
Um singelo brinquedinho de criança virou arma contra a violência doméstica e assim surgiu o projeto Apitaço – Mulheres Enfrentando a Violência. Toda vez que presenciam uma cena de agressão, elas soam o apito, que anda sempre no bolso, e logo outra começa a apitar, e outra, e outra.
O objetivo é causar.
E está dando certo.
O número de assassinatos na região caiu consideravelmente de 2004 para cá.

O que essas mulheres porretas estão fazendo é meter a colher em briga de marido em mulher.
Porque é necessário, é uma das únicas saídas.
Com um apito ou de qualquer outra maneira, o que não podemos fazer é fingir que não é com a gente.

Ouvi alguém dizer que a solução para os casos de violência contra a mulher seria colocar, nas principais cidades brasileiras, um painel eletrônico que mostrasse, quadro a quadro, a foto de cada um de seus conterrâneos canalhas que já foram denunciados por violência doméstica. Suas fotos, nomes e RGs, bem grandes, no meio da praça central, para todo mundo ver, nem que a contragosto.
Seria demais.
No entanto, como por hora isso é impossível, nos contentemos com nossos gritos, e apitos, e telefones.
Com as armas que temos em mãos.
Porque é um problema social, dos mais lamentáveis, e não serei eu a permanecer calada, consentindo com o que não poderia ser consentido jamais.

Uma Carta por Benjamin

Cliquem aqui e vejam só que belezura a capa do meu primeiro filhote, que deverá vir ao mundo início de abril.
A qualidade da imagem não é lá essas coisas, mas ficou bem pior quando postei direto aqui no Blogspot.
F* com as cores e ficou horrível.
Aí, pelo menos, dá para ter uma idéia.

Ficou massa, né?
Também achei.
O desenho é meu, e a arte é do Afobório.
E precisa ver a quarta capa, e as orelhas, e tudo o mais.
Lindo de morrer!
Tá sou suspeita para falar, mas é, é sim!

08 março 2009

Prezado e estimado Arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho,

Escrevo porque lhe vi na tevê, e apesar de ser uma reles mortal e insignificante pecadora, tomei a liberdade de escrever, para saudar Vossa Altíssima Trindade.
Espero que não me excomungue por minhas palavras simples, porém honestas.
Prefiro assar eternamente no mármore do inferno antes de ser amaldiçoada por Sua Poderosíssima Alteza.
Tremo só de pensar.

Devo, antes de qualquer coisa, dizer que Vossa Digníssima Realeza tem muita desenvoltura e carisma, sem falar em seu olhar penetrante e dicção perfeita.
Deveria estar na novela das oito, no lugar do Lima Duarte.
Ou do Vitor Fasano.
Te liga Glória Perez!

Também gostei muito da sua falação que, alicerçada por argumentos lógicos e racionais, apenas fortalecem em mim a admiração que trago pela Cardosíssima Pessoa de Vossa Senhoria.
Minha parte favorita foi quando O Senhoríssimo excomungou os médicos e os pais da vítima.
Genial!
Melhor ainda quando não excomungou o estuprador.
Principalmente porque sabemos bem o quanto à Dadivosa Igreja é tolerante com estupradores.
Rarara, grande sacada!
Rio só de lembrar.
Nem Charles Chaplin foi tão refinado em sua comédia.
Aliás, quem é Charles Chaplin depois da sua tacada de mestre, heim Cardosinho?
Ops, perdão: Doutor Senhor Excelentíssimo Arcebispo Dom José.

Pensei até em lançar sua candidatura à Papa, assim que aquele outro com nome de espirro sair de cena.
Ora, você sim seria um papa pop!

O bom é que Seu Preciosíssimo Nome já está na mídia.
O lance passou na Globo, até no Jornal Nacional!
Viu só a Fátima Bernardes pronunciando:
- O Arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho...
Sensacional!
E digo mais: certamente vai passar no Fantástico uma matéria demorada sobre sua capacidade encantadora de fazer as pessoas rirem.
Já imaginou, daqui a pouco, você nas páginas amarelas da Veja?
Uau! Demais!
Quero acompanhar tudo, porque não canso de admirar sua habilidade engenhosa em ser irônico.

Vossa Castidade foi irônico; não foi?

Enfim.
Mais uma vez Amabilíssimo e Caríssimo e Dom José, minhas referências à sua tão nobre e magnânima criatura, que para mim é e sempre será o retrato perfeito da Santíssima Madre Igreja – a mãezinha dos injustiçados.

Espero que tenha lhe tratado com a deferência apropriada.
Meus respeitos, condolências e referências.
Jana Lauxen

06 março 2009

Conselhos Grátis – porque se vender ninguém compra.

