31 janeiro 2009

(trilha de suspense)

Vim avisar que tenho novidades.
Novidades supimpas.
Mas que, infelizmente, não posso contar ainda.
Rarara, sei que isso é uma puta sacanagem, porém precisava vir aqui dizer que, muito em breve, terei novidades que vão deixar todos vocês muito felizes.
Porque não diz respeito a mim.
Não só a mim.
Diz respeito àqueles caras que andam aí, perdidos pela internet, e escrevem pra caráleo, e tem os originais de um livro, e nunca encontraram nenhuma oportunidade porque todas as editoras pareciam muito mais interessadas em arrancar seus pilas do que em te dar, verdadeiramente, uma oportunidade.
Sim, você mesmo, que sempre quis ser escritor mas, com dinheiro nenhum no bolso, nunca encontrou uma só portazinha aberta, e já está pensando em desistir e ir trabalhar num cartório.
Não faça isso!

Apenas aguarde minhas coordenadas.

28 janeiro 2009

Vocês conhecem o Zé Pereira?

E a revista dele?
Não???
Além de ser uma revista virtual pra lá de bacana, ainda por cima um dos meus textículos-opinativos-ordinários acabou saindo lá.
Lembram da minha apreciação relutante e mal humorada a respeito do acordo ortográfico da nossa linda língua pátria?
Então.

Passem lá, leiam tudo e, se não for pedir demais, palpitem.
Beijo meu.

27 janeiro 2009

Tenho pensado em ir embora do Brasil.

E nunca, até então, isso havia passado pela minha cabecinha provinciana.
Primeiro porque sou quase uma araucária, tamanha as minhas raízes, e APEGO sempre foi o meu sobrenome. Não deveria, sei que faz mal e faz sofrer, mas me auto-escravizo às coisas que eu acho que são importantes para mim. Meu quarto, meu bar, meu quintal, meu computador, minha rua. Mesmo sabendo que em qualquer lugar do planeta existem quartos, e bares, e quintais, computadores e ruas, não são os meus. E eu quero os meus. É deles que sou dependente.
Segundo porque, como qualquer ser humano atrapalhado e confuso, também tenho problemas em ficar sozinha. Não que eu não goste – na verdade, adoro - mas depois de quatro ou cinco horas solitárias, já fico agoniada, precisando ver, tocar, falar com alguém.
Por isso só saí de casa quando casei (para constar: não casei na igreja. Apenas trouxe para a casa do cara que eu estava ficando todas as minhas coisas, e ele não teve opção de escolher, rerere). Bem: foi por ter horror de ficar eu-comigo-mesma, todos os dias e todas as horas, que só saí da casa dos meus pais quando encontrei alguém para dividir as escovas de dente comigo.
Logo, sair da minha cidade e seus arredores soava absurdo.
Do país então... beirava a comédia.

No entanto, vocês sabem como as pessoas mudam.
Eu não sou nada diferente da maioria, e estou para dizer que ninguém é.
E nos últimos meses, a idéia de me mandar daqui ganhou força e fundamento.
- Mas porque, Jana?
Ah, minha gente, esse país tá abusando di’mim.
Não estou aqui para falar mal do Brasil, longe disso. Adoro tudo: as pessoas passando fome e sambando na avenida, as belezas naturais, a Amazônia, as minisséries da Globo, as grandes sacadas do nosso presidente.
É divertido.
Mas lá pelas tantas, o nêgo não quer mais se divertir. Ele quer trabalhar, e quer receber algum por isso. Ele quer que os seus amigos trabalhem e recebam algum por isso. Ele quer andar nas ruas e não ser assaltado, assassinado, violado, constrangido. Ele quer que um estuprador vá para a cadeia e fique lá, tempo suficiente para envelhecer e morrer. Ele quer olhar para frente, e enxergar oportunidades. Ele quer ser gentil com as pessoas e quer que as pessoas sejam gentis com ele. Ele quer pegar uma fila e não quer que ninguém passe na sua frente.
Vocês conseguem me entender?

O Brasil é bacana, e é lindo, mas tem umas coisas que, definitivamente, encheram o meu saco.
O descaso com tudo que importa me enoja, a política me dá ânsia de vômito e o carnaval... gente! Eu juro que tentei! Tentei ver ali beleza, arte, graça, formosura. Tentei, tentei, tentei. Não deu. Só consigo ver um monte de miseráveis que passam o ano inteiro correndo atrás de empregos e comida e moradia e saúde, sem nunca alcançar, e em fevereiro tiram a roupa e vão para avenida saciar as vontades e as taras de um bando de turistas endinheirados.
E a justiça? DEUS! Não sei nem porque se chama justiça – mas já começo a sacar aquela venda nos olhos.
Os policiais que atiraram no carro onde estava o menino João Roberto foram absolvidos. O promotor que deu quinze tiros num cidadão porque este mexeu com sua namorada foi absolvido. Os otários que espancaram uma empregada doméstica “porque acharam que ela era uma prostituta” devem estar por aí, livres, leves e, o pior: soltos. E a menina de quinze anos que passou 20 dias presa com um bando de homens nojentos e tarados? Lembram dela? Ou isso não importa mais porque, afinal, começou a décima edição do BBB?

Meu país que caga e anda para a arte, para a cultura, para a educação.
Meu país onde tem mais chances quem tem mais bunda, e mais dinheiro, e mais contatos.
Meu país de policiais mal pagos e mal amados, bandidos que mandam e desmandam, polítiqueiros desavergonhados, favelas, pobreza, desemprego, violência, guerra civil.
O velho jeitinho brasileiro.
Como eu detesto.

