05 agosto 2009

Loucos e Mutantes.

Querido blogue:
A vida é louca e mutante.
Se existe uma verdade, é esta: a vida enlouquece e, enlouquecendo, nos enlouquece também.
A vida muda e, mudando, muda a gente também.
Pense você que, quando eu tinha 12 anos, a moda era ter um diário... secreto.
Alguns até vinham com um cadeado e uma chavezinha, que era guardada como um tesouro no fundo da gaveta, embaixo das meias.
Era menos constrangedor alguém te ver pelada e cagando do que ler o seu diário.
E veja só como as coisas viraram: agora a moda é ter um diário... virtual!
Contar detalhes dispensáveis sobre sua vida e seus sentimentos e postar aqui, na rede, para mais de quatrocentos trilhões de usuários saberem se você gosta do Fernandinho ou do Marcelinho, ou se sua namorada deu para o seu melhor amigo, ou se você perdeu o emprego, ou se brigou com seu pai, ou se fez sexo, ou se tomou um porre de conhaque e amanheceu num banco de rodoviária.
E, insatisfeitos com você, querido blogue, inventamos também o Twitter - no momento, seu maior concorrente - que é para avisar minuto a minuto as atualizações da nossa vida.
Como num canal de notícias.
Como se alguém se importasse.
De qualquer maneira, é preciso admitir que eu não sou honesta com você do mesmo jeito que era com meus diários secretos.
Confiava neles, já em você fica difícil.
No entanto, não fique chateado.
A culpa não é sua.
É nossa.
Pois parece que, quanto mais nos mostramos, mais nos escondemos também.
Nos escondemos nos mostrando, e nos mostramos do jeito que nos é conveniente.
Já reparou como todo mundo é feliz, e bonito, e bem resolvido aqui, na Internet?
Eu também.
Quando olho meus perfis, até penso: nossa, mas quem é essa daqui, toda penteada e sorridente, com cara de quem sabe de onde veio e para onde vai?
É até engraçado.
Vivemos vidas paralelas, aqui no real e aí, no virtual.
E você acompanhando tudo, post a post, amado blogue.
Todas as nossas mentiras e dissimulações e estereótipos.
Por isso digo: nem eu nem ninguém é sincero com você como éramos com nossos confidenciais diários escritos no papel.
Lá não precisávamos estar sempre penteados e bem resolvidos, pelo contrário.
O diário servia justamente para descarregarmos nossas agonias, nossos temores, nossas incertezas, nossa cara lavada e nosso cabelo arrepiado.
Eu reconheço suas qualidades, querido blogue.
Mas também acho que você e toda essa parafernália virtual têm ajudado a nos manter distantes daquilo que se passa aqui dentro.
Não olhamos mais nossas falhas porque passamos o tempo inteiro cuidando o que vamos escrever, e como vamos aparecer para o grande público online, e o que todo mundo vai pensar de tudo isso.
O diário era um espelho daquilo que éramos de verdade, enquanto você, meu caro, apenas reflete o que gostaríamos de ser.
E se quer saber, às vezes penso que aquilo que gostaríamos de ser diz mais sobre nós do que aquilo que somos, realmente.
Você não acha?

Apesar de todas essas coisas, pense pelo lado positivo: os diários secretos eram bem mais monótonos (leia-se comprometedores e ridículos) do que você, prezado blogue.
Afinal, quando escrevemos para ninguém ler, somos muito viscerais, não pensamos, não ponderamos, não avaliamos: só vomitamos no papel qualquer bobagem que passe pela nossa cabeça.
Por isso queimei todos os meus diários na lareira, junto com minhas confissões e paixonites juvenis – perigo este que você não corre não.
No máximo, acabará um dia deletado, mas dizem que nem dói.

Então desfaça este beiço e sorria, querido blogue: você perde em sinceridade, porém ganha em qualidade.
E por fim, o que importa mesmo é que as coisas mudaram.
Os diários secretos viraram públicos, o MegaDrive foi aposentado junto com as fitas cassete, ninguém mais joga bolita ou bate bafo, e até aquelas revistinhas que a gente comprava na banca para colorir com canetinhas agora ganham cor no Photoshop.
E isto nem é uma crítica.
É apenas uma constatação.
Sobre como mudamos, sobre como tudo mudou, e muda, e sempre mudará.
Neste momento o mundo está mudando.
Se não me engano, quem disse isso foi um cara chamado Buda.
E esse tal de Buda deveria saber, com ou sem diário secreto, com ou sem bolita, com ou sem MegaDrive, que a vida é assim mesmo.
Louca.
E mutante.
Como loucos e mutantes somos todos nós.