O pessoal às vezes me escreve perguntando coisas a respeito da vida de escritora.
Bem.
Não sei nada a respeito da vida de escritora.
Mas da vida de aspirante a escritora sou Doutora com dê maiúsculo.
Por isso resolvi compartilhar com vocês um pouco do que eu aprendi até agora.
Porque pulando etapas e evitando erros, chegamos antes.
E em melhores condições, psicologicamente falando.

Primeiro: escrever é reescrever.Não adianta sentar na frente do computador, digitar frenética e aleatoriamente um monte de pensamentos e záz: você é um escritor.
Escrever é um trabalho como qualquer outro, e se você não dedicar tempo e atenção, suor e transpiração, seu texto não passará de um amontoado de frases que qualquer pessoa alfabetizada é capaz de colocar no papel.
Portanto, se quiser escrever coisas para que outras pessoas leiam (e gostem), por favor: corrijam os erros de digitação, de português, os espaçamentos, a concordância.
Alguns desacertos passarão, ninguém aqui é perfeito, afinal.
Mas saiba que alguns erros (ou um caminhão deles) são imperdoáveis.

Segundo: não fique neurótico achando que vão plagiar seus textos.Porque ninguém vai fazer isso.
Porque antes de plagiar o seu texto, vão plagiar o texto do Luís Fernando Veríssimo, meu caro.
Mais: SE plagiarem, e daí?
O texto é seu, saiu da sua cabeça, e de onde ele veio certamente existem muitos outros.
O plagiador é quem vai fazer papel de bobo, porque a fonte é e sempre será a fonte.

Terceiro: crie um blogue.
Não existe jeito melhor de divulgar seus escritos do que em um blogue.
Esqueça essa bobagem que estão tentando colocar na sua cabeça, de que blogue não vale a pena, que desmerece a literatura, que é perda de tempo.
O que não vale a pena, desmerece sua literatura e é perda de tempo é ficar com todos os teus escritos engavetados, esperando que algum bambambam editorial lhe diga o.

Quarto: já tem os originais prontos do seu livro de estréia e está se preparando para assinar um contrato com a Editora Globo?Esqueça bêibe.
A não ser que você seja filho do Dias Gomes, isso não vai acontecer.
As editoras grandes e médias (e, acredite, as pequenas também) estão pouco ligando para você e seu livro e o que sua mãe pensa sobre isso.
Não importa se você tem talento; importa se você vende.
Portanto, saiba que sua primeira publicação não vai ser um mar de rosas, com confetes caindo na sua cabeça e aplausos efusivos de fãs entusiasmados.
Se conseguir publicar sem precisar pagar, já se dê por muitíssimo satisfeito.
Ah, sim, muito importante!
Saiba desde já que você vai sim precisar vender os seus livros.
Lembre-se que você não é conhecido e ninguém vai se estapear nas livrarias para levar o último exemplar da sua obra.
Portanto: mexa-se.

Quinto: Divulgue-se.Sim.
Autopromoção descarada, porque se você não fizer, ninguém terá a gentileza de fazer.
Use a internet a seu favor.
Use tudo que puder a seu favor.
É bobagem ficar sentado, choramingando as mazelas e dificuldades e injustiças do mercado editorial e do leitor brasileiro.
Nada vai mudar só porque você está chateado.
Então é melhor que aprenda a dançar ao ritmo da música que está tocando.
Não só em sua carreira de aspirante a escritor, mas em tudo nessa vida: os espertos se adaptam, os preguiçosos se acomodam e os idiotas reclamam.

Sexto: Dê um passo de cada vez, rapá!Não é porque você escreveu um texto hoje que amanhã ele vai estar publicado em um veículo de grande circulação.
Os meios de comunicação, tal e qual as editoras, também estão se lixando para quem não vende e, lembre-se sempre: você não é o Luis Fernando Veríssimo.
Pelo menos ainda.
E digo mais: quanto mais você escrever, melhor irá escrever, então dê tempo ao tempo.
Lapide sua escrita.
Refine-a.
É sempre mais fácil para quem sabe escrever.

Sétimo: do mesmo jeito que um motorista não dirige somente um modelo de veículo, um escritor não pode escrever apenas um tipo de texto.É óbvio que você vai se sair melhor em alguma modalidade, mas quem escreve, escreve poesia, conto, crônica, prosa, bula de remédio, obituário de jornal, receita de bolo.
Uso até um exemplo (meu, é claro) para melhor ilustrar a questão: como alguns de vocês já sabem, estou organizando uma antologia de contos policiais brasileiros chamada Assassinos S/A, pelo selo Anthology, da Editora Multifoco. Muita gente me escreve dizendo que gostaria de participar, no entanto não escrevem contos policiais.
Ora, como assim?
Você pode não estar habituado a escrever contos policiais, mas se quiser, escreve.
E é mais bacana ainda, porque funciona como um desafio à sua própria capacidade de criação.
Outra: tamanho também não é documento em se tratando de literatura.
Por estes dias, tive acesso ao Desafio Literário do curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos, onde qualquer pessoa, independente de ser aluno da universidade, pode enviar um conto para publicação no site.
Lendo as regras de participação, descobri que o texto não poderia ter mais que 200 caracteres. Com espaço
- Peraí – pensei – 200 caracteres são duas linhas!
Então fui ler o que Fabrício Carpinejar, mentor da idéia, tinha a dizer para tentar me convencer a contar uma história em tão limitado espaço.
Ele disse:

