08 novembro 2009

Os Alunos da Uni(tali)ban.

Quem aqui já foi universitário?
E jovem, quem já foi?
Bem.
Então vocês sabem, tanto quanto eu, como as coisas funcionam.
Faculdade, por exemplo, é uma zona.
E não façam estas caras constrangidas.
É normal.
Se você não participou, pelo menos ficou sabendo, quiçá até viu, histórias de deixar a Anaïs Nin de face ruborizada, é ou não é?
Uma vez, na minha faculdade, uma turma inteira flagrou uma aluna e um aluno em situação, digamos assim, um tanto quanto íntima, dentro do estúdio de fotografia.
Tinha gente que fumava maconha há 3 metros do prédio onde estudava, e também quem cheirava cocaína na pia do banheiro.
Conheço um bebê que foi, inclusive, concebido em um WC universitário.
E as festas?
Vixe!
O mais interessante era no dia seguinte, as informações (fofocas?) mordazes e detalhadas percorrendo linhas telefônicas e sinais de internet afora, frenéticas, impiedosas.
Rarara, era engraçado.
E isso é, repito, absolutamente normal.
Começou com nossos pais pedindo paz e amor enquanto rolavam pelados na grama, e tá aí: a liberdade abriu as asas sobre nós.
Concordo: tem gente que perde a linha.
Mas peço que levante o dedo quem nunca perdeu a linha e fez o que não devia.
Ser jovem é legal porque é a única época em que podemos fazer uma série de besteiras sob a justificativa de que somos... jovens!
Daí a subversão, o rompimento; ninguém com 18 anos quer seguir o modelo ‘ultrapassado, careta e repressor’ dos mais velhos.
Não querem que eu faça uma tatuagem? Pois vou fazer.
O certo é ter uma namorada? Pois terei cinco.
É proibido fumar maconha? Pois fumarei todo dia.
Depois passa e vira lembrança engraçada.
Quer dizer, era assim, pelo menos no meu tempo.
Porque parece que agora existe uma parcela mais ultrapassada, careta e repressora que nossos trisavôs jamais conseguiram ser.
Falo, meu amigos, de Geisy Arruda, a estudante da Uniban que foi praticamente linchada por causa de um... vestido?
Lembro que, quando li a notícia sobre o acontecido, levei uns quatro dias tentando decodificar o que, exatamente, havia acontecido.
Ora, não podia ser só por causa daquele vestido rosa, que considerei até discreto perto de coisas que já vi dentro de igrejas.
Haveria de ter mais alguma coisa.
Mas que coisa?
Que espécie de coisa justificaria a reação selvagem e enfurecida daquele bando de jovens, que deveriam estar fumando maconha há três metros do prédio onde estudam ao invés de estarem querendo linchar uma colega por causa de um vestido?
Pensei: as festas desta faculdade devem ser um saco.
Enfim.
O tempo passou e hoje, acessando a internet displicentemente, me deparo com a notícia que eu podia ter morrido sem ler:

Uniban anuncia expulsão de aluna hostilizada por usar mini-vestido
Aluna do curso de turismo Geisy Villa Nova Arruda foi desligada “do quadro discente da instituição, em razão do flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”.

Hã?
Como assim?
Foi uma piada, é isso?
Esfreguei os olhos.
Li outra vez.
Tentei lembrar se havia tomado algum chá de cogumelo na noite anterior, e lembrei que não tomo chás de cogumelos.
Ou seja: a Uniban realmente expulsou a vítima do episódio acontecido dentro da instituição, "em razão do flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade".
Em primeiro lugar, meus caros, flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade foi a maneira como trataram a menina, gritando ‘mata, mata, estupra, estupra’.
Não fazemos isso nem com animais.
Nem com vermes.
Nem com lactobacilos.
Nem com assassinos em série.
O que pode ser mais antiético, indigno e imoral do que isso?
Mata, mata?
Estupra, estupra?
Trata-se da nova juventude hitlerista em ação?
Outra: que mini-vestido, afinal?
Mini-vestido, para mim, é o que usam as bailarinas do Faustão, às 3 horas da tarde de domingo e ninguém fala nada.

A contragosto, li até o fim a matéria sobre a surreal expulsão.
Tem coisas que eu preferiria nem saber, mas.
Li.
E entre muitas incoerências, alega o assessor jurídico da Uniban, Décio Lecioni Machado, “que o vestido curto que Geisy usava no dia da confusão não motivou a expulsão. Foram gestos e atitudes que a aluna já manifestava há tempos que provocaram o tumulto e, consequentemente, o desligamento da universidade”.
Piorou!
Bem que minha mãe sempre disse que algumas coisas na vida são como merda: quanto mais se mexe, mais fede.
E quais seriam, senhor-doutor-excelentíssimo Décio Lecioni Machado, os gestos e atitudes que a aluna manifestava há tempos, e que seriam graves o bastante para explicar um linchamento e uma expulsão?
Ele não respondeu.
E quer saber?
Não importa quais os gestos e atitudes que a aluna manifestava há tempos.
Nada importa quando uma menina é atacada coletiva e violentamente como ela foi, dentro de uma instituição de ensino, e ainda acaba expulsa, sob justificativas absurdas, mais absurdas ainda que o tratamento insano que recebeu de seus colegas.
Isto é, a Uniban não só aprova, como apóia e incentiva este tipo de atitude por parte de seus alunos?
Ah, lembrei de uma coisa!
A Uniban é uma universidade particular.
Sendo particular, é claro, cada um daqueles aluninhos defensores da moral e dos bons costumes pagam uma quantia, no mínimo, razoável para estudar lá; logo, como poderiam ser punidos se estão paga?
Melhor expulsar uma aluna do que 350.
Nojo deste tipo de coisa.

Minha sugestão é: sabotagem.
Descarada.
Se estudam por lá, tranquem as matrículas.
Não se inscrevam para o vestibular, não dêem aula, não passem sequer na frente!
Enquanto cidadãos normais, pacatos e sexualmente esclarecidos, não podemos nos calar e consentir com atitudes boçais e desumanas como essa.
E, Geisy: processe.
Geral.
Descubra o nome de cada imbecil-alienado que aparece nos vídeos e arraste pra lei.
Porque se Geisy perder em última instância – coisa que não duvido, dado o bundalelê que virou nosso país, nossa justiça, etc – eu juro que jogo a toalha e peço água.
Saio do jogo porque simplesmente desconheço as novas regras.
E se querem saber: não tenho nenhuma intenção de aprendê-las.