12 agosto 2009

Maria.

Tem uma moça, chamada Maria, que uma vez por semana vem fazer faxina aqui em casa.
Ela é muito bacana, e acabamos todos nos afeiçoando muito a ela.
Maria tem 37 anos, sete filhos e – pasmem – um neto.
E, ao contrário de muitas, não traz estampado na cara a vida difícil que sempre levou.
É - isso sim - uma gatona, muito mais inteira do que a maioria dessas menininhas que andam por aí de peito estufado se achando gatinhas.
Também é inteligente, articulada, querida.
E guerreira.
Está sempre na batalha, a Maria, e está sempre sorrindo.
Faz, inclusive, com que eu me sinta péssima, muitas vezes.
Porque tem horas que estou mal humorada, azeda, reclamando da vida e de tudo ao meu redor, e de repente ela aparece, cheia de motivos para estar mal humorada e azeda e reclamando de tudo ao seu redor.
E não está.
Enfim.
Destes sete filhos de Maria, um resolveu fumar crack.
E fumou, e está fumando cada dia mais.
Já começou a roubar e já se tornou agressivo e toda aquela velha história.
Maria procurou a prefeitura, o conselho tutelar, associações, ONGs, Jesus Cristo.
Tudo para ver se encontrava alguma ajuda, uma vaga, uma luz no fim do túnel.
Não encontrou nada.
E ainda precisou ouvir que, para arrumar um lugar numa clínica de reabilitação, o viciado deveria ter, pelo menos, uma passagem na polícia.
Ou dinheiro, para pagar uma particular.
Dá para acreditar?
Dá.

Sem alternativas, a vida de Maria seguiu.
O que mais poderia fazer?
Continuou trabalhando, todo dia, de manhã até de noite, e cuidando dos outros seis filhos, e de sua casa, e de sua vida, e de sua mãe que está no hospital, e de seu neto.
Então, um dia, um vizinho lhe procurou contando que havia visto seu filho - aquele que resolveu fumar crack - roubando algumas roupas do seu varal.
Maria disse: denuncie.
O que mais poderia dizer?
E o vizinho denunciou.
O rapaz foi preso, mas, por ser menor de idade, acabou solto dois dias depois.

Agora tentem adivinhar quem, a esta altura do campeonato, resolveu se manifestar?
Oh, é claro que sim!
Eles.
Os queridinhos do Conselho Tutelar.
Para ajudar Maria?
Para oferecer uma vaga em uma clínica de reabilitação?
Para dar um apoio moral, uma palavra de incentivo, um biscoito?
Não.
Para processá-la.
Acreditem se quiser, meus caros, Maria está sendo processada por abandono de menor; por ser uma mãe relapsa e descuidada que, ao invés de passar 24 horas por dia cuidando do filho adolescente, sai para trabalhar e trazer comida para dentro de casa.
Tiveram, inclusive, a gentileza de enviar até sua casa um representante, apenas para xingá-la de desnaturada e outras coisinhas mais.
Dá para agüentar?
Não.

Porque os malditos conselheiros tutelares não levantaram suas bundas gordas e brancas da maldita cadeira giratória na qual ficam sentados o dia inteiro, e foram dar uma força para Maria quando ela precisou, quando, talvez, ainda dava tempo?
- Meu filho tá fumando crack, logo vai estar roubando, fazendo sabe-se lá o que.
- Lamentamos, Dona Maria, mas antes ele precisa ter uma passagem na polícia.
- Óquei, agora ele tem uma maldita passagem na polícia.
- Irresponsável!
E o mais bonito desta história é que a maldita vaga na maldita clínica ainda não apareceu.

Vamos falar a verdade?
O conselho tutelar não serve para absolutamente nada, a não ser, é claro, para encher o saco e dar gritinhos histéricos em momentos equivocados.
Morram vocês todos!
Pronto, falei.

Importante lembrar que agora, neste exato momento, o filho de Maria continua por aí, levando aquela vida que o diabo gosta, entrando no meu e no seu pátio, toda noite, para roubar a mangueira e as cadeiras de plástico e encher de quinquilharias a casa do traficante.
E os conselheiros tutelares continuam lá, com seus bundões obesos bem acomodados em suas cadeiras giratórias.
E Maria?
Bem.
Sem alternativas, Maria continua seguindo com sua vida.
O que mais poderia fazer?