Tá, calma, eu sei que o Brasil é um país de futuro.
É o que todos dizem, até os americanos e os europeus.
Acontece que eu não sei e nem quero saber do futuro.
Eu vivo hoje, agora, neste exato momento.
Se um dia melhorar, pô, que legal, que bacana. Quem sabe meus filhos não podem voltar e serem muito felizes aqui?
Mas se eu continuar vendo tudo que vejo, vivendo tudo que vivo e sentindo tudo que sinto, tenho sérias chances de me tornar um purgante que passa o tempo inteiro reclamando de todas as coisas da vida. Ou de transformar minha indignação em tédio e, como muitas pessoas que vejo por aí, baixar a cabeça e aceitar que “as coisas são assim mesmo, o que vamos fazer?”.
Se há perdão para a rabugice, eu peço pela minha.

Agora que eu já pensei, e já falei, só falta fazer.
É essa a ordem natural dos acontecimentos.
Pode não ser amanhã, nem ano que vem, mas será.
Antes de fazer 30 anos, escrevam em suas cadernetas, amiguinhos: vou-me embora do Brasil e suas brasilidades.
Que pena.
Talvez eu nunca sinta saudades daqui.

25 janeiro 2009

Hey!

A segunda edição do E-Blogue.com pede passagem e sacode a avenida.
Tem rock com o Clube de Patifes, confissões com Adriano Queiroz, poesia com Anna K. Lacerda, fotos de Giovani Paim, protesto com Odele, mãe de Flavia, histórias de Guilherme Bica, Jana Lisboa e Daisy Serena, e até um quebra-cabeça com Camila Barbosa.

Não perde não, negão!
E aos colaboradores, palpiteiros e ao pessoal que escreveu querendo participar, aquele abraço.
Semana que vem tem mais.
Ouiés!

As pessoas deveriam tentar um acordo.

Um acordo que represente entendimento das partes, conciliação, con-cor-dân-cia.
Na maioria das vezes, os dois lados envolvidos precisam ceder. E ceder não significa desistir, baixar a cabeça, dar o braço a torcer: é apenas abrir mão de algumas conveniências em troca de outras.
Mas não!
Todo mundo quer tudo sem dar nada em troca.
O namorado quer a namorada comportada, quietinha, companheira e fiel. No entanto não é comportado, nem quietinho, nem companheiro, muito menos fiel. Exige que ela seja tudo que ele deseja, mas se nega veementemente a lhe devolver o que espera dela receber.
O pai e a mãe querem respeito, e postura, e carinho, e cuidados, mas são incapazes de respeitar seus filhos, e ter por eles postura, carinho e cuidado.
- Você tem que me respeitar, porque eu sou sua mãe!
- E você tem que me respeitar, porque eu sou o seu filho!
O dono da outra loja reclama dos preços quando vem na sua loja, mas quando você vai à dele, não se mostra nem um pouquinho disposto a te dar o desconto que ele tanto pediu.
O sujeito reclama que seu amigo nunca vem lhe visitar, mas ele, também, nunca vai visitar seu amigo.
A vizinha de cima reclama quando você escuta música alta. E reclama quando seus amigos vão na sua casa. E reclama quando você resolve fazer uma vitamina no liquidificador. E reclama, e reclama, e reclama. Mas em nenhum momento pensa duas vezes antes de gritar com seu namorado às 7 da manhã. Pouco liga se o fato dela arrastar os móveis o tempo inteiro me irrita ou não. Não está nem se importando quando bate a toalha da mesa cheia de migalhas de pão na minha janela.
Ela quer de mim respeito e consideração.
Mas em troca não está disposta a me devolver nada.

Estes foram apenas alguns exemplos, mas o mundo está cheio deles.
Cheio de gente egoísta e megalomaníaca, que realmente acredita que merece tudo de pessoas para as quais nunca dão nada.
E quando você responde na mesma moeda, ainda tem a cara de pau de se darem por muitíssimo ofendidas.
Isso para mim é egoísmo puro e genuíno.
O pior, entre todas as formas de egoísmo que o homem foi capaz de desenvolver.
Não dividir seu chocolate é um direito que você tem; mas daí a ficar furioso quando o outro não quiser dividir o chocolate dele com você, beira a canalhice.

E eu me pergunto: será que essas pessoas não sabem mesmo o que estão fazendo, ou sabem, mas continuam, porque assim é mais conveniente?
Precisamos entrar em um acordo.
Precisamos ceder, mas também precisamos que o outro ceda.
Pois se continuarmos assim, vivendo em nossas ilhas, cheios de reivindicações e sem nenhuma disposição para ouvir as reivindicações do outro, nem ele, nem eu, nem você, ganhará um pedaço desta barra de chocolate.
E acabaremos mortos.
De fome.

19 janeiro 2009

O Meio-Amigo.

Meio-amigos são piores que inimigos inteiros.
Porque eles estão por ali, sentados na sua mesa, te dando sorrisinhos e tapinhas nas costas, só na tocaia.
Ao contrário de um inimigo, você não sabe o que virá de um meio-amigo.
Poderão vir alguns abracinhos, alguns elogios, algumas cervejas, mas não se surpreenda quando vier uma punhalada, uma traição, uma mentira.
De um meio-amigo, dá para se esperar qualquer coisa.
Até mesmo nada.

O meio-amigo erra mais pelo que deixa de fazer do que pelo que faz.
Ele é interesseiro, afetado, teatral.
Gosta de dizer coisas bonitas, te chamar de irmão e fazer longos discursos sobre amizade e lealdade.
No entanto, faz questão de criar entre vocês um oceano imenso, nada pacífico, que você não compreende mas sabe que está ali.
Você não consegue explicar exatamente porque, mas não confia plenamente em seu meio-amigo.
Mesmo quando ainda não sabe que ele é meio.
Para pessoas vaidosas ou pouco sensíveis, os meio-amigos são ainda mais ameaçadores.

