24 setembro 2009

A Lição.

Este é mais um assunto sobre o qual, num primeiro momento, me neguei a comentar.
Cansa um pouco ficar repetindo o óbvio, mas enfim, vamos lá:
Aconteceu aqui no Rio Grande do Sul, numa escolinha pobre de um bairro igualmente pobre de Viamão: alunos, pais e professores se reuniram em um mutirão, no feriado de sete de setembro, para pintar e ajeitar a escola, que estava mais pra lá do que pra cá.
Passaram o dia inteiro com pincel e latas de tintas à mão, tudo para criar um ambiente mais agradável e higiênico para as aulas, e os alunos, e os professores.
Até aqui, tudo normal.
Porém, um aluninho imbecil que não colaborou com o mutirão, decidiu, poucos dias depois, pichar seu lindo nome nas paredes recém pintadas do colégio, deixando tudo uma bela porcaria outra vez.
Após uma semana de investigação, chegaram ao tal aluninho e, sem pestanejar, a professora lhe deu tinta e pincel e o obrigou a limpar a merda que fez nas paredes da escola.
O menino passou um bom tempo pintando e pintando, mas não perdeu a cara de deboche e, enquanto a professora o acompanhava no trabalho de restauração, o moleque ficou lá, sorriso sarcástico, zombando da profe e, automaticamente, de todo mundo que alguns dias atrás participou do mutirão.
Irritadíssima, a profe, que se chama Denise, o chamou de bobo da corte, dizendo na frente de todos os outros coleguinhas que ele estava fazendo papel de palhaço.
Então outros aluninhos filmaram tudo e feito!
Criou-se uma polêmica.
Acreditem, meus caros amigos: faz uma semana que todos os meios de comunicação e rodas de conversas estão debatendo este assunto que, para mim, pelo menos, não tem absolutamente nada de polêmico.
Polêmica vocês iam ver se fosse eu a professora, mas enfim.
Isso é outra conversa.
O fato é que surgiram mil e um pedagogos, supervisores escolares, representantes dos direitos humanos e do conselho tutelar e todos estes inúteis que não sabem nada, só teorias, para dizer que a professora exagerou, que o aluninho (pobrezinho!) poderia ficar traumatizado, frustrado, deprimido e um monte de outras bobagens.
Até a mãe do mala apareceu na tevê, para dizer que seu filhinho querido do coração estava muito triste e envergonhado, e que ganhou o trágico apelido de bobo da corte e agora não quer mais ir para a escola.
Hã?
Como assim?
Se ele está triste e envergonhado, menos mal; porque sua atitude ao pichar um trabalho que toda a comunidade se mobilizou para realizar é motivo mais do que nobre para ficar triste e envergonhado.
Ganhou o apelido de bobo da corte?
Bem feito.
Fez papel de bobo mesmo, logo, como bobo deve ser reconhecido.
Não quer mais ir para a escola?
Faria um favor se não fosse mais, mas isso também passa, é só um achaque de adolescente.
Mas sabem o que fode com tudo, mesmo?
Os teóricos.
Odeio-os com todas as forças das minhas entranhas, e olha que eles existem aos litros por aí.
Gente que não sabe nada sobre a realidade, e conhece a vida apenas a partir do que dizem os livros, escritos por pessoas que também não sabem nada sobre a realidade.
Gente que escreve sobre a favela sem nunca ter passado na frente de uma, gente que quer dar pitacos sobre professores e alunos e nunca entrou em uma sala de aula, gente que quer palpitar sobre drogas e drogados e não sabem a diferença entre maconha e cocaína.
Teóricos, teorias, teorizações.
Em suma: não servem para nada, porque não sabem de nada.
Falam sobre como as coisas deveriam ser, e não como são – logo, são mais inúteis que uma peneira na hora de tapar o sol.
E depois ninguém entende por que a juventude está descendo desenfreada ladeira abaixo, sem limites e, o pior: sem respeito por ninguém.
