02 novembro 2009

Jornada Nacional de Patifaria.

É certo que, por estes dias, você ouviu falar na Jornada Nacional de Literatura.
A não ser que more em outro planeta, é certeza que leu nos jornais, ouviu nas rádios e viu na tevê as notícias exaltando o evento literário mais importante de Passo Fundo, aquele que reúne grandes autores na cidade que mais lê do país.
Como vocês talvez saibam, a Jornada é uma promoção da UPF.
Bem.
Eu morei um ano e meio em Passo Fundo, estudei cinco na UPF e trabalhei dois na agência experimental da instituição.
Ou seja: fui aluna e estagiária da universidade, e também habitante desta cidade que, como todas as outras, tem coisas boas e ruins praticamente na mesma proporção.
E por mais que você pense o contrário - dadas às manchetes que vê nas tevês, rádios e jornais - eu afirmo com convicção: a Jornada Nacional de Literatura não está entre as coisas boas da cidade.
Por quê?
Explicarei meu humilde ponto de vista aqui, e agora.
Relutei um pouco a escrever sobre este assunto, pensando que em alguns vespeiros não vale a pena pôr a mão, e que com cachorro grande não se briga, e que poderiam encher o meu saco e a minha caixa de e-mails com desaforos e despautérios.
No entanto, ponderei que muita gente precisou morrer para que hoje tivéssemos um negócio chamado liberdade de expressão, e já que, ao contrário das tevês, jornais e rádios, a UPF não patrocina este blogue, eu posso sim falar o que penso, sem lenço, sem documento, amém.
Ademais, trata-se somente e tão somente da minha opinião.

Nada além disso.

Minha história começa dia 17 de julho deste ano, quando acessei o caderno Blitz, do jornal Diário da Manhã de Passo Fundo, e me deparei com um texto do escritor Gustavo Melo (pernambucano radicado em Passo Fundo), onde ele falava sobre como a Jornada era importante para a formação ‘não simplesmente de leitores, mas de leitores de verdade!’. Você pode ler o texto na íntegra clicando aqui. Enfim. Não costumo comentar textos internet afora, especialmente se os textos ou comentários em questão puderem levantar debates pouco saudáveis, que invariavelmente terminam descambando para a grosseria e a falta de educação.
Mas não resisti, e deixei lá minha idéia:

Desculpe Gustavo, mas preciso discordar de ti: se a Jornada estivesse mais preocupada com pessoas do que com mídia e faturamento, não cobraria 100 reais as inscrições.
Não se trata de inclusão, mas exclusão.
Um circo, nada mais.
Pergunto: e durante os dois anos que separam uma jornada da outra, o que faz Passo Fundo pela literatura?
Nada.
Temos aquela pracinha mequetrefe perto da rodoviária e nada mais.
E a biblioteca municipal? Jogada as traças!
Se, por sorte, os passofundenses são os que mais lêem no Brasil, isso nada tem a ver com a Jornada nem com os incentivos da cidade à literatura.
Capital Nacional da Literatura é só um título, literalmente.
E infelizmente.


