29 julho 2009

O Grande Dilema.

Vida em fuga.
Esta é a nossa história.
A minha e a sua também, e não se faça de desentendido.
Passamos boa parte de nosso tempo, que é curto, fugindo de tudo aquilo que seja capaz de nos apresentar, intimamente, a quem realmente somos.
- Oi, prazer, eu sou...
Para não ouvir o que interessa, ocupamos nossos ouvidos e todas as nossas horas (incluindo as de sono) com coisas que, a bem da verdade, no frigir dos ovos, na hora H, não fazem a menor diferença: roupas, carros, festinhas, contas, cabelos, almoço, jantar. Drogas, bebidas, cigarros, livros, novelas, sessão da tarde. Internet, Orkut, MSN, blogue. Vizinhos, ex-namorados, fofocas, conversas fiadas. Revistas, jornais, cachorros, empregos, prazos, horários, aperitivos.
Muitas coisas.
Criamos um monte de subterfúgios para nos distrairmos do mais importante, daquilo que substancialmente faz diferença e que fica escondidinho, renegado para depois de amanhã, ou quem sabe nunca.
Fuga de nós.
Do que somos, do que queremos de verdade, com o que nos importamos.
O ser humano é o animal irracional mais preocupado em não saber por que é que existe sobre a face da terra.
Todos os outros (lagartixas, gatos, cavalos, peixes e bactérias) sabem por que são.
Sabem por instinto o que, afinal de contas, estão fazendo por aqui.
Nós não.
Não, porque não queremos.
Porque não nos interessamos e, claro: porque nutrimos o sentimento mor que atravanca tudo que encontramos pela frente.
Falo do medo.
Claro, ele mesmo, nosso velho companheiro.
Medo hediondo e medonho de descobrir quem é, verdadeiramente, aquele cara que te olha bem nos olhos toda manhã, quando você acorda, refletido no espelho do banheiro.
O que ele quer?
Será que sua maior preocupação é com aquele emprego, ou com os óculos lindos que viu na vitrine e pensa que vai morrer se não comprar?
Será que ele quer, mais do que tudo nessa vida, ir tomar cerveja com os amigos no bar só pra tirar fotografias sorridentes e animadas, para pôr no Orkut e para convencer, você mesmo e o resto da humanidade, do quanto sua vida é muitíssimo divertida?
Será que esse cara do espelho sinceramente deseja ganhar muito dinheiro, e comprar muitas coisas que mostrem para os outros que ele ganhou muito dinheiro?
Será que seu sonho é ser muito conhecido e popular e adorado e admirado, e participar de muitos eventos, e ser convidado para todas as festas e ter 20 mil seguidores no Twitter?
Reconhecimento?
Vaidade ou vontade?
Eu admito: não sei.
Das coisas que eu quero, de fato, com franqueza e fúria, pouco conheço.
Sei dos meus sonhos óbvios, aqueles que todo mundo tem e são sempre iguais e enfadonhos.
Sonhos com data de validade.
Sonhos hipócritas e mesquinhos, vazios e detestáveis, tolos e mil vezes tolos, que sequer merecem ser reconhecidos como sonhos.
São, na realidade, caprichos.
Fantasias que viram poeira quando nosso corpo vira carniça embaixo de sete palmos.

Então entramos em tortuoso conflito; eis nosso grande dilema.
Pois aquilo que nosso âmago suplica para nós, é considerado nanico perto dos grandiosamente fabulosos sonhos do mundo.
E iludidos, deslumbrados e abestalhados, acabamos caindo no velho conto do vigário, esquecendo que os sonhos do mundo é que são nanicos.
Nanicos porque servem, talvez, aos outros; não a nós.
É aqui que nos estrepamos.
Negar a verdade é muito corrosivo para a saúde.
Mesmo assim, adoramos dizer, bem alto, para que possamos ouvir: não.
E por isso fugimos.
Fingimos.
Com o tempo, até nos acostumamos a disfarçar.
Nos transformamos em nosso próprio disfarce, e já nem precisamos mais nos fazer de surdos: surdos acabamos ficando, realmente.
Não precisamos mais de máscaras, porque nosso rosto assumiu suas feições e ficou para trás.
Paramos, então, de nos ouvir dizendo sim, e aquele sujeito que agora nos observa no espelho do banheiro, toda manhã, já não incomoda, porque é falso como todo o resto.
Tudo passa a se resumir a muitos quilos de coisas efêmeras e vazias - coisas que, quanto mais se tem, mais falta lhe trazem.
Falta de qualquer negócio que seja capaz de preencher aquele oco dolorido ali de dentro, que você não sabe explicar, nem desenhar, nem descrever, mal e mal consegue sentir com lucidez.
Mas que existe.
E por isso você se entope, cada vez mais, insaciavelmente, delirantemente, de roupas, carros, festinhas, contas, cabelos, almoço, jantar. Drogas, bebidas, cigarros, livros, novelas, sessão da tarde. Internet, Orkut, MSN, blogue. Vizinhos, ex-namorados, fofocas, conversas fiadas. Revistas, jornais, cachorros, empregos, aperitivos.
E o vazio continua ali.
Ainda mais vazio.

Não, meus camaradas, eu dispenso tudo isso.
Não quero me tornar mais uma dessas vítimas de si mesmo, como a que descrevi acima e como tantas outras que conheço pessoalmente.
Pessoas que se consomem e consomem o mundo a sua volta, com desespero e estupidez, buscando qualquer alternativa capaz de acabar definitivamente com a sua solidão - sendo que o único apto a fazer isso está amordaçado e com as mãos amarradas para trás, preso lá dentro daquele cara que te olha com um sorriso decepcionado de satisfação, todo dia, no dito do banheiro – lugar de todas as reflexões.
Não quero ser assim, e isso me anima, pois querer já é meio caminho andado.
Mas, sabem, é difícil.
Por muitos momentos me pego dando uma importância cavalar para coisas que, honestamente, não valem absolutamente nada.
Os paraísos artificiais de Baudelaire estão em cada miudeza que enaltecemos, mas que, como toda miudeza, é incapaz de preencher um salão vazio.
Me vejo perdendo tempo em um ócio pernicioso, mergulhando em divagações que me levarão a lugar nenhum.
Esta fuga parece genética, biológica.
Própria da nossa espécie.
Mas não é.
Nós é que inventamos tudo isso, e inventamos valores para as coisas que nos rodeiam.
Valores deturpados, questionáveis sob qualquer ponto de vista minimamente decente.
O que realmente queremos com tudo isso?
O que esperamos, por qual porta resolvemos passar?
Cortamos o fio vermelho ou o fio amarelo?
E agora, José?

Tenho medo de pensar que estou seguindo pela direção certa, e estar fazendo justamente o caminho contrário.
E, afinal, acho que é por isso tudo que eu escrevo.
Para tentar organizar as coisas todas que borbulham aqui dentro, e me fazem mudar de idéia a cada instante.
Escrever é uma forma de pensar.
E às vezes me ajuda, noutras me confunde ainda mais.
Numas me anima, noutras me nocauteia já no primeiro round.
Aquela senhora que vende doce de leite, de casa em casa, me disse uma vez que isso aí é a vida: ver para onde vamos e de onde estamos saindo.
Ir adentro, não avante.
Se enxergar, se ouvir, saber o que se quer.
Desamarrar-se e desvendar os olhos, para ver.
VER.

Quero saber quem eu sou e se ainda posso confiar em mim.
E, mais importante do que tudo isso: saber se a outra, ali do banheiro, irá acreditar nesta daqui.
Porque sinceramente, por muitas vezes, até eu me duvido.