Eu não sou uma reacionária maluca que acredita que as coisas se resolvam sempre na base da força e da violência, mas também não sou uma romântica alienada que pensa que, conversando com carinho e educação e passando a mão na cabecinha, resolveremos todos os problemas da humanidade.
Acabo de lembrar de um exemplo que ilustra muitíssimo bem esta questão.
Houve uma vez um sujeito, conhecido meu, que decidiu usar drogas.
Sim, ele decidiu e não pediu a opinião de ninguém.
Passou a fumar, cheirar e injetar tudo que encontrava pela frente.
Junto com isso, passou também a roubar dinheiro dos pais, tentou vender a televisão e até agredir a mãe.
Um dia, o pai, que é granjeiro, de saco cheio daquela palhaçada toda, pegou o piá pelos cabelos, o arrastou até o paiol de sua fazenda, e acorrentou o infeliz num poste.
Deu dois quilos de milho para o vivente debulhar e ali o deixou.
Todo mundo se manifestou: que barbaridade!, que violência!, que absurdo!, alô, é dos direitos humanos?
O pai deu de ombros e manteve o guri lá, acorrentado e debulhando milho.
Ele só ganharia comida se debulhasse todos os milhos para o pai, e papo encerrado.
As pessoas deram mais alguns gritinhos histéricos, mas ninguém conseguiu convencer o velho pai a soltar o guri – nem mesmo a mãe.
Se passaram dois meses.
Sim, dois meses.
60 dias amarrado num paiol, debulhando milho para poder comer.
Então, um dia, o gurizão disse para o pai que gostaria de ajudá-lo na granja, na colheita, no trabalho, enfim: estava querendo fazer alguma coisa útil, não agüentava mais ficar ali acorrentando e debulhando milho.
O pai, que não é um carrasco - apesar do que muitos disseram - soltou o filho, ele subiu num trator, e hoje, alguns anos depois do acontecido, estão todos felizes: o menino trabalhando, sem usar drogas, e os pais contentes, sem precisar se preocupar com as moedinhas que deixaram em cima da tevê, nem com a própria tevê.
E todos aqueles chatos, que queriam chamar a imprensa e os direitos humanos e o conselho tutelar para punir papai tão malvado, hoje aplaudem a atitude do velho, dizendo que “veja só, realmente resolveu”.
Claro que resolveu, manézões!!!!
Tenho certeza que o infeliz vai pensar quinhentas vezes antes de usar drogas novamente, do mesmo jeito que o bobo da corte de Viamão vai pensar quinhentas vezes antes de pegar um spray e esculhambar com o trabalho alheio.
É exagero, falta de respeito, humilhação?
Pois eu acho que exagero, falta de respeito e humilhação é você trabalhar como um condenado para que seu filho entregue tudo para traficantes filhos da puta, e ainda agrida sua mãe.
Exagero, falta de respeito e humilhação é você desprezar o trabalho de toda uma comunidade, pobre, que usou seu dia de descanso para melhorar a escola, e ir lá escrever seu lindo nome nas paredes pintadas e limpas.
Não confundam as coisas, amigos.
A juventude está do jeito que está por causa de pessoas que pensam que tudo irá traumatizar e deprimir os jovens.
Não traumatiza e não deprime.
Ensina.
Alguém já disse que educamos mais a partir do NÃO do que do SIM, mas parece difícil de entender o óbvio.
Em resumo: tô com a professora Denise e não abro.
Tô com o pai do drogado (agora ex-drogado) e não abro.
E está para nascer quem irá me convencer de que eu não estou certa.
Sabem por quê?
Porque contra fatos não existem argumentos.
O piá, que citei de exemplo, hoje é um guri decente, nada traumatizado, super tranqüilo.
E esse aí, da escolinha de Viamão, vai pensar melhor antes de sair por aí fazendo merda nos muros e paredes brancas da comunidade.
Palavras movem, exemplos arrastam.
Mas sentir na própria pele os efeitos de nossas ações erradas, faz a gente não esquecer a lição nunca mais.