Como quase todo mundo que conheço, eu tenho mais meio-amigos do que inimigos e amigos inteiros.
Aliás, amigos inteiros são mais difíceis de encontrar do que poços de petróleo no quintal de casa.
Mas este post não é sobre os inteiros, é sobre os meios, as metades, os mais ou menos.
Estes meio-amigos geralmente querem de você muitas coisas, mas nada dão em troca.
São amigos na teoria; na prática nem aparecem.

Meio-amigos são perigosos: com aquele jeitinho sonso, de quem-não-quer-nada, vem se achegando, se achegando, falando as coisas que você quer ouvir, te dando presentes e mimos.
Em um primeiro momento, parecem até mais amigos que os amigos inteiros.
Mas não; não se enganem com os meio-amigos, nem acreditem que dois meios farão um inteiro.
Eles não são para casar; servem apenas para se divertir.

Tome cervejas com eles, se quiser.
Ria de suas piadas, se achar conveniente.
Mas na hora que o bicho pegar, saiba que seu meio-amigo não estará aqui.
Porque meio-amigos só participam da metade da vida em que tudo está bem.
E por isso não servem para nada.

15 janeiro 2009

O Gato Cego.

Há mais ou menos um ano atrás, apareceu na minha casa um gato cego.
Um bichano tão manso e carinhoso, que não deu para não adotar.
Por esses dias, meu pai o levou ao veterinário, para ver afinal qual era o problema de seus olhos.
A veterinária disse que o pobrezinho, muito provavelmente, havia contraído uma infecção, que não foi tratada, e piorou, piorou, piorou, até ficar naquele estado.
Ela operou seus dois olhos, e depois mostrou todas as melecas e carnes podres que tirou lá de dentro.
Contou também que aquela podreira toda fazia o gatinho sentir muita dor.

Hã?
Dor?
Como pode?
Um animal tão quieto, tão manso.
Nunca o havíamos levado ao veterinário justamente por acreditar que, sendo tão tranqüilo, ele estivesse muito bem. Se sentisse tanta dor assim, seria um animal nervoso, inquieto.
Ou não?
- Ele deve ter se acostumado com a dor, ela respondeu.

Ele havia se acostumado com a dor.
E deve ter inclusive acreditado que viver com dor era o jeito certo de se viver.

Somos assim também.
Do mesmo jeito que meu pobre bichano se acostumou com a dor crônica de suas vistas, nós também nos acostumamos com a dor crônica de nossas vidas, e passamos a acreditar que é assim mesmo que se vive.
E pior!
Quando a dor passa, ou sara, muitas vezes nos sentimos estranhos e desconfortáveis, ao invés de aliviados.
Aqui nos tornamos dependentes da nossa própria dor.
Por isso os dramas e os problemas se repetem.
Porque quando curam, a gente não sabe como viver sem eles e tratamos logo de buscar algo que nos traga novamente aquela mesma sensação dolorida.
Já repararam como algumas pessoas caem no mesmo problema, milhares de vezes?
O sujeito que foi corno, tem grandes chances de ser corno mais de uma vez.
A mocinha assediada pelo chefe geralmente foi e continuará sendo assediada pelos chefes.
A mulher que apanha pode trocar de marido cem vezes, que muito provavelmente apanhará de todos eles.
Acontecer uma vez é normal.
No entanto, a partir da segunda, abra o olho!
Sempre tem quem goste de dizer que isso é sina, dedo podre, carma, ou às vezes até culpa da lei do pobre Murphy.
Mas não, meus amigos; não têm nada a ver com sina, dedo pobre, carma, muitíssimo menos com a lei do Murphy.
Tem a ver com dependência emocional do próprio sofrimento.
Tem a ver com procurar sarna para se coçar; com lei de atração.
Tem a ver com estar acostumado a viver com a dor.

Já contei aqui sobre meu probleminha com o tal do pânico, lembram? Sobre meu medo surreal da morte, e de tragédias, e de desgostos, e de todo leque de azar e desgraças.
Já contei sobre como isso me fez sofrer, me tirou o sono, a fome, o sossego.
(aliás, a quem possa interessar, estou bem melhor. E não tomei uma boletinha sequer, iés).
O que eu ainda não contei foi como tudo isso começou.
Antes de encontrar o Cavanhas, que é meu marido, meu amigo, meu companheiro e meu cúmplice, eu namorei um outro cara, que não era nem uma coisa nem outra, e não passava de um covarde que dispensa maiores apresentações.
Comi o pão que o diabo amassou, durante um ano.
Sofri todos os dias, chorei todos os dias e, para ser bem sincera, cheguei a acreditar que nunca sairia daquele pesadelo.
Aquilo tudo deveria ser a vida.
Aquela dor crônica deveria fazer parte do pacote.

Porém, como não há mal que sempre dure nem bem que nunca termine, meu relacionamento de merda acabou.
Assim, da noite para o dia.
E a bonança, devagarzinho, começou a se achegar depois da tempestade.
Então o que eu fiz?
Simples: inventei uma síndrome do pânico para me fazer sofrer.
Afinal, COMO ASSIM viver sem dor?
Sem padecer?
Em paz, COMO ASSIM????
Cadê o meu sofrimento???

Eu sei que isso parece absurdo, e é.
Mas somos, enquanto seres humanos, absurdos-ambulantes, e cometemos os mais variados despautérios simplesmente por costume.
Confundimos adaptação com acomodação porque não paramos para pensar, apenas fazemos.
E nesta dependência doentia, acabamos vivendo muito satisfeitos no inferno, morrendo de medo do céu.

