14 maio 2009

A Classe dos Artistas – rarara.

O bom mesmo é encontrar um culpado.
Ora, claro que sim!
Porque você - logo você - vai dizer que fez, se pode dizer que não fez?
Porque vai assumir uma responsabilidade, se pode não assumir nenhuma?
Muito fácil, seu danadinho, ouiés.
Mas com suas conseqüências, é claro.

Durante muito tempo reparei e, apesar de ainda não haver concluído minhas averiguações, posso garantir que a maioria das pessoas querem mais é que os outros façam.
Só querem ser chamadas quando o jantar estiver servido – e para reclamar do tempero e do prato principal.
Exemplos?
Não faltam!
Os caras querem ser chamados de escritores, querem publicar, querem ter uma oportunidade, mas: a) não querem vender seus livros; b) não querem divulgar seus livros; c) não publicam na internet por que tem medo que plagiem seus textos (rarara, esta é ótima); d) não participam de nenhum projeto porque são incompreendidos; e e) costumam acreditar que são o Fernando Pessoa.
Os caras querem ser chamados de desenhistas, querem encontrar seu espaço, querem ter uma oportunidade, mas: a) nunca tem tempo para desenhar porque precisam trabalhar para se sustentar; b) nas horas que sobram não desenham porque estão cansados de tanto trabalhar; e c) quando desenham, fazem uma mascote para o mercadinho do seu Dionísio, da rua de trás.
Os caras querem ser chamados de músicos, querem tocar, querem ter uma oportunidade, mas: a) não conseguem formar uma banda porque ‘são muito temperamentais’; b) quando conseguem, não arrumam tempo para ensaiar porque precisam trabalhar para se sustentar e no final de semana tem que visitar a vó no interior; c) quando conseguem ir, enchem a cara e arrumam problema; e d) não conseguem manter a banda porque ‘são muito temperamentais’.

E no sábado de noite, todos sentam em um bar, pedem uma porção de polenta frita e duas cervejas, e discorrem sobre o quanto o Brasil não apóia seus artistas, e como é difícil, e como dá vontade de desistir de tudo, e óh Deus, como sofremos!
Dormi.

Juro que não sei, não faço a mínima idéia e não tenho a mais remota noção do que essas criaturas querem com suas preciosas vidas.
O que tanto esperam que os outros façam por elas, que elas mesmas não possam fazer?
Não é fácil? Claro que não.
O Brasil poderia apoiar mais seus artistas? Claro que sim.
Mas nem com o patrocínio do Vaticano essa corja iria para frente, porque não são capazes de fazer o mínimo.

Então temos escritores sem textos, músicos sem música, desenhistas sem desenhos, atores sem papéis, todos reunidos no maldito bar, com suas malditas porções de polentas fritas e duas cervejas, choramingando sem parar até a cinco da manhã.
A culpa não é do governo, manés, que não libera verba, nem do povo, analfabeto e pobre, nem da Globo, tão má e manipuladora, nem de um sistema capitalista falido ou blábláblá.
Os culpados são eles – a classe dita intelectualizada, que fez faculdade e leu Bukowsky e deveria estar aqui, na peleja com a gente, mas prefere assistir o Bob Esponja na tevê enquanto lixa as unhas.

O que me consola é que a vida nem sempre é certa, mas é justa.
Ah meu amigo, ela é.
E pessoas assim eu sei bem onde vão parar: trata-se de uma terra distante, distante mesmo, distante pra caralho, a mil léguas para o lado de lá, chamada LUGAR NENHUM.
É lá que vivem os membros da Classe dos Artistas - rarara, sentados em uma mesa de bar, comendo uma porção de polentas fritas e tomando duas cervejas, enquanto esperam alguém os chamarem para jantar.
O jantar onde vão reclamar do tempero e do prato principal.