18 setembro 2009

Os Direitos dos Maledicentes.

Uma das coisas mais importantes que minha mãe me ensinou foi: se não tiver nada de bom para dizer, não diga.
Um ensinamento simples, que tornaria a vida de todos mais feliz e bela, mas que parece difícil de ser colocado em prática.
Por exemplo: você foi a uma exposição de quadros, e não gostou do que encontrou por lá.
Achou o trabalho do artista fraco, superficial, quase inconveniente.
Legal, você tem esse direito.
Vivemos em uma sociedade livre, a democracia está em voga, todo mundo pode e deve e precisa ter sua opinião, livre de qualquer interferência e manipulação.
Até aqui, tudo bem.
Mas então, você, com suas opiniões, resolve ir até o artista e lhe dizer pessoalmente que achou seus quadros fracos, superficiais, quase inconvenientes.
E eu pergunto, por quê?
O artista vai ficar chateado, talvez até um pouco desmotivado.
Quem sabe, quando estiver pintando seu próximo quadro, lembre de seu julgamento ferino e até se sinta um pouco censurado.
Pode ser que ele passe uns dois dias tristes, só porque causa de você.
Mesmo que ele tenha recebido vinte elogios e uma só farpa – a sua – , é da sua apreciação negativa que ele vai lembrar.
Então por que criar esta situação desagradável?
Para que?
Com qual finalidade?
Nenhuma, além de ferir.
Poucas, muito poucas críticas são verdadeiramente construtivas.
A maioria das pessoas não sabe criticar sem ofender.

Com o E-Blogue.com (in memorian), o 3:AM Magazine e a coletânea de contos policiais Assassinos S/A que organizo, recebo uma porrada de textos: alguns ruins, outros muito ruins, e uns bons, muito bons, quase geniais.
É normal.
São oportunidades de publicação que eu abri, por livre e espontânea vontade, para quem quiser participar, e é óbvio que não somente grandes e primorosos escritores entrarão em contato.
Quando recebo um texto ruim, ou que não gosto (essa coisa de bom e ruim, aliás, é muito relativa, e o que eu posso achar uma bela merda pode ser, para você, uma grande obra, e vice versa), o que eu faço?
Eu descarto.
Pronto, simples assim.
Eu nunca mandei um e-mail dizendo: “Fulano, seu texto está cheio de defeitos e falhas, em suma, é ruim. Aprenda a escrever primeiro antes de querer se meter com literatura”.
E porque eu nunca fiz isso?
Resposta óbvia: porque não tenho esse direito.
Porque, como disse acima, talvez eu não tenha gostado, mas essa é somente a minha opinião.
Como o E-Blogue, o 3:AM e a Assassinos S/A são editorados e organizados por mim, tenho o direito de excluir um material que não gostei, mas nunca, jamais, sob nenhuma hipótese, tenho o direito de pisotear o autor e sua obra.
Se eu fizer isso, talvez o pobre se sinta desmotivado, censurado, entristecido, e até pare de escrever.
Tudo por causa da minha preciosa e absolutamente dispensável opinião.
E não quero ser eu a responsável pela morte nem o esculacho de nenhum artista, por mais que não goste do seu trabalho.
É preciso ter, acima de tudo, respeito - que conserva a amizade e os dentes, como muito sabidamente já foi dito.

Agora vocês me perguntam: mas Jana, porque você está escrevendo tudo isso?
Explico.
Antes de encontrar a Multifoco, estava mega desanimada com esse negócio de publicar.
Andava com os originais do Benjamin embaixo do braço, e tudo o que encontrava eram recusas ou propostas orçamentárias delirantes.
No desespero, pensei: vou escrever um livro-diário sobre as aventuras e desventuras de uma personagem contraditória e egoísta que faz merdas em série.
Sim, isso é um filão de mercado - fato.
Já vi adolescentes rebeldes, que passam o dia inteiro fazendo discursos revoltados e de noite vão pra casa comer a macarronada da mamãe, se alçarem como novas estrelas da literatura mundial graças as suas protagonistas contraditórias e egoístas que fazem merdas em série.
Não gosto de clichês, mas no amor e na guerra vale tudo.
Escrevi a história, apelidei a protagonista de Salomé e, relativamente feliz com o resultado (escrever lugares-comuns não chega a ser a maior dificuldade do mundo) fui atrás de tentar publicá-la.
Porém, havia recém enviado o original para uma editora quando veio a oportunidade da Multifoco, e sem pensar lhes encaminhei Benjamin – meu carro-chefe literário, digamos assim.
A Salomé ficou aqui, engavetada, quietinha.
E como continuei escrevendo e etc, pensei em mantê-la mesmo no anonimato – ora, ela era um clichê e, se agora tenho oportunidade, tentarei fugir dos chavões, na medida do possível.
Um belo dia, encontrei na rede mundial uma editora que lança livros pela internet.
E-books, sacam?
E, além disso, disponibilizam literatura no celular, e em outros formatos também.
Uma idéia bem interessante.
Como não tinha nada a perder, resolvi mandar os originais da Salomé.
E foi o que fiz.
Hoje recebi uma resposta amistosa na minha caixa de entrada, a qual reproduzo abaixo, na íntegra, apenas retirando o nome da editora e do editor – até porque isso aqui não é o programa da Marcia Goldschmidt.

