23 maio 2009

Jambalaya Ocean Drive passofundense.

Ninguém aqui é santo.
Eu, muito menos.
E um dos meus maiores e mais perigosos defeitos é que não costumo abrir o jogo enquanto ainda dá tempo de salvar a partida.
Vou guardando, agüentando, suportando, tolerando, relevando, até que o balde enche e eu transbordo, provocando toda a lambança que um balde transbordando pode provocar.
Eu deveria ter abandonado o cortiço que habitei durante dois longos anos a muito mais tempo.
Mas não.
Continuei, acreditando que talvez um milagre natalino pudesse transformar seus moradores em gente, um dia.
Quem sabe?
Doce ilusão.
Como quase tudo nessa vida, o que já estava ruim, ficou ainda pior.

Começou lá por meados do ano passado, quando um dos meus amigos, depois de jantar na minha casa, como meu convidado, saiu preso do prédio pelo policial que comia a moradora do bloco D.
Acreditem se quiser.
O pobre foi acusado de ser um tarado, de ter quebrado a janela da biscate e ter chamado a gordinha de gostosa.
Seria cômico se não fosse trágico.
Levaram o guri pra delegacia, fizeram um fuzuê e na hora de comparecer na frente do juiz, nada: a 'vítima' não apareceu, ao contrário do ‘tarado’.

Depois foi a moradora do bloco E, que decidiu que havia um demônio no seu apartamento.
A infeliz ia para a janela dia sim, outro também, gritar que o diabo estava no meio da sua cozinha. Todo dia!!!
Vocês não podem imaginar o que é estar tomando um banho sossegada e de repente, não mais que de repente, escutar:
- É o demôôôônio. Eu sei que é o demôôôônio.
Se você ficou com pena, leva pra ti, mané.

Tinha também a moradora do 114, que só não é mais enfiada que cueca em bunda de gordo. Por qualquer coisa, lá estava a danadinha, exercitando sua curiosidade. Procurava o síndico 19 vezes por dia, para reclamar da chuva, do sol, da música, do Lula, do aumento das taxas de juros.

Mas a cereja do bolo foi quando uma mala de nome esquisito e voz estridente se mudou para o andar acima do meu. Já falei dela aqui. A cretina conseguia reunir todos os defeitos que uma vizinha cretina podia ter: ouvia Sandy e Júnior no último volume, brigava com o namorado de manhã, de tarde, de noite e de madrugada, tinha um cachorro tão insuportável quanto a própria, batia a toalha suja na janela e enchia minha sala de migalhas.
E etecetara, etecetara, etecetara.
Não dava cinco minutos de trégua.
Sem contar que ela não sabia fechar a porta do guarda roupa nem lavar um copo sem fazer um estardalhaço.
Gente grossa é dureza.
E como se não bastasse tudo isso, o marido da mala de nome esquisito e voz estridente ainda tinha o adorável costume de jogar bola no meio da sala.
Sim, bater uma bolinha, porque não?
E o meu balde ali, ping, ping, ping.

Sábado passado, dia 16, acordei às 8 da manhã com a querida andando pelo apartamento com seu salto alto. Porque alguém anda às 8 da manhã de um sábado de salto alto eu nem imagino, mas ela faz coisas inimagináveis, e em série.
Em seguida, bateu boca com seu maridão jogador de futebol e comedor de ovomaltino e então, meu filho, o balde encheu.
A lavadeira que vive em mim despertou e eu levantei maluca, aos berros, chamando todo mundo de filho da puta e seguida pelo meu fiel escudeiro, Afobório, que era a própria cólera.
Resultado?
Escândalo, barraco, gritos no corredor, palavrão, baixaria.
E como a desgraça vem a galope, em meio ao escarcéu, quem salta janela afora, cheia de rugas e gorduras localizadas?
Sim, ela mesma, a gordinha do bloco D que acusou meu amigo de ser um tarado.
E saiu aos gritos, me chamando de ‘baixa’.
Óquei, eu mereço, Pai: me chicoteie.
O pior é que a pilantra estava acompanhada do dito policial.
O mesmo picareta que levou meu bróder preso!!!
Logo, estava o marido da mala esquisita e estridente e o policial da biscate gordinha conversando no portão, provavelmente armando uma parada contra eu e meu querido Afobório.
Imediatamente, avisei:
- Vamos dar o fora, porque se tem puliça na jogada, a gente vai se foder.
Fizemos nossas malinhas e saímos correndo pegar um ônibus.
Dá para acreditar?
Dá.
Afinal, estamos no Jambalaya Ocean Drive passofundense.

Desde então, sou feliz.

É claro que me arrependi do salseiro que eu mesma organizei sábado de manhã.
Porque consegui descer lááááá embaixo, onde se encontram pessoas (pessoas?) que fazem o que meus amáveis ex-vizinhos mais gostam de fazer.
Entrei no jogo, dei a eles o que eles mais gostam e precisam: escândalo.
E me arrependi.
Ô, se me arrependi.
Primeiro porque, se grito resolvesse, porco não morria.
Segundo porque, quem estava errada ali era eu.
Sim, euzinha.
Fui eu quem insistiu em morar num lugar como o Jambalaya, onde os moradores usam ferraduras e relincham e comem pasto, e quis respeito de gente que sequer sabe soletrar essa palavra.
O que eu poderia esperar?
Requinte, discrição, conversa civilizada?
Rarara, não me faça rir.
Quem é ogro, meu filho, é ogro.
Quem é grosso, mal educado e gentalha, é grosso, mal educado e gentalha, e não vai mudar nem que a vaca cante Ó Sole Mio.

Os incomodados que se retirem, este é o meu mantra.
E quem estava incomodada lá era eu, definitivamente.
Eles estavam em seu habitat natural, aos berros, aos gritos, fazendo putarias, andando com puliças picaretas que se sujam por causa de alguns vinténs e se acham muito espertos.
Mas agora acabou.
Hoje vivo feliz e saltitante em um lugar onde as paredes são azuis, as pessoas são educadas e bonitas (sim, eles também são feios), onde existe silêncio e boa educação.
Pelo meu baixeiro, peço desculpas.
Saí da linha, mas já estou de volta.
E agora que me livrei dessa gente e desse papo furado, esta que vos fala só quer saber de paz.
Que assim seja, amém.