Se até meu gato já aprendeu a lição, nós que não somos cegos também precisamos dar uma olhada nessa coisa que chamamos de vida, e tentar perceber se não estamos cometendo nenhum disparate apenas para saciar a nossa fome de dor.
Não podemos fazer do sofrimento nosso escudo.
Ainda é permitido ser feliz, oras.
O céu não é perigoso, criança.
O inferno sim.

14 janeiro 2009

Ois

Sim: estou ausente, relapsa, atrapalhada e levemente neurótica - se é que se pode ficar levemente neurótica.
É porque tenho sido, pensado, existido e me dedicado única e exclusivamente ao E-Blogue nestas últimas 24 horas.
Bem, ao E-Blogue e a novela das oito, e não riam.
O fato é que, enquanto não estou assistindo as perversidades da Flora, estou ali, nele, futricando em tudo.
- Você não devia ter feito isso antes do site entrar no ar, Janaína?
Oh sim, e fiz.
Mas algumas configurações do Cadastro se embaralharam e por isso mesmo vim aqui: para pedir que não tentem criar nenhum blogue nem e-mail pelas próximas 48 horas porque não vai dar certo.
Vocês sabem como são temperamentais as tais Configurações.
Porém lembrem-se: o zine e os textos continuarão lá, bem lindos, como estão.

Então combinamos assim: quando tudo estiver nos seus devidos lugares, eu chamo vocês.
Sei que sou suspeita para falar, mas os blogues estão muito bacanas, com vários templates do caráleo e mil recursos.

Também aproveito para agradecer aos queridos que colaboraram com a primeira edição (de muitas) do E-Blogue.com, que são os ótimos Fabrício Romano, Luiz Calcagno, Afobório, Aline Dias, Beto Canales, Renan Soso, Ângela Bigolin Tussi, Natália Camozzato e Flávia Brito.
Guardem esses nomes.

Beijo.
Enquanto isso, acessem.

12 janeiro 2009

E-Blogue.com

Adivinhem quem está no ar?
Oh, sim, nós mesmos!
E-Blogue.com, a sua disposição.
E o prazer é todo nosso!

Para quem não sabe, o E-Blogue.com é um projeto meu, do Cavanhas e dos meninos da UpSide, que tem por pretensão reunir, em um único lugar, o que de melhor, mais criativo e mais bacana é produzido e divulgado na internéte.
Vale tudo, menos dedo no olho: textos, desenhos, fotografias, música, vídeos.
O que for bom e estiver na rede, estará também no E-Blogue.com.

Por isso, convoco todos os queridos que passam por aqui a enviarem seus trabalhos para atendimento@e-blogue.com.

Passem lá, revirem tudo de cabeça para baixo, mandem seus trabalhos, suas sugestões, suas idéias.
Dominem.
Nós realmente queremos saber o que você tem para mostrar.

08 janeiro 2009

Eu jurei que não falaria sobre isso.

Mas não dá mais para agüentar tudo isso, calada e sem trema!
Não dá!
Estou me referindo ao novo acordo ortográfico da língua portuguesa, assinado pelo Presidente Lula - diga-se de passagem: grande conhecedor de regras gramaticais - dia 29 de setembro do ano passado.
Confesso que escrevo sem muito pesquisar sobre o assunto (jurei que não iria procurar saber nada sobre isso, e esta parte eu pretendo cumprir) e vou falando assim, sem pensar e sem saber ao certo o que estou querendo dizer.
De vez em quando, devemos nos dar o direito de querer a janela, mesmo que tenhamos pegado o trem andando.

Disseram que esta convenção pretende aproximar as culturas dos cerca de oito países e 230 milhões de pessoas que falam português.
Por isso eliminaram o trema.
Agora, ele só vale para nomes e sobrenomes, e olhe lá!
Plateia, ideia, colmeia, boleia, panaceia, Coreia, hebreia, boia, paranoia, jiboia, apoio, heroico, paranoico, podem dar adeus ao acento.
Porém herói, constrói, dói, anéis, papéis, o mantém.
Por quê?
Por causa de um tal ditongo aberto, e suas oxítonas e paroxítonas.
Ah!

Enjoo, voo, coroo, perdoo, coo, moo, abençoo, povoo agora se escrevem assim.
Aposto que você sequer entendeu as palavras acima, tamanha mutilação.
O que é coo, meu pai?
Argui, apazigue, averigue, enxague, oblique agora estão assim, despedaçados.
Simplesmente desnudaram nossas palavras!
Arrancaram suas vestimentas e as atiraram no meio da rua, humilhadas.
Imagino todas elas, sentadas em uma mesa de bar, enchendo a cara para afogar as mágoas:
- O que tiraram de você?
- O acento.
- De mim foi o hífen. Me sinto nua.
Pobre hífen.
O que fizeram com ele foi de uma violência sem precedentes.
Auto-Retrato virou autorretrato.
AUTORRETRATO!
Juro: me nego a escrever autorretrato.
Me prendam, me torturem, me atirem na parede, me chamem de lagartixa: autorretrato não, nunca, jamais!
É um estupro!
Aliás... Estupro ainda se escreve Estupro?

E digo mais: essa história de unificar os países de língua portuguesa é muito bonita e tudo e tal, mas será que vai valer o sacrifício?
Digo por que, até onde sei, ninguém por aqui (incluindo os universitários) sabem sequer as regras ortográficas antigas, que dirá as novas.
Então pra que tudo isso?
Pra que criar ainda mais problemas?
Não basta os que a gente já tem?
Antes de mudar as palavras, deveriam primeiro tê-las ensinado para o pessoal.
E que me perdoem os professores e entusiastas, mas acho regras gramaticais um negócio odioso.
Sempre achei.
Até hoje não sei para que servem.

