25 novembro 2009

Jana versus Psicóloga.

Recebi quatro vezes em um mesmo dia um e-mail intitulado “Psicóloga versus Cazuza”, que trazia as reflexões sobre pais, filhos & limites de uma psicóloga (hã?) chamada Karla Christine (leia o texto aqui).
Segundo ela, a juventude continua transviada porque ninguém lhes diz NÃO.
E para ilustrar seu discurso, utilizou-se da figura do cantor e compositor Cazuza, morto em julho de 1990 vitimado pela Aids, questionando a idolatria dos jovens por um “marginal... traficante”, cuja única diferença com Fernandinho Beira-Mar era o fato de que um “morava na zona sul e o outro não”.
Segundos palavras da própria.

Sobre a parte dos pais, filhos & limites, concordo em gênero, número & grau.
E nem precisa fazer faculdade para saber que a galera anda pirada, sem noção e sem eira nem beira porque os pais não representam mais nenhuma autoridade, não impõe nenhum limite, só sabem passar a mão na cabecinha de seus filhotes e fazer cute-cute.
Cazuza foi, sim, um exemplo de garoto mimado, endinheirado, que se achava o rei da cocada preta e por isso fazia e acontecia, julgando-se imortal, acima das leis, do bem e do mal.
No entanto, estas características não são exclusivas do Cazuza.
Antes, durante e depois dele, sempre existiram e sempre existirão centenas iguais, ou ainda piores, espalhados por aí.
Só eu conheço uns doze.
E isso, claro, é um problema.
Também não é recente a característica milenar de que jovens fazem e acontecem e estão, por natureza, crentes de que são os reis da cocada preta, imortais e acima das leis, do bem e do mal.
O que muda é que alguns têm mais dinheiro e mimo, e outros têm menos, o que ajuda ou piora dependendo da situação.

Juro que não estou defendendo a rebeldia sem causa, que até fora de moda está, só estou dizendo que algumas coisas são realmente características típicas da idade.
São normais e passam, cedo ou tarde.
Quando não passam, o cara geralmente morre, é verdade, mas enfim: na maioria generosa das vezes, chega ao fim sem maiores danos.
E por mais que pais, professores & psicólogos fiquem de cabelos em pé, todos sabem que jovens, drogas & sexo são a combinação mais explosiva e natural que pode existir.
Atire a primeira pedra quem nunca teve 18 anos.

Tem adolescente que não faz nada disso?
Tem.
Tem jovem normal, com uma vida normal, rotina normal, tudo normal?
Tem também.
Mas ninguém pode negar que ser transviada é uma especialidade da idade-adolescência, e é saudável inclusive, quando não extrapola.
Sim, muitas vezes extrapola.
Mas, bem, pessoas extrapolam, e isto possivelmente nunca irá mudar, seja na infância seja na velhice, independente do alvo ou do motivo da extrapolação.

Por isso, penso que Karla, sendo psicóloga, foi muito infeliz em suas colocações.
Não soube externar exatamente o que estava querendo dizer, e deixou uma mensagem bem bacana (sobre pais, filhos & limites) perdida no meio de um monte de abobrinhas baseadas em lugares-comuns - predicado peculiar de pessoas que gostam de teorizar em cima utopias, ignorando sumariamente a realidade.

Meu pai, um dos que me encaminharam o dito e-mail, disse:
- Eu também acho que vocês cultuam ídolos errados.
Tudo bem, papai, não vou contar para ninguém que você é fã do Freddie Mercury.
Ademais, quem foi que disse que ídolos TÊM QUE ser politicamente corretos?
Na maioria das vezes, só são ídolos justamente porque são politicamente incorretos.
E por que os jovens idolatram o incorreto?
Porque a juventude, que cria e destrói ídolos com a mesma facilidade com que toma um copo d’água, quer subverter.
Romper.
Ser calorosamente contra o que seus pais, professores & psicólogos consideram certo.
Entre muitas outras coisas, culpa dos hormônios, vocês entendem.
Mesmo assim, gostaria de perguntar à Karla quem são seus ídolos.

A propósito, o conceito de ídolo da molecada está tão equivocado quanto às apreciações da psicóloga.
O pessoal anda cada vez mais ligado em estilo do que em idéias, e isso têm gerado uma juventude oca e alienada, perigosa para os dias vindouros.
Não basta mais ter um ídolo.
É preciso ser o ídolo.
Vestir-se igual, falar igual, fazer porralouquices igual.
Se ele pular embaixo de um trem? Pule também.
Isso sim é absurdo!
Eu, por exemplo, que sou fã assumida e orgulhosa de Raul Seixas, tento copiar suas idéias, e não seu modo de viver.
Até porque, o artista é uma pessoa igual a qualquer outra, e erra, possui problemas, vícios, envolve-se em confusão, faz sexo, fuma maconha, bate o carro, fica triste, roda a baiana, chora, se descabela, contrai doenças sexualmente transmissíveis.
Igualzinho qualquer um.
Cobrar uma postura irretocável de um ídolo apenas porque ele é um ídolo é covardia.
Antes de ser ídolo, ele é gente como a gente, pô!

