05 dezembro 2009

Têm Futebol.

Algumas pessoas me perguntam como é que eu posso gostar de futebol.
Argumentam que é um esporte sem sentido, baseado em nada além de sorte, e afirmam com convicção que não entendem como nem porque tanta gente gosta de assistir, durante 90 minutos, 22 homens correndo desesperadamente atrás de uma bola, tentando colocá-la no meio de duas traves.
Para que?
Por quê?
Com que objetivo?
O que eu ganho ou perco com isso?
Bem, eu também pensei assim durante muito tempo.
Aconteceu que, num belo dia, decidi que enquanto brasileira precisava me inteirar mais das coisas que - dizem - são bacanas em meu país.
Precisava me esforçar um pouco.
Da caipirinha foi fácil, pois sempre gostei.
Faltava só encontrar graça no futebol e no carnaval.
E depois de muito tentar e persistir e tentar outra vez desisti do carnaval, mas o futebol definitivamente me conquistou.
Especialmente quando me dei conta de que, se ele é sem sentido, baseado em nada além de sorte, oras, e a vida por acaso é diferente?
Pelo menos no futebol, 22 homens correm atrás de uma bola com um objetivo (por mais duvidoso que possa parecer) pré-determinado, que é fazer um gol.
E na vida?
Corremos atrás de tantas coisas tão mais duvidosas que uma bola, e ainda assim muitas vezes não encontramos objetivos nenhum nessa correria maluca.
Logo, para mim, o futebol tem até mais fundamento que a vida.
Por isso, este é um post sobre futebol.
Mais especificamente sobre o Campeonato Brasileiro, que neste domingo chega ao seu final encoberto por especulações, debates, disputas, teorias e suposições.
Porque, assim como na vida, o futebol arma suas arapucas e tocaias, e prega peças como um moleque da terceira série do colegial.
Quem lê este blogue há mais tempo, talvez se lembre de um texto que escrevi há mais de um ano, chamado Versus.
Quem não leu e tiver vontade, é só clicar aqui.
Enfim.
É que ano passado o Grêmio era líder isolado do Brasileirão, tendo em seu encalço o São Paulo que, com a mesma pontuação do tricolor gaúcho, possuía uma derrota a mais, que o deixava em segundo lugar.
O Grêmio já estava com a mão na taça.
Então o São Paulo enfrentou o Internacional – meu time querido do coração e arquiinimigo do Grêmio – que perdeu, e acabou tirando o título do time gaúcho e dando-o ao time paulista.
Resumindo era isso.
E neste texto, eu falava justamente sobre como é, no mínimo, desagradável deixar nossa vida e nossa sorte nas mãos de pessoas que nem sempre estarão preocupadas em nos ver feliz.
Foi o que aconteceu ano passado.
Não sei se em 2008 o Inter entregou o jogo para o São Paulo só para não ver o Grêmio campeão, ou se perdeu por ser ruim mesmo.
O fato é que perdeu.
E este ano, adivinha?
Exatamente.
Está acontecendo justamente o contrário.
Agora, quem está nas mãos do Grêmio é o Internacional, que ocupa o segundo lugar na tabela do Brasileirão atrás somente do Flamengo, que amanhã, domingo, joga contra o... Grêmio.
A torcida gremista já pediu, mandou, exigiu: entreguem o jogo.
Furem nossos olhos mas não dêem o título de mão beijada para nosso maior adversário.
E parece muito óbvio para todo mundo que o Flamengo já é o campeão.
O futebol tem dessas coisas, meio desleais, de caráter um tanto quanto duvidoso.
Algo como “sou a favor da ética e da justiça, mas acima de tudo eu odeio meu rival”.
E justamente porque ano passado eu (admito!) estava mais era torcendo para o Grêmio não ser campeão – já que nós não tínhamos mais chance nenhuma – é que neste ano não tenho cara de pau suficiente para pedir ao Grêmio que vença e nos dê o título.
Tudo bem que o tricolor gaúcho venceu apenas uma, das 18 partidas que jogou fora de casa, e que independente de dar o título ao Internacional ou não, o Grêmio provavelmente perderia.
Mas a rivalidade tem dessas coisas: tem horas que não nos importamos em perder, desde que aqueles que não gostamos percam também.
Repararam como o futebol é igualzinho a vida?
Podemos até achar isso errado, politicamente incorreto, antiético, feio.
Mas é assim que é, e acabou a conversa.
Porém, nem só de rivalidades e arapucas se faz o futebol – nem a vida.
Além desta situação no mínimo delicada na qual o Internacional se enveredou no final deste campeonato, tem também coisas muito bonitas acontecendo.
Tô falando, é claro, do Fluminense, que até pouco tempo atrás possuía 500% de chance de ser rebaixado e, depois de uma reação espetacular comandada pelo capitão Fred, por pouco não ganhou a Copa Sul-Americana contra a LDU, na última quarta-feira, e já dá tchauzinho em grande estilo para a série B.
Tal e qual a Fênix, Fluminense renasceu das cinzas e voltou para sua velha forma com todo o vigor e entusiasmo.
Coisa bonita, e que dá gosto de ver!
E longe de querer tirar o mérito que cabe ao técnico, ao Fred e aos demais jogadores, um elemento me pareceu fundamental nesta reação furiosa (e curiosa) do Flu: a torcida.
A torcida do Fluminense deu o maior espetáculo deste Brasileirão.
.
Frodo, torcedor do Flu e editor desta que vos escreve, esteve no jogo de quarta contra a LDU e enviou essas fotos para ilustrar este texto, dizendo que, ao final do jogo, apesar do resultado não ter sido o ideal, 70 mil torcedores aplaudiram de pé a linda atuação de seu time-fênix-Fluminense do coração.