Penso que seria bem mais fácil as pessoas simplesmente decorarem as palavras (que é o que sempre fiz) do que tentar saber, ortograficamente falando, porque cu se escreve sem acento.
E não tentem me explicar.
Eu não quero saber.

Também não acho que essa bobagem gramatical vai unificar alguma coisa.
Se nem dentro do Brasil - onde teoricamente todos falam português - as culturas se unificam, porque se unificariam lá fora?
Venha para o Rio Grande do Sul, vá para São Paulo, dê uma passada na Bahia e termine em Minas Gerais.
Em cada um destes lugares, cacetinho significa uma coisa diferente.
E o que pretendem?
Chamar pão de cacetinho em todos os cantos do Brasil apenas para nos integrar?

Ouvi o presidente da Academia Brasileira de Letras justificar essa presepada dizendo que “Hoje, é preciso redigir dois documentos nas entidades internacionais: com a grafia de Portugal e do Brasil. Não faz sentido”.
Não faz sentido?
Sentido deve ter escrever autorretrato junto e com dois erres.

Me incluirei fora dessa e não quero nem saber.
Se os editores e editoras quiserem adequar meus escritos dentro deste novo e apertado sapato, podem fazer, mas eu nem vou querer ver.
É horrível demais para mim.
Meu coração e meu senso de estética não suportarão.

Só para constar: meu word aderiu a minha revolta e se recusa a atualizar sua auto-correção.
Com hífen.
Porque fica mais bonito.
Ortograficamente falando, é claro.

Ouiés.

Acaba de chegar em minhas mãos o livro Letras no Brasil.
Uma coletânea de contos, crônicas e poesias da Taba Cultural Editora, que reúne escritores daqui e dali em uma edição bem bacaninha.
Vivem nesta edição dois de meus escritos, o poema AAAH! e o poema metido a conto Pedro e Manuel em: Um Mundo Ruim.
No site a editora está vendendo por 25 reais, mas na minha mão ta mais barato e você leva por 15.
Quem quiser adquirir o livro e/ou dar um apoio monetário cultural para uma escritora em inicio de carreira, manda um e-mail para janalauxen@ymail.com.
Lembrem-se sempre de que eu poderia estar matando, poderia estar roubando, mas estou aqui, honestamente fazendo meu trabalho.
Rerere.

Mas se você estiver envolvido nesse negócio chatíssimo de crise mundial, sossega que eu vou deixar um exemplar nas bibliotecas públicas de Carazinho, Não-Me-Toque e Passo Fundo (até na da UPF, vejam como sou nobre!).
Ah, você mora muito longe de Carazinho, Não-Me-Toque e Passo Fundo, está falido e, mesmo assim, quer o livro?
Bem, me escreva que a gente vê o que pode fazer.
Ou não.
Enfim.
Beijo e boa noite.

06 janeiro 2009

Tem se falado numa tal literatura de blog.

E escritores de blog.
Mas parece que ninguém gostou muito desta nova classificação.
Todos os intitulados rapidamente se defenderam, dizendo que com blog nada tinham a ver, enquanto outros continuaram se estapeando em meio a rede, para angariar novos comentários, mais visitas e, quem sabe, sair do monitor para as prateleiras. Quiçá as telas de cinema.
Bem, eu tenho um blog.
E se eu tenho um blog, eu tenho uma opinião, claro.
Feliz ou infelizmente.
E se querem saber, eu acho isso tudo uma imensa bobagem.

Para mim literatura sempre foi literatura, e ponto final.
O resto é história.
Só que aí aparecem mil estudiosos e autodidatas e enjoadinhos de plantão, cheios de suas nomenclaturas e definições e catalogações e avaliações e rotulações, e esculhambam com tudo.

Lembro de uma vez em que entrei para uma comunidade do Orkut voltada para literatura (hã?), onde os membros podiam postar textos, dar e receber comentários, participar de antologias e coisas do gênero.
Até aí bem legal mas, SENHOR!
Como eles eram chatos!
Chatos, chatos, chatos, chatos.
Mil vezes chatos.
Um dos poucos textos que postei por lá gerou uma discussão ferrenha e calorosa entre os que achavam que era prosa e os que achavam que era poesia.
Ora, dane-se a prosa e a poesia!
O texto está ali, te dizendo alguma coisa, o que importa se a blusa dele é vermelha ou amarela?
Saí de lá enojada.

Para mim, existe texto bom e existe texto ruim.
Bem assim, sem mais.
E eles estão na internet, no jornal, na revista, no livro, na parede do viaduto.
Existe merda sendo publicada em blog?
Ô, se existe.
Mas também existem merdas sendo publicadas em jornais, em revistas, em livros, em paredes de viadutos.
Claro que, diferentemente dos jornais, revistas, livros e paredes de viadutos, escrever em um blog não depende da aprovação de editores, anunciantes, políticos, muito menos da publicidade.
Ali o território é livre.
E talvez por isso mesmo haja esta vontade tão desesperada em rotular tudo que vem dos blogs como qualquer coisa com pouca qualidade: é medo.
Sim, medo.
A maior força de uma nação está na medida da liberdade que possui para expressar sua opinião. Por mais que tenha gente cheia de opiniões duvidosas, é fantástico elas poderem tê-las, e terem um espaço onde dividi-las com outras pessoas.
Gera debate, que gera troca de idéias, que gera aprendizado, que gera evolução.
Gente que nunca leu nada em sua vida, lê blog.
Até tem um blog.
E no meio de tudo isso, surge muita, mas muita coisa boa.
Textos com qualidades que não encontramos em muitos livros, de muitos catálogos de muitas grandes editoras.
E estão ali, de graça, ao alcance de um click.
Começou a ler e não gostou?
Fecha a janela.
Não é como quando você compra um livro por 30 reais e, depois da décima página, não sabe se limpa a bunda ou faz fogo na lareira com o maldito.

