21 outubro 2009

Querido Blogue:

Um belo dia, estava em casa muito da sossegada quando bateram na minha porta:
Toc, toc, toc.
- Quem é? – perguntei, inocentemente.
Do outro lado, uma voz ameaçadora respondeu:
- É o caaaooos.
Não consegui impedi-lo de entrar.
Na verdade, costumamos falar mal dele, do Caos, mas, às vezes, muito às vezes, ele vem para o bem.
Bagunça tudo para descobrirmos um jeito diferente de arrumar a sala.
Coloca-nos de cabeça para baixo para que possamos perceber que existem outros pontos de vista, além deste, de sempre.
Enfim, é bacana.
As coisas, no final das contas, acabam sempre tendo um lado positivo.
Óquei, admito, sou uma otimista incorrigível.
Mas pelo menos a minha testa não está cheia de rugas de preocupação, hohoho.

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Bem.
Como eu dizia, reclamamos da rotina, mas tire-nos dela para ver o escarcéu que arrumamos.
Por mais que digamos que não, querido blogue, somos sim escravos de nossos hábitos e costumes. Sair deles, seguros e óbvios, significa pisar em terreno desconhecido, e daí já viu, né?
Borramos as calças.
Estou enrolando só para dizer que não quero mais saber de cidade grande.
Sou uma provinciana sim, e admito, e tenho idéias de velhas corocas e sou feliz assim, qual o problema?
Quero uma casa numa cidade minúscula onde eu possa plantar meus amigos, meus discos, meus livros e nada mais.
Ou não posso?
Adiós metrópole.
Me despeço antes de chegar, e sorrindo.
- Mas, Jana, e se isso comprometer seu futuro profissional???
Paciência.
Não podemos ter tudo na vida.

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Então eu viajei.
Fiquei uns dez dias fora, falando abobrinha, passeando na beira do rio, comendo pão de queijo e sendo picada por insetos sedentos por sangue.
Nem acessei a internet, em protesto.
Quando voltei, me senti como a mãe que deixa os 5 filhos pentelhos sozinhos e quando volta de viagem descobre que os moleques amarraram a babá na despensa e devastaram sua casa impiedosamente.
Um milhão de e-mails – sendo 999 mil oitocentos e cinqüenta spamns:
1. Descubro, em franco desespero, que perdi a data para fazer as correções do meu texto e da minha mini-biografia para a coletânea Galeria do Sobrenatural – Jornadas Além da Imaginação.
2. Dou-me conta de que divulguei a lista dos contos selecionados para a Assassinos S/A Volume II deixando de fora o nome de um autor.
3. Um leitor escreveu me chamando de pretensiosa, metida a besta e arrogante, e eu tive a idéia de acrescentar a palavra arrogante na descrição do meu blogue, ali em cima.
Fiquei com preguiça e não respondi pra ele.
4. Outra leitora me mandou detetizar minha casa, e perguntou se, por acaso, eu moro em um chiqueiro cheio de aranhas e lacraias. Rarara. Essa eu achei engraçada, mas resolvi não responder também porque não me ocorreu nenhum trocadilho brilhante.
Preciso urgentemente voltar a ler as Anedotas do Pasquim.

Meu pai, querido blogue, preferiu uma cerca elétrica de alta voltagem ao cachorrinho furioso, carnívoro e homicida que pretendia trazer para expulsar os ladrõezinhos que, por estas bandas, se acostumaram a pular os muros e roubar coisas alheias, como notebuques, por exemplo.
Semana passada, tentaram arrombar a casa do vizinho aqui do lado, e na retrasada, entraram na casa do outro vizinho, de manhã. Também subiram até o quarto andar de um edifício e assaltaram um apartamento.
Ontem, um puto cuja mãe trabalha na zona passou aqui em casa pra pedir comida e cigarro, e depois invadiu o prédio na esquina da minha casa, e eu vi, chamei a polícia, mas o desgraçado fugiu pela basculante, e... Enfim.
É a festa bundalelê da bandidagem.
Traficantes enriquecendo.
Morram.

Sabe, blogue amigo, é complicado manter nosso senso de justiça, caridade, fraternidade e solidariedade quando pisam em nosso calos.
Inclusive me criticaram, dizendo que eu fazia errado desejando que todos os fumadores de pedra se explodissem agonizantes, mas... o que devo desejar?
Quando roubam o computador dos outros até acho que devemos compreender que a sociedade falida cria seus algozes, mas quando roubam o meu, quero mais é que todos vão para o inferno sem escala, incluindo a sociedade falida, os direitos humanos, a desigualdade social – da qual sou militante ativa - e toda a porra do resto.
Abafa.

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Pois então, blogue.
Este é um post absolutamente sem fundamento, mas e daí?
Tudo anda meio sem fundamento.
Sabia que um condenado a morte resistiu a dezoitos tentativas de injeções letais, e está mais vivo do que eu?
E que um garotinho de 2 anos tem um QI de 160 – igual do Einstein, aquele fodão – e o moleque disse que “era contra o corte de pinheiros para fazer árvores de natal”. Com dois anos? Ele sabe mais palavras que eu.
O que quero dizer é que isso tudo também não faz sentido nem tem nenhum fundamento, tal e qual este post, tal e qual a vida, tal e qual eu e você.
Ops, filosofei.

Bem, blogue, valeu pela atenção.
Hoje em dia, este é um item raro, caro e disputado.
Mas vou encerrando aqui por plena falta de assunto.
Isto é, assunto até tem, eu é que...
Ah, deixa pra lá.

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Toc, toc, toc.
Quem é?