26 junho 2009

Macaco.

Quarta-feira de noite teve jogo de futebol com time do Rio Grande do Sul.
Era o Grêmio, disputando a primeira partida da semifinal da Libertadores contra o Cruzeiro.
Perdeu, por 3 x 1.
Fato corriqueiro e que, de jeito nenhum, mereceria um post neste blog, não fossem dois personagens que inverteram toda a história e importância deste jogo.
Ninguém falou na derrota de um nem na vitória de outro, tudo porque Maxi López, jogador gremista e argentino, chamou Elicarlos, cruzeirense e negro, de macaco, durante o segundo tempo da partida.
Assim que deixou o campo, Elicarlos encontrou o microfone de um repórter e desabafou: estou indo agora para a delegacia fazer uma denúncia contra o hermano racista.
E foi mesmo.
Louvado seja Elicarlos.
Porque é muito importante que, sempre, sempre, SEMPRE que formos alvos de preconceito ou presenciarmos alguém sendo, colocar a boca no trombone e mandar ver.
Não dá para engolir e muito menos acreditar que, em pleno ano de Obama no poder e Copa das Confederações na África do Sul (com seus discursos e cartazes anti-segregação racial) absurdos deste tipo aconteçam por aí, impunemente.
O racismo é estúpido, é nojento, é repugnante, além de ser feio, muito feio!
A pessoa que ainda não entendeu que a cor da pele é apenas e nada mais que a cor da pele, deveria ser proibida de sair na rua.
Deveria até ser proibida de existir.
Mas não.
Elas podem existir, podem sair nas ruas e podem até se tornar ídolos do futebol, como é o caso do nosso querido amigo Maxi. Que, como todo bom preconceituoso, tratou logo de se defender dizendo que “o que é dito dentro do campo deve ficar dentro do campo” e, para arrematar: nem sabia o que significava a expressão macaco.
Disse que não disse, e que tudo não passou de uma “má interpretação” de Elicarlos, o ofendido.
Me engana que eu gosto, el manézão.

E sabem vocês por que duvideodó que Maxi não sabia o que significava a expressão macaco?
Porque os gremistas têm a tradição milenar de chamar os colorados (do Internacional, time rival aqui no sul) de macaco.
Sim, é fato.
Eu mesma, que sou quase transparente de tão branca, já precisei ouvir tal desaforo, e só não fui para a delegacia também porque o delegado certamente iria rir da minha cara branca.
O Grêmio – e isso não sou eu quem está dizendo, é a história – quando surgiu, em meados de 1903, era um time de elite onde negro não entrava.
É verdade, verifiquem os anais se estão duvidando.
Não podia, era proibido.
E foi só por causa disso que surgiu o Internacional: para que os negros, mulatos e pobres em geral que pipocavam Brasil afora pudessem ter um time para chamar de seu.
Desde aí vem o termo: macaco, macacada, macaquinho.
O Beira-Rio até ganhou o carinhoso apelido de macacódromo.
“Nós, os brancos. Vocês, os pretos”.
Mas, é claro, nos dias de hoje o discurso oficial do Grêmio é outro: somos contra a segregação, somos contra o racismo, somos contra o preconceito, veja bem, temos até jogadores negros em nosso time.
E realmente, têm.
O que não torna, de maneira nenhuma, aceitável o fato de que um dos jogadores, um ídolo do time, um alemão aguado com cara de quem comeu e não gostou, saia por aí chamando seus colegas de campo de macacos.

Por isso, estou com Elicarlos e não abro.
Acho que não somente ele, mas todo mundo que anda sobre este chão, tem o direito e, acima de tudo, o dever de frear estes impulsos racistas que, vez em quando, saltam boca afora de branquelos mal educados e sem noção.
É preciso denunciar, vaiar, fazer um gritedo.
Enquanto nós, os bons, ficarmos calados diante de injustiças deste porte, eles, os ruins, continuarão a se vangloriar de sua pele alva e seus olhos estupidamente azuis, achando-se, realmente e comicamente, superiores.

Em tempo: antes que me atirem aos leões, gremistas de todo meu querido Rio Grande do Sul, saibam que eu sei que nem só de Maxis López se faz o time do Grêmio.
Entendo isso, e entendo muito bem.
Mas juro que gostaria de entender também porque Maxi foi o jogador mais aplaudido quando desceu no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, ontem de tarde.
Digam-me, meus caros: o que vocês aplaudiam?