Agora, preciso confessar que também saí do cinema um pouco frustrada, pois achei, assim como Karla, que o filme Cazuza - O Tempo Não Pára retratou um lado completamente dispensável da vida do cantor e compositor, deixando de lado passagens importantes, significativas e, porque não dizer, positivas de sua vida.
Cazuza foi um puta de um letrista, poeta-popular-maldito-rock-MPB dos mais notáveis, e isso ninguém pode negar.
Foi também o primeiro artista com culhão para assumir que estava com HIV em uma época que ninguém sequer sabia o que era HIV.
Cazuza escreveu versos sensacionais (“o teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer”), produziu alucinadamente, tinha postura, carisma, talento.
Muito talento.
E boa parte deste talento vinha (veja só!) justamente do fato dele jorrar permanentemente.
E quem jorra, jorra coisas boas e ruins, tudo ao mesmo tempo.
Todo lado negativo tem um lado positivo, e a recíproca é também verdadeira, camaradas.

No e-mail, Karla ainda escreveu: “Cazuza só começou a gravar porque o pai era diretor de uma grande gravadora”.
Discordo.
Se ele era filho de um produtor musical, que sorte a dele.
Se eu fosse filha do dono da Editora Record, que sorte a minha.
Ou eu não poderia ser uma boa escritora só por causa da minha genética?
Não concordo com essa história de transformar sorte em azar.
Não é regra que seja preciso passar fome, apanhar e trabalhar 14 horas por dia para ter talento.
Ou é?
Mesquinho isso.

De qualquer maneira, é fato que os pais do Cazuza e os pais de muita gente erram ao não delimitar regras.
Compreendamos, por fim, pois eles - os pais - viveram na pele e na censura a ditadura em seus tempos áureos, e regimes totalitários costumam deixar seus cidadãos horrorizados com qualquer forma de limitação.
A geração de nossos pais saltou do oito para o oitenta – da repressão incondicional à liberdade irrestrita.
Aliam-se a isto os hormônios, a idade & aquelas coisas todas da juventude, e pronto: temos, mais uma vez, uma geração transviada.
É histórico: coibição ou pleno livre-arbítrio levam a juventude ao rompimento.
Juventude é rompimento, independente do que se faça.
Ou em outras palavras, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Eu, antes de apontar o dedo para os pais do Cazuza, ou de qualquer outro, questiono sim a produção de filmes como O Tempo Não Pára.
Quero dizer, os pais erraram, Cazuza errou, e o filme eternizou estes erros, deixando-os abertos a divagações sobre se são, de fato, erros.
Com isto, não concordo.
É claro, ninguém quer retratar um Cazuza irreal, mas também não precisava esculhambar, e protelar sua arte para exaltar sua rebeldia desorientada, que nada acrescenta de útil a ninguém.
A tevê aberta faz isso há muitos anos, e muitos grandes artistas, cantores, atores, escritores, vêem seu trabalho renegado para segundo plano simplesmente porque possuem alguns vícios e manias detestáveis.
Amy Winehouse está aí, e não me deixa mentir.

Então como resolver isso tudo, enquanto pais, professores & psicólogos?
Como lutar contra a tevê, os filmes, o elogio generalizado à loucura, a pornografia, os exageros, as drogas?
Conversando.
Simples assim.
Tão simples que até assusta: pais deveriam conversar com seus filhos.
Dizer coisas do tipo: olha, meu filhote, Cazuza foi um grande artista, mas muitas coisas que ele fazia eram erradas, e só fizeram mal, principalmente para ele mesmo. Fim.
Tratar ídolos como Cazuza sem o devido respeito pela sua arte, que também seduz muitos jovens, e de maneira muito positiva, é a mesma coisa que dizer aos seus filhos que drogas, por exemplos, são ruins, quando na verdade não são.
Drogas são gostosas, dão prazer, produzem sensações arrebatadoras, mas-porém-todavia-contudo matam, mutilam, aleijam, debilitam.
É preciso mostrar pra criançada e pra juventude os dois lados da moeda, de maneira branca e franca, sem mentir nem omitir nada.
Esta é a melhor maneira de criar jovens livres, porém responsáveis: com inteligência e argumentos críveis.
Fora disso, só existe conjeturas bobas que separam com um oceano a rebeldia exagerada da juventude da caretice exagerada de seus pais.
Incompatibilidade total.
E conversar, ser amigo, ser companheiro, não significa dizer amém e bater palminhas para tudo que o filho faz.

Acho que foi isso que Karla quis dizer, mas não conseguiu.
Quero acreditar que ela se expressou mal quando afirmou, toda convicta e cheia de razão, que entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar a única diferença era a zona sul.
Não, Karla, muitas coisas separam Fernandinho Beira-Mar de Cazuza.
E se você soubesse quais são essas coisas, com certeza se aproximaria muito mais de sua filha adolescente, e entenderia muito mais de pessoas, e certamente ganharia mais dinheiro em seu consultório.

Mas, enfim, isso tudo é só a minha opinião.
É assim que pretendo criar meus filhos, se um dia os tiver.
Com verdade, transparência e honestidade, sem cair na caretice que cega, nem na maluquice, que cega também.
E que o senhor tenha piedade.