01 setembro 2009

Sobre o que somos, sobre o que devemos ser.

Por aqui, não é nenhuma novidade que sou colorada.
Desde pequenininha.
Quando nasci, lá no início de 85, o Internacional já havia passado por sua fase de ouro e, então, amargava um momento pouco auspicioso.
Não importava.
Eu era colorada, sou colorada, serei colorada até morrer e, muito provavelmente, depois da morte continuarei sendo também.
Acompanhei, minha infância inteira, meu time querido perder consecutivamente, enquanto seu arquiinimigo Grêmio desfrutava de anos gloriosos.
Era terrível.
Mas time, assim como pai e mãe, a gente não escolhe.
A gente simplesmente tem, e ama.
Sem mais.

Porém, aos poucos, meu colorado querido foi se recuperando, se estabilizando, se reerguendo e, um belo dia, aconteceu: era 17 de dezembro de 2006.
Final do Mundial de Clubes, Inter versus Barcelona.
Eu era só sorrisos.
Nem pensava no título.
Para mim, o simples fato de estarmos ali, campeão da Libertadores, disputando a final do mundial com um time do porte do Barcelona, já era sair vitorioso.
Graças a Deus, não era o que pensavam os jogadores, que queriam muito mais.
E por isso nós ganhamos dos caras, rapaz!
Com um único gol, que saiu lá pelos meados do segundo tempo.
Naquele dia, eu entendi exatamente o que era torcer por um time e carregá-lo dentro de si.
Já havia passado, ao lado do Inter, os piores momentos, mas agora, olha o que ele me dava de presente: o título do mundial.
Na passeata e nas comemorações, que taparam o Rio Grande do Sul de vermelho, dava para ver no rosto de cada colorado o júbilo de saber que, para chegarmos ali, foi preciso suar a camisa, e passar por fases ruins, fases péssimas, fases medianas.
Fases que, por pior que fossem, não tiraram o colorado de nosso coração.
Muito pelo contrário.
Sofremos, perdemos, quase fomos rebaixados duas vezes, enfrentamos dificuldades financeiras, vimos nosso rival vencer e vencer e vencer.
Mas chegamos lá.
Éramos os campeões.
Do mundo!
O Inter, ao final, não nos decepcionou.

E, deste dia tão fabuloso e especial, do qual jamais irei esquecer, uma imagem sintetizou todos nós, colorados.
Uma imagem que dizia: nada, nada vai nos separar.
Era Fernandão, nosso capitão, erguendo a taça lá no Japão, em seu rosto desenhado todos os sentimentos que passavam aqui, dentro de mim e, tenho certeza absoluta, dentro de todos os outros torcedores vermelho e branco que enchiam a cara, choravam e se descabelavam de felicidade no meio da avenida: éramos os campeões.
Fernandão, para mim, sou eu no dia do triunfo.
Não que eu não valorize os outros jogadores – em especial Gabiru, o cara que fez o gol da vitória na grande final.
Mas Fernandão era o colorado de verdade.
Não estava ali só por causa de um salário cheio de zeros, nem só por conveniência, nem só por profissionalismo.
Ele era o capitão do time que, assim como eu, carregava no coração.
Dava para ver em seus olhos, dava quase para sentir suas pulsações.
Fernandão ergueu a taça por mim, pelo meu pai, minha mãe, meu futuro namorado.
Por todos nós, colorados.
A glória.
Foi a glória.

Porém, um dia, Fernandão teve que ir embora.
Recebeu uma proposta irrecusável de um time gringo, fez suas malinhas, entrou num avião e se foi.
Mas antes, ele chorou.
Chorou porque era colorado, e deixar seu time para trás era-lhe por demais doloroso.
E eu, e toda a massa vermelha e branca, choramos junto com ele.
Fica Fernandão, alguns ainda tentaram, com cartazes e súplicas na internet.
Mas ele já tinha ido.

O tempo passou, como sempre passa, e num belo dia ele voltou.
Queria voltar a jogar no Brasil, e aguardava uma proposta do Inter, é claro que sim.
Mas o Inter estava outra vez no Japão, disputando agora a Copa Suruga e, por motivos que desconheço, quando nossa delegação chegou de volta ao Brasil, Fernandão já havia fechado com o Goiás - time que, aliás, o revelou.
Consternação.
Ninguém queria acreditar que ele, justamente ele, nosso capitão, o cara que representou todos nós, colorados, naquele dia lindo e ensolarado de dezembro de 2006, estava agora vestindo um uniforme verde e defendendo outra bandeira, outro distintivo.
Outro time.
Não sei o que os outros torcedores sentiram, mas para mim foi como pegar meu marido com outra, na minha cama, no dia do nosso aniversário de casamento.
Aquilo não estava certo, não era justo, não podia ser.
Mas era.
Fazer o que?