Alguns dias depois, um dos jornalistas do caderno Blitz me mandou um e-mail convidando para participar de um debate sobre literatura e afins na rádio Diário da Manhã, ao lado de Gustavo.
Evidentemente que topei, afinal sou totalmente a favor de conversar e se entender, trocar idéias, controverter, desde que seja com pessoas inteligentes, que possuam argumentos e, claro, boa educação.
O jornalista ficou de me escrever novamente, para marcarmos dia e hora para o debate, e então desapareceu da face da terra.
Por quê?
Porque, certamente na melhor das intenções, o rapaz teve a idéia de promover um debate entre dois escritores passofundenses e suas idéias sobre a Jornada e literatura, MAS, sem dúvidas, foi proibido de levar adiante a discussão porque a UPF é uma das maiores patrocinadoras do jornal, da rádio, e de todo o resto.
Então, onde já se viu chamar alguém que pensa diferente para esculachar nosso maior anunciante?
Jamé!
Este é um problema bem grave, e que mereceria um texto à parte: NUNCA, eu disse NUNCA, teremos liberdade de expressão e imparcialidade enquanto meios de comunicação estiverem nas mãos de anunciantes e políticos.
Mas não é o que estamos tratando aqui.
Não pude ir até a rádio dizer o que eu penso, mas posso e devo escrever aqui: a Jornada Nacional de Literatura trata-se de um enorme engodo.
Uma farsa.
Um lobo em pele de cordeiro.
Pão e circo e fim.
Começa pelo preço: a inscrição custa 100 reais. Isso se você se cadastrasse até 17 maio. Depois, o valor podia chegar a R$130. Eu disse CENTO E TRINTA (duvidou? confira aqui a tabela de preços)! Se eu tivesse 130 reais estaria rica. Alunos da UPF tinham (não sei se ainda têm) desconto de vinte reais, ou seja: o preço continua 80, o que, convenhamos, não é o que podemos chamar de ‘em conta’.
E ainda por cima, o evento recebia, até pouco tempo, cerca de 1,1 milhões de reais do LIC (Lei de Incentivo à Cultura).
Sim, meus amigos, 1,1 milhões + 100 reais pagos por cada participante.
Aplausos para a filantropia.

Passo Fundo e a UPF se vangloriam de promover literatura na cidade que mais lê no país.
No entanto, convido-os a conhecer a Biblioteca Municipal da cidade.
Está, como escrevi no comentário ao Gustavo, jogada as traças.
Na frente, a grama chega a estar alta.
E na Biblioteca da UPF (uma grande e vasta biblioteca, com a grama da frente bem cortada e as paredes bem pintadas), a comunidade não pode retirar livros – apenas alunos e professores.
Pergunte a qualquer passofundense quais eventos, além da Jornada, são promovidos por aqui.
NENHUM, será a resposta.
E tente conseguir apoio de algum destes órgãos por mim citados para a realização de um sarau, ou qualquer projeto do gênero: você não vai conseguir, meu amigo, nem que a vaca voe, e isso é certo.
A única manifestação cultural em prol da literatura que existe em Passo Fundo durante os dois anos que separam uma jornada da outra é uma pracinha burlesca, para não dizer coisa pior, próxima à rodoviária da cidade, que serve muito bem como ponto de prostituição e local para consumo de drogas.
E, mais importante que tudo isso: cadê, afinal de contas, os autores gaúchos na Jornada?
Este ano, após poucas discussões referentes à carta aberta que Cintia Moscovich escreveu em 2005 a Tânia Rösing, coordenadora da Jornada - carta esta que, graças à simpatia e reconhecida educação de Tânia, foi singelamente ignorada - trouxeram meia dúzia de autores gaúchos e criaram, dentro da programação, o Encontro Estadual de Escritores Gaúchos (sic!).
Bonito.
Meia dúzia é melhor do que nada.
Neste momento, abro um adendo neste texto para postar o trecho de uma matéria que acabei de encontrar aqui, escrita pelo jornalista Guilherme Mergen, na ocasião da última jornada, em 2007, publicada no site Overmundo:

Manifesto solitário
Praticamente escondido na enorme dimensão da manifestação cultural, o escritor e funcionário público Júlio Pérez ensaiava um protesto silencioso na penúltima noite da Jornada. Apontado como corajoso por alguns participantes, bateu de frente com a comissão organizadora. O motivo: a ausência de autores locais. O valente escritor montou uma mesa justamente na entrada do portal das linguagens, onde estão gravuras de escritores presentes em outras edições da Jornada. Sobre a mesa, colocou cerca de 10 exemplares de sua obra, intitulada “Expresso instante”, e arriscou uma última ousadia antes de sentar: fixou sobre a estrutura das gravuras um cartaz com as seguintes palavras: autor local. Não precisava de mais nada. A presença de Pérez já incomodava a organização.