“O exercício é inspirado em iniciativas como ‘Os cem menores contos brasileiros do século’ (Ateliê Editorial), antologia organizada por Marcelino Freire.
Para quem pensa que é impossível ser tão conciso, basta pensar no mais famoso microconto do mundo, de Augusto Monterroso, com apenas 37 letras: ‘Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá’.
Literatura para nocaute: jab, hook, gancho, cruzado, direto. Sucessão de golpes para o leitor ver estrelas mais cedo.
Brevidade é intensidade. Dizer pouco, mas dizer bem. As narrativas microscópicas (...) exigem poder de síntese e de imaginação, a partir de um pequeno conflito ou uma contradição. Cabe, portanto, sugerir mais do que expor, captar um detalhe e uma semelhança até então irrelevantes”.

Em outras palavras: quem escreve, escreve poesia, conto, crônica, prosa, bula de remédio, obituário de jornal, receita de bolo.
Com 30 ou 500 mil caracteres.

Oitavo: Se você não tem tempo para se dedicar a escrever (desculpa que muito ouço), então não tenha a pretensão de ser escritor.Se as pessoas que correm atrás, e se dedicam, e se arrebentam, às vezes não conseguem, que dirá quem não faz nada porque “está muito cansado”.
Pois, ou você quer de verdade, ou então você não quer.

E por último, mas nem por isso menos importante: não fique desesperado depois do primeiro não.Acredite, será o primeiro, de muitos.
Também não adianta fazer essa cara de cachorrinho que caiu do caminhão de mudanças, decepcionado e tristonho porque, até então, você tinha certeza que iria publicar numa tiragem de 3 mil exemplares, vendê-las em meia hora e ficar rico.
Não é fácil nem rápido alcançar reconhecimento, seja como escritor, seja como jardineiro, psicólogo, policial federal, dono de padaria.
A vida é dura, e chega antes quem sai na frente.
A frase pareceu óbvia?
E é.
Mesmo assim vale ser repetida.
Parafraseando Afobório: enquanto você dorme, tem gente que está acordada.
Ficadica.

05 março 2009

Blogue da Jana - agora abstêmio.

Meu blogue abandonou os ácidos e agora possui esta aparência sóbria e limpa, como vocês podem ver.
Porém continua metido e pretensioso, igualzinho antes.
Sabem como é: algumas coisas não mudam nunca.

04 março 2009

Puta-Virgem

Existe uma expressão, puta-virgem, utilizada para referenciar mocinhas que fazem e acontecem na horizontal, enquanto na vertical mais parecem umas freiras.
Ou exatamente o contrário: aquelas que usam mini-saia, e fazem poses provocantes, e olham, e seduzem, e fazem biquinho, e jogam charminho, e na hora H, quando o cara já está esperando uma leoa insaciável e no cio, a bonitinha se abaixa, pega uma flor e entrega para a mamãe.
Vocês entendem.
Acontece que esta expressão vai além da questão sexual da coisa – que, aliás, é o que menos interessa.
Putas-virgens existem aos montes, na tevê, na rua, no supermercado, no andar de cima.
Fazendo um tipo, interpretando um papel.
Dando um tapa e escondendo a mão.

Esses dias, estava assistindo um programa na tevê quando passou uma matéria sobre corridas de carro clandestinas.
- É uma vergonha!
- É um desrespeito!
- Cadê as autoridades?
Era o que se perguntavam inflamados repórteres.
Balancei a cabeça concordando: era realmente uma vergonha e um desrespeito e, porra, onde estavam as autoridades?
Porém, na hora do intervalo, a primeira propaganda anunciava que, após o jornal, iria passar o cansativo e popular Velozes e Furiosos (para quem não sabe, um filme onde todos os mocinhos e vilões e elenco de apoio realizam rachas de carro, o tempo inteiro, sem parar, e acham bonito, e fim).
Fiquei com cara de idiota na frente da tevê.