Neste último domingo e por causa das artimanhas da vida e do futebol, Internacional e Goiás acabaram se enfrentando no Beira Rio.
E Fernandão, com sua camiseta verde, precisou voltar ao Rio Grande do Sul, voltar ao Beira Rio – sua casa, durante tanto tempo – e, pior: voltar a encarar a nação vermelha que sempre o festejou.
Só que, desta vez, jogando contra.
Imagino o quanto isso deve lhe ter sido difícil.
Se foi para mim, que dirá para ele.
Para piorar, tão logo nosso capitão, isto é, nosso ex-capitão, colocou os pés em cima do gramado e a torcida, sua velha companheira, o ovacionou.
Sim!
Apesar da camiseta verde, apesar do Goiás estar 4 pontos à nossa frente na tabela do Brasileirão, um Beira Rio com mais de 30 mil torcedores o ovacionou, o aplaudiu e, por alguns momentos, imaginou reviver a glória de tê-lo entre os nossos.
Mas não, ele agora vestia verde.
Agora jogava contra nós.
E bastou o juiz apitar o início da partida e Fernandão encostar o pé na bola que a mesma torcida, que o celebrava segundos antes, precisou vaiá-lo.
Ora, somos colorados, torcemos pelo Inter, não pelo Fernandão.
E então, sua cabeça, que já deveria estar afogada em emoções e lembranças, entrou em colapso.
Tanto que, aos 13 minutos de jogo do primeiro tempo, com o Goiás já perdendo por um a zero, Fernandão, sempre pacífico e reconhecido pelo seu equilíbrio dentro de campo, sucumbiu.
Numa jogada esquisita, empurrou Magrão e acabou expulso do jogo.
Saiu mudo, se trancou no vestiário e ninguém mais viu Fernandão naquele domingo estranho.

Surgiram mil especulações.
O que aconteceu?
Fernandão forçou a própria saída?
O que sentiu o ex-grande líder do Internacional, o sujeito que fez todos os colorados chorarem e todos os gremistas sorrirem quando foi embora?
Eu sei a resposta.
Fernandão é colorado.
Ele não está colorado, apenas enquanto um contrato mantém-se em vigor.
O que ele sente pelo Inter, pelo Beira Rio e, principalmente, por toda aquela multidão vermelha, não muda por causa da cor de uma camiseta.
É claro, Fernandão é um jogador profissional.
Foi para o Goiás, e o defenderá com unhas e dentes, tenho certeza absoluta disso.
Mas não contra o Inter.
Não contra o time que está dentro do seu coração.
Não contra aquela torcida linda e apaixonada, que gritava em exaltações Uh, terror, Fernandão é matador!

Porque escrevi tudo isso?
Primeiro, para homenagear Fernandão.
Gosto dele pacas.
Segundo, porque este é um exemplo clássico e seguro de uma pessoa que é.
Simplesmente é.
Ela não está, apenas, ela não finge, ela não interpreta.
Ela é.
Ela é em cada minúscula parte de seu corpo, ela é em seus poros, em suas células, em seu coração, em seu cérebro, em sua racionalidade e irracionalidade, consciência e inconsciência, dentro e fora e dos lados.
E, em se tratando de Inter, eu também sou, tal e qual o Fernandão.
E por isso o entendo: nem sempre a vida está em compatibilidade com aquilo que somos.
Muitas vezes precisamos esconder o que vai aqui dentro, disfarçar, assobiar, até fazer o que não queremos ou não gostamos, porque é preciso, porque é coerente, porque é o correto.
Mas lá dentro, lá dentro nada muda.
O que somos em nossa essência continua intocado, puro, preservado, resguardado como uma jóia rara.
E não importa o que a gente faça, o quanto dissimulemos, o quanto tentemos nos libertar: somos e pronto.
E por esta sinceridade quanto àquilo que se é e se sente, é que não somente compreendo como respeito o que aconteceu com Fernandão no último domingo, lá no Beira Rio.
Pois, por mais que disfarcemos, tem horas que aquilo que vai em nosso coração transborda.
Entra em erupção.
E só nos resta sair em silêncio, como ele fez, e tentar entender o que não dá para entender.

Obrigada Fernandão.
De camiseta verde ou vermelha e branca, você sempre será um dos nossos.