Enquanto entrava no pavilhão onde estava montada a sala de imprensa, percebo o protesto solitário do passo-fundense e me aproximo. Quando me apresento ao senhor como repórter, ele abre um sorriso e inicia uma seqüência interminável – eu sequer consegui ficar até o final de seu discurso – de críticas à Jornada. Durante a conversa, Pérez foi convidado a se retirar mais de uma vez daquele local pela organização, mas permaneceu fiel ao seu manifesto. “Há uma falta de consideração com os autores locais e regionais. Batalhamos pela literatura, porém, em um evento dessa grandeza, não somos chamados e nem é reservado um espaço para o autor local”, comenta. Apesar das críticas, o poeta, que finalizou recentemente um romance, reconhece o mérito do evento em formar leitores. “A Jornada pode ter formado leitores, mas nunca gerou um escritor. Isso porque jamais incentiva o autor local”.

O passo-fundense insatisfeito vai além dos comentários sobre a ausência de escritores regionais. Durante nossa conversa – nesse momento, vários outros jornalistas também pararam para ouvir a manifestação -, Pérez reforçou uma antiga crítica à manifestação cultural. Para ele, a Jornada transformou-se em um evento de professores e alunos. “Está ficando um negócio masturbatório, sabe. Vamos trazer outras pessoas, além daquele grupo fechado”. Nessas alturas da entrevista, mais de 10 pessoas rodeavam aquela pequena mesa, montada em local estratégico. E o poeta continuava firme em sua cadeira discursando: “E esse prêmio de literatura? Na última edição, deram R$ 100 mil ao Chico Buarque. O que ele tem a ver com Passo Fundo? O cara pega o prêmio, vai embora, não deixa nada pra cidade, enquanto aqui tem muitos que estão batalhando pela cultura local”. Se o objetivo de Júlio Pérez era chamar a atenção, conseguiu. Mas, com exceção do Overmundo e de um blog local, mantido por um jornalista, nenhum outro veículo de comunicação levou a sério os argumentos do autor. “Se colocarmos isso, vamos nos incomodar. É melhor deixar em branco”, me disse um repórter de um jornal. Em contato com a organização, fui informado de que a Jornada reserva espaços tanto para sessões de autógrafos como para lançamentos de obras de autores locais. Segundo a coordenação da Jornada, inúmeros escritores regionais participavam das atividades da programação.

Só tenho quatro coisas para dizer.
Primeiro: inúmeros escritores regionais participavam das atividades? Só se pagassem a inscrição, obviamente.
Segundo: quanto custa mesmo o espaço para a sessão de autógrafos?
Terceiro: o mundo ainda tem salvação.
Quarto: na próxima jornada, meu amigo Júlio, conte comigo.
.
Porque a UPF tem essa marca registrada: qualquer um que não lhe atirar confetes ou for, de um jeito ou de outro, conveniente, pode considerar-se carta fora do baralho.
É uma pena que a instituição patrocine TODOS os meios de comunicação, não possibilitando que pessoas de fora – e às vezes até daqui, de dentro – possam enxergar o que, de fato, acontece ali, e com quais intenções.
A UPF não incentiva nada – não sem ter por trás um plano, que inclui promoção pessoal, dinheiro e interesses, no mínimo, escusos.
E não somente quando se trata de literatura.
Ano passado, por exemplo, o grupo de teatro Viramundos, pertencente à universidade, chegou um belo dia para ensaiar e encontrou um bilhetinho colado na porta da sala de ensaios, que avisava que, depois de 16 anos de estrada e um belíssimo trabalho realizado, o projeto estava cancelado.
Simplesmente, sem maiores explicações, sem respeito, sem nenhuma consideração.
Chutados para fora por um bilhetinho ordinário.
E o pior: a UPF confiscou o nome e a marca do grupo, obrigando todos os artistas a recomeçarem, simplesmente, do zero (o grupo criou o Timbre de Galo, e atualmente excursionam com a peça Auto da Paixão e da Alegria).

Eu, sinceramente, acredito que todos os castelos de areia, com o tempo, ruirão.
Não é possível que embusteiros como estes, que fazem a Jornada e a UPF e tantas outras merdas semelhantes Brasil afora, fiquem para sempre por cima da carne seca, pisoteando em todo mundo, utilizando pessoas e instituições como escada para promover-se e encher o próprio bolso de dinheiro e o próprio ego de massagens.
Um dia, a verdade vem à tona, doa a quem doer, demore o tempo que demorar.
E isto nem chega a ser um desejo.
Trata-se apenas de uma constatação.