13 setembro 2009

Ceguinho.

Ele apareceu aqui em casa ainda pequenino.
Foi abandonado displicentemente na minha rua, provavelmente por alguém desprovido de coração.
Um gatinho charmoso, felpudo, dengoso até demais e... cego.
Não, não podíamos ficar com ele.
Já tínhamos uma gata, e também um cachorro.
Mas o que fazer, então?
Abandoná-lo a própria sorte, outra vez?
Acabamos, é claro, o adotando, e dando-lhe o singelo nome de Hey Charles – nome este que não pegou, e o bichinho acabou nomeado Ceguinho mesmo.
Um jeito doce de tratá-lo.
Por ser cego, Ceguinho ficava preso a uma coleira, grande o suficiente para que pudesse passear e brincar, mas curta o bastante para que não conseguisse fugir e se perder.
Nosso cachorro, o estimado Zé, o adotou como amiguinho, e com ele brincava, e dele cuidava como se fossem irmãos.
Era bonito de ver.
Um dia, levamos Ceguinho ao veterinário, e descobrimos que sua cegueira não foi um ato covarde e cruel de algum filho-da-mãe: era uma inflamação congênita, provavelmente vinda de berço.
E por causa desta inflamação, virava e mexia Ceguinho passava mal.
Hora melhorava, hora piorava, e seu estômago era tão sensível quanto seus olhinhos vãos.
Mas nada disso o impediu de ser um grande gato, o maior, o melhor, o mais querido, o mais brincalhão, o mais amado.
No entanto, há cerca de dez dias, Ceguinho amuou-se.
Parou de comer e começou a urinar sangue.
Levamos ele de volta ao veterinário, que receitou alguns remédios que ele simplesmente se recusou a tomar.
Ficava o dia inteiro deitadinho, dormindo, quietinho.
Não dava um miado sequer.
Quando sua urina voltou a se normalizar, nos enchemos de esperança.
Ele vai sobreviver, ele é guerreiro, ele é forte, ele vai conseguir mais uma vez!
Mas, que nada!
Hoje de tarde, meu Ceguinho morreu.
Dormindo, sem emitir um grunhidozinho.
E minha casa, meu pátio, meus pais, meu marido e meu cachorro ficaram mais tristes.
Eu também fiquei mais triste.
Vai fazer uma falta danada sua coleira arrastando pelo quintal, e suas brincadeiras com o Zé, e sua extrema carência, que o fazia correr para o nosso colo toda vez que nos via.
Vai fazer falta o jeito como ele tentava enamorar-se de minha gata, que nunca dava-lhe bola, e vai fazer falta a maneira como se arremessava contra as folhagens, a brincar.
Vai fazer falta vê-lo cobiçar os passarinhos em cima dos fios de luz, e seus miadinhos pedindo atenção.
Vai fazer uma puta falta recolhê-lo todas as noites para dentro de sua casa, para sua cama, para o seu lar.
Ah Ceguinho, como você vai fazer falta pra mim.
Meu gatinho querido, que era melhor que a maioria das pessoas que encontro por aí, e me ensinou um tanto de coisas sobre a vida.
Sim, um animalzinho, como tantos que andam por aí, é capaz de mostrar aos mais atentos tudo aquilo que gostaríamos de entender e nunca conseguimos.
Meu grande e pequenino amigo, sei que agora estás bem.
Em um lugar cheio de amiguinhos e de elementais, com um pátio bem grande para correr e brincar, sem nenhuma coleira a impedir sua liberdade, sem nenhuma cegueira a impedir seu olhar.
O céu dos gatinhos está em festa para recebê-lo, e disso eu tenho certeza.
Daqui, de dentro do meu coração (que agora aperta, igual a um sapato dois números menor que o pé), você não sairá jamais.
À-deus, meu bom e velho amigo.