03 junho 2009

Simplesmente.

Outro avião caiu.
As chances disso acontecer são mínimas, mas aconteceu.
E não era um aviãozinho fuleiro de fundo de quintal, não!
Era um Airbus A330, super-seguro, super-inteligente, super-máquina, super-francês, super-super.
E simplesmente se espatifou, caiu, desapareceu, sem maiores explicações.
Agora todo mundo quer saber o que, afinal de contas, derrubou o super-avião, mais astuto que muita gente que anda por aí com um diploma embaixo do braço.
Eu também gostaria de entender.

Viver é um perigo, e nós sabemos bem disso.
Podemos levar um tiro por causa de uma pulseira de miçangas, ou um shaolin desocupado pode explodir uma bomba de destruição em massa, ou as geleiras podem, subitamente, derreter, e transformar o mar em sertão e o sertão em mar.
Mas um Airbus A330 não pode simplesmente cair, não sem uma boa explicação.

É a morte.

Sim, meus amigos, ela mesma: a dita cuja que faz da vida uma raridade.
E a Morte não dá explicações.
Nem pensar!
Ela chega sem bater, pega o que veio pegar sem pedir licença, e vai embora sem dizer adeus.
É assim.
O avião caiu porque caiu.
Eu, que estava em um ônibus super-lotado e super-caindo aos pedaços, com um motorista super-estressado, em uma estrada super-esburacada, tinha muito mais chances de morrer do que os infelizes passageiros do vôo fatal.
Mas eu estou aqui.
O Titanic afundou e o velho pescador do Hemingway ficou vivo para contar a história.
Por quê?
Não sei.
Só sei que foi assim.
Ponto final.

Admito que, como todo mundo, eu também tenho uma pulga atrás da orelha com a Morte.
Uma pulga não, um pulgueiro.
Vez que outra tento entendê-la, e encará-la de frente, fazendo cara de menina-coragem, mesmo que isso me aterrorize até os últimos fios de cabelo.
Mas na maioria do tempo me distraio com a tevê e nem penso nessas besteiras.
Então um Airbus A330 simplesmente cai, e seu vizinho da frente simplesmente pula do décimo andar, e descobrimos que um cara de 26 anos simplesmente teve um infarto e morreu.
Simplesmente.
Por isso somos obrigados a aceitar que a danada está ali: olhos atentos, nos lembrando que, mais dia menos dia, nos fará uma visitinha.
A última, aliás.

Inutilmente e num desespero quase infantil, paramos de fumar e de comer bacon, e praticamos exercícios, e comemos saladas e frutas e cereais, e tomamos Activia, e procuramos dormir 8 horas por dia e pensar em cachoeiras quando nossa vontade é assassinar geral.
Mas, que nada!
De uma hora para outra: toc, toc, toc.
É ela.
E danou-se.

Como acredito que as coisas não acabam em um jazigo e continuam do lado de lá, sei que uma hora dessas terei as explicações que almejo.
Há de se ter uma central de atendimento, uma ouvidoria ou até mesmo um 0880 para defuntos recém chegados.
Depois que ela me levar - e ela vai - teremos toda a eternidade para ela me explicar tudinho, detalhe a detalhe, cada pormenor - e ela vai.

- Porque o Airbus A330 simplesmente caiu, ô da caveirinha?
Era o que eu perguntaria.
No momento, é tudo o que mais gostaria de saber.