07 julho 2009

Sabotagem.

Não sei vocês, mas eu cansei.
Estou, neste exato momento, declarando oficialmente minha sabotagem aos meios de comunicação marrom que exploram a tragédia humana em busca de ibope.
Isto é: todos.
Estou de saco cheio desta história de invadirem minha casa, todo santo dia, para vomitar desgraceira e terrorismo em cima da minha cabecinha loira!
Coisa mais chata, cafona, repetitiva: CHEGA!!!
Entendo que a vida anda dura, e as pessoas andam loucas, e os psicopatas estão por todos os lugares, e os aviões caem, e os carros capotam e as criancinhas são covardemente assassinadas.
Tudo isso acontece, e acontece o tempo inteiro, e é importante que seja noticiado, pois a imprensa existe justamente para isso: avisar sobre o que anda acontecendo por aí.
Mas vamos combinar que os caras pegam pesado.
Não se contentam apenas em noticiar o acidente de avião.
É preciso mostrar a dor das famílias, entrevistar o marido que perdeu a esposa e o filho recém nascido, e se conseguir uma imagem de um corpo despedaçado então, maravilha! Vamos passar no Jornal do Almoço!
Os jornalistas chegam a sentir prazer quando uma tragédia acontece, e não adianta negar: dá para ver seus olhinhos brilhando.
E, na falta de uma notícia ruim, aumenta-se (mas não inventa-se, ó não!) alguma outra.
Por exemplo?
Esta nova gripe, a tal H1N1.
Alguém aqui ainda agüenta tanto estardalhaço por causa de uma... gripe?
TODOS os médicos e especialistas já falaram mil vezes que não há motivo nenhum para alarde, que se trata, apenas, de uma gripe comum e que, aqueles que morreram vitimados pela influenza do porco, iriam morrer de qualquer jeito porque já estavam mais para lá do que para cá.
Mas não.
Mesmo assim os meios de comunicação não sossegam, não dão trégua, não param um minuto de noticiar novos casos e mostrar professoras usando máscaras enquanto dão aula de álgebra.
E o aquecimento global?
T.é.d.i.o.
As geleiras derreterão, uma onda gigante afogará todos nós e não terá arca de Noé capaz de dar continuidade a vida sobre a terra.
Preparem-se: não temos mais saída, estamos perdidos, é o fim!
Vejam bem, eu concordo em maneirar na poluição e parar de desmatar tudo que encontramos pela frente, mas o aquecimento global é natural, e aconteceria de qualquer jeito.
Nós facilitamos?
É claro que sim!
No entanto nada do que está acontecendo é inesperado e não há motivo para histeria.
Mas lá vão eles, inventar outras fábulas para nos enfiar goela abaixo.
Bom senso, prudência, noção?
- Desculpe, mas não aprendemos isso na faculdade.

Tenho até uma teoria.
É por causa dos meios de comunicação e sua sangria desatada atrás de notícias catastróficas que estão popularizando a tal Síndrome do Pânico.
Se bobear, existe até um acordo sórdido com a indústria farmacêutica mundial – sim, sou adepta da conspiração.
Avaliem: você liga a TV e abre o jornal e lê sobre tantas desgraças que acaba pensando que, uma hora dessas, vai ser a nossa vez.
É tanta morte, e violência, e tragédias naturais, e microorganismos assassinos que, mais cedo ou mais tarde, uma delas vai bater na minha porta, desgraçar minha família, destruir meus sonhos e eu entrarei para as estatísticas e darei mais munição para esta corja marrom-cocô de profissionais da comunicação.
Matarão meu cachorro, estuprarão minha filha, invadirão minha casa, capotarei meu carro, o consumo de ovo me trará um câncer, seremos todos contaminados por um vírus mortal que fará o ebola parecer um resfriado.
Isso se antes algum coreano maluco não explodir todo o sistema solar com uma de suas bombas atômicas.

Resultado: o sujeito entra em paranóia.

E eu me pergunto: por quê?
Certamente Freud teria uma explicação plausível, e a suposição de que o ser humano possui um interesse sádico e inexplicável por tragédia pode servir, superficialmente, como resposta a minha pergunta.
Alguns me dirão que os meios de comunicação precisam noticiar o que as pessoas têm interesse em saber, mas eu retruco: as pessoas têm interesse em saber?
Quero dizer, alguém já tentou dar uma amenizada nesta desgraceira toda e, quem sabe, noticiar alguns acontecimentos agradáveis ou, pelo menos, amenos?
Sim porque, por mais que não pareça, eles existem, possivelmente na mesma proporção.
E eu aposto minhas fichas que o pessoal iria gostar.
Não precisamos e não devemos, de jeito nenhum, alienar a população apenas com notícias fofas, mas podemos dar um tempo para a malandragem e equilibrar o que é ruim com o que é bom.
Queremos saber sobre o acidente, mas também queremos saber sobre aquele projeto que busca reduzir os danos causados pelo trânsito.
Queremos saber sobre o cachorrinho maltratado, mas também sobre aquela senhora, que cuida de animais abandonados.
Queremos ver como andam nossos presídios, mas queremos ver também os presídios que deram certo, e que estão realizando um trabalho bacana de reabilitação e reintegração social.
Queremos noticias sobre o avião que caiu e matou todo mundo, mas também sobre aquele outro, que teria caído não fosse a presteza e a agilidade de seu piloto.
Compreendem?
Para cada tragédia, existe também um milagre, e é sobre este milagre que eu me refiro.

Vocês acham que eu estou delirando?
Pode ser, pode ser mesmo.
E é justamente porque tudo pode ser que, a partir de hoje, nego-me terminantemente a continuar lendo e ouvindo sobre as mazelas do mundo ao quadrado.
Contem-me apenas o necessário; os detalhes sórdidos eu dispenso.
E, se me permitem um palpite, façam o mesmo: desliguem a TV e vão levar seus cachorros para passear.
Pulem as páginas policiais e vão ler as tirinhas do jornal.
Sabotem sem dó nem piedade.
Garanto que, em pouco tempo, você abandona a tarja preta e livra-se desta síndrome que te deixa em pânico o tempo inteiro.