Enfim.
Existe um movimento de blog.
E podem reclamar e ter chiliques quem não gostar. É fato.
Agora, além deste movimento pró-liberdade editorial, os blogs não promovem uma nova categoria de literatura.
Se o texto for bom, ele pode até estar impresso em um rolo de papel higiênico.
Usado.

Ao invés de ficarem analisando a embalagem, abram logo o presente, meu povo!
E não percam mais tempo misturando o que não se pode misturar: literatura é literatura, blog é blog.
Malandro é malandro e mané é mané.

05 janeiro 2009

Uma porta pode estar aberta

ou fechada, conforme decidir o possuidor de suas chaves.
A minha porta está fechada.
Não sei se esteve aberta alguma vez, mas tenho certeza de que, agora, está fechada.

Oh não, não faça esta cara de magoado, nem de preocupação.
Isso não é, necessariamente, uma coisa ruim.

Até porque, existe um vão embaixo dela por onde você pode passar recados.
E tem a janela, que eu deixo sempre aberta, que é para quando passar por ali, eu poder te dar um oizinho, e trocar meia dúzia de palavras.
Ou quatrocentas mil.

Mas a porta...
Esta permanecerá fechada.

Claro, tenho cópias da chave.
E estas deixo nas mãos de pessoas que, por um motivo ou por outro, há dez anos ou há dez minutos, ganharam a minha confiança.
São poucas, bem menos do que se possa imaginar.
Quando desconfio (e olha que demoro a desconfiar) tomo de volta, sem dó.

É porque eu tenho alguns defeitos, sabe?
Não sou racional e controlada como dizem que se deve ser.
Pelo menos não o bastante.
E fácil fácil perco a noção sobre onde termina o meu espaço e onde começa o espaço do outro.
O que acaba me transformando em uma palestrante déspota e chata, sempre dizendo por aí o que eu acho sobre coisas que ninguém me perguntou – logo, não devem querer saber.
E nem me refiro ao blogue.
Aqui é bom.
Enquanto escrevo, tenho tempo para avaliar as minhas palavras.
Medi-las.
Ponderá-las.
Quase sempre apago algumas frases que, duas horas depois de escrever, eu já considero ridículas, de uma indignação adolescente.
Não é censura, é o calor da hora.
Enquanto escrevo tenho tempo para pensar e, possivelmente, refinar minhas opiniões de modo que soem mais amistosas, mais educadas.
Agora, na hora de falar, não tenho a chance de passar a limpo meus discursos.
E quando vejo já estou ali, metendo meu bedelho onde, como sempre, não fui chamada.
E duas horas depois, ao invés de ler o rascunho, vejo os fatos e penso: mierda.

Falhei como publicitária (e certamente falharia em qualquer outra profissão) porque absolutamente não sei trabalhar sob pressão.
Não sei falar sob pressão.
Não sei dar boas respostas sob pressão.
Não sei raciocinar sob pressão.
Não sei existir sob pressão.
E isso é nocivo.
- Agora vou falar!
Ai, ai, depois me arrependo.
Me sinto uma idiota.
Duas horas depois quero apagar tudo e escrever de novo.
Mas daí já foi.

Por isso minha porta está fechada.
Para me proteger, e lhes proteger.
Porque quem quiser saber o que eu acho disso e daquilo (não posso conter essa mania de achar, mesmo quando o que eu acho tem dono) vai ter que vir até aqui me perguntar.
Se não for dos mais chegados, passa por debaixo da porta ou bate aqui na minha janela: estarei lá.
Pode mandar xingamentos, subornos, vírus e correntes também.
Não é porque minha porta está fechada que não sou uma menina legal.


Por falar nisso, sabem o que eu acho?
Que a vida deveria ter a opção EDITAR.

03 janeiro 2009

Não.

Palavra chata de se ouvir, na maioria das vezes.
Não. Não. Não.
Ontem mesmo eu ganhei um NÃO de uma editora na qual apostei boa parte das minhas fichas.
Mas foi um NÃO simpático, embalado para presente e com uma fita vermelha enfeitando.

Como vocês já estão carecas de saber, quero porque quero ser escritora.
Meti isso na cabeça quando tinha uns 10 anos e, desde então, é o pensamento que ocupa minha atenção 16 horas por dia.
Como sou pretensiosa, cara de pau e metida a besta, fui escrevendo livros, mandando originais, participando de concursos, seleções e o escaubáu e, claro: recebendo não.
Não. Não. Não.
Dezenas de milhares de centenas de NÃOS.
E a cada um eu pensava: ah é, é? e seguia em frente.
Até ontem.
Agora, minha tática mudou.

Se estou triste com o NÃO que ganhei de presente?
Nossa, e como. Eu e a Salomé (anti-heroína do meu romance sem romance) pensamos seriamente em mandar tudo para a puta-que-te-pariu, inclusive nossa boa educação e nossa diplomacia.
Não a diplomacia!
Não a boa educação!

