12 julho 2009

Maldita Consciência?

Durante um tempo, eu mantive um blogue que ninguém lia chamado Maldita Consciência!
Com ponto de exclamação e tudo.
Maldita Consciência! era um grito desesperado, quase um xingamento.
Eu deveria ter uns 19 anos, e era um tempo em que estava começando a me aborrecer com todas as coisas.
Claro que, como toda boa adolescente irritante de 19 anos, eu imaginava que sabia de tudo, e que saber de tudo era uma merda.
Minhas preocupações destoavam absurdamente da preocupação da maioria das pessoas que eu conhecia, e então eu pensava: se estivesse preocupada com a cor do sapato que vou usar hoje de noite, não estaria preocupada com o fato de não saber quem somos, de onde viemos e para onde vamos.
Rarara é engraçado, agora.
O fato é que eu queria ser uma estúpida.
Completamente.
Mas não conseguia.
Bem, vocês me conhecem, sabem o quanto sou pretensiosa, metida a besta e me acho pra carajo, e por isso não tenho medo nenhum de parecer petulante quando digo: eu penso, meus amigos.
Minha cabeça não serve apenas para separar minhas orelhas e usar chapéu, ela serve também para matutar, e criar teorias, e tentar, mesmo que na maioria das vezes sem sucesso, rebater aquilo que eu mesma concluí, por ter certeza que a única verdade absoluta é que não existem verdades absolutas.
Eu penso, e por isso existe uma ruga que não sai da minha testa.
Já ficamos até amigas, eu e a ruga.
Também já não considero minha pobre consciência tão amaldiçoada assim.
É.
Estamos entrando em um acordo de paz.

Primeiro porque, minha consciência - e a sua também, acredite - está em construção.
Quando aceitei isso, parei de cobrar da minha a perfeição.
Não preciso sofrer enlouquecidamente, por que eu posso estar redondamente enganada, e quem está mais perto da veracidade é aquele outro, que eu considero um imbecil.
Tudo pode ser porque nunca se sabe.
E também porque tudo se resume a valores.
Por exemplo: a cidadã que sofre porque roubaram sua bolsa da Gucci pode sofrer tanto quanto, ou até mais, que a outra, que sofre pelo roubo do filho.
E não me olhem com essas expressões chocadas porque é a mais pura das verdades!
Tudo depende da importância que depositamos nas coisas que nos rodeiam e, repito: a dita que está atormentada pela dúvida sobre qual sapato usar hoje de noite pode estar muito mais angustiada do que eu, que só queria saber quem somos, para onde vamos e de onde viemos.

A consciência também deixa de ser do mal e se torna do bem no momento em que abre a porta e te deixa livre para ir, se quiser.
Sim, a bendita liberta.
Atualmente eu já não teimo mais com as outras pessoas.
O fato dos outros não serem uma reprodução autêntica de mim e de minhas opiniões não me dá o direito de puni-los - agora eu sei.
E aceitar as outras pessoas – com suas burrices e limitações - é arrancar de suas costas duas toneladas de fardo.
Porém, não deixo (não posso deixar) de me entristecer profundamente com eles – os outros. Principalmente àqueles que estão próximos de mim, e que eu amo.

Claro, só quem pode nos fazer sofrer de verdade são aquelas pessoas a quem confiamos o nosso amor.
Se eu não te conheço e você faz merdas e se fode por isso, honestamente, para mim tanto faz.
Mas se eu te conheço e, mais do que isso, te respeito e te quero bem, o teu sofrimento, sem nenhuma dúvida, será o meu sofrimento também.
E isso sim, é uma bosta.
Você olha e vê a pessoa errar.
Você sabe que ela erra, você não tem nenhuma dúvida de que ela erra.
Só que você também não pode fazer nada.
Não pode avisá-la, porque ela não ouve.
Não pode alertá-la, porque ela não acredita.
Não pode ajudá-la, porque não se pode ajudar alguém que não quer ajuda.
A única coisa que se pode fazer é sentar em um banquinho, e ficar vendo o vivente errar, os mesmos erros, a vida inteira.
E sofrer por isso.
Ele sofre e você sofre o sofrimento dele, junto com ele.
Mas continua impotente, apenas assistindo e balançando a cabeça:
- Tsc, tsc.
É, amiguinhos, a consciência (bendita ou maldita, tanto faz) vai mostrar, se é que ainda não mostrou, que aquela história de livre arbítrio não é balela.
É fato.
Cada um escolhe, fim.
E se o outro escolheu, por livre e espontânea vontade, que vai aprender pela dor, na marra, no sofrimento, você não pode fazer nada além de aceitar e esperar para ver onde isso tudo vai dar.
Porque você não é capaz de mudar um homem.
Mas a vida, seja por bem ou por mal, é.