Alguns dias depois, comecei a ouvir o burburinho (que em breve se transformará em gritedo) da tal Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, que realiza sua décima terceira edição em 2009.
Com certeza vocês já ouviram falar na dita.
- Passa até no Jornal Nacional! - dizem, empolgados, os mais provincianos.
Trata-se de um evento que reúne escritores, promove oficinas, confere prêmios, realiza concursos. Tudo financiado pela filantrópica Universidade de Passo Fundo. Foi este evento que concedeu à cidade o título de Capital Nacional da Literatura.
Ó, que bonito.
Até aqui.
Porque se existe uma cidade que não deveria ser a capital nacional da literatura, essa cidade, definitivamente, é Passo Fundo.
A Biblioteca Municipal está jogada às traças, em meio de um gramado alto e mal cuidado. O Teatro Múcio de Castro está ruindo. A biblioteca da UPF não permite retirada de livros de quem não for aluno da fundação. A feira do livro é um amontoado desorganizado de barracas, onde as livrarias tiveram a brilhante idéia de, ao invés de fazer promoções, aumentar o preço dos livros.
E a Jornada, de filantrópica, só tem a distância.
Para participar, você paga a bagatela de 100 contos, e ainda precisa passar o dia inteiro naquilo que eles chamam de Circo da Cultura (que fica a vários quilômetros do centro da cidade), pagando 5 reais por um cachorro quente mirrado e 2 por uma água sem gás.
E depois, quando a jornada acaba, adeus.
Nem um eventozinho, um sarau, uma palestra, um debate, uma palavra de incentivo, nada, nada, nada.
Ah sim!
Construíram uma pracinha colorida perto da rodoviária e de uns puteiros de Passo Fundo, com uma escultura esquisita, e deram-se por satisfeitos.

Porém, a Jornada é referência.
Os passofundensese dela se orgulham.
Seus organizadores viraram celebridades locais.
A cidade, afinal, não é a que mais lê, em todo o Brasil?
Índice europeu.
Úlalá.
- Temos orgulho de levar a jornada para a comunidade.
Que comunidade?
Desde quando a comunidade tem tempo e dinheiro para ir num troço desses? E no restante do tempo? E no restante do ano? E se a comunidade quiser ler um livro da Biblioteca, ir assistir um sarau, comprar um livro usado num sebo?
Não tem.
O que tem, e de sobra, são discursos bonitinhos sobre a importância da jornada para o país.

Sabem, acho isso bem nojento: a máscara do politicamente correto.
Belos discursos acobertando as mais desprezíveis intenções.
Se não é para correr, porque as propagandas de carro usam a velocidade e a potência do automóvel como principal argumento para tentar convencer?
Se não é para encher a cara, porque tem tanta propaganda de bebida, cheia de jovens sorridentes empunhando orgulhosos suas biritas?
‘Beba com moderação”, eles dizem.
Ora, me poupem!

Agora me respondam, sinceramente: eles sabem o que estão fazendo, não é?
Eles não podem ser ingênuos ao ponto de acreditar que uma matéria exaltada contra rachas de carros vai ser maior e mais importante que um filme roliúdiano cheio de possantes coloridos e corridas malucas.
E se eles sabem, então são piores do que eu imaginava.
Porque você não é obrigado a fazer uma matéria sobre corridas de carro. Você não precisa fazer uma matéria sobre corridas de carros se, quinze minutos depois, vai passar um filme que é um manifesto a favor das corridas de carros.
Ah, me esqueci da responsabilidade social, a carta na manga da nova publicidade:
- Se alguém falar alguma coisa, a gente lembra que passou a matéria contra. Que é filantrópica. Que colocamos a frase “Beba com Moderação”.
Truques para enganar o bobo.

Não passam de putas-virgens.
Que, por conveniência e alguns trocados, fazem da vida um teatro com muitos atores e nenhum espectador, interpretando um papel sem história, onde todos falam exatamente o contrário daquilo que fazem.
E sabem o que é o pior?
As pessoas gostam disso.
Gostam de acreditar na responsabilidade social das autoridades.
Na boa intenção, na filantropia, na campanha contra bebidas alcoólicas, contra drogas, contra acidentes de trânsito.
É mais confortável ficar orgulhoso pela pracinha literária de Passo Fundo do que se perguntar:
- Tá, mas o que eu faço com essa merda de pracinha???

Precisamos parar de acreditar em histórias da carochinha; parar de se contentar com migalhas, com discursos, com blábláblás.
- É melhor do que nada.
Sim, é.
Mas nem por isso precisamos ficar orgulhosos.

Agora, mais importante do que tudo: precisamos matar a puta-virgem que existe em nós.
Sim, aquela boca-aberta que vive fazendo cena.
Precisamos enforcá-la, envenená-la, picoteá-la e atirá-la no mar com um bloco de cimento amarrado aos pés e um saco plástico enfiado na cabeça.
Precisamos buscar um acordo entre o que falamos e o que fazemos.
A incoerência do mundo é a incoerência de cada um de nós.
E eu e você podemos ser os primeiros a deixar este palco de atores sem papel.