Porque o mercado editorial não tem nada a ver com o romantismo da literatura.
É um mercado (mar-que-tin-gue) que trabalha com lucros, com vendas, com interesses pouco lúdicos e muito duvidosos.
É um mercado como qualquer outro: alguns vendem livros, outros vendem programas de computador e outros vendem calçados.
Muda o produto; o processo é o mesmo.
E como em quase tudo nessa vida, sai na frente quem tem mais dinheiro e mais contatos e mais padrinhos e mais intimidade com o manda-chuva.
E não adianta dizer que não é, porque é sim.
Estou bege de ver gente muito boa colocada para escanteio, enquanto verdadeiros absurdos são publicados e relançados e transformados em filme por aí.
Bruna Surfistinha é um dos vários exemplos que me ocorrem agora.
Ela tem três obras publicadas, duas traduzidas para os estrangeiros, e agora vai transformar sua escrita em filme.
FILME!
E vai vender horrores, e vai aparecer no Jô (de novo), e vai dar entrevistas e vai escrever mais livros.
E como se sente uma pessoa como eu, que nunca se prostituiu, vendo sua obra renegada para dar espaço para tipos como a Bruna Surfista?
É porque ela vende.
Eu não.
É porque o querido-povo-brasileiro-que-eu-tanto-amo quer ler putaria, e não as desventuras de Salomé.
É porque aqui, neste país onde quem pode mais chora menos, literatura deixou de ser alavanca para evolução intelectual e social, e agora é um produto que se vende.
Ao lado de sabonetes e desinfetantes.
Um produto e nada mais.

Regra número um: escreva sobre surubas animadas e bobagens em geral, para que as pessoas, preguiçosas de pensar, possam consumir o que você produz.
Regra número dois: amigue-se com dono. Chupe suas bolas. Jogue confetes na sua cabeça. Porque, se você não é o dono, nem é o filho do dono, deve e precisa ser amigo do dono.
Regra número três: se você não aceitar ou não alcançar as normas acima citadas, adiós muchacho! Vá trabalhar num cartório.
Você precisa ter alguma coisa para oferecer além do seu talento.

Acontece que eu tenho uma novidade: eu não desisti.
Devagar, devagarinho, estou abrindo essa mata fechada e densa e seguindo em frente.
Tomando tapa, levando NÃO, tropeçando, caindo e torcendo o pé.
Mas seguindo em frente.
Porque, como já falei antes, sou pretensiosa, cara de pau e metida a besta.
Muito mais do que se possa imaginar.
Não posso dizer: me publiquem e isso é uma ordem! mas posso entrar pelas portas que já se abriram para mim e dar uma banana para as que se recusaram a me deixar passar.
Porque um fenômeno muito interessante acontece neste momento: os pequenos (pelo menos boa parte deles) pararam de tentar se adequar aos grandes e começam a se unir.
E juntos, deixamos de ser pequenos e ganhamos força.
Juntos, podemos sim derrubar reis, castelos, editores, muros, padrinhos, puxa-sacos e tudo mais que for aparecendo pela frente.

Criei o E-Blogue.com por isso: você não precisa ser meu amigo, nem me pagar cervejas, nem chupar as bolas que eu não tenho para ser publicado lá.
Aliás, se for meu amigo e me pagar cervejas e me chupar as bolas, mas escrever mal, pode fazer um fuzuê: eu não vou te publicar.
Eu não vou tirar espaço das pessoas boas para publicar as ruins ou as mais ou menos só porque tomamos cervejas e damos risadas juntos.
Muito menos vou publicar bacanais e bobagens apenas para que os incultos e idiotas acessem meu site.

Os bons e excluídos precisam estar juntos agora.
Se ficarmos cada um em nossas ilhas particulares, morreremos sozinhos e frustrados, dando murro em ponta de faca até arrancarmos todos os dedos de nossas mãos.
Precisamos nos apoiar, nos financiar, nos carregar mutuamente nas costas.
Porque juntos – e isso eu garanto – não tem NÃO capaz de nos tirar do jogo.
E daqui um tempo, quando ESTES que agora nos renegam vierem pedir arrego, quem vai dizer Não-Not-Never-Jamé somos nós.

E quem estiver comigo bota o dedo aqui.

02 janeiro 2009

Muita estrela. Pouca constelação.

Adepta da teoria os incomodados que se retirem, inicio meu 2009 cheia de novas resoluções.
Ainda no falecido 2008, já havia decidido que não ficaria mais dando explicações sobre coisas que as pessoas não querem e/ou não podem compreender.
Explico uma vez, e olhe lá.
Entendeu, ótimo, não entendeu, paciência.
E agora, ao invés de ficar me lamuriando pelas coisas que eu detesto, e que me indignam e me torcem a garganta de nojo, eu simplesmente vou me retirar.
Quietinha, assoviando para disfarçar, vou sair pela retaguarda e me recolher a minha querida e necessária insignificância.

Virada do ano fomos ver um showzinho de rock num bar, aqui em Passo Fundo.
Estavam reunidos ali 13 músicos de 7 bandas diferentes.
Até aqui, tudo legal.
O problema é que entrava e saía gente daquele palco e as músicas simplesmente não mudavam.
Beatles tocou até a exaustão e não; eu não tenho nada contra os Beatles, do mesmo jeito que não tenho nada contra pizza de quatro queijos. Mas vá comer pizza de quatro queijos todos os dias, durante um ano, e veja se você não vai enjoar.
Só rock de gringos. Sucessivamente.
Lá pelas tantas, pensei: meu, bem que podiam tocar uma nacionalzinha né?
Afinal, até onde me lembro, estamos no Brasil e falamos português, e caso tenham esquecido, o Brasil também produz rock.
Ou me enganei?
Enfim.
Falei com um guri de uma das bandas, que estava se preparando para entrar no palco:
- Pô, podiam tocar uma do Raul né?
E ele me respondeu:
- Se eu tocar Raul me matam.
Hã?
Como assim se eu tocar Raul me matam?.
Persistente, fui para frente do palco decidida a ouvir pelo menos uma música cantada em minha língua pátria, e gritei:
- Toca Raul!
Ao que fui seguida por outras pessoas que também estavam por ali, e também deveriam estar a fim de dar uma variada no cardápio:
- Toca Raul!
- Toca Raul!
- Toca Raul!
Uma de minhas amigas até tentou um Toca Mutantes.

