27 maio 2009

Nós, os bodes.

Dia 27 de abril, Márcia Nascimento Gomes, dentista, 32 anos, vinha tranquilamente com seu carro pela Rota do Sol, indo de Torres para Gramado, na Serra Gaúcha, quando avistou um camioneiro, Fabiano Lima, na beira da estrada, fazendo sinal de que seu carro estava com problemas.
Sem pensar, estacionou e foi, nesta ordem, estuprada e assassinada com golpes de facão.
Horrível.
Mas bastante comum. Lamentavelmente comum, diga-se de passagem, e ainda temo o dia em que coisas deste tipo não me repugnarão mais.
O fato é que esta história, além do algoz e da vítima, possui outros personagens, tão importantes quanto, e é em torno deles que está girando toda a discussão.
No momento em que Márcia era agredida, vinha passando outro carro, trazendo a bordo um casal de namorados. Vendo a covardia, o rapaz parou e tentou intervir, mas foi ameaçado por Fabiano e seu facão.
Assustado e temendo pela namorada, a testemunha deu no pé e, alguns metros adiante, avisou a polícia sobre o que estava acontecendo.
Então, seguiu em frente, sensação de dever cumprido.
Era meio dia e meio.
Às 6 horas da tarde, a polícia apareceu.
Sim, caro leitor e amigo, somente às 6 horas da tarde os homens da lei resolveram dar o ar de suas graças.
Claro que só encontraram o que restou de Márcia.
Achou um absurdo?
Pois você não viu nada.
Agora, para dar uma pitada de pimenta em cima desta bela pizza, decidiram levantar debates e acusações contra as testemunhas, culpando o fadado casalzinho de namorados de terem negligenciado a pobre moça.
Peraí???
Eles negligenciaram a pobre moça?
O casal de namorados que voltava sossegado da praia depois de um final de semana feliz deveria ter lutado bravamente contra um maluco armado e insano?
Podia apostar que esse era o papel da polícia.
Porque é muito fácil sentar em nosso confortável sofá, acender um charuto e dizer que os dois namorados deveriam ter feito isso e aquilo, mas queria ver quantos destes, que hoje estão com seus dedinhos em riste, elaborando incriminações e teorias, teriam feito diferente se estivessem lá.
Desculpem, mas pescoço não brota, e por mais que isso pareça terrivelmente egoísta, só coloco minha cabeça em jogo por um seletíssimo número de pessoas, e olhe lá.
O sujeito e sua namorada se cagaram, é verdade, porém não serei eu a atirar pedras neles.
Até porque, possivelmente, faria a mesma coisa.
Pensaria, ingenuamente, que, tendo avisado a destemida polícia, tudo estaria bem.
Eles iriam até lá, salvariam a mocinha e colocariam o bandido na cadeia.
Santo romantismo!
E agora, como não existe absolutamente nenhuma desculpa plausível para o atraso de cinco horas e meia dos homens da lei, optou-se por questionar a atitude do casal, que se bobear, ainda vai acabar se incomodando seriamente e fazendo o péssimo papel de bode expiatório.
Isso me irrita, sabem?
Muito, para falar a verdade.
Porque acontece em série, o tempo todo, a cada instante, todo dia.
Na falta de explicações decentes das autoridades, aponta-se o dedo para a população, para o cidadão, como a perguntar-lhe: porque você não está fazendo o trabalho que nós nos comprometemos a fazer?

O PCC organizou um auê em São Paulo, e incendiou ônibus, e explodiu bombas, e metralhou geral?
Culpa dos maconheiros, que sustentam o tráfico.
Os políticos resolveram esculhambar com o dinheiro público?
Culpa do eleitor, que não sabe votar.

Já eu penso que, se o PCC manda e desmanda, é porque está tudo uma bosta: a polícia é corrupta, os políticos são corruptos, até a tia que faz cafezinho é corrupta.
E a bandidagem só está fazendo a festa porque o estado não tem o mínimo controle sobre o estado, e aqui o sistema é bruto.
Óquei, admito que comprar um baseado é, de um jeito ou de outro, sustentar traficante, mas daí a acusar o maconheiro por não resolver o que nem o exército resolveu, tenha paciência irmão.
O eleitor não sabe votar?
Pior que não.
Eu mesma já esqueci completamente para quem votei para deputado, por exemplo.
Votamos em tantas pessoas, para tantos cargos, e elegemos tantas outras que nem escolhemos, por causa de um estranho voto de legenda, que nem sei mais.
Como vou acompanhar cada peido dos meus eleitos se preciso trabalhar, limpar a casa, trabalhar, limpar a casa e trabalhar para, em seguida, limpar a casa?
Tenho mais o que fazer.
Se fosse um ou dois, até me daria ao trabalho, mas 198 não dá!
E, se não me engano, existe um negócio chamado Ministério Público, que serve justamente para supervisionar o trabalho dos políticos.
Ah, eles também são corruptos?
Bem, então a culpa não é do eleitor, certo?

Também acho que o casal de namorados deveria ter feito mais pela pobre Márcia.
Do mesmo jeito que acho que deveríamos, todos, ir para a África dar uma força pra aquela gente sofrida e adoentada, mas nem por isso critico outros que, assim como eu, admiram quem faz mas nem pensam na possibilidade de fazer igual.
Evidentemente que a população, enquanto indivíduo e enquanto nação, tem mil deveres e responsabilidades, e nem levanto esta questão, que é óbvia.
Mas cada macaco no seu galho e com suas devidas bananas.
Não espero um estado paternalista e sufocante, espero apenas que cada um faça aquilo que se comprometeu a fazer.
Ganham mal?
Eu também.
Correm perigo?
Eu também.
E se a coisa está tão ruim assim, largue a porra dessa farda e vá vender picolé em Florianópolis na alta temporada, bicho!

Com licença, mas não vou assumir responsabilidades nem vou carregar fardos que não são meus.
Não só meus.
Enquanto cidadã, terei o maior prazer em colaborar com nossos órgãos e autoridades para manter esse país num mínimo de ordem, mesmo que caótica.
Mas me declaro inocente, excelentíssimo juiz.
Cuidem de suas bananas, prezados macacos, que eu cuidarei muito bem das minhas.