“Jana, bom dia.

Estava lendo seu livro, que você enviou para nós dia 07 de setembro, e gostaria de fazer algumas observações.

Seu texto está muito bem escrito, o que é um grande mérito. A história, porém, me pareceu inacabada em muitos sentidos.

A protagonista é antipática, egocêntrica e não me conquistou. Uma coisa, por exemplo, é Henry Chinaski (Bukowski) descrevendo uma bebedeira ou narrando sua vida auto-centrada: o personagem é bem construído, conta histórias de si mesmo com verossimilhança, e mesmo sendo nojento desperta a empatia do leitor. Salomé é simplesmente uma burguesinha metida a besta, sem nenhuma reflexão e com uma visão estreita da vida - ou seja, ela cai no estereótipo.

Além disso, sua família age na história como um deus ex-machina, mudando o curso da trama de forma abrupta, quando deixa a grana e quando retorna da viagem. A personagem, em si, não demonstra a complexidade necessária para segurar a narrativa.

Enfim, acredito que o livro ainda precisa de muito trabalho, para atacar essas fraquezas.

Um abraço.”

Óquei.
É um direito do editor e também da editora não gostarem da Salomé, nem da sua história, nem de nada, e se recusar a publicá-la.
Eles podem achá-la antipática e estereotipada (ela é mesmo), e podem dizer: "Pô, essa tal de Janaína Lauxen mandou uma merda de um livro, não escreve porcaria nenhuma, tá fora."
Podem, evidentemente que podem.
Não só podem como devem.
Como já escrevi ali em cima, eles têm esse direito.
Repito: vivemos em uma sociedade livre, a democracia está em voga, todo mundo pode e deve e precisa ter sua opinião, livre de qualquer interferência e manipulação.
Agora, pra que me mandar esse e-mail, Sr. Editor?
Pra que ir até o pintor lhe dizer que achou seu trabalho fraco e superficial?
Simplesmente diga: “Oi, seus originais não foram aprovados pelo nosso conselho editorial. Tchau e PT saudações”.
Pronto!
Ou ainda: não responda nada.
Delete o arquivo do livro e fim.
Tá resolvido o problema sem que ninguém saia sorumbático.
Mas não.
O editor achou que, além de dizer que o original não estava aprovado, ele deveria também dar sua primorosa opinião (que, lembrando, é só e nada mais, uma opinião).
Por sorte, sou pretensiosa e ainda mais metida a besta que Salomé, para não me deixar abalar.
Posso até não escrever magistralmente, mas é a única coisa que sei fazer mais ou menos bem, e por isso continuarei fazendo, sem cair do cavalo.
Já recebi quilos de críticas e opiniões negativas, de um N números de leitores, críticos, editores e Cia. Ltda., e tiro de letra.
Sei que toda unanimidade é burra, além de não existir.
Se nem Jesus Cristo agradou todo mundo, não seria eu que agradaria.
Mas isso sou eu.
E se por acaso eu fosse uma menina de 18 anos, ainda insegura, tentando pela primeira vez publicar seus escritos, e um sujeito me escreve dizendo tudo o que o Sr. Editor disse no e-mail?
Esse cara poderia estar matando uma futura escritora, entendem?
E, de boa, na minha opinião, nem ele nem ninguém têm esse direito.
Ele tem, sim, o direito e até mesmo o dever de não gostar, não aprovar, achar uma porcaria, mas não tem o direito de desmoralizar o trabalho alheio.
É por isso que eu, consciente que sou uma pessoa comum, com opiniões comuns, não respondo aos autores cujos textos não gostei pisoteando na literatura deles.
Pelo contrário.
Quando algum deles me escreve querendo saber por que seu texto não entrou, eu digo que foi porque havia muitos textos bons, e porque foi muito difícil de escolher o melhor, mas que numa próxima, quem sabe?
E deu.
O autor fica feliz, eu fico feliz, todo mundo fica feliz.

E isso vale pra todas as pessoas que andam sobre a terra, não só para editores.
Se você entrou num blogue e leu um texto e não gostou, porque vai escrever para o blogueiro espezinhando seu texto?
Apenas clique naquele X, no canto direito superior da tela do seu computador, e feche a página.
Pronto, problema resolvido.

Lembrem-se, crianças: se não tiver nada de bom para dizer, não diga.
Ficadica.
Tchau e PT saudações.