Foi quando aconteceu.
O vocalista (cujo nome irei omitir, para que isto aqui não pareça pessoal demais) respondeu, cheio de pompa:
- Não adianta pedir porque nós não vamos tocar porra nenhuma.
Hã???
Como assim não adianta pedir porque nós não vamos tocar porra nenhuma?
Quer dizer que eu estou lá, prestigiando a merda do show daqueles caras, na frente do palco, fazendo um estardalhaço, gritando e cantando, oferecendo ao artista aquilo que ele (teoricamente) mais deseja, que é resposta e respeito, e o cretino me diz que não adianta pedir porque eles não vão tocar porra nenhuma?
Há duas explicações para o acontecido: ou os caras são incapazes de tocar qualquer coisa que não esteja em seu repetitivo repertório, ou aquele era um show deles, para eles e os amigos deles.
Nada mais.
Rapá!
Fiquei espumando de raiva.
É umbigo demais para uma pessoa só.
Saí lá da frente e passei o resto da noite desejando o mal para todo mundo que estava naquele palco, e nos seus arredores.

E vocês pensam que isso foi exceção?
Não, isso é regra.
Não sei o que acontece aqui, nesta cidade, nem sei se é somente aqui que acontece, mas a maioria dos shows de rock (rock?) que acontecem por estas bandas são assim: músicos de egos obesos cantando músicas que eles gostam para seus amigos.
Ah, você não é amigo da banda?
Então se fode.
E o que eu posso fazer? Me amigar com eles? Ir lá lamber seus respectivos sacos para ver se os bonitos tomam vergonha e, pelo menos, tocam alguma merda de rock nacional?
Pedir peloamordedeus, toquem Raul?
Ou Raul não é rock?
Ou o que, afinal de contas?
Não, não posso (nem quero) fazer nada disso.
O que posso (e quero) é simplesmente não ir mais.
E esta é minha principal decisão para 2009: parar de dar murro em ponta de faca.
Parar de tentar fazer parte de um grupo de pessoas que não faz a mínima questão de que você faça parte.
Porque toda a vez é igual, nunca muda.
E eu fico me perguntando: o que estou fazendo aqui?
Porque paguei 15 pila para ver uma banda que não adianta pedir porque nós não vamos tocar porra nenhuma, e porque continuo aqui, pagando quatro reais por uma latinha de cerveja e suando os bigodes enquanto estes caras tocam, uma após a outra, músicas com gosto de pizza quatro queijos?
Eu poderia ouvir Beatles e todas as músicas que os gringos cantam sem problemas, desde que houvesse um mínimo de democracia.
Pois, de uma coisa tenho certeza: eu não era a única lá dentro que estava a fim de ouvir Raul, ou qualquer coisa que não fosse aquilo que estava tocando.
Inclusive um guri me falou, depois da gentileza do cantorzinho que se negou a atender o público que estava ali, prestigiando a bosta de seu show:
- Esses caras são engraçados: gostam de posar de cult, de intelectuais, e não conhecem nem o rock que foi produzido em seu país.
Não, eles não conhecem.
Eles só conhecem literatura estrangeira, rock estrangeiro e, possivelmente, marcas estrangeiras.
Porque não vão para os estrangeiros, então?
Ops, lembrei.
Não são eles que devem sair de cena.
Sou eu.
Sou eu a incomodada, não eles.
Eles estão lá, felizes da vida, cantando suas musiquinhas de sempre, com seu publicozinho de sempre e seus showzinhos de sempre.
Então eu me retiro.
Me retiro e não farei nenhuma diferença.
Mas não coloco mais o meu prestígio nem a minha euforia bêbada na frente de um palco onde, em cima, não existe nada que me interesse.
E encerro meu texto com um som (hahaha) do Raul e do Marcelo Nova que, honestamente, eles deveriam conhecer.
Eles precisavam conhecer.
Feliz 2009.
.
Muita Estrela, Pouca Constelação
(Raul Seixas e Marcelo Nova)
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A festa é boa, tem alguém que tá bancando
Que lhe elogia enquanto vai se embriagando
E o tal do ego vai ficar lá nas alturas
Usar brinquinho pra romper as estruturas
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E tem um punk se queixando sem parar
E um wave querendo desmunhecar
E o tal do heavy arrotando distorção
E uma dark em profunda depressão
.
Eu sei até que parece sério, mas é tudo armação
O problema é: muita estrela, pra pouca constelação
.
E tinha um junkie se tremendo pelos cantos
Um empresário que jurava que era santo
Uma tiete que queria um qualquer
E um sapatão que azarava minha mulher
.
Tem uma banda que eles já vão contratar
Que não cria nada mas é boa em copiar
A crítica gostou, vai ser sucesso, ela não erra
Afinal lembra o que se faz na Inglaterra?
.
O fotógrafo, ele vai documentar
O papo do mais novo big star
Pra'quela revista de rock e de intriga
Que você lê quando tem dor de barriga
.
E o jornalista, ele quer bajulação
Pois new old é a nova sensação
A burrice é tanta, tá tudo tão a vista
E todo mundo posando de artista
(Escute aqui)