Eu lembro bem!
O time perdendo uma partida atrás da outra, descendo frenético ladeira abaixo, jogando mal pra burro e a torcida lá: firme, forte, aos gritos, na raça, incentivando o clube, fazendo barulho.
Não recuaram nem nos piores momentos, nem quando tudo parecia perdido, nem quando não havia mais nenhuma esperança.
Muito diferente de umas e outras torcidas que existem por aí, que, se o time perder uma única vez, já querem linchar os jogadores, torturar a família do técnico, tacar fogo no estádio e fazer uma lambança.
Para mim, a relação do torcedor com seu time é a mesma que de dois grandes amigos.
Você não pode ser amigo da pessoa somente quando ela está bem, e feliz, e realizada, e dando certo, e fazendo sucesso.
Muito pelo contrário!
A gente vê quem é de verdade nossos amigos quando a coisa fede, a situação aperta, o calo dói, as nuvens negras cobrem o céu.
E neste ponto, me desculpem, mas pouquíssimas torcidas se salvam.
Quando o time está em uma boa fase, vão todos ao aeroporto receber a delegação, e fazem festa, vestem a camisa, gritam palavras de apoio e incentivo, e elogiam e massageiam o ego de todo o clube.
Mas bastou o time emendar meia dúzia de derrotas e pronto: torcedores alvoroçados, nervosos, xingando, gritando palavras de ordem, querendo matar.
Que feio, minha gente!
Torcedor bom é aquele que fica ao lado do clube, não importa a situação.
Primeiro porque pular fora e armar um gritedo só porque a maré está ruim, é coisa de gente covarde, besta e, principalmente, imatura.
Gente que não sabe perder.
Águas mansas não fazem bons marinheiros, já disse certa vez um indiano sabidinho.
Escrevi tudo isso somente para, mais uma vez, falar da torcida do Flu, que ganhou neste Brasileirão de 2009 meu respeito e minha sincera admiração.
Ah... que bom e que lindo seria se todas as torcidas fossem capazes de demonstrações de amor e respeito genuíno como foi a do Flu, que atiraram ao time uma cordinha e os puxaram de volta para cima, para a superfície, quando todo mundo já achava que o Flu tinha afundado.
Coisas do futebol, meus amigos, com seus lances lindos e tristes, justos e injustos, feios e bonitos, certos e errados.
Coisas